Perco o dinheiro, mas não perco a piada

Essa indecisão, um tanto quanto sexual do Supremo Tribunal Federal, em liberar ou não liberar, as sátiras e manifestações de humor contra politicos durante as eleições, não é o principal dos problemas.

A passeata do Humor Sem Censura que os humoristas fizeram no Rio de Janeiro, e que reuniu mais de 600 pessoas entre elas grandes nomes do humor (atual), também não é o principal dos problemas.

Nem humor, nem governo. O principal problema está na população.

Enquanto tivermos pessoas extremamente interessadas em resolver o futuro do seu próprio umbigo, teremos candidatos carnavalescos a divertir épocas eleitorais.

Enquanto tivermos pessoas interessadas em fazer valer seu direito de vir e ir tomar no cu, teremos lavagens, extorções, subornos e desvios, do seu e do meu imposto, idiota.

Enquanto tivermos pessoas super afim de exercer seu espaço como cidadão de merda, teremos mais votos nulos e brancos na urna, fazendo com que os candidatos da frente, continuem a frente.

Não tenho nada contra piadas políticas. Só acho que, fora os risos, deveria haver um pouco mais de atitude da população.

Microconto #261

Entre os dedos escorria areia.
Ampulheta natural com outras medidas.
O tempo aqui era o que menos importava.

Microconto #260

O abraço durou até a última chamada para o embarque.

Microconto #259

A pele responde ao instinto,
o coração responde à alma
e a mente,
nessa hora,
é a única que não responde a mais nada.
Gozemos.

Microconto #258

Nunca viu a vida com o colorido que todos falavam.
Era daltônico, mas em compensação, via um mundo só dele.

Microconto #257

Depois da discussão,
ele chegou ao térreo
e esperou até de manhã pra que ela achasse o corpo.

Escrivão, obrigado

Quando Aurélio me contou,
achei que fosse brincadeira.
Impossível que isso seja,
felicidade assim tão verdadeira.

Como pode tanto agrado
emanar pra me trazer?
Difícil achar alguém aqui,
que faça como você.

Substantivo contrário de tristeza,
nem Aurora, nem Augusta,
nem Amélia consegue ser.

Sinônimo feminino de alegria,
muito usado em poesia,
ela é Letícia; prazer.

A Origem, a precocidade e um pouco de não é pra tanto



Como é comum em toda superprodução cinematográfica, o barulho em torno de A Origem não foi diferente (afinal, o dinheiro que vai, tem que voltar). O filme encanta muito mais pelo fôlego reconhecido dos estúdios em fazer um projeto novo, e pelo bom uso dos efeitos especiais (vide cenas em “gravidade zero”), do que pelo conjunto do trabalho, que possui deslizes e alguns pontos fracos.

Junto com essa expectativa, alguns precoces contemporâneos aficionados por Hollywood, já decretaram o filme como uma das melhores e mais inteligentes projeções dos últimos anos. Aí me pergunto, o quanto longe esse pessoal já foi no cinema. e a metalinguagem de Fellini, Primer, o delicioso e nerd projeto independente de ficção científica, ou mesmo Sinédoque, Nova Iorque, pra ser mais recente, seriam algumas das respostas que gostaria de ouvir.

Não dá pra entrar muito no filme, que, apesar de ter roteiro um tanto quanto diferente para padrões de blockbusters, não possui uma trama tão complexa assim, logo, qualquer detalhe a mais seria um triste spoiler.

Como bem resumiu o jornalista Mauricio Stycer, ”Don Cobb (Leonardo DiCaprio), é um especialista em entrar na mente das pessoas para roubar segredos. A missão que vamos acompanhar na tela é mais complexa: em vez de extrair, ele deve inserir uma ideia na mente de um empresário”. É isso. Essa é a linha central do filme.

Apesar de ser uma experiência que vale a pena conferir, o longa peca em dois pontos clássicos de Hollywood: personagens superficiais demais, como por exemplo Michael Cane, no papel de Miles; e a falta de aprofundamento em temas e discussões. Dava pra tirar muito mais de assuntos como Psicanálise, Subconsciente e Catarse. Só que aí, o fadado cinema clichê-comercial, ficaria inteligente demais, difícil demais e com bilheteria de menos.

Microconto #256

A gente tá longe, mas tudo bem.
A tempestade lá fora que nos separa, é só o ciúmes inútil e temporário da natureza.

Microconto #255

De um lado da cama o marido deita com perfume etílico.
Do outro, a mulher finge dormir pra ignorar qualquer sensação.

No meio do caminho tinha uma pedra

A queda.
O tranco no chão.
Um estalo seco no osso do braço dividindo em dois.
O silêncio após a primeira fratura.
Com sangue ainda quente, a dor deu lugar a dormência.
Caído ali, esperando socorro, por um momento, só conseguia pensar na semana que vem, em quem assinaria seu gesso na escola.

Microconto #254

Esperei você sob o lençol, sem vestes, sem pudor e com carinho.
Te devoraria mais que Djavan fez com um tal Caetano e di Caprio.

Microconto #253

Amanhece mais um dia de visita.
Remédios, banho, sopa e andador até a recepção.
Tudo sempre igual.
Inclusive o descaso da família.

Microconto #252

- Amo sua perna.
- Você fala isso porque não tem escolha.
- Magina, mesmo se você tivesse as duas eu ia gostar mais dessa.

Microconto #251

O sinal da escola tocou, a multidão correu e ninguém viu que na sala 204, o professor ainda abusava da Flavinha.