Microconto #274

Enfim, o poeta começou a replicar na vida real, os carinhos antes derramados em secas, apaixonadas e solitárias cartas.

Microconto #273

Sempre nos intervalos,
entre uma transa e outra,
ele ligava pra mulher.

Velha infância

A saudade da infância começou a atormentar sua vida. Não era como uma nostalgia que vinha e saia aos poucos. Dessa vez era algo diferente. Mais profundo, agudo e quase desumano.

Os sabores, os cheiros e as cores daquela época, tudo isso passou a fazer parte do seu repertório calvo, rugoso e reumático.

Parecia ouvir os gritos de todos os amigos, apesar da baixa audição.

Parecia ver a bola rolar ladeira abaixo, apesar dos graus de miopia.

Os netos nas manhãs de domingo, ajudavam a refrescar ainda mais esses devaneios temporais. Brincando, correndo e gritando por toda parte, fizeram dele um velho menos resmungão do presente e com saudade de todos os momentos passados.

A comida servida em uma papa pré-mastigada, contribuía para as lembranças remotas. Lembranças de uma época em que todas as comidas eram bem parecidas, não como as que vinham à sua boca através de uma colher monomotor barulhenta, mas uma fase um pouco mais à frente.

As cantigas de ninar ecoavam em fragmentos dentro de sua fraca mente.

Que, francamente,
era mesmo fraca.

Com ingenuidade,
a idade o fazia confundir algumas dessas letras com marchinhas de carnaval, que por sua vez, retomava-lhe os devaneios, agora por outro mundo perdido das lembranças.

Qualquer coisa diferente de sua rotina o jogava de volta para o início da vida. Fatos, rumores e até, por menores que fossem, especulações. Os brinquedos faziam falta. As brincadeiras faziam falta. E mesmo nunca tendo pensado nisto, a escola também fazia falta.

Queria correr novamente, pular, estar rodeados de amigos, cantar músicas das quais conseguia lembrar pelo menos metade da letra. As aventuras sexuais, os galanteios, os bailes, as festas, os docinhos e os brotinhos, todas as experiências juvenis misturadas em uma única memória.

Mas não.

Nada disso voltaria.

Nunca reclamou com ninguém.

Nunca demonstrou nenhum interesse visível de voltar no tempo.

Nunca demonstrou fisicamente a saudade de outrora.

Só às vezes, uma ou outra lágrima rolava preguiçosamente por seu rosto, mas mesmo assim, era confundida com um simples lacrimejar, que caia de um velho, já sem muita disposição até para chorar.

Microconto #272

Na Viela Dois, a família do Oswaldo, assiste à novela reunida.
Sonham com outra realidade,
vendo a ficção de sempre.

Microconto #271

- A última vez que eu soube ela tava grávida.
- Puxa, que legal! De quem?
- De mim.

Microconto #270

Dentro e fora,
o calor que nos unia,
lubrificava o corpo com prazer.
Minhas mãos se perdiam pra achar,
as coxas,
as costas,
os peitos
e você.

Microcontos. Agora também no Metrô.

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A partir dessa segunda-feira (20/09), entrou no ar a nova programação da TV Minuto, e com ela, meu novo projeto literário.

A TV Minuto é um serviço Out of Home do grupo Band, que exibe notícias, entretenimento e cultura dentro dos trem do metrô de São Paulo. E agora, nesses intervalos, teremos cápsulas do TV Minuto Art, com charges, tirinhas e microcontos. Ou melhor, esses microcontos.

Quem anda de trem igual o fudido aqui, vai ter mais um coisa pra fazer, fora ser encoxado. Já quem tem recursos igual o Leo (piada interna), pode conferir no site aqui.

Toalha molhada, roupa no chão e outras coisas mais que eu faço pra lembrar de você

Ontem desarrumei a cama.
Desculpa, eu sei que você não gosta.
Mas quando olhei tudo aquilo em ordem..., a casa ficou mais vazia.
A sensação de desordem me passa a impressão que levantei no meio da noite pra tomar água, e quando voltei, você tinha ido no banheiro.
Eu sei que depois de deitar vou continuar sozinho do mesmo jeito, mas, pelo menos me iludo achando que peguei no sono antes de você voltar.

Microconto #269

Todas as manhãs no trem cheio, era um jogo de sedução involuntária, entre bundas anônimas e paus alheios.

Microconto #268

Nossos carinhos são amargamente sonoros.
Com um silêncio docemente violento.
Vivemos, certamente, uma história contrária.

Microconto #267

Da janela vejo o céu. Uma estrela brilha inutilmente esperançosa. Acredita que com o espetáculo a parte, consegue desviar minha mente de ti.

Microconto #266

Os flocos brancos de neve
do lado de fora,
sincronizavam a dança dos corpos quentes
do lado de dentro.

Microconto #265

O escritor precoce acabava seus contos no prefixo micro.

A VC

O colchão afunda.
Não sinto, mas percebo o movimento da cama.
Seu rosto aparece com uma expressão de dó.
Ou pena.
Ou carinho.
Não consigo definir.
Me fala sobre o seu dia, como sempre fazia quando chegava em casa.
Dá pra ver que você passa a mão no meu rosto e depois desce. Não sei pra onde vai, mas é gostoso imaginar.
Não faço ideia de quanto tempo tô aqui. Mas acho que é muito, levando em consideração o tanto de vezes que as enfermeiras cortaram meu cabelo.
Que por sinal deve tá uma merda.
Elas cortam, lavam e penteiam. Há quanto tempo você não me via de cabelo penteado?
Ah, quer saber, tudo deve tá uma merda.
Minha cara, meu corpo e minha falta de expressão.
Não adianta ficar reclamando né? Acho que vai ser assim pra sempre.
Essa é a hora que você vai embora.
Acabou de me dar um beijo.
Li nos seus lábios que você me ama.
Hoje vejo realmente o quanto isso é verdade.
Também falo um te amo, mas, diferente da nossa vida toda, dessa vez só eu ouço.

Microconto #264

Após a separação decidiram dividir o filho.

Microconto #263

Admirava da janela a despreocupação da infância se materializando em briga, que decidiria de quem era a vez no pique-esconde.

Microconto #262

O bom de ter misturado veneno no suco de laranja era não precisar mais se preocupar com as faxinas de sexta-feira.