Microconto #612

Não media a vida pelo tempo, mas pelo destempo.
Contava tudo pra trás.
Regredindo.
No fim, morreu novo. Cru.
Quase um começo.

Microconto #611

Uma mulher retoca a maquiagem dentro do vagão. Dois bancos pro lado um homem retoca o relacionamento pelo celular. Na próxima estação vai entrar uma senhora sem muita coisa pra retocar.

Microconto #610

A baba cai da boca.
O sol cai no céu.
A alma cai do corpo.
E assim acaba mais uma vida no calendário da Geriatria.

Microconto #609

Os olhos fecharam, os sons sumiram e os pensamentos viajaram mais rápido que o carro desgovernado em direção ao muro.

Microconto #608

De repente, as coisas começaram a subir rápido demais.
A rua, os carros, as pessoas, os postes, o chão.
E em segundos, tudo parecia estar aqui, no vigésimo andar, onde eu estava.
No fim, não sabia se estava morto ou confuso.

Microconto #607

Essa é a hora.
Vem.
Vamos nos encontrar em corpos sedentos, entregar-nos às palavras e, guimarãeziando, inventar sussurros ao pé d’ouvido.

Microconto #606

A bala percorreu uma longa distância até ser encontrada por uma distraída e infantil cabeça.