Microconto #633

Alyson está cagando no banheiro de casa quando começa a pensar sobre o assunto. Não lembra de ter lido em nenhum livro, alguma cena que tivesse um personagem cagando. Acha graça no pensamento. Olha as revistas empilhadas no canto do banheiro, a luz do sol que entra pela janela é intensa. É manhã de sábado. Um cheiro adocicado de café passa por baixo da porta. Alyson acha estranha toda essa definição detalhada do que acontece dentro do banheiro. Ouve um leve som de uma pessoa digitando. Olha curioso pra cima. O teto é branco, um pouco transparente. No canto esquerdo, começam a aparecer letras no ritmo da digitação. Alyson serra os olhos pra enxergar melhor o que acontece. Percebe um vulto através das palavras. Tem a sensação de que uma pessoa gigante está vendo ele cagar nesse exato momento através do teto. É aí que eu paro de escrever. Nada mais acontece no banheiro. Acho que Alyson me viu.

A combinar

A gente podia combinar um café
e no café combinar um almoço
e no almoço combinar um jantar
e quem sabe no jantar
a gente não descobre
que pode se combinar.

Conformitância

Minha poesia é fraca
Mas eu sei porquê.
Nela tem muito de mim
E quase nada de você.

Microconto #632

A menina deu sinal pro taxi. O carro branco parou. Ela abriu a porta, entrou e sentou. Quando a porta bateu, ela não estava mais dentro do carro. Era uma sala branca. Com quadros abstratos na parede, um vaso com flores amarelas no canto e uma tubulação de ar silenciosa. Um frio na barriga como se a vida passasse pela janela dos olhos em alta velocidade. Uma porta abre. De dentro sai um caminhão vestido de enfermeira. Da boca, uma buzina forte. A menina levanta, entra pelo corredor que vai escurecendo, deita na maca. No teto um giroflex vermelho colore o ambiente. Ela abre as pernas, e da própria vagina, cai a si mesma, como um feto, abortado, morto pro futuro.