O cesto de roupa suja agora demora mais pra encher

Olho pro lado, vejo a cama vazia e isso não me incomoda.
Minha escova de dente sozinha no banheiro também não é um problema.
Meus tênis não precisam mais dividir espaço.
O guarda-roupa agora tem mais lugar que roupa.
O cinzeiro não fica mais jogado pelos cantos. Na verdade nem tem mais cinzeiro.
Até agora o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Eu posso não fazer café da manhã e isso não deixa de ser romântico.
O sofá tem dois lugares e isso agora é muito lugar pr’uma pessoa só.
As pizzas tão durando uns dois ou três dias.
O sabonete continua acabando na mesma velocidade, o que é curioso.
Só tem um despertador tocando de manhã.
E o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Qualquer música que eu coloco dá pra dançar sozinho.
Tô até achando que tem cadeiras demais na sala.
Descobri que realmente não sei cozinhar e tudo que fiz até hoje foi apenas ser um bom ajudante.
Os potes de palmito nunca foram tão fáceis de abrir.
Não ouço mais o barulho de chave na porta.
As compras no mercado diminuíram consideravelmente.
O cesto de roupa suja ainda não encheu.
A máquina de lavar tem mais dias de folga no mês.
Tem mais coisas em quantidade ímpar do que par.
Não tem mais maquiagem na toalha do banheiro.
Acho que não me importo mais de ouvir só a minha voz pela casa.
A tampa da privada nem sabe mais o que é ser abaixada.
O celular não tem mais senha.
Agora cê me dá licença que o cesto de roupa suja encheu e eu preciso ocupar a cabeça pra continuar achando que não me importo mais com você.

Microconto #641

A Solidariedade vem andando pela rua. Cruza o caminho inteiro com Frios, Ventos e Neves. Não cumprimenta nenhum deles. Atravessa no farol vermelho enquanto uma Pressa buzina de dentro do carro. Uma Raiva reclama do barulho da cidade e uma Impaciência que passa ao lado na mesma hora concorda com um aceno de cabeça. A Solidariedade continua seu caminho. Na porta de uma loja de grife, uma linda Sedução dá bom dia, meio que convidando pra entrar. No fim da rua, pode-se ver uma Fome sentada, balançando uma caneca cheia de Ajudas, aquecida apenas por uma fina camada de Dó. A Solidariedade se aproxima. O barulho da Fome é cada vez maior. A Solidariedade passa direto, ignora a caneca, vira a esquina e morre.

Microconto #640

Já é a quarta meia que desaparece em menos de uma semana.
O problema não é que desaparece o par de meia, o problema é que desaparece uma meia só. O que que eu vou fazer com uma meia só?
Meu terapeuta disse que eu tô escondendo as coisas enquanto durmo, pra testar meu desapego. Deve ser meu inconsciente aplicando algum tipo de teste.
Um amigo disse que devo tá perdendo as meias na balada bêbado, e só percebo que tá faltando quando tô sóbrio.
Minha mãe disse que é pra eu parar de ser mão de vaca e comprar meias novas.
Minha empregada disse que não lava uma meia só, porque dá azar.
Uma menina que eu conheci na internet não disse nada, só parou de falar comigo, deve achar que eu tô maluco.
A mulher da loja de meia disse que foi meu cachorro. O que seria bem possível se eu tivesse cachorro.
Uma vidente disse que pode ser um fantasma comedor de meias. Disse que são raros os casos em que o fantasma age. Mas todas as vezes é pelo mesmo motivo. O fantasma comedor de meias come sempre uma meia só. Pra gente aprender a não viver mais em pares. Pra se acostumar com a solidão.
Fico aqui pensando se minha namorada ainda tivesse por aqui, em qual dessas teorias ela ia acreditar.