Microconto #649

O vento faz a curva onde o prédio faz a curva onde os carros fazem a curva onde as pessoas fazem a curva onde a calçada faz a curva onde a esquina é só uma esquina, porque na verdade esquina não faz a curva, ela só segue o caminho dela. Já nasceu torta, pra que a gente possa mudar de caminho. Torto foi o jeito certo dela nascer.

Microconto #648

Quando vi a escada pensei, não quero viajar agora, aqui o café da manhã é quente o suficiente, a saudade é quente insuficiente, os sonhos nem esquentam mais e os pássaros são mudos quando estou com sonho. Vou ficando até desficar.

Microconto #647

O mundo vertiginiza suas escolhas. A menina do gorro verde desiste de pegar o ônibus porque o homem do outro lado da rua esqueceu a carteira. E sem guarda-chuva os problemas caem do céu e molham as decisões. Tudo escorrega das mãos por baixo das luvas.

O peito aponta pra frente. A liberdade é logo ali.

O peito. A ponta do corpo que aponta. Que te julga por julgar o corpo quando aponta. O peito. O peito que já foi mama e agora é teta sem pudor e tenta se salvar em meio a dedos que apontam e hoje julgam o seio sem anseio e com dor. O peito. O peito que faz salivar a boca ingênua de fome é o mesmo, peito, que faz babar a fome cheia de infâmia. O peito. Que nasce, cresce e desamadurece, julgando o seio como o deitar da ofensa, da censura, e, não olha mais, o peito, a mama com ternura. A mulher leva no colo um objeto de ofensa. O peito. Quem olha pensa, por quê essa ponta de fora? Que empina a estima e rebaixa a arte? O bico. Não é o que muitos pensam, o peito, é parte de um todo, do corpo, da arte, da expressão, da liberdade, é parte que a mulher, mãe, moça e menina, acha e faz. O peito. Que aponta, não recrimina, ele aponta e mostra a direção, apenas mira. Em frente. Pra onde a consciência deve seguir, sem olhar pra trás, sem achar que não pode mais. O peito. Censura? Não. Expressão.