Cuidado, você pode estar sendo romântico demais.

O romantismo é uma arma que o cérebro usa pra nos tornar a pessoa mais apaixonável do mundo. Flores. Presentes. Ligação terça à tarde. Mensagem domingo à noite. Aquela música que não vai pro ouvido, mas direto pro coração. Coisas que só uma pessoa romântica é capaz de fazer o tempo todo.  

Mas, cuidado, você pode estar sendo romântica demais. O romantismo é uma arma que o cérebro usa pra nos colocar como a pessoa ideal. Você fala só o que vai agradar. Você faz só o que vai agradar. Você escreve só o que vai agradar. Você ouve só o que vai agradar. E assim, aos poucos, vai criando uma relação de uma pessoa só. O foco nunca é você, é sempre o outro. Você vai pra lugares que não gosta. Recebe pessoas que não tolera. Come coisas que não está afim. Você mascara sentimentos.  

Cuidado, nós podemos estar sendo românticos demais. Amar alguém não é colocar só amor na relação. Amar alguém é saber equilibrar o gostar com o desgostar. O amor é o ódio na medida certa. Não em excesso. Uma pessoa escolhe estar com você por muitos motivos, mas não porque você é romântico e só. Brigadeiro é bom, mas ninguém comeria brigadeiro o resto da vida.

Apenas cuidado. Se existisse um manual pra relações, provavelmente não estaria escrito: funciona com pilhas de romantismo. Uma das coisas mais importantes em uma relação é a conversa. Tire as barreiras da timidez, do medo, da insegurança, da dependência e fale. Fale tudo sobre você, seus projetos, suas vontades, seus fetiches. Não mascare seus sentimentos atrás de um romantismo desenfreado. Uma relação é feita de conversa. E o que você gosta, é tão importante quanto o que você não gosta.

Microconto #653

A menina da mesa 37 tinha o coração bagunçado.
Por mais que o garçom sorrisse, por mais que a cidade ajudasse, por mais que o sol saísse, a menina da mesa 37 continuava com o coração bagunçado.
Ter o coração bagunçado, é como ter dentro da gente, uma casa fora do lugar. E por isso, ter vergonha de chamar visita. É como não achar as soluções, porque tem pessoas, problemas e expectativas pra todo lado.
A menina sentou na mesa 37, pediu uma cerveja e deixou a vida acontecer ali na calçada. Às vezes, a gente espera as coisas acontecerem. E às vezes, essa é a melhor forma de desbagunçar o coração.
Entre um gole e outro ela pensava na vida. O vidro de casa tava tão sujo que ela não reparava que tava sendo reparada.
O começo da noite, o último gole e uma solução, chegaram quase juntos naquele bar.
A menina da mesa 37 levantou decidida e foi embora com o coração quase arrumado, mas não percebeu que deixou o garçom bagunçado.