O passado é um presente que muita gente não quer ganhar

Não me importam mais as coisas que deixei com você.
Não me devolva nada.
Cada pedaço meu que eu trouxer de volta traz junto um pedaço de passado.
Cada pedaço de passado que voltar vai ser um presente ruim de abrir.
E sabe o que é mais engraçado?
Mesmo não trazendo nada daí,
o passado entrou aqui.
Talvez enquanto eu esfregava os olhos pra enxugar as lágrimas
eu tenha descuidado e deixado ele entrar.
Entrou e se espalhou como mofo pela casa.
O passado tem um incrível poder lacrimejante.
Acho que é o jeito do meu corpo dizer que eu tenho alergia das nossas lembranças.
Hoje, aqui em casa, tudo parece uma caixinha de música que toca o som da saudade.
Eu abro uma mala e ouço nossa última viagem.
Eu abro uma panela e ouço um jantar regado a tinto risoto e risada.
Eu abro a porta do quarto vazio e ouço vontades gemidos e sussurros.
Eu abro um livro e ouço você dizendo,
fecha isso, senta aqui, vem ficar comigo até eu pegar no sono.
Eu ouço gavetas
ouço tampas de canetas.
Nada mais tem o som que merece.
Tudo tem apenas o som que não precisa.
Você é a bailarina que roda no quadrado pequeno com imã no pé,
eu sou o garoto que o espelho reflete com olhar brilhante,
a tampa
da caixa
da vida
não fecha.
A música da solidão
toca implacável
por toda casa
e eu sou
o meu próprio par.

Eu queria que meu perfume fosse pra você como o cheiro da roupa de cama nova

Eu tento encontrar nomes pro amor que eu sinto, porque no fundo eu sei que eu não te amo como eu consigo. Eu não te amo por mim, eu te amo pelos outros. Eu escrevo pra você palavras que não são minhas. Eu te levo pra filmes que eu não participei. Eu te canto músicas que outros criaram. Eu te mostro fotos que eu não tirei. Eu te levo em parques que eu não construí. Eu te dou presentes que eu não fiz. Eu queria te amar como as pessoas amam as frases do Caio Fernando de Abreu. Eu queria te aplaudir como as pessoas fazem com o pôr do sol. Eu queria gostar de você como se precisasse de um autógrafo seu todos os dias. Eu queria me sujar de você como as pessoas se lambuzam com Nutella. Eu queria que meu perfume fosse pra você como o cheiro da roupa de cama nova. Sabe quando você tira o sapato apertado depois de um longo dia? Eu queria ser o chão gelado que toca seu pé. Sabe quando o dia tá meio nublado e mesmo assim você desce pra piscina e de repente o sol aparece? Eu queria ser o sorriso que surge no canto da sua boca. Eu queria ser aquela sua vontade de fumar um cigarro. Sabe quando você esquece que é dia de pagamento e olha a conta e tem um monte de dinheiro? Eu queria ser o seu cartão de crédito. Eu queria que meu abraço fosse aquele seu prazer de chegar em casa depois da viagem. Eu queria que quando você me olhasse você arrumasse o cabelo atrás da orelha como você faz toda vez que vê brigadeiro. Eu queria ser aquela bonequinha brega de porcelana que era da sua vó e você nunca vai jogar fora.
Mas
eu não consigo
ser nada do que eu quero
pra que você
me queira.
Vem cá. Vamos ser sinceros. Ainda tem cota na sua vida pra mim?

Microconto #656

Na casa da vovó, o vovô mora num porta retrato. O forninho tem cheiro de fubá. Faltam netos no quintal. A vida vai passando lentamente. Ao som de uma novela do SBT.

Microconto #655

Marionetes. Era a única coisa que conseguia fazer na vida. Já não se sabia mais se o homem controlava o boneco ou se o boneco controlava o homem.

O coração é um órgão involuntariamente apaixonável

Pra onde a noite vai depois que o dia nasce?
Júlia sempre começa com essa pergunta. Eu não sou tão bom em respostas como Helena era mas, alguém precisa fazer esse papel agora. Eu digo pra Júlia que a noite vai encontrar pessoas que precisam descansar. Depois disso, ela desencadeia uma sucessão de perguntas que só acabam quando ela pega no sono.
O que acontece na cabeça quando a gente descansa?
Quando a gente descansa, a cabeça coloca pra trabalhar tudo que a gente aprendeu durante o dia, pra não esquecer quando acordar.
Por que a cabeça não explode com tanta coisa?
Por que na verdade a gente não guarda tudo na cabeça. Tem coisa que vai pro coração também.
O coração não dorme?
Dorme quando a gente tá apaixonado. É por isso que a gente não consegue prestar atenção em mais nada quando tá apaixonado.
Hum... então é ruim ficar apaixonado?
Não. Não é ruim. A cabeça presta atenção no que precisa e deixa o coração prestar atenção no que merece.
Então a gente não ama com a cabeça?
Ama também, Júlia. Mas a cabeça a gente controla, o coração não. O coração trabalha sozinho.
Ah, a professora Márcia disse isso uma vez, que o coração tem vontade própria.
Você vai aprender muita coisa na escola ainda, mas nem todas a vida vai colocar em prática.
Você também aprendeu sobre amor na escola?

Um silêncio toma conta do quarto por alguns segundos.
Essa é a hora que a noite começa a guardar coisas na cabeça da Júlia.
A professora Márcia é uma mulher muito boa.
Essa é a hora que o amor começa a guardar coisas no meu coração.

Microconto #654

Eu me apaixonei por uma menina vesga.
Mas ela só tinha olhos pros outros.

Desequilíbrios

Tômas deixou um bilhete em cima da mesa antes de ir embora.
Quando peguei o bilhete na mão o mundo começou a inclinar. O mundo foi inclinando, inclinando, inclinando até minha cabeça encostar no chão.
Eu era vertical antes do seu bilhete, Tômas.
Acho que todo mundo uma vez na vida já teve vontade de deixar um bilhete em cima da mesa e ir embora. A diferença é o tempo que você fica com essa vontade. Às vezes, ela dura alguns segundos, às vezes, ela dura pra sempre.
O amor não é o tanto que você gosta de uma pessoa, mas o tanto que consegue conviver com as coisas que odeia nela. Uma vez, li em algum lugar, que o amor é o ódio na medida certa. Vai ver é isso Tômas, nossa balança quebrou. Nosso amor era uma linha reta, como as linhas da folha do bilhete que você deixou. Vai ver é isso Tômas, a gente desorizontalizou.

Tinha pelo menos uma hora que eu tava no chão quando a porta abriu.
Tômas entrou segurando uma sacola de mercado em cada mão e ficou parado me olhando sem entender o que tava acontecendo. Eu fiquei olhando pro Tômas durante alguns segundos. Então levantei a mão, olhei o bilhete e descobri que “fui no mercado, volto logo”.
Enquanto Tômas guardava as compras, reclamava das minhas loucuras, dizia que não aguentava mais essas crises, não aguentava mais meus desequilíbrios, que um dia ele ia jogar tudo pro alto, ia me largar e fugir.
Foi então que eu comecei a chorar. Tômas parou tudo, me esticou a mão e verticalizou meu mundo. Eu não sei quantos bilhetes de mercado Tômas ainda vai deixar.

Saudade é o espaço que você ocupa quando você não ocupa espaço nenhum

Quando você chegou meus livros perderam audiência.
Toda noite parece que é nossa primeira noite.
É engraçado acordar de manhã e sentir seu cheiro pela casa. É como se a casa não fosse mais minha. É como se eu não mandasse mais na velocidade do ventilador. É como se meu xampu anticaspa tivesse virado anti frizz.
O que você tá fazendo com a minha vida?
Por quê a televisão não me obedece mais?
Por quê agora eu ouço só as suas músicas?
Você trouxe um sol que antes eu não tinha. O que tá acontecendo? O que você tá fazendo?
Eu arrumo a mesa pra dois, mesmo quando você não tá em casa.
Eu compro tudo dobrado.
Eu faço planos que antes não tinha.
Eu vejo o futuro na borra do café, no bafo do banho que fica no espelho. Eu meto o dedo ali e desenho recados e corações e coisas que desaparecem depois que eu saio do banheiro.
Eu escovo os dentes várias vezes por dia porque não sei que horas você vai chegar e já pensou, me beijar e descobrir que eu não comi nada desde ontem pra não perder seu gosto em mim?
Eu esqueço de regar os vasos com flor.
Eu fico olhando os cantos e imaginando o eco da palavra amor.
Vê se não demora hoje.
Tô aqui te esperando.
A saudade é uma péssima companhia.