Minha poesia é uma ilha de você cercada de eu's por todos os lados

Eu queria ser poeta
escrever vontades
falar só de coisas que já senti
não inventar verdades.

Eu queria fazer rimas
juntar palavras que não combinam
tirar da sua boca uma frase-sorriso
fazer mágica com papel.

Eu queria cantar versos
mexer em corações com os dedos
colocar som de estrelas nos seus sonhos
borboletar seu estômago.

Eu queria me palavrear
escrever-me amor dentro de você
entrelinhar-me nas suas vontades
virar um marcador de página na sua vida.

Vindas e idas do amor

Ontem eu parei pra lembrar do dia que você chegou.
Cê lembra?
Foi um dia meio assim, com sol dentro de casa, sabe?
Quando chove lá fora mas aqui dentro da gente é verão?
Era como se a porta da sala abrisse pr’um campo de orquídeas.
Eu nem sei se orquídea dá no campo, mas, pra mim,
era uma visão muito boa pra falar de você.
Era uma terça-feira com sabor de sábado a tarde.
Eu sei, eu sei, tem um monte de gente que prefere sexta-feira
e mais um monte de gente que prefere domingo.
Mas, sábado, pra mim, era o melhor dia-você.
Eu lembro que a vida tocava a música do amor.
E olha, eu nunca gostei muito de música.
Foi quando eu olhei no relógio e não vi hora melhor pra você chegar.
Que por mais roupas que eu tentasse colocar, no fim,
me vestir do seu sorriso era a melhor combinação.
Que eu disse, tá sentindo esse cheiro,
e você sorriu,
balançou a cabeça
dizendo que não
e eu te chamei de flor
desde então?
Lembra o dia que você chegou?
Lembra?
Pra mim, o dia que você chegou,
só não foi melhor
que o dia que você partiu.

Felicidade foi tudo que eu consegui sem você

Quanto de felicidade você consegue aguentar?
Você consegue conviver, por exemplo, com o fato que eu tô melhor?
Que achei alguém que me cuida mais do que você, meu bem?
Que vou ser pai e o nome eu nem sei ainda porque antes de ter nome é importante ter a notícia e só de ter a notícia eu já tô feliz?
Você consegue conviver com o fato de eu ter um emprego novo, um carro novo, uma rotina nova e um coração novo?
Consegue conviver com essa avalanche de felicidade? Consegue?
Saber que a vida foi muito legal comigo e que tudo que eu sempre quis com você, hoje eu tenho sem você?
Consegue conviver com a notícia de que comprei uma xícara nova pro café da manhã e nela ta escrito eu te amo, mas não é pra você?
Consegue aceitar que eu deito pra assistir filme no colo de outra pessoa? Que eu ganho cafuné sem pedir? Que ela não tem alergia das flores e por isso a casa sempre amanhece com cheiro de férias no campo?
Enfim, espero que você esteja tão feliz quanto eu pra que eu não fique tão triste quanto você.
Vem me visitar qualquer dia. Vamos trocar lembranças. Falar de mofos e rancores.
Quem sabe a gente não descobre que a felicidade sempre foi sustentada por pilares de tristeza.
Essa é a vida, meu bem.
Um desequilíbrio de igualdades.

Eu queria girar em volta de você

- Você tem medo do que?
- Das pessoas não me perdoarem.
- E o que você fez de tão ruim assim?
- E o que eu não fiz de tão bom, seria a pergunta certa.
- Mas é lua cheia. As pessoas vão olhar pra cima a noite toda.
- Eu nunca olhei ninguém nos olhos.
- É disso que você tem medo?
- É disso que eu tenho menos coragem, seria a resposta certa.
- Você já roubou alguma vez na vida?
- Não, mas já fui roubado. Que é a mesma coisa. Só que ao contrário.
- Uma vez eu guardei pessoas dentro de mim, sem pedir.
- E o que aconteceu? - Perguntou Fabrício olhando pra Lua.
- Elas escorreram.
- É. As pessoas que não estão mais com a gente viram água do mar na nossa cara.
- Qual sua maior coragem?
- Não ter coragem, eu acho.
- Já reparou que é Lua cheia?
- Aquela não é a Lua. É a lâmpada do poste.
- Então a gente é tipo inseto?
- Eu queria girar em volta de você.
Ela sorriu.
- Que foi?
- Meu nome é Solange. Mas pode me chamar de Sol.
Os dois continuaram olhando por um bom tempo, cada um, seu Astro particular.