Tempestade

Chove em mim agora
vem deitar na cama
fazer trovão no corpo
deixa molhar aqui dentro
mais que lá fora.

A primeira vez que eu morri, foi de amor

Num dia meu coração tava batendo normal.
No outro, simplesmente acelerou.
É difícil explicar a sensação pra quem nunca morreu.
É uma mistura de prazer e dor.
Porque é como se o seu coração fosse abraçado
mas,
é como se fosse abraçado até esmagar.
Aí, chega uma hora que você começa a pensar
“quantas coisas eu vou deixar de fazer agora que morri de amor?”
As festas que não vou mais. Os jantares que vou recusar. Os amigos que vou esquecer. O trabalho que vou perder. As viagens que vão sumir.
Morrer, no fim das contas, é uma triste liberdade.
Você abre mão de tudo, pra começar uma nova jornada.
E como toda jornada, você vai deixar coisas pra trás.
Mas, tudo bem, porque toda morte de amor, faz seu coração abrir espaço, e todo coração com espaço consegue levar novas histórias, e toda história que aparece pode te mostrar lugares, e todo lugar que você descobre consegue te apresentar pessoas, e toda pessoa que surge tem a chance de entupir sua veia da paixão, e quando você tá entupido de paixão... cuidado, vai com calma, é hora de cuidar do coração, porque foi assim que eu morri de amor da primeira vez.

Quanto tempo eu coloco no micro-ondas pra esquentar amor?

Morar sozinho faz com que você perca algumas regalias na vida.

Hoje, depois de quase 4 anos longe de casa, eu trouxe pro almoço, uma marmita com comida da mãe.

Por mais que você visite sua família, por mais que você passe uns dias lá, no fundo, você não é mais um morador. Você é um visitante. E ser um visitante, faz com que você preste atenção em detalhes que antes passavam despercebidos. Como por exemplo, a comida da sua mãe.

Viver num lugar por muito tempo cria em você uma espécie de camuflagem pras diferenças. A mancha na parede, que era só pintar, vai ficando por lá. A porta quebrada do armário nem te incomoda mais. A comida da sua mãe, que apesar de gostosa, acaba virando rotina no paladar.

Hoje, depois de 4 anos longe de casa, a comida vai ser uma marmita da mãe. Um potinho cheio de amor que meu almoço nem lembrava mais o sabor.

Eletrisaudade

Toda vez que eu chego em casa a noite depois do trabalho é como se eu pudesse ouvir nossa última conversa. Eu olho pro tapete. Era bem ali no meio que eu tava quando disse pra você “volta aqui, eu ainda não terminei de falar.”
Aí, você fechou a porta, e nunca mais entrou.
É, eu sei, não foi bem uma conversa.
Mas, se te contenta saber, ainda faço as mesmas coisas todos os dias como se a rotina pudesse voltar.
Ainda coloco a bolsa no mesmo lugar, em cima da mesinha que tem perto da porta. Ainda confundo o interruptor e acendo a luz errada. Ainda guardo a bolacha dentro da geladeira mesmo sabendo que “desse jeito pega umidade e murcha mais rápido”. Ainda jogo o sabão em pó direto na roupa mesmo sabendo que “não é pra fazer isso, pode manchar tudo”. Ainda bebo o leite direto na caixinha mesmo sabendo que “pode azedar”.
Seus gatos ainda me recebem com o mesmo carinho. É engraçado. Parece que bicho se apaixona pela gente todo dia. Parece amor em looping. Pena que a gente não é bicho, né?
Depois do banho quente, preparo alguma coisa pra comer e sento na sala.
Às vezes ligo a tevê e coloco no mudo só pra ficar ouvindo aquele chiado. Aquele chiado que quebra o silêncio da casa, sabe? Às vezes esqueço a luz do banheiro acesa pra ver se você vai aparecer, apagar e brigar comigo.
Por mais silenciosa que seja uma casa vazia, ela é cheia de barulhos de saudade.
O motor da geladeira liga e desliga de tempo em tempo e eu lembro que você ficava tentando adivinhar que horas ele ia ligar de novo.
Falando nisso, você já acertou alguma vez?
O ventilador no teto é silenciosamente ensurdecedor. Eu saio da sala, jogo os pratos na pia e escovo os dentes ouvindo o barulho da lâmpada em cima do espelho.
Eu deito na cama que hoje só esquenta um lado. Não consigo mais dormir no quarto todo escuro sabia? Parece que eu tô caindo e não tenho mais você pra me segurar.
Anoiteço ao som do abajur.
Eu nunca tinha ouvido o som do abajur antes de você fechar a porta e nunca mais entrar.

Pé de menina

O amor
é um passarinho
que pousa
de galho em galho
e que
de vez em quando
faz ninho.

Aconchegar-se-ei-te-me

Quando sua mão pousou em mim
pela primeira vez eu aninhei
Já se passaram tantos sonhos
sob seus voos que hoje
eu adormeço em galhos de pele
Sob a sombra da copa
de cabelos seus
eu me refresco do sol de saudade
A tarde vai colorindo
o céu da boca
e as pétalas caem dos olhos
agora
com mais calma
Sua cabeça outono
avermelha meu rosto
toda vez que
minha boca
não consegue ficar longe
da sua boca
Ocupamos o mesmo espaço
nas estações
só que a cada primavera que passa
somos mais verão
e menos inverno
Amanheço em gramado verde
de um colo maduro
Recomeçamos o dia
com o amor de sempre
com o orvalho nos olhos.