Amizades são inspirações que a gente pode abraçar

Dia desses reencontrei amigos de infância. A gente riu de uns erros do passado e conversou sobre lembranças. Esses amigos viram muitas das minhas memórias nascerem. Aquelas memórias de joelho ralado, campinho de terra e bola no portão, sabe?

O lugar onde cresci não era um lugar muito seguro. Tinha a molecada do fundão que cortava a pipa da gente. Tinha a molecada da rua de trás que jogava a bicicleta na nossa frente. Um mundo de pequenos problemas cercado por problemas grandes de verdade.

A violência sempre teve lá, rodando as noites de esconde-esconde. Do lado de fora da janela quando a gente jogava vídeo-game na sala. No coração da mãe quando a gente demorava pra voltar. E mesmo assim, por mais que a violência tenha batido na porta, oferecido chances ou facilitado o futuro; a gente preferiu rodar pião.

Esse dia que reencontrei meus amigos, pude ver como todo mundo tá bem. Como todo mundo seguiu descente. Como crescemos por dentro, por fora e, principalmente, pra frente. Esse dia me fez acreditar que se fosse possível, eu nasceria mais uma vez, passaria por tudo isso, só pra chegar até aqui e abraçar, de novo, cada um de vocês.

Microconto #658

No fim da festa, sobramos eu e você, em meio a restos enfeitados.
Nossos sentimentos eram tipo copos descartáveis.
Procuramos uns limpos.
Mas a gente acabou se bebendo nos dispensados.
Seu beijo foi uma mistura de gostos antigos, transformados em sabores novos.

Você é uma secreção incolor e salgada, produzida pelas glândulas lacrimais, pra umedecer meu passado

Existem muitos jeitos de desaparecer da vida de alguém. Mas, nenhum deles se compara com virar lágrima. Quando você vira lágrima, você escorre pra fora e não consegue mais escorrer pra dentro.

Lágrimas são pessoas que a vida espreme pra fora da gente. Por mais que você espere, por mais que você peça, por mais que você tente. Quando você vira lágrima, você desaparece pra sempre.


Toda vez que eu penso em você minha boca salga. A maresia da saudade me enjoa. Não adianta mais eu implorar. Você escorreu de mim. E de todas as coisas que o amor permite, a única que não vai acontecer, é você voltar.

Eu não sonho mais com você porque você não dorme mais em mim

O dia envelhece aos poucos
e a saudade deixa de ser verde.
Amadurece.
Apodrece.
Cai do pé.
E no lugar, nasce um novo carinho.
Quando o amor amanhece
ele já não é o que era na noite anterior.
Eu bebo pra esquecer que lembrei de você.
Recordar é bom.
Mas não lembrar, meu deus, é bem melhor.
Aos poucos o desejo endurece e se faz pedra.
Ninguém mais me quebra depois de ti.
Eu anoiteço com outro sorriso.
O seu amor não rejuvenesce mais aqui.
Tipo brisa leve você passou
e refrescou meu coração.

Deixei a janela aberta
pra ver se você volta.

O calor da saudade
dá uma suadeira danada.

Eu sou brigadeiro. Você é uma festa lotada de crianças.

Tudo o que sobrou da minha vida é o que não foi embora dentro da sua mala dobrado com as roupas, as cartas e as lembranças. Tudo o que sobrou de mim é o que você não levou. E olha, você levou quase tudo.

Eu me sinto como aquele restinho do vinho que a gente toma sozinho no domingo a noite, aquele restinho que fica no fundo da taça e que, por mais que a gente vire na boca, não consegue beber. Tudo o que sobrou de mim é o que fica grudado na tampa da pizza quando a gente pede menos pizza do que devia e os amigos tavam com mais fome do que parecia. O que sobrou de mim é o pouquinho do iogurte que a gente toma no almoço de sábado porque não sabe cozinhar, aquele pouquinho que sobra no pote onde a língua não alcança e por mais que a gente raspe com a colher, não sai. Tudo o que sobrou de mim é o que sobra de sol num dia de eclipse total. É aquele pedacinho de pele que fica no cantinho do dedo depois que a gente rói a unha de nervoso esperando alguém ligar, aquele pedacinho que a gente não consegue tirar nem com o alicatinho mais afiado da mãe.

Eu sou agora aquele restinho de chocolate que fica grudado no papel depois que a molecada acaba com os doces no aniversário. Aquele papel que fica jogado em cima da mesa, amassado, largado, esperando a faxina começar. Aquele que vai pro lixo e se der muita sorte, mas muita sorte mesmo, vai ser reciclado, virar outro papelzinho, chegar em outra festa infantil, guardar outro brigadeiro e esperar você comer, só pra ter a chance de ficar mais um pouquinho contigo antes de você acabar comigo. De novo.

Microconto #657

A fé escorre pelos ralos dedos da senhora que ora por horas esperando que a esperança não morra.
No fim, morre a fé, a esperança e a senhora.
Mas não morre as horas.

Pesos e desmedidas

Eu sou
leve
com você.

Pesado é
ficar
em mim.


Me leve.

Já tentei de tudo pra me suicidar de você

De todas as drogas que já provei
você é a única que me faz bem.
Talvez seu gosto tenha asas e
colocar a boca em você
me faz subir num céu que nem plantei.

De todos os venenos que já conheci
você é o único que não me mata.
Acho que seu cheiro tem cor e
encher os olhos de você
me faz ver sorrisos que não pintei.

De todas as armas que já usei
você é a única que não me machuca.
Pode ser que seu corpo tenha flor e
encostar o carinho em você
me faz brotar amor que nunca nadei.

De todas as doenças que já peguei
você é a única que não me acama.
Vai ver seu vírus tem calor e
esfregar as mãos em você
me faz viver, ao invés de morrer.

Vai ver.