A roupa de cama sempre foi nossa segunda pele

Sonhei com você essa noite. E, apesar de ter amado te ver eu não lembro de tudo. Sei que foi um sonho bom. Ontem, quando deitei, a cama tava fria. Tinham dois travesseiros e até hoje eu não sei porque ainda tenho dois travesseiros depois que você foi embora. Hoje, sem você, eu mal me encaixo no teu cheiro. São demais dois travesseiros.

Lembrando do sonho eu lembrei de quando a gente ficava aqui assistindo, matando o tempo, curtindo e se aquecendo. Às vezes, nem frio tava, cê lembra? Mas eu lembro que não foi sobre isso que eu sonhei. A parte que eu mais lembro do sonho, e isso você sabe o valor que tem, já que lembrar não é o que eu sei fazer de melhor, era que o sonho foi sobre dormir.

O sonho me fez pensar como a gente se aproveitou pouco nesse sentido. Tipo, toda vez que a gente deitava, a gente só pensava em fazer outras coisas, como se o prazer fosse inédito. Como se o tesão nunca mais fosse voltar, e, se a gente perdesse um segundo conversando ou beijando ou descansando, a vida deixaria de fazer sentido.

Ontem a noite eu percebi, na cama fria, que ao invés de putaria, a gente podia também ter dormido um pouco mais.

Todo esforço que faço pra esquecer é um constante lembrar

Você
é tipo aquele quadro
feio
brega
e velho
que tem em casa
que a gente quer se desfazer
faz tempo
e no dia que a gente tira
da parede
descobre que tem um rachado
atrás
e toda vez que olha
pro rachado
na parede
lembra do quadro
feio
brega
e velho
que tinha no coração.

Se tenho saudade das coisas que a gente fez imagina do que não deu tempo de fazer

A grave
gravidade
que seu corpo ainda exerce
sobre mim
é um jeito
injusto
de me atrair.
Como são apaixonáveis
as pessoas
que já não temos mais.
Atrair alguém é mesmo muito sério
já reparou?
Manter alguém grudado
não deixa ninguém voar.
E
ficar com os pés plantados em você
não me deixa chegar em outros corpos.
Voar
virou
um exercício despraticado.
Eu queria escrever mais
de mim
e menos
de você.
Mas
por ora
não sou capaz.

O amor pode ser tanta coisa que seria bem egoísta dizer que o amor é uma coisa só

Amor é matéria. Vamos começar por aqui. Acredite. Até agora mentiram pra você. Pro seu coração, pras pessoas, mentiram pra todo mundo. O amor pode viajar no espaço e no tempo. O amor não é sentimento. O amor é palpável. Pegável.

O amor é aquilo que a gente toca quando tem saudade. É aquilo que a gente beija quando tá feliz. É aquilo que a gente quebra quando tá com raiva. O amor é aquilo que escorre salgado quando a gente perde. Quem diria, né? O amor tem gosto. Tem cheiro. Tem forma. E textura. Amor é bolo. É roupa. É pelo de cachorro. Ingresso de show.

Amor não é o que você tem dentro do peito. Não é o que você sente por alguém. O que a gente sente por alguém é confiança, inveja, ódio, respeito e tantas outras coisas. Amor é o que você faz por alguém. Amor é a forma que o corpo encontra pra mostrar o que a gente sente. Ninguém pode falar eu te amo só usando o coração.

Microconto #662

A cidade foi crescendo
crescendo
crescendo
até que não cabia mais nos planos da família. Voltaram pro interior com vontades alargadas.

Microconto #661

A cidade foi crescendo
crescendo
crescendo
até que não cabia mais nos planos da família. Voltaram pro interior com vontades alargadas.

Você sabe a diferença entre um laço e um nó?

Laço é aquilo que prende a tampa de um presente de um jeito tão bonito que você nem quer abrir. 
Mas, você vai lá e abre.
Sabe por quê?
Porque quanto mais você espera, mais tempo você demora pra pegar o presente.
Esse é lado bom de desfazer laços: recompensas.
Assim como o laço, o nó também serve pra prender as coisas, pra prender as pessoas, pra te segurar no trabalho, pra te prender num amor.
A diferença, é que o nó, prende de um jeito menos bonito, por isso é fácil confundir.
Tem muita relação por aí que parece laço, mas é nó.

Que dó.

Não existe razão pra você ler esta história

Dona Eduarda viveu uma vida inteira de enganações. É duro falar assim, logo no começo da história, eu sei, mas, é a pura verdade. Se você espera um romance, não perca seu tempo.

Dona Eduarda conheceu o marido ainda na adolescência, quando ele tinha apenas dezesseis. A vida era só uma esperança de coisas boas. Com projetos, filhos gêmeos e algumas viagens.

Não foi.

Dona Eduarda nunca saiu de Brasília. Nunca visitou amigos. Nunca cursou medicina. Nunca aprendeu outro idioma. Dona Eduarda nunca viveu um amor de verdade.

É difícil contar uma história de desamor. A história de um casal que morou a vida toda num castelo desencantado. Se você já tentou, sabe do que estou falando. Ninguém quer saber sobre isso. Não dá audiência. As pessoas não recomendam. Não vira novela. Os estúdios mudam o nome dos filmes tristes pra enganar o público. Dona Eduarda nunca vai ser famosa.

Eu não gosto de enganações. Por isso já te avisei no começo. Essa história não acaba bem. Não espere mais do que arrependimentos daqui. Dona Eduarda nunca ganhou flores; só favores. Nunca ganhou chocolate, atenção ou presentes. Dona Eduarda não tem nada pra ter saudade.

E mesmo assim, Dona Eduarda não se entregou.

Dona Eduarda foi melhor do que pediram. Foi mais carinhosa do que esperavam. Foi mais amante do que pensavam. Foi mais mulher do que mereciam. A esperança de Dona Eduarda jamais caiu, diminuiu ou morreu. A esperança jamais foi alimentada, mas nem por isso deixou de existir.

O marido de Dona Eduarda, que o nome não interessa falar, porque afinal, essa história não é sobre um casal. É sobre uma mulher traída e desiludida. Dona Eduarda foi esposa, mas o marido não foi marido.

A história sem eventos de Dona Eduarda acaba aqui, nos dias atuais, onde ela continua leal. Até o presente momento, Dona Eduarda olha pra trás e ainda sonha que sua vida daria uma linda canção.

Mas ninguém quer cantar.