Escrevi isso porque mesmo longe fui capaz de encontrar com você

Por algum tempo 
tentei te entender
Tentei me entender
Tentei entender a gente
Tentei
Mas cê sabe que essas coisas de dentro
são consequências né?
Por mais que eu arrume explicação
a gente vai continuar acontecendo
Sem programação
Sem dia
nem hora certa
Sem data
nem coisa certa
Sem cobrança
sem medida
sem exagero
Tava pensando aqui
(veja bem
até mesmo sem querer pensar
que coisa doida é gostar)
Você é tipo um mosaico pra mim
Quanto mais eu gosto de você
mais eu te espedaço
E cada pedaço seu
fica jogado por aí
cruzando comigo
di
a
ri
a
men
te
É difícil te achar
sem nem te procurar
Mas é isso
vivo achando partes suas
nos cantos
da saudade
É um eterno te montar
Amores cíclicos 
são como flechas que a gente dispara
e no fim do caminho
vão acertar nosso coração
também
Amém.

A fila anda

- Não. Não adianta. A gente já tentou de tudo, Fê. O casamento não tem mais solução. Óbvio que não. Quem faz terapia de casal, Fernanda? Terapia de casal é o jeito que os terapeutas encontram pra enganar mais de uma pessoa ao mesmo tempo - Gláucia pede desculpa com a mão e tira o carrinho que atrapalhava a passagem da velha.

- Cê já foi casada três vezes, Fernanda. Cê sabe muito bem quando um casamento tá no fim. Não me importa o que minha família vai achar. Vai achar que não deu certo. É isso que eles têm que achar. Ãn... Outra? Pode ser. Pode ser que ele já tenha outra faz tempo. Já pensei nisso também. Não. Jamais. Ele nunca soube. Vai morrer sem saber que isso aconteceu - Gláucia apalpa o mamão maduro e decide levar dois.

- Cê é a única pessoa que sabe disso. Não falei pra mais ninguém e não pretendo falar. Até porque isso é assunto encerrado e não vai mudar em nada minha vida. Tá, foda-se, idaí que eu ainda falo com ela? A gente não pode ser amiga? Sim. A gente sai de vez em quando não é isso que amigas fazem? Não né Fernanda. Nunca mais rolou nada. Que que cê tá insinuando? - Gláucia chega no caixa e começa a tirar as coisas do carrinho.

- Bom, depois cê reclama que eu não te conto nada, que eu não abro minha vida, que eu não sou sua amiga. Quando eu digo as coisas não é pra você falar a verdade, é pra você mentir, é pra você ficar do meu lado, não me acusar, se você acha que o casamento tá acabando por minha culpa, se você acha que me apaixonei pela Cristina, que não dou mais atenção pro Rogério, melhor a gente conversar outra hora. Beijo, Fernanda - Gláucia desliga o telefone e percebe que esqueceu, de novo, a banana.

Quantas vezes você já perdeu seu cheiro em alguém?

A primeira vez que passei por ele foi na esquina da Ipiranga com a São João e eu odeio contar essa história porque a esquina é muito clichê e todo mundo acha que romantizo demais minha vida. Ele passou com fones no ouvido, uma mochila nas costas e duas baquetas invisíveis nas mãos. O que ele tava ouvindo eu não faço ideia mas, minha vida teve uma música incrível depois daquele dia. A gente passou a se cruzar várias vezes por mês apesar dele nunca reparar em mim.

No começo eu perdi apenas o foco, foi uma questão muito simples e sutil pra perceber qualquer mudança, só que não demorou muito até começar a perder outras coisas. Quando a alma se perde pela rua, o corpo vai ficando pra trás pedacinho por pedacinho também.

Hoje, já não sinto mais cheiro de nada, já não tenho mais perfume nenhum, já não tenho tato pras coisas. Ando pelas ruas com uma bengala de cego nas mãos. E apesar de não ser mais o que era no começo, toda vez que cruzo com ele eu sei que a gente tá perto. Ainda toca no meu peito a música daquele dia. Engraçado como a gente não precisa de muita coisa pra amar.

Microconto #665

O homem de um metro e meio senta meio triste a mesa. Meia hora depois sua garrafa de vinho está pela metade. Seu jantar está pela metade. Seu trabalho está meio feito. Sua noite está meio fria. Ele olha o celular com bateria em cinquenta por cento e meio que espera alguém mandar mensagem. Já está sozinho há meio século. Mas ele ainda tem pela frente uma vida inteira pela metade.

Microconto #664

Toda manhã preparo uma dose de dívidas. O café desvalorizado é tudo que o dinheiro ralo pode comprar. Saio de casa com o bolso vazio e o estômago pobre.