o dia que eu sonhei um ano inteiro


esses dias sonhei que eu tava pendurado no mastro de um grande navio.
lá de cima eu via o mar muito agitado e abaixo de mim um tubarão enorme se debatendo em uma rede de pesca.
num determinado momento o navio parou e libertou o tubarão.
enquanto via o animal sumindo nas águas percebi que o barco também me libertou.
mas ao invés de cair eu subi.
subi sem destino segurando apenas uma corda que não estava amarrada ao barco nem sendo puxada por nada.
estávamos eu a corda flutuando no céu indo pra lugar nenhum.
nem sendo puxado nem sendo empurrado.
apenas inerte.
depois do sonho percebi que meu ano segue igual.
me afastei de um mar agitado.
me afastei de uma fera assustadora.
agora sigo sozinho me segurando em coisas que não me levam a lugar nenhum.
vagando sem destino.
e sem previsão de parada.
acordar anda sendo mais difícil que dormir.

quinze pras três

tenho na parede um relógio vermelho redondo que não gira.
lá fora já foi dia
noite 
dia
noite
milhares de vezes.
aqui dentro mau tempo.
a luz da geladeira nunca mudou de intensidade
o controle da tevê só tem gasto o botão do power
o barulho da rua já virou paisagem pra mim.
já é de tarde de novo e o relógio nada
ou será madrugada?
quem ainda tem calendário de papel?
as pessoas se importam tanto assim com o tempo?
preciso trocar de colchão
ou mudar o lado de dormir
há buracos em cada escolha que venho fazendo.
vi aqui que vai chover amanhã
ou ontem
sei lá
essas coisas que vêm do céu muitas vezes são difíceis de acreditar.
se deus existisse também desconfiaria.
não faço nada pra mudar minha rotina
é um eclipse de decisões.
descobri que um relógio parado diz muito mais sobre a vida
do que sobre o tempo.

fico em silêncio quando tenho muito a dizer

o tempo passa.
tenho acumulado mais segredos
do que amigos.
não sei nem por onde começar se
um dia resolver falar.
pararam de caber nos ombros.
depois deixou de caber
em casa. não caber é a nova medida.
se fotografias entendessem de inveja
saberiam como é bom calar.
uma imagem só vale mais
porque no fundo
ninguém sabe aonde mil palavras
vão levar.

terebintina

minha tia já fez muita coisa pra esquecer meu tio
e pintar foi uma delas.
minha mãe falava pra ela
pinta que passa.
eu achava que todos os pintores famosos tinham problema no coração
até descobrir que o amor
não dá problema no coração.
o que dá problema no coração é frango.
um vizinho meu morreu do coração
e todo mundo dizia que ele morreu
porque comia frango frito demais.
talvez todo pintor seja tio de alguém
tentando esquecer a tia de alguém
e só isso.
a casa da tia sempre teve um cheiro estranho.
mamãe dizia que era cheiro de um negócio que ela usava pra diluir a tinta.
vai ver esse é o cheiro das coisas quando as coisas diluem.
quando a tinta dilui.
quando as lembranças diluem.
quando a saudade dilui.
quando a vida dilui.
minha tia diluía o amor junto com as tintas
e tentava pintar alguma coisa nova.
às vezes
o novo amor dela era uma cesta de frutas
às vezes
era uma praia vazia e onde já se viu praia que não tem ninguém
às vezes
eram flores num vaso com uma sombra torta.
mas outro dia
ela tava pintando uma casa de campo com um campo enorme.
e bem no cantinho tinha um homem
bem pequenininho
mexendo numa carroça
bem pequenininha
perto de uns cavalinhos
bem pequenininhos.
parecia meu tio.
foi aí que eu percebi
tem coisas nessa vida
que a gente não consegue diluir.

1º réquiem

essa noite tive um sonho bem pesado.
sonhei que a irmã da grazi morria afogada.
estranho
porque a grazi nem tem irmã.
sonhei que a gente tava em alto mar.
o barco começava a encher de água.
a gente pulava e eu sobrevivia.
eu não sei nadar.
mas no sonho eu sabia.
sobrevivi.
a irmã da grazi não.
a gente chegava em terra firme e ficava em silêncio olhando o mar.
nessa hora eu acordei assustado.
acordei e tinham mensagens no meu celular de uma amiga dizendo que ia se matar.
que ela não via mais sentido em muita coisa
que no fundo nem precisam ter sentido mesmo.
mas a verdade é que
ou a gente tá em alto mar ou tá em terra firme.
eu queria que o mundo fosse um sonho.
e que tivesse água por toda parte.
eu nadaria até lá.
antes de mais alguém se afogar em problemas.
não é sempre que eu sonho.
mas é sempre que eu acordo.

haikai #6

embaixo da lona
o circo chora
o espetáculo de fora

Vem aí o 3º livro

Queridos amigos e leitores.
Chega enfim o 3º filho.
o misterioso caso
do menino
que chora
poemas
é um livro de prosa poética.
O lançamento será dia 05/02 em São Paulo na Patuscada.
Rua Luís Murat, 40 (Vila Madalena) - das 19h às 23h30.
Quem não é de São Paulo ou não poderá aparecer por lá pra me dar um abraço, o livro já está a venda aqui ; )

haikai #5


vento forte
na janela
concentração balança

haikai #4

o sol esquenta tudo.
coração

não é tudo

haikai #3


sombras de prédios
na rua
ensaios da noite

haikai #2

a pedra
é um pedaço do muro
que descobriu a liberdade

haikai #1

o sol nasce
todo dia
sem dormir uma noite

deixe seu recado na caixa postal


não atendo mais não. não senhor. esse telefone toca todo dia toda hora desde o mês passado sem parar. é cada momento inoportuno pra tocar. atrapalha faxina, atrapalha almoço, atrapalha café e jantar. pode tocar. esse barulho eu já aprendi a ignorar. eu chego ele tá tocando. eu saio ele tá tocando. já aprendi a dormir com esse trim trim trim. não atendo não. não senhor. na minha idade a surdez já vem avançada e é cada benção que cê nem imagina. a tv fica alta, a vitrola fica alta e o telefone cada dia mais baixo. nem parece mais incomodar. mais um dia passa e eu não atendo não. dá última vez que eu peguei esse telefone foi quando sofia morreu. não atendo mais não. não senhor. não aguento ouvir essa notícia de novo.

estamos aprendendo a fazer fogo de novo

novos homos
vivendo relações atritadas
é um esfrega esfrega danado
de opiniões.
um desgaste natural das pessoas
no trabalho
nas ruas
na vida
que esquenta qualquer paciência.
não é tempo de esfriar cabeças
nem de refrescar corações
amigo erectus segue
reto
na direção das confusões.
o calor faz de convenções
experiências carbonizadas.
eu chamo
você
chama
ninguém escuta
todo mundo só queima
todo mundo se queima.
não sei porque diabos
a gente foi mexer com esse negócio
de novo
é fogo.

desperta.dor

– eu queria dizer que tá tudo bem entre a gente.
– entre a gente tudo tá bem. o que não tá bem é a gente – ele respondeu.
– é sério. queria dizer que ainda gosto das coisas que você faz, mas você não faz mais as coisas que eu gosto – ela fala olhando o reflexo do abajur no guarda-roupa.
– o problema nunca é as coisas que a gente já fazia, mas o que a gente começa a fazer – ele fecha o livro, pinga um colírio no olho e chora simbolicamente.
– eu gostava tanto das músicas que cê ouvia, dos comentários que cê fazia, eu gostava tanto das festas que a gente ia, sabe?
– que que aconteceu com a gente? – ele tira a camiseta e abre a janela.
– fecha a janela. tá calor mas o vento é forte de madrugada e não é você que acorda pra fechar.
– cê nunca reclamou da janela aberta.
– é, você me abraçava mais no meio da noite.
– mas cê acabou de dizer que tá calor.
– a gente começou a namorar no verão.
– e agora parece inverno?
– não sei. anda tudo tão fora de época na gente.
– que horas cê quer que te acorde amanhã?
– às sete. hora de sempre.
ela ri.
– que foi?
– até sua hora de sempre não é mais a mesma.

é triste olhar pra tristeza e produzir

os problemas que vivo agora são os mesmos
de ontem
e nem por isso tenho novas soluções.
sempre produzi melhor com tristezas
mas acredito que até tristezas
precisam de um limite na vida da gente.
minhas noites nunca são as mesmas
apesar da mesma lua
minguando ideias.
já tive mais problemas com rotina
do que tenho hoje em dia.
não é fácil achar que tudo é fácil.
tenho sonhos guardados dentro de mim
junto com os textos que não consigo escrever.
sentimentos atrofiados
de dedos tristes.
mais uma noite acaba
tento dormir pra acordar novo amanhã.
sonho com novidades
acordo inquieto 
esperanças me assustam.
que merda é se acostumar com o vazio.

ficar preso no chão dos outros nunca me deixou voar

nunca virei o dançarino que eu queria ser quando era criança.
olho pra caixinha de música. é igual a que minha mãe tinha em casa.
igual mesmo.
as mesmas cores. o mesmo som. a mesma marquinha descascada do lado da tampa.
ter os pés presos pra sempre no ímã do chão.
nunca entendi direito se era o preço que se pagava por dançar tão bem.
que injusta a vida é com algumas qualidades.
na verdade a caixinha de música era minha.
mas minha mãe dizia que era dela. meu pai nunca desconfiou de nada. 
olho mais algumas coisas pela loja de antiguidades.
nada me chama a atenção.
sou advogado preso em minhas qualidades.
com os pés colados no ímã das convenções sociais.
levo pra casa a vontade de entrar numa escola de dança.
tentei grudar tanto no meu pai quando eu era pequeno que a gente acabou se repelindo com o tempo.
pólos opostos. 
hoje não sou dançarino. não sou filho.

quanto mais eu menos eu

tenho acordado diferente já tem um tempo. 
sinto que minhas vontades ainda estão aqui
mas o desânimo que me desperta não é meu.
olho pra minha mão e não reconheço meus gestos
nunca fiz tão pouca coisa assim.
olho pra minha cara e não reconheço essa tristeza.
sei que nunca fui muito de sorrir 
mas o coração já foi mais alegre.
divido os dias em personalidades.
não bebo como antes
não falo como antes
não saio como antes
parei até de conhecer novos lugares e novas pessoas.
já troquei de cabelo várias vezes
não sei mais o que são as mesmas roupas.
tenho saudade de outros cidadãos que já fui.
tenho passaporte e identidade diferentes
não me reconheço em espelhos
reflexos
e reflexões.
escrevo sob o pseudônimo de um cara amargo
apago sob o nome de um cara desiludido
tento de novo sob a visão de alguém sem esperança.
sou esquizofrênico surdo
mudo
e desamado.
por ora paro por aqui
mesmo querendo escrever além.

depois da luta o luto

quando a dor vai embora
sobram pratos e prantos quebrados.
da janela vejo a sirene mudar de som enquanto se afasta
estica as ondas e a dor
prolongando a tragédia.
quando uma ambulância passa sempre me pergunto quando vou ouvir de dentro.
tenta não parecer sirene
mas não engana ninguém.
é sirene.
leva com ela um corpo e um copo de esperança
meio vazios.
o sangue seca na calçada.
murcham plantas em casa
não cuido nem de mim.
o luto é companheiro.
quando o preto chega nos olhos
a vida escurece.
o chão é gelado.
apesar do corpo ainda quente
sinto frio.
a próxima ambulância é minha.
poucos sonhos a gente consegue realizar.

você roubou meu coração numa noite de muita chuva.

eu passava por uma estrada deserta.
vontades furadas.
sem amores estepes.
parei e deixei cair sobre mim
todas as lágrimas do mundo.
quando percebi
a beira da rodo-
via
você
chegar a(r)mada.
um tiro seco na alma
minha carcaça é toda sua.
mas antes da bala chegar
só deu tempo de avisar
eu tô vazio
largado sem nada
fique a vontade pra encher
antes de repovoar.