Microconto #518

Não nos olhávamos diretamente.
Paquerávamos,
ora sim, ora não,
pelo reflexo que o escuro do túnel,
fazia aparecer no vidro do vagão.

Microconto #517

Na cena do crime:
uma bituca, uma moeda, algumas folhas e um corpo gelado.
Os legistas vieram.
As providências não.

Microconto #516

No cruzar de cada passante o cachorro fazia novo dono.

Microconto #515

No aeroporto,
estamos eu, a mulher com bebê e a menina chilena,
vendo na TV,
o avião que caiu
do voo que nós perdemos.

Microconto #514

Não denunciou o abuso sexual na esperança de mais uma chance.

Microconto #513

Morri, disse o vidente antes de morrer.

Microconto #512

Flertei um bom tempo,
daí ela levanta,
arma a bengala,
coloca os óculos escuros
e vai embora sem saber que foi amada.

Microconto #511

Filósofa e solitária,
morando no subúrbio,
desejava um homem que fizesse na cama, pelo menos metade do estrago que Procusto fazia.

Novas velhas histórias

Já te falei da vez que seu pai escondeu o cachorro do vizinho? A vovó fala e ri.
Ele não parava um minuto. Todo dia aprontava uma nova. Era uma briga na rua pra ver qual dos dois era o melhor. Se um tinha figurinha do álbum o outro precisava ter o álbum completo. Se o seu pai ganhava um pião, o Jorge aparecia com pião e bolinha de gude. A vovó seca a boca com o pano de prato e continua. Aí, um belo dia, no meio dessa disputa de criança, o Jorge apareceu com um cachorro. Eu e o seu vô não deixamos seu pai pegar um cachorro também, aí já viu né, o jeito foi dar sumiço no cachorro do vizinho. A molecada era fogo. Uma confusão. A vovó tira o óculos e coça o olho. Para. Fica em silêncio. Presta atenção nos passarinhos da gaiola. Ri sozinha e começava de novo com a mesma empolgação, como se nunca tivesse contado aquela história. Como se tudo fosse inédito. Como se nunca tivesse tido a doença da memória.
Já te falei da vez que seu pai escondeu o cachorro do vizinho? E ri.