o terremoto de fora parecia tanto com o terremoto de dentro

o copo tremia
e de repente a casa inteira tremia.
tudo tremia.
as cadeiras tremiam.
o suco escorria na mão.
as portas do armário batiam
os talheres dançavam em cima da mesa
e as panelas protestavam sozinhas na pia.
o retrato da família caiu virado pra cima
e o rachado no vidro separou as pessoas
que a vida já tinha separado.
pobre rachado
atrasado.
a janela chacoalhava.
a porta batia
mas não era ninguém.
o terremoto de fora
parecia tanto com o terremoto de dentro.
as plantas balançavam penduradas na varanda.
não sabiam o que era vento
ou desastre.
infeliz tragédia é a alienação.
aos poucos
assim
bem devagar
o silêncio foi voltando.
ao longe só alarmes de carros.
a cidade em parkinson
deixou pra trás dor
tristeza
e destruição.
o terremoto de fora
parecia tanto com o terremoto de dentro.

sem título


muita coisa
passou a ser mais difícil
recentemente.
não só as graves
mas de pouca gravidade
também.
tudo tem sido mais complicado
de lidar
entender
ou resolver.
e a culpa não é da coisa
sabe?
a culpa é da gravidade
que não se importa muito
com o peso das coisas
e segue puxando pra baixo
do mesmo jeito
problemas diferentes.
todo poço tem um fundo.
e isso
talvez
seja o jeito mais reconfortante
no momento 
de lidar com a queda livre.

o que pintam sobre o amor, no fundo, não é um quadro tão bonito assim

não tem muito espaço
pra você
neste espaço que é meu.
na verdade
não tem muito espaço
nem pra mim
neste espaço que não é seu.
já recebi visitas.
já passei calor
e já passei frio aqui dentro.
a vista parece bonita
de fora.
mas você não faz ideia
do cheiro de mofo.
tem o conforto de uma cama.
que pouca gente já deitou.
e esse pouco inclui você.
acham que esse pedaço
está me enlouquecendo.
loucos são
os que acham que isso é possível.
quando fico aqui
nada me faz mal.
já tentei sair.
tentei olhar o mundo.
só que sem chave
meu peito é minha prisão.
meu coração hoje
parece um quarto de Van Gogh.
feio e vazio.

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— desliga e vem.
— se liga, se eu desligar, quem vai te botar pilha?
— amor é à bateria.
— por isso mesmo, um dia acaba.
— amor é renovável, baby. reciclável. remontável. eu paguei por você e pelo seu amor, minha boneca.
— por que anda tão frio?
— sou feito de um novo material, à prova de remorsos.
— onde cê guardou meu coração?
— na gaveta.
— pra que cê precisa dele?
— não sou eu que preciso, é você que não precisa.
— aonde você vai?
— fui vendido de novo. tem alguma cama por aí com espaço demais nesse momento.
— volta logo. o estoque fica vazio demais sem você.

apesar de bonito o arco-íris nada mais é que um sorriso invertido.

no metrô
a propaganda do dentista sorri pra mim.
penso
quantos sorrisos eu vi
nos últimos dias?
uma vez ouvi
que a gente mexe
mais músculos sorrindo
do que chorando.
mas já ouvi
o contrário também.
essas coisas de felicidade
vêm só pra confundir.
me pergunto quanto tempo ainda
o sorriso vai existir.
se as desgraças andam aumentando
rápido demais.
tem dias que acho mais fácil
chorar.
nada parece feio
quando tá embaçado.
ando na rua querendo encontrar
pessoas boas.
mas o que é a caridade
senão
a gente usando a felicidade do outro
pra suprir nossa felicidade?
sorrir é muito mais falso que fácil
pra mim. quando você também
descobrir
onde vão parar o sorrisos no fim?
será que há esperança na próxima esquina?
viro à direita
um lugar cheio de flores
esculturas
pinturas na parede
a atendente
séria me olha nos olhos
me taca o pedido na mesa.
em silêncio
sento.
olho pra baixo
vejo um sorriso se formar
na espuma do café.
será?
mas não é.
já voltou a ser só

café.

vaso bom quebra

se tem uma certeza que sempre tive na vida foi a morte.
vejo os meninos brincando de esconde-esconde na rua.
talvez eles se achem.
talvez não.
vejo o casal que namora no banco da praça.
talvez eles se casem.
talvez não.
vejo a pomba me olhar no beiral da janela.
talvez ela voe.
talvez não.
a vida é cheia de talvezes em cada certeza.
vejo mamãe na cama.
a morte não é talvez.
a morte vem chegando
ora chega gritando avisando que tá aqui
ora chega de mansinho
pé ante pé
no ritmo da respiração que vem acabando.
ouço um barulho estranho
viro rápido pra dentro do quarto
esbarro na estante
vejo o vaso cair em câmera lenta
talvez ele quebre.
talvez não.
em cima da cama 

não tem mais nenhum talvez.

quantos poemas já não morreram por felicidade?

bem-me-quer. 
morre uma flor. 
bem-me-quer. 
morre outra flor.
apesar de bonito
o amor é fúnebre. 
existe mais saudade no cemitério
do que na minha cama.
eu deito 
a noite deita
e ninguém mais deita.
sonho solitário.
bem-me-quer. 
morre mais uma flor.
a natureza pouco se importa pro meu ciclo. 
a vida fora de mim segue.
o mar
com toda sua bravura
não obedece ninguém
a não ser a lua
já disse uma vez eduardo galeano.
quantas coisas a gente já não matou
por amor?
quantos amores a natureza já não matou
por rotina?
malmequer.

minha barriga não enche na mesma velocidade do meu coração

aprendi com meu pai que os farelos
de pão do café da manhã
não podem ficar na mesa até a hora do almoço.
toda refeição tem sua própria história.
já ouvi minha mãe falar de religião
política e novela enquanto lava a louça.
eu sentado ali na mesa
engolindo café
e juntando os farelos com a ponta do dedo
e secando o coração na ponta do nariz
com a palma da mão.
uma bolinha amassada de miolo de pão
vira um disco gordinho
com sua digital impressa ao contrário.
quantos contrários a gente já não deixou por aí?
lembra quando te mostrei a estátua do lasar segall
que tem no parque perto de casa
e você apertou minha mão
sorriu
arrumou o cabelo
e eu achei que era amor?
então
contrário.
devia ter ouvido mais o meu pai.
cada refeição tem sua própria história
ninguém é mais o mesmo
nem depois de um pique nique.
a mesa tá pronta mais uma vez
o cheiro de comida no ar.
estamos eu
mamãe e meu pai.
o silêncio frio na mesa
amores líquidos continuam escorrendo pelo rosto
pelas panelas
pá.
de novo
ela.
choro.
os velhos falam de política pra disfarçar.
comemos
esperando que depois do jantar
tudo possa mudar.

no livro da minha vida a parte que fala de você eu risquei. mas com caneta marca texto.

nasceu um girassol no meu peito
acho que não te falei.
nem era primavera.
é cada coisa que a gente carrega
sem precisar.
já levei muito peso nas costas
muita tranqueira na bolsa 
mas no coração
é a primeira vez.
seria lindo acordar de manhã
e te mostrar meu jardim.
fazia tempo que não nascia nada aqui.
de uns meses pra cá
nem o abajur iluminava minhas noites azuis.
só percebo que estou chorando
quando vejo na parede
minha sombra
soluçar.
é difícil quando a gente perde a sensibilidade
das coisas
dos jeitos
dos textos.
leio mais
escrevo mais
e mesmo assim não salva nada.
pode não importar pra você
mas não quero deixar o girassol morrer.
plantas não sobrevivem com água salgada.

É engraçado como a gente queima mais o dedo fazendo coisa boa do que coisa ruim

é tipo quando a gente queima o dedo
cozinhando pra alguém.
cê não tava fazendo nada de errado.
pelo contrário
tava se esforçando pra fazer o melhor.
cuidando de todos os detalhes.
mas aí, sem mais nem menos,
queima o dedo. 
o jantar fica incrível.
a noite fica incrível.
a relação fica incrível.
mas seu dedo fica uma bosta.
então vem a bolha.
bolhas são necessários.
conviva com isso.
queimar o jantar é ruim.
não ter com quem jantar é ruim.
mas as bolhas não são.
elas fazem parte das coisas boas. 
acredite.
e aqui vai um conselho 
nunca
em hipótese alguma
estoure a bolha.
aquela água que forma dentro
é o seu corpo tentando curar
o que aconteceu.
a melhor coisa é esperar. 
a bolha vai incomodar.
vai arder.
vai doer.
mas ela tá ali por um motivo muito importante.
pra você lembrar o quanto aquela noite foi especial. 
eu nunca queimei o dedo
soltando rojão no quintal do vizinho.
nunca queimei o dedo
fazendo arte com vela.
nunca queimei o dedo
aprontando na fogueira.
mas é cada bolha
que eu já tive 
tentando ser romântico.

Sangue novo

Álvares entra na sala e algo pinga no sapato. As gotas caem do ventilador de teto. Há respingos pela parede. Sinal de que ainda tinha energia na casa quando a família foi morta. É a primeira vez que isso acontece nessa cidade. E até onde Álvares sabe, é a primeira vez que isso acontece no país. Notícias assim já teriam corrido os jornais.

Não há rastros. Não existem armas. Não é  possível ver arrombamento. Nada parece que foi roubado. Cinco corpos espalhados pela casa. Aos pedaços. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista.

Álvares aguarda a chegada do xerife. Mexe nas coisas. Tapa o nariz e a boca. O cheiro já não é dos melhores. Um dos corpos não é da família. Isso deixa o caso ainda mais intrigante. Álvares se aproxima. A mulher nem parece familiar. Nunca a viu pela cidade. Os cabelos escondem metade do rosto. O policial desliza levemente uma mecha e pra seu espanto, os olhos da vítima abrem repentinamente. Uma boca solta um grito. Álvares vira assustado pra ver do que se trata. Depois disso silêncio. A cabeça de Álvares caiu no chão. O pescoço espirra sangue no ventilador que volta a girar. O ventilador volta a espirrar sangue nas paredes. O corpo cai. 

É a primeira vez que isso acontece nessa cidade, pensa o xerife quando entra na sala.

pacífico

meu barco cruza o oceano
agitado deixo pra trás
porto.
parto em busca de novas terras
pra apessoar.
navego sob(re) águas salgadas.
em dias agitados
não durmo nem pesco
passo fome sede e rancor.
avisto ilhas
mas não atraco.
quando o mar acalma
acalmo.
saudade
à vista arde.
náuseas.
no meio do caminho
decido voltar.
e agora?
espero você
ou a maré?
é metade pra lá
metade pra cá
e só um remando.
não dá pra cruzar
o (a)mar sozinho.

é um dia lindo de sol alguém diria

julho chegou e ainda tinha um
pau lá
fincado na areia
no lugar do mar.
uma placa de tinta quase apagada.
desde a estação passada
já não se vê mais água
nem vegetação em lugar nenhum.
a madeira na praia é velha
e pede gentilmente
pra que a população
despeje copos d’água.
é claro que é uma piada
nem da torneira
sai mais nada.
o mundo anda em desmaré
que é o ato de inverter o nome
da maré
pra explicar porque tá tudo
desacontecendo.
a cacofonia não serve pra muita coisa nessa vida
mas agora serviu pra lembrar
não se vê por aqui muitos animais também.
dia após dia
depois da grande tragédia o
pau lá
aguarda solitário e triste
ser lido por pelo menos alguém.
mesmo sabendo que na terra
não tem mais ninguém.
é engraçado que quando os problemas morrem
até as coisas pequenas

viram desgraça das grandes.

pra ler ao som de chico

talvez num tempo de delicadeza
você descubra que discutir
é perder tempo de beijo.
que não dar um bom dia
faz realmente
o dia ser um mau dia.
que passar perfume
pode fazer diferença na vida de alguém.
sei lá quem.
talvez num tempo de delicadeza
você perceba que palavras têm peso.
que coxas são travesseiros.
que bocas não beijam só bocas.
que cinema sempre é pretexto.
que vinho sempre é contexto.
que mãos não servem só pra serem mãos.
que santos não fazem milagres
sem que a gente peça.
que olavo bilac faria mais poesias
se a gente tivesse mais moleza no coração.
que o abraço
nada mais é
que um pedido do corpo
pra você não se afastar.
ah se vivêssemos num tempo de delicadeza
você veria este texto com mais carinho
e menos tristeza.
ah chico
ninguém precisaria de você.
que tempo horrível seria esse pra se viver.
imagina eu
você
ouvindo delicadeza
lavando a louça
uma imagem de são francisco na parede.
isso pode fazer diferença na vida de alguém.
sei lá quem.

Futuro radioativo

(texto inspirado nesta notícia: Coreia do Norte acusa EUA de declarar guerra e ameaça abater bombardeiros americanos) 

Sun Hee acorda no meio da noite com uma sensação estranha. A TV ligou sozinha. É uma TV velha, de tubo. O barulho do chiado não é muito agradável. Sun levanta, aperta o botão e a casa volta a ficar em silêncio. Pega um copo d’água na cozinha enquanto olha pela janela. A cidade é quieta e seca e fria à noite. Quando volta pro quarto a TV tá ligada de novo. Um repórter fala sobre a radiação das novas bombas. Sun desliga, deita na cama e tenta dormir. Segundos depois um zumbido agudo começa a surgir. Aumenta muito rápido. Um pedaço gigante de uma aeronave atravessa o teto e acerta Sun em cheio na cama.

Sun acorda assustado no meio da noite com uma sensação estranha. Um copo d’água, quieto e frio e seco descansa sob a TV desligada. É uma TV velha, de tubo. Sun levanta, olha pela janela, aperta o botão da cozinha e tenta dormir. Um chiado começa na TV do quarto. Um repórter fala sobre radiação. Sun bebe em silêncio o copo gigante. O chiado aumenta muito rápido. Sun volta pra cama, deita e instantes antes de pegar no sono, um pedaço gigante de uma TV atravessa o teto e acerta Sun em cheio na aeronave.

Sun acorda assustado no meio de uma aeronave. Lá fora é tudo chiado. Levanta, anda sobre TV’s e pega um copo d’água que aumenta rapidamente. Vai até a cozinha, aperta o botão no silêncio e olha pela janela. Um repórter na cama velha, de tubo, seca e fria, faz um barulho de radiação não muito agradável lá fora. Sun volta pro quarto. Deita e tenta dormir. Instantes depois, um pedaço gigante de uma cama, atravessa o teto e acerta a TV em cheio.

A cama acorda assustada no meio da água. É frio. Um barulho não muito seco vem da cozinha. A aeronave levanta e desliga Sun que faz um chiado que vem aumentando. Volta pra TV e bebe o tubo de radiação. Antes de desligar, um pedaço gigante de velho atravessa o cheio e acerta o teto.

A aeronave bebe uma TV fria. Sun olha pra dentro da cama pela janela. Aperta o botão da radiação. Um pedaço gigante de copo acerta um repórter. O silêncio vem aumentando até nada atravessar o teto e acertar em cheio a cidade no quarto.

O teto da TV bebe assustado a radiação. Um repórter faz um chiado seco. A aeronave atravessa o silêncio.

A radiação aumenta. Sun volta a ficar em silêncio.

Radiação lá fora.

Silêncio.

Se eu colocar um título cêis vão achar que é história

Meu cartão do Bradesco tá vencido. Mas até aí beleza, só queria realizar umas transações on-line. Não deu. Depois de 20 minutos ao telefone descobri que, pra habilitar a chave de segurança do aplicativo, eu precisava ir numa agência. Fui.

- Oi. Queria cadastrar minha chave de segurança.
- Empresta seu cartão, por favor.
- ...
- Ih. Tá vencido.
- Tudo bem. Não uso. Só quero a chave de segurança no aplicativo.
- Você pode cadastrar a biometria e solicitar a chave de segurança direto no caixa eletrônico.
- Certo. Vou fazer isso.
- Mas o senhor precisa de um cartão.
- Beleza. Tudo bem. Vamos nessa. Pode solicitar outro.
- Mas pra solicitar outro só pode ser na sua agência.
- Minha agência é muito longe, não dá pra ser aqui?

No outro dia. Eu na minha agência.

- Oi. Tudo bem? Queria solicitar outro cartão, que o meu tá vencido.
Preenche formulário. Assina papel. Coloca senha.
- Pronto. Algo mais?
- Queria cadastrar a chave de segurança no meu celular e a biometria também.
- Bom. Primeiro o senhor precisa receber o novo cartão.
- É sério isso? Eu só queria habilitar transações on-line. 
- O senhor precisa ter o cartão pra isso.
- Mas eu preciso voltar nessa agência ou pode ser em qualquer uma?
- Com o cartão em mãos pode ser em qualquer uma, senhor.

Dez dias depois meu cartão chegou e eu fui num caixa eletrônico pra desbloquear. O caixa eletrônico pediu o número do Token que eu tinha deixado em casa. Bom, não deu.
Hoje, acordei, peguei o Token e fui na primeira agência. Hoje vai ser diferente, pensei. Tá sol o dia tá bonito vai dar tudo certo. O número do Token deu inválido no caixa eletrônico. Tive que falar com uma atendente.

- Oi, por favor, quero só desbloquear meu cartão, mas o número do Token não tá aceitando no caixa eletrônico.
- Ah, esse Token não acessa mais mesmo. Só biometria e chave de segurança, agora.
- Moça. Eu só quero habilitar as transações on-line na minha conta. Cadastra minha biometria e minha chave de segurança?
- Mas o senhor precisa desbloquear o cartão primeiro.


Mano. Sério. Eu só queria habilitar transações on-line pra não precisar ir no banco toda vez. Enfim. Depois de uns bons minutos dentro da agência falando com dois atendentes e dois gerentes, o cartão foi desbloqueado, o Token foi descartado, a chave de segurança, habilitada no celular e minha biometria tá cadastrada no sistema. Resta agora eu lembrar qual era a transação que eu precisava mesmo fazer.

Não me falta nada

Meu príncipe não tem cavalo branco.
Meu príncipe não tem castelo, não tem coroa, nem cetro.
Não tem dinheiro. Não fala formal. Nunca pagou caro em roupa nenhuma. Nunca viajou o mundo. Ninguém traz o que ele pede.
Meu príncipe não tem o cabelo tratado. Não sabe o que é pele hidratada. Meu príncipe jamais subiu em carruagem. Nunca encostou no dourado. Nem pisou no mármore.
Meu príncipe nunca me deu um Taj Mahal. Meu príncipe jamais encostou em uma joia. Nem olhou pruma pérola. Não sabe a cor da esmeralda.
Meu príncipe não chega com cornetas. Nunca andou com segurança. Não sabe cortejar.
Meu príncipe não tem nada. Falta emprego. Falta estudo. Falta higiene. Falta dinheiro. Falta sonhos. Falta objetivos. Falta chinelo. Meu príncipe perdeu o chinelo. Meu príncipe é incompleto dos pés a cabeça.

E mesmo assim me completa como um rei.

Mulholland Drive

o corpo é carro
rodando pela vida
amorosa
esburacada.
a mente guia
com destino fixo
enquanto mente
qualquer nome numa placa
qualquer.
espera o próximo quilômetro
paisagem que não muda.
ao longe dois pontos verdes
na cara da mudança
sinalização nova de rumo
à frente
o coração assume a direção
agora quer dirigir.
sou amante desgovernado.
o amor é estrada
recapeada.
não sei ainda pra onde ir
acelero com tudo
mesmo sem nada.

O som do amor

O pai, o avô e o tio são policiais.
Uma família inteira de militares.
A criança pega em casa o que não devia.
Leva pra escola o objeto escondido.
Tira da mochila no meio da aula.
Aponta pra professora e diz:
Hoje cê morre de amor por mim.
Quando a diretora liga pra avisar.
A mãe não acredita no que o filho fez.
Roubou a caixinha de música da vovó.

O sabor da novidade

Olho no relógio e sei que tô atrasado. O pé balança. A perna balança. Olho pra mesa. Um pote de biscoitos. Quem deixa isso sem identificação na porta de um vizinho? Faço uma retrospectiva e algumas pessoas me parecem prováveis. Cruzo o olhar com a vizinha do 63 quase todo dia de manhã. Mas alguns bom dias não sei se são suficientes pra isso. Lembro também do vizinho do 62. Um cara que mora sozinho, mas tá sempre com outros caras, deve achar que também sou gay. Pessoas simpáticas têm mais chance de ser homossexuais? Que mundo doido esse. Pego um biscoito e saio.

Olho o relógio e sei que tô atrasado. Já é o terceiro dia seguido. Foi difícil dormir noite passada. Ontem, voltando pra casa, cruzei no elevador com a vizinha do 63. Nenhum olhar ou comentário suspeito. Certeza que não foi ela. Tomara que não seja o vizinho do 62. Tô com medo? Tô. Nessa altura do campeonato podia ser até a viúva do 67. Paro de balançar a perna, pego outro biscoito e saio pra trabalhar. Puta biscoito bom.

No quinto dia seguido de atraso já não sei mais qual desculpa dar no trabalho. Os biscoitos tão acabando e eu não sei lidar muito bem com essa ausência iminente. Ninguém fala nada. Ninguém deixou bilhete. Ninguém deixou mais nada. Já cruzei com todo mundo nos corredores. Ninguém se manifesta. Só não vi ainda o vizinho do 62. Que nessa altura do campeonato já nem me parece mais tão estranho.

Dia 6. Olho pro pote sobre a mesa com o último biscoito dentro. O relógio marca a mesma hora do atraso de todos os dias. Minha perna já treme mais do que no primeiro dia. Pego o biscoito, a mala e saio desesperado. A porta do elevador fecha, desço nervoso. Se tudo der certo ganho mais dessas coisas gostosas. O bilhete na porta do 62 ficou romântico na medida certa. Resta aguardar.

Verdades amargas

o choro
menos salgado
azeda até
o sorriso
mais doce.

Microconto #667

O domingo era o de sempre.
Na mesa, a comida de sempre.
Ao redor, a família de sempre.
No ar, um assunto novo.
O filho mais velho
assume que é pai.
Todos ficam surpresos.
Menos a mãe.

Chuva salgada

eu não queria
escrever sobre
lágrimas
eu queria
escrever sobre
dias de sol
mas chove sob
meus dedos.

fer(i)mento

a vida toda
mamãe fez bolo
pro café da tarde.
hoje tinha pão.
não é sinal de que não tem bolo.
é sinal de que não tem mamãe.
agora
pra vida toda.

cinzas

a maria fumaça
passa.
a esposa traz
o fumo.
o homem de chapéu
fuma.
como nóis
já fumo feliz
ela pensa.
ele fuma.
o tempo esfumaça.
a maria fumaça
passa.

Como é alto o silêncio que a gente grita pra dentro

Depois daquele silêncio constrangedor que incomoda a garganta. Aquele silêncio que um olha pro outro e quer falar e tem o que falar, na verdade tem muito o que falar. Aquele silêncio de um olhando pro outro querendo confessar, querendo dizer, querendo ser honesto. Depois daquele silêncio que vem depois de uma briga, de verdades cuspidas, de coisas que antes ninguém tinha coragem de dizer. Depois daquele silêncio que ouve só o barulho da faca raspar no prato do jantar que sobrou todo na panela. Aquele silêncio que vê o vinho balançar na taça, o fogo balançar na vela, o relacionamento balançar na mesa. Depois daquele silêncio ensurdecedor que acorda o coração. Depois daquele silêncio, ela fala, ela enfim, fala, depois de ficar calada por muito tempo, depois de ficar calada por toda uma relação, de ficar quieta por uma eternidade, ela abre a boca, ela põe pra fora, insatisfeita com tantos problemas, ela abre a boca, quebra o silêncio e diz, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. Mesmo tudo muito ruim, tudo muito complicado, ela falou, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. Agora ela já tem um novo amor, ela já achou um novo coração pra morar, ela por fim abre a boca e fala, quebra o silêncio. Aquele silêncio que vem antes dela confessar com tanto pudor, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. A confissão se mistura com poesia, e ela quebra o silêncio pra quebrar a relação, mas quebra a cara porque o que ela diz é mal interpretado, mal entendido, é cabeça demais, é profundo demais, e ele entende de menos, acha que é mais bonito que triste e que tem aí, um recomeço. Uma chance. Que ela disse isso depois do silêncio pra dizer que mesmo com tanto problema, tá tudo bem. Mas não foi isso. Depois dizer tudo o que ela queria de um jeito que não necessariamente ela queria, ela prefere ficar em silêncio.

mofo

tinha esquecido
dentro da mala
tinha uma carta
esquecida
na carta
uma ordem
há tempos
esquecida
em letras pequenas
tava escrito
amá-la
tinha esquecido

O fim é a evolução natural das coisas

Onde antes tinha barulho
agora som nenhum.
Os acontecimentos mais sérios na vida
são coisas desacontecendo
já reparou
como
perder
é a melhor forma de dar valor?
Não que melhor seja a palavra certa.
Queria palavra melhor
só que
melhor
foi o melhor
que consegui.
Você sabe que a onda tá vindo
porque a água vai embora.
A maré de lágrimas subiu. 
Imagina
um oceano na cara
imagina
no corpo só órgãos boiando
imagina
quanto menos tudo o corpo tivesse
mais nada você veria
imagina?
A cama parece maior.
Não deram frutas nessa estação.
Imagina só
o mercúrio vazou.
A gente não sabe mais
como tá o clima entre duas pessoas
e a culpa
no fim das contas
é que agora existe uma pessoa só.

procusto

a gente não nasceu pra caber.
é sapato que aperta.
é calça que não entra.
é coração menor que amor.
parece triste
mas é verdade.
não é a verdade de mentira
que passa na TV.
se bem que na TV
também passa verdade de verdade.
minha tia Vânia
aprendeu a fazer um bolo de beterraba
assistindo TV
e o bolo é de verdade.
o coração devia ter um Procusto
pra fazer o amor caber.
porque essa é a história dele
ele serra quando é grande
e estica quando é pequeno.
mas o engraçado é que
Procusto morreu de tamanho.
não cabia dentro da própria mitologia.
quando a gente é grande quer ser pequeno.
quando a gente é pequeno quer ser grande.
quando eu era pequeno eu queria ser frentista.
achava frentista legal.
ele fazia o carro do papai andar
e assim
a gente chegava no sítio da vovó
pra ver o tio Nelson tocar.
isso tudo quem fazia era o frentista.
eu gosto do cheiro da gasolina.
ele cabe no meu gosto.
quando um cheiro cabe em você
é porque ele tem o tamanho do seu nariz
ou o tamanho do seu pulmão.
mas nem tudo cabe em você.
vai ver
não caber
seja o tamanho certo.
nem o bolo de beterraba da tia Vânia
cabe na forma.
ele derrama todo
pra dentro da gente.

Microconto #666

A menina com miopia perdeu os óculos no caminho da entrevista. Não enxergou mais nada de importante. Agora, as lentes da vida mostram só as desimportâncias.

Cê não faz ideia de quanta roupa dá pra guardar com uma mão

O menino tem um coração a mais
e mesmo assim
não sabe o que é amar.
A vida é cheia de
(d)eficiências amorosas.
Já parou pra pensar
como deve ser triste
um armário trancado
e tanta roupa ainda do lado de fora pra guardar?
A flor que não vê água
mesmo com uma sede danada.
O menino tá seco de amor
nem dois corações são suficientes
pra regar o guarda-roupa.
Quantos quadros
a gente tem que tirar da parede
até sobrar espaço
pra mais alguém?
A menina ali sentada no metrô
parece que tem um (a)braço só.

Deve ter perdido o outro num acidente.

Às vezes 
o amor
vai rápido demais
e não sabe frear.

"Mas que bobagem as rosas não falam"

Milhões de anos de evolução e a humanidade não percebeu ainda que as plantas de casa não gostam nem de sol, nem de água. As plantas de casa gostam mesmo é de fofoca.

Passar o dia aqui sozinha me deixa entediada. A TV não funciona quando a dona tá longe. Ninguém atende o celular quando a casa tá vazia. Fotossíntese é bom, mas cê já ouviu uma boa fofoca?

As plantas são quase sempre as primeiras a saberem das novidades. Outro dia mesmo, o Fred contou aqui nessa sala, que tá saindo com a Martina, chefe dele no trabalho. Olha só que loucura, lá, ninguém pode se relacionar. Não vejo a hora do Fred entrar por aquela porta de novo, dizendo que ele ou a mulher foram pra rua.

Vem cá. Por acaso cê acha que vasos de flores caem à toa das janelas? Isso é ócio. É tédio. É pura e simplesmente suicídio. Flores que não têm companhia pra fofoca, pulam da janela na primeira oportunidade. E nunca, ninguém, soube da verdade.

Já reparou como é comum alguém ficar se perguntando quando volta de viagem, o que será que aconteceu, botei água demais ou deixei muito longe da janela? Por quê será que essa planta tá morrendo?

Fofoca, meu bem.

Quando cê viaja, nada acontece nessa casa. Ninguém chora, ninguém grita, ninguém sussurra. Se vocês soubessem que não adianta falar com gato e cachorro, vocês dariam mais atenção pra essa flor aqui. Já pensou?

Olha só. Sai pra lá com essa água. Vai passar um café. Senta aqui. Vamos conversar. Me conta o que aconteceu com a Cristina. Cê sabe que eu não vou falar pra ninguém.

O mundo é mesmo um ovo

A cabeça tá
fritando
o ovo
ao telefone tá
fritando
a atendente
lá fora a vida tá
fritando
o asfalto.

O fetiche de viver num mundo melhor

Na casa
do casal
negro
hermafrodita 
esquizofrênico 
homossexual
quando um não quer
dois não brigam.
Mas
quando os dois querem
os quatro brincam.
Tudo é bem equilibrado 
e dividido.
Existem regras?
Existem.
Só que existem mais exceções.
Limite também
porém
inovações vão bem.
A sociedade não entende e insisto em dizer
que é tudo culpa
do antigo ditado
o pior cego é o que não quer ver
porque pro coração
meu querido
tá bem explicado.
Naquela casa 
do casal
negro
hermafrodita 
esquizofrênico 
homossexual
já passou anão
já passou travesti
só hétero
que não passa ali
afinal
o de sempre
sempre tem
né meu bem?
Alguns dizem que naquele lugar
só tem estereótipo
outros dizem que só tem amor.
Bom
enquanto você segue aí
pensando
sofrendo
discutindo
e julgando
quem entra lá só encontra 
carinho
atenção
e cor.
O mundo tá pasteurizado
preconceituado
e acinzentado
e é exatamente por isso
que o arco íris
é a bandeira

daquele país.

Enxofre

Era uma noite bem bonita, mas um cheiro de enxofre colocava umas lembranças tristes na cabeça de Macabéa. O livro que carregava embaixo do braço contava uma história sobre clonagem. O trabalho ia bem. O casamento ia bem. A família ia bem. A saúde ia bem. Tudo parecia confortável apesar do sapato que apertava. Macabéa lembrou de uma passagem da história que falava sobre metafísica e abriu pra ler de novo. Pisou na faixa de pedestre, ouviu uma freada forte e nem deu tempo de olhar pro lado. O corpo voou 10 metros. No ar, apenas o mesmo cheiro de quando a mãe morreu.

O misterioso caso do menino que chora poemas

Quem nunca errou a medida
dos ingredientes?
Nunca confundiu
centímetros e polegadas?
Ou mediu distâncias
com a saudade errada?
A régua da paixão
é mesmo muito difícil
de manejar.
Quem já tentou alcançar corações
sabe que braços
sempre são
curtos demais.
Escrevo à máquina
datilografia
é uma terapia
que ajuda a desestressar mágoas
mas todo mundo
já percebeu
que choro cas mãos
que é pra ninguém ver.
É cada declaração que voa
pro lixo
embolada no papel.
O sol tá chegando na janela
a luz começa a bater no porta retrato
da ex-namorada um baita sorrisão
olhando pra cá
os dedos esquentam de novo
e começam a bater nas teclas
um baita textão chorando por mim
não tem verão lá fora
que esquente aqui dentro.

Boom

Sabe quando uma bomba explode num filme de guerra e fica um zumbido agudo e por um tempo ninguém ouve mais nada? Sabe? Sabe quando tem gente sangrando e suja de barro com arma na mão correndo pra todo lado e fugindo de tiro e fugindo de fogo e de repente boom explode uma bomba e fica um zumbido tão agudo que ninguém ouve nada? Sabe o zumbido? Agudo? Sabe? Depois da bomba? Depois do boom? Sabe não sabe? Gostar de você é tipo isso. Tipo agudo. Tipo zumbido. Você é tipo o zumbido depois que a bomba boom num filme de guerra e não me deixa prestar mais atenção em nada a não ser em você. Você é o que vem depois da explosão da bomba. Aquilo que vem e deixa todo mundo perdido e desnorteado. É aí que eu paro e penso sobre a cena de guerra dentro do filme. A vida é uma cena de batalha com bomba granada e boom. Eu sou o soldado ferido grave com a bomba aguda. Eu não vejo nada do que acontece ao redor dessa nossa zona de conflito. Só vejo seu zumbido em mim depois que o coração boom. Ninguém mais explode aqui ou ali só tem gente correndo perdida pra todo lado e você zuuuuum. Eu nunca tive numa guerra nunca tive num filme de guerra nem sequer vi de perto uma bomba. Mas eu conheci você. E o jeito que você explodiu me deixou surdo de amor.

Rua 24 de Maio esquina com a Avenida Eduardo Ribeiro

- Paulo?
- Hey! Nossa. Que surpresa.
- Como cê tá?
- É... bem. Tô bem. Acho.. Não, acho não. Tô bem. E você?
- Também.
- Meo. Qual a chance da gente se encontrar em Manaus?
- Bom, eu sempre quis conhecer Manaus.
- Que cê tem feito todo esse tempo?
- Estudado. Desde que a gente terminou eu só tenho estudado. E feito umas dietas detox estranhas.
- Wow. Detox? E as pizzas? Os hambúrgueres? Ketchup?
- Tirei tudo da minha vida.
- Sei bem…
- Como tá seu pai?
- Trypanosoma.
- Como assim?
- Não era problema cardíaco. Era doença de Chagas.
- Ah, putz. Quer dizer, que bom né? Pelo menos não é hereditário.
- É, a gente já tem problema demais pro coração.

O zumbido do silêncio é tão forte que Paulo e Elisa se olham sem conseguir falar nada. Olham em volta. Veem o movimento do centro. Um carro, uma moto e duas crianças depois, Elisa coloca barulho de volta ao assunto.

- Cê vai pra onde depois daqui?
- Ainda não pensei nisso. Vai depender de onde você vai.
- Hahaha só você mesmo, Paulo. Não mudou nada. Parece que sua vida ainda depende da minha.

Paulo ri sem graça, tira um caderninho do bolso, cheio de anotações, e risca Manaus de uma lista gigante.

Nossa vida é um pretérito perfeito

A abelha que a gente prendeu na garrafa ontem, morreu.
O sexo que a gente sempre guardou sob o lençol, estragou.
O leite desnatado que cê deixou na minha geladeira, venceu.
O álbum de fotos da nossa primeira viagem, mofou.
O vinil que tocava a música da gente dançar, riscou.
O vinho que seu pai me trouxe do Chile, avinagrou.
A primeira carta de amor que escrevi pra você, amarelou.
O papel que hoje te escrevo estas palavras, molhou.

Nem em sonho paro de sonhar com você

Passei o braço sobre o lençol
como faço todos os dias antes de abrir os olhos.
Gosto de ver você com as mãos
primeiro.
Passar por sua cintura
subir
sentir
o desenho do seu peito
sob o pano
e perder ali
alguns minutos só
então quando sua respiração mudar
levemente
subir pro seu cabelo.
Tirar os fios do seu rosto
colocar atrás da orelha
e liberar espaço pra alcançar sua boca.
Quando enfim
seus olhos abrem
os meus também.
Ver você me olhando
é o melhor jeito de nos ver.
Mas pera
cadê?
Que que esse papel tá fazendo
no seu lugar?
Que carta é essa?
Como assim a gente não vai mais se ver?
Pois saiba
por mais que esse papel embaixo
do travesseiro lembre você
seu cheiro não tá aqui.
Ir embora da minha frente
não te tira de dentro de mim.
É uma pena que sua lembrança seja
a coisa mais palpável
que agora eu vou ter
pra acarinhar.

Um pequeno passo pro homem, um passo gigantesco pra saudade

É tipo uma praia, só que sem água.
Uma praia fria.
Que os grãos de areia caem da mão em câmera lenta.
É vermelho.
Vermelho como a terra no sítio do tio Frank.
Só que não tem o pomar.
Nem a casa.
Nem o tio Frank.
É grande.
Dava pra ter muitos pomares, muitas casas e muitos Franks.
Dava pra colocar uma piscina ali.
Congelada.
Que ninguém ia nadar.
Então colocaria uma churrasqueira lá.
E como não tem oxigênio, a churrasqueira não ia acender.
Ia ficar apagada igual o fogão da vó Ewa quando ela não queria fazer bolo de milho.
Quando foi a última vez que eu entrei numa piscina mesmo?
Nem churrasco eu lembro de ter comido.
Tá tudo meio lento.
A vida podia passar mais devagar também.
Imagina o tio Frank mais devagar.
Imagina a vó andando igual os grãos vermelhos.
Imagina a praia dentro da casa.
Um churrasco inteiro de pomares.
Só que sem bolo de milho porque não tem piscina.
Quanta tecnologia o futuro trouxe pra gente.
E ainda não podemos visitar o passado.
Ficam só lembranças que vão se apagar como essa pegada aqui.
Há quantas pegadas eu tô de casa?
Há quantas pegadas eu tô do sítio?
Há quantas pegadas eu tô do passado?
Vó Ewa ia ficar puta com a casa toda suja de vermelho.
Olha o tamanho desse planeta e não tem nenhum pomar.
Lá fora do capacete a lágrima ia cair em câmera lenta.

A vida é imprevisível até quando é previsível

Eu tava chegando em casa quando vi a movimentação. Ninguém precisa te dizer que tem alguma coisa errada. Coisa errada tem cheiro de coisa errada. A rua alternava entre vermelho e azul. Tinha a mesma quantidade de carros de polícia e carros de bombeiro. Pessoas espalhadas em pequenos grupos conversavam olhando pro alto. O trânsito tinha sido desviado pra rua debaixo. Do resto, parecia que tudo corria bem. Não tinha nenhum som estranho. Não tinha nenhuma ambulância. Pensei, bom, parece que nada de grave aconteceu. Quando eu virei na minha rua, tinha pedaços de vidro por toda calçada. Um bombeiro colocou a mão no peito no momento que eu coloquei a mão na porta. Senhor, teve um incêndio no prédio, o senhor precisa aguardar a vistoria e a liberação pra subir. Em qual apartamento...



Nessa hora um zumbido agudo e baixo não me deixou ouvir o resto. Como eles vão dar a notícia pro morador? Quem será o morador? Será que tá tudo bem? Será que atingiu muitos apartamentos? Será que tinha gente morando onde pegou fogo? Porque pode ser que nem tinha gente morando. Lembrei de como é dolorido perder coisas. Lembrei das coisas que já perdi na vida. Meus pais que foram embora antes dos 19. Meus empregos que ficaram pra trás. Meus brinquedos. Meus dois cachorros. Meus avós. Alguns amigos. A carteira semana passada. A Márcia ano passado. Talvez de todos os meus relacionamentos, a Márcia foi o que mais doeu perder.



... senhor? Qual apartamento o senhor mora? No 72, respondi. O bombeiro colocou a mão no meu ombro e pediu que eu acompanhasse ele até a viatura. Foi só nessa hora que eu percebi que era comigo toda aquela história. Eu era o personagem do incêndio. Por isso todo mundo tava me olhando quando eu passei. Por isso não tinha ambulância. Por que não tem ninguém em casa quando eu não tô em casa. Eu comecei a rir. O bombeiro me abraçou achando que eu chorava. Mais algumas pessoas chegaram pra me consolar. Eu continuei rindo. Não era de nervoso. Era de certeza. Perder tudo seria muito mais dolorido se eu tivesse alguma coisa. Ninguém entendeu nada.

Ainda sei imitar sua letra

Falei durante horas com o objeto no chão que esperou meu monólogo acabar. Olhar praquilo me faz pensar em você toda vez. Não sei se é a cor, o tamanho ou o cheiro de sei lá o que. Mas, ver aquilo só me traz lembranças suas. Lembranças nossas, na verdade. Tem pó pela casa. Tem pó na mesa. Tem pó pelas coisas. Tem pó em mim. Não escrevo nada faz tempo. Perder você me tirou a produção. Queria organizar a casa, seguir em frente e, quem sabe, superar essa ida. Todas as histórias que contei antes da carta tinham vida, todas as histórias que não contei depois da carta têm morte. Sou agora um escritor sem alma. Olhar aquela folha de passado no chão com palavras suas impressas me fez pensar que, de todas as histórias lacrimáveis que eu já escrevi, uma carta de suicídio não se compara a nenhuma delas. Gostar em excesso de você não imaginei que levaria a isso. Te amarrar foi um jeito que achei pra te segurar. Ninguém desconfiou que te matei. Eu amava demais pra duvidarem.

O dia que eu não vi neve pela primeira vez

Foi num café da manhã em Istambul. Eu comia bolo de farinha, homus e pepino. Sei lá, tinha tudo isso na mesa e eu peguei. Na minha frente tinha uma família mexicana. Cada um deles tentando resolver um problema. Um dos problemas era sobre um chip pré-pago. Na mesa do lado tinha uma mulher estranha sentada sozinha. Ela tinha as unhas gigantes. Mal conseguia segurar as coisas que comia. Uma rádio local tava sintonizada na TV. O locutor falava há muito tempo. O resto do salão estava repleto de turcos em silêncio. O garçom limpou todas as mesas. Mas deixou apenas uma suja. Lá fora, um gato desfilava de um lado pro outro em cima da calha que separava o terreno do café, da casa do lado.

De repente, na minha frente, como se eu tivesse esperando, caiu um floco de neve. Não era sujeira, não era cinza, não era folha, não era pena. Eu nunca tinha visto um floco de neve. Mas sabia que era um floco de neve. Eu vi só o começo da cena. O resto ficou embaçado. Depois de um tempo, enxuguei os olhos e continuei olhando. Esperando. Outros flocos caíram de leve. Não era o suficiente pra deixar o chão branco. Não era o suficiente pra deixar nada branco, na verdade. Eram poucos. Solitários. Eu nunca tive o sonho de ver neve. É um espetáculo bonito. Eu sabia que um dia ia ver. Mas nunca foi o sonho. Tanto é que eu não tava preparado. Aquilo foi tão sutil, tão calmo, tão leve e pequeno que me pegou de um jeito muito forte. Fiquei ali sentado quase uma hora. Olhando o que acontecia lá dentro e lá fora.

Só que ninguém mais tinha reparado que nevava. Na verdade, ninguém tinha reparado em nada do que acontecia. Eu vi tudo isso acontecer durante muito tempo. E quer saber, mesmo se eu não tivesse reparado em nada, tudo ia continuar acontecendo. As coisas não precisam ser vistas pra existir. Elas vão existir. Cabe a gente merecer ver. E não é você que escolhe, são as coisas que escolhem você. E assim, de uma hora pra outra, tudo fez sentido. Eu não tava ali pra ver a neve. Eu tava ali pra ouvir os mexicanos e o locutor. Eu tava ali pra ver a mulher estranha de unha grande que ninguém olhava. Eu tava ali pra ver os turcos em silêncio. Eu tava ali pra reparar na mesa suja que ninguém notava. Eu tava ali ver ver o desfile do gato. E foi nesse dia que eu descobri que não nevou pra mim.

MIDAS

Fernanda tapou o grito com o dedo cortado. Uma gota de sangue na pia, perto do queijo e uma gota na camiseta, perto da testa da Twiggy. O silêncio na cozinha foi uma mistura de dó e arrependimento. Não devia ter pedido pra ela cortar mais queijo. Eu devia ter cortado o queijo. Fernanda já tava bêbada. Eu já tava bêbado. A gente nem ia comer mais queijo. Ninguém devia ter cortado queijo. A taça de vinho ficou parada na minha mão alguns instantes e só não ficou mais imóvel porque a taça dela tava em cima da pia, obviamente mais parada. Olhar a Fernanda lavando o dedo e ver a água rosa escorrer pelo ralo me fez pensar no Lucas, que tava de rosa quando passou mal no show de ontem e a gente teve que deixar tudo pra trás e levar ele embora. Foi nessa hora que as coisas começaram a fazer sentido na minha cabeça. Como eu não tinha reparado antes? Todo mundo em volta de mim começou a se machucar. Nessa noite eu não consegui dormir.

No caminho do trabalho, a avenida principal tava bloqueada, um motoqueiro foi atingido por um Toyota que trocou de faixa sem dar sinal, disse o homem que subiu fora do ponto. Quando cheguei no escritório, o elevador tava quebrado. Vânia, da contabilidade, tinha ficado presa quando descia pra fumar. Logo a Vânia que tem claustrofobia. No email, uma nota de falecimento do RH pros funcionários, seu Tino, vô da Clara, a telefonista. O resto do dia não teve mais surpresas. Mas foi só a terça-feira começar que coisas voltaram a acontecer. Uma mulher tropeçou na minha frente quando eu chegava no ponto. Um senhor bateu a testa no ferro dentro do ônibus. No almoço, uma menina se engasgou na mesa do lado. A TV me ajudava a ignorar as desgraças, diluindo as coisas ruins no meio de esportes e bobagens. É mais difícil prestar atenção na dor quando não dói na gente.

Isso já deve tá acontecendo faz um tempo. Tô tentando lembrar quantas vezes nas últimas semanas fui parar num hospital ou numa farmácia com algum amigo. Não consegui. Pior que quanto mais eu reparo, mais eu vejo desgraças e problemas acontecerem. Minha vizinha. Meu porteiro. O cara da banca. A mulher do café na esquina. Meu irmão. A Marina. Puta que pariu. A Marina. “Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” e saiu. Foi essa a última coisa que a Marina me disse antes de sair da livraria no dia que a gente terminou. Sabe aquelas coisas que as pessoas te falam e você não dá importância? A Marina sempre foi uma pessoa especial. Na minha vida e na vida de quem vivia em volta da gente. Todo mundo que queria um conselho, uma ajuda, ou uma opinião, falava com ela. Marina tinha virado uma espécie de trampolim na vida das pessoas. Até a minha vida foi outra no tempo que a gente viveu junto. Na verdade, tudo sempre deu certo pra Marina, mesmo antes da gente se conhecer. Nessa noite eu não consegui dormir, de novo.

“Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” foi a frase que ficou na minha cabeça durante dias. Eu gostava da Marina. Mas a gente foi deixando de se amar com o tempo. E com o tempo, minha vida foi virando uma merda. E a merda foi incomodando. E um belo dia a gente terminou com essa frase de trilha sonora. Bom, de lá pra cá as coisas só pioraram. Hoje, olhando esse monte de gente se machucando em volta de mim, vejo o quanto é difícil viver com essa responsabilidade. Cada dia, cada hora, alguém que eu gosto, conheço, convivo ou, simplesmente me relaciono, se machuca. Ora leve, ora grave. Ninguém sabe que a culpa é minha. Só eu e a Marina. Tem ficado cada dia mais difícil suportar isso. E eu sei que só me restam duas alternativas, suicídio ou voltar com ela. E de ambas as duas vou me arrepender.

O telefone toca pela décima quinta vez até cair na caixa postal. Quantas vezes um telefone toca em média até cair na caixa postal? As pessoas ainda usam caixa postal? Eu odeio quando deixam recado pra mim. "Marina? É o Fran. Será que a gente podia..." foi a única coisa que deu tempo de gravar. Pensei demais antes de falar alguma coisa. Dois dias. Foi o tempo que passou até eu receber uma mensagem. Marcamos um café. Precisava conversar. Marina sabia de tudo que eu tinha pra dizer. De cada problema. De cada detalhe. De cada decisão. Marina não gosta mais de mim também. E mesmo assim, decidimos voltar. Foi uma decisão muito triste e amarga. Mas não era pelo nosso bem. Era pelo bem de todo mundo que cercava nossas vidas. Era pelo bem de amigos, conhecidos e familiares. Nessa noite, ninguém mais se machucou. Além da gente.