Microconto #659

Cada pipoca parecia uma galinha pequenininha, branquinha e gordinha. A menina segura o saco, olhando pensativa e de repente estoura uma pergunta "pai, o pintinho é um milho que ganha vida dentro da galinha?" O pai balança a cabeça que sim sem tirar os olhos do celular. Agora, cada pipoca, parece ainda mais uma galinha. Ela sorri satisfeita. Entra atrás do pai na sala de cinema escura e toma um baita cuidado pra não derrubar os bichinhos pelo chão.

A gente perde muito tempo se dedicando em ser o que não é

Quantas vezes você não escovou bem os dentes pra ir ao dentista mas, depois do almoço escovou rapidinho porque tava com pressa?
Quantas vezes você não se vestiu bem pr’um encontro mas, foi desarrumado pro cinema depois de um ano de namoro?
Quantas vezes você não cortou o cabelo pr’uma entrevista mas, foi trabalhar desleixado numa terça-feira?

Tem um trecho no filme When Harry Met Sally que eu gosto muito, que é quando os dois personagens tão discutindo sobre o começo dos relacionamentos e o Harry fala “Se você levar alguém ao aeroporto, é claramente o início de uma relação. Por isso nunca levo no início. Porque às vezes as coisas evoluem, e acabamos não indo mais ao aeroporto. E não quero que ninguém me diga: por que você não me levou mais ao aeroporto?”

Este não é um texto pra te tornar uma pessoa melhor. Também não é um texto pra me tornar uma pessoa melhor. E muito menos um texto pra melhorar o mundo. Este texto é só pra gente pensar um pouco e ver se dá pra fazer diferente. E eu não tô falando de mudanças radicais, tô falando de expectativas.

Eu sei que é difícil mudar o leme no meio da rota. Então, que tal fazer isso na sua próxima decisão? Tipo um teste. Que tal começar seu próximo objetivo por baixo, sendo você como você realmente é, e só então, com o tempo, tentar ser melhor?

Como falar sobre chaves quando você quer falar sobre amor?

Já reparou que muita gente tem uma chave que não usa pra mais nada?
Uma chave que já abriu um portão antigo que levava pr’um lugar incrível?
Uma chave que abria uma portinha cheia de passado amarelado?
Uma chave que abria um baú com cheiro de saudade?
Uma chave que fica perdida no fundo da gaveta, pendurada no chaveiro no meio de outras chaves ou dentro de um velho pote?

Guardar chaves só ocupa espaço. Quantas chaves você têm guardada em casa que não abrem mais nenhum coração?

Amizades são inspirações que a gente pode abraçar

Dia desses reencontrei amigos de infância. A gente riu de uns erros do passado e conversou sobre lembranças. Esses amigos viram muitas das minhas memórias nascerem. Aquelas memórias de joelho ralado, campinho de terra e bola no portão, sabe?

O lugar onde cresci não era um lugar muito seguro. Tinha a molecada do fundão que cortava a pipa da gente. Tinha a molecada da rua de trás que jogava a bicicleta na nossa frente. Um mundo de pequenos problemas cercado por problemas grandes de verdade.

A violência sempre teve lá, rodando as noites de esconde-esconde. Do lado de fora da janela quando a gente jogava vídeo-game na sala. No coração da mãe quando a gente demorava pra voltar. E mesmo assim, por mais que a violência tenha batido na porta, oferecido chances ou facilitado o futuro; a gente preferiu rodar pião.

Esse dia que reencontrei meus amigos, pude ver como todo mundo tá bem. Como todo mundo seguiu descente. Como crescemos por dentro, por fora e, principalmente, pra frente. Esse dia me fez acreditar que se fosse possível, eu nasceria mais uma vez, passaria por tudo isso, só pra chegar até aqui e abraçar, de novo, cada um de vocês.

Microconto #658

No fim da festa, sobramos eu e você, em meio a restos enfeitados.
Nossos sentimentos eram tipo copos descartáveis.
Procuramos uns limpos.
Mas a gente acabou se bebendo nos dispensados.
Seu beijo foi uma mistura de gostos antigos, transformados em sabores novos.

Você é uma secreção incolor e salgada, produzida pelas glândulas lacrimais, pra umedecer meu passado

Existem muitos jeitos de desaparecer da vida de alguém. Mas, nenhum deles se compara com virar lágrima. Quando você vira lágrima, você escorre pra fora e não consegue mais escorrer pra dentro.

Lágrimas são pessoas que a vida espreme pra fora da gente. Por mais que você espere, por mais que você peça, por mais que você tente. Quando você vira lágrima, você desaparece pra sempre.


Toda vez que eu penso em você minha boca salga. A maresia da saudade me enjoa. Não adianta mais eu implorar. Você escorreu de mim. E de todas as coisas que o amor permite, a única que não vai acontecer, é você voltar.

Eu não sonho mais com você porque você não dorme mais em mim

O dia envelhece aos poucos
e a saudade deixa de ser verde.
Amadurece.
Apodrece.
Cai do pé.
E no lugar, nasce um novo carinho.
Quando o amor amanhece
ele já não é o que era na noite anterior.
Eu bebo pra esquecer que lembrei de você.
Recordar é bom.
Mas não lembrar, meu deus, é bem melhor.
Aos poucos o desejo endurece e se faz pedra.
Ninguém mais me quebra depois de ti.
Eu anoiteço com outro sorriso.
O seu amor não rejuvenesce mais aqui.
Tipo brisa leve você passou
e refrescou meu coração.

Deixei a janela aberta
pra ver se você volta.

O calor da saudade
dá uma suadeira danada.

Eu sou brigadeiro. Você é uma festa lotada de crianças.

Tudo o que sobrou da minha vida é o que não foi embora dentro da sua mala dobrado com as roupas, as cartas e as lembranças. Tudo o que sobrou de mim é o que você não levou. E olha, você levou quase tudo.

Eu me sinto como aquele restinho do vinho que a gente toma sozinho no domingo a noite, aquele restinho que fica no fundo da taça e que, por mais que a gente vire na boca, não consegue beber. Tudo o que sobrou de mim é o que fica grudado na tampa da pizza quando a gente pede menos pizza do que devia e os amigos tavam com mais fome do que parecia. O que sobrou de mim é o pouquinho do iogurte que a gente toma no almoço de sábado porque não sabe cozinhar, aquele pouquinho que sobra no pote onde a língua não alcança e por mais que a gente raspe com a colher, não sai. Tudo o que sobrou de mim é o que sobra de sol num dia de eclipse total. É aquele pedacinho de pele que fica no cantinho do dedo depois que a gente rói a unha de nervoso esperando alguém ligar, aquele pedacinho que a gente não consegue tirar nem com o alicatinho mais afiado da mãe.

Eu sou agora aquele restinho de chocolate que fica grudado no papel depois que a molecada acaba com os doces no aniversário. Aquele papel que fica jogado em cima da mesa, amassado, largado, esperando a faxina começar. Aquele que vai pro lixo e se der muita sorte, mas muita sorte mesmo, vai ser reciclado, virar outro papelzinho, chegar em outra festa infantil, guardar outro brigadeiro e esperar você comer, só pra ter a chance de ficar mais um pouquinho contigo antes de você acabar comigo. De novo.

Microconto #657

A fé escorre pelos ralos dedos da senhora que ora por horas esperando que a esperança não morra.
No fim, morre a fé, a esperança e a senhora.
Mas não morre as horas.

Pesos e desmedidas

Eu sou
leve
com você.

Pesado é
ficar
em mim.


Me leve.

Já tentei de tudo pra me suicidar de você

De todas as drogas que já provei
você é a única que me faz bem.
Talvez seu gosto tenha asas e
colocar a boca em você
me faz subir num céu que nem plantei.

De todos os venenos que já conheci
você é o único que não me mata.
Acho que seu cheiro tem cor e
encher os olhos de você
me faz ver sorrisos que não pintei.

De todas as armas que já usei
você é a única que não me machuca.
Pode ser que seu corpo tenha flor e
encostar o carinho em você
me faz brotar amor que nunca nadei.

De todas as doenças que já peguei
você é a única que não me acama.
Vai ver seu vírus tem calor e
esfregar as mãos em você
me faz viver, ao invés de morrer.

Vai ver.

Tempestade

Chove em mim agora
vem deitar na cama
fazer trovão no corpo
deixa molhar aqui dentro
mais que lá fora.

A primeira vez que eu morri, foi de amor

Num dia meu coração tava batendo normal.
No outro, simplesmente acelerou.
É difícil explicar a sensação pra quem nunca morreu.
É uma mistura de prazer e dor.
Porque é como se o seu coração fosse abraçado
mas,
é como se fosse abraçado até esmagar.
Aí, chega uma hora que você começa a pensar
“quantas coisas eu vou deixar de fazer agora que morri de amor?”
As festas que não vou mais. Os jantares que vou recusar. Os amigos que vou esquecer. O trabalho que vou perder. As viagens que vão sumir.
Morrer, no fim das contas, é uma triste liberdade.
Você abre mão de tudo, pra começar uma nova jornada.
E como toda jornada, você vai deixar coisas pra trás.
Mas, tudo bem, porque toda morte de amor, faz seu coração abrir espaço, e todo coração com espaço consegue levar novas histórias, e toda história que aparece pode te mostrar lugares, e todo lugar que você descobre consegue te apresentar pessoas, e toda pessoa que surge tem a chance de entupir sua veia da paixão, e quando você tá entupido de paixão... cuidado, vai com calma, é hora de cuidar do coração, porque foi assim que eu morri de amor da primeira vez.

Quanto tempo eu coloco no micro-ondas pra esquentar amor?

Morar sozinho faz com que você perca algumas regalias na vida.

Hoje, depois de quase 4 anos longe de casa, eu trouxe pro almoço, uma marmita com comida da mãe.

Por mais que você visite sua família, por mais que você passe uns dias lá, no fundo, você não é mais um morador. Você é um visitante. E ser um visitante, faz com que você preste atenção em detalhes que antes passavam despercebidos. Como por exemplo, a comida da sua mãe.

Viver num lugar por muito tempo cria em você uma espécie de camuflagem pras diferenças. A mancha na parede, que era só pintar, vai ficando por lá. A porta quebrada do armário nem te incomoda mais. A comida da sua mãe, que apesar de gostosa, acaba virando rotina no paladar.

Hoje, depois de 4 anos longe de casa, a comida vai ser uma marmita da mãe. Um potinho cheio de amor que meu almoço nem lembrava mais o sabor.

Eletrisaudade

Toda vez que eu chego em casa a noite depois do trabalho é como se eu pudesse ouvir nossa última conversa. Eu olho pro tapete. Era bem ali no meio que eu tava quando disse pra você “volta aqui, eu ainda não terminei de falar.”
Aí, você fechou a porta, e nunca mais entrou.
É, eu sei, não foi bem uma conversa.
Mas, se te contenta saber, ainda faço as mesmas coisas todos os dias como se a rotina pudesse voltar.
Ainda coloco a bolsa no mesmo lugar, em cima da mesinha que tem perto da porta. Ainda confundo o interruptor e acendo a luz errada. Ainda guardo a bolacha dentro da geladeira mesmo sabendo que “desse jeito pega umidade e murcha mais rápido”. Ainda jogo o sabão em pó direto na roupa mesmo sabendo que “não é pra fazer isso, pode manchar tudo”. Ainda bebo o leite direto na caixinha mesmo sabendo que “pode azedar”.
Seus gatos ainda me recebem com o mesmo carinho. É engraçado. Parece que bicho se apaixona pela gente todo dia. Parece amor em looping. Pena que a gente não é bicho, né?
Depois do banho quente, preparo alguma coisa pra comer e sento na sala.
Às vezes ligo a tevê e coloco no mudo só pra ficar ouvindo aquele chiado. Aquele chiado que quebra o silêncio da casa, sabe? Às vezes esqueço a luz do banheiro acesa pra ver se você vai aparecer, apagar e brigar comigo.
Por mais silenciosa que seja uma casa vazia, ela é cheia de barulhos de saudade.
O motor da geladeira liga e desliga de tempo em tempo e eu lembro que você ficava tentando adivinhar que horas ele ia ligar de novo.
Falando nisso, você já acertou alguma vez?
O ventilador no teto é silenciosamente ensurdecedor. Eu saio da sala, jogo os pratos na pia e escovo os dentes ouvindo o barulho da lâmpada em cima do espelho.
Eu deito na cama que hoje só esquenta um lado. Não consigo mais dormir no quarto todo escuro sabia? Parece que eu tô caindo e não tenho mais você pra me segurar.
Anoiteço ao som do abajur.
Eu nunca tinha ouvido o som do abajur antes de você fechar a porta e nunca mais entrar.

Pé de menina

O amor
é um passarinho
que pousa
de galho em galho
e que
de vez em quando
faz ninho.

Aconchegar-se-ei-te-me

Quando sua mão pousou em mim
pela primeira vez eu aninhei
Já se passaram tantos sonhos
sob seus voos que hoje
eu adormeço em galhos de pele
Sob a sombra da copa
de cabelos seus
eu me refresco do sol de saudade
A tarde vai colorindo
o céu da boca
e as pétalas caem dos olhos
agora
com mais calma
Sua cabeça outono
avermelha meu rosto
toda vez que
minha boca
não consegue ficar longe
da sua boca
Ocupamos o mesmo espaço
nas estações
só que a cada primavera que passa
somos mais verão
e menos inverno
Amanheço em gramado verde
de um colo maduro
Recomeçamos o dia
com o amor de sempre
com o orvalho nos olhos.

Minha poesia é uma ilha de você cercada de eu's por todos os lados

Eu queria ser poeta
escrever vontades
falar só de coisas que já senti
não inventar verdades.

Eu queria fazer rimas
juntar palavras que não combinam
tirar da sua boca uma frase-sorriso
fazer mágica com papel.

Eu queria cantar versos
mexer em corações com os dedos
colocar som de estrelas nos seus sonhos
borboletar seu estômago.

Eu queria me palavrear
escrever-me amor dentro de você
entrelinhar-me nas suas vontades
virar um marcador de página na sua vida.

Vindas e idas do amor

Ontem eu parei pra lembrar do dia que você chegou.
Cê lembra?
Foi um dia meio assim, com sol dentro de casa, sabe?
Quando chove lá fora mas aqui dentro da gente é verão?
Era como se a porta da sala abrisse pr’um campo de orquídeas.
Eu nem sei se orquídea dá no campo, mas, pra mim,
era uma visão muito boa pra falar de você.
Era uma terça-feira com sabor de sábado a tarde.
Eu sei, eu sei, tem um monte de gente que prefere sexta-feira
e mais um monte de gente que prefere domingo.
Mas, sábado, pra mim, era o melhor dia-você.
Eu lembro que a vida tocava a música do amor.
E olha, eu nunca gostei muito de música.
Foi quando eu olhei no relógio e não vi hora melhor pra você chegar.
Que por mais roupas que eu tentasse colocar, no fim,
me vestir do seu sorriso era a melhor combinação.
Que eu disse, tá sentindo esse cheiro,
e você sorriu,
balançou a cabeça
dizendo que não
e eu te chamei de flor
desde então?
Lembra o dia que você chegou?
Lembra?
Pra mim, o dia que você chegou,
só não foi melhor
que o dia que você partiu.

Felicidade foi tudo que eu consegui sem você

Quanto de felicidade você consegue aguentar?
Você consegue conviver, por exemplo, com o fato que eu tô melhor?
Que achei alguém que me cuida mais do que você, meu bem?
Que vou ser pai e o nome eu nem sei ainda porque antes de ter nome é importante ter a notícia e só de ter a notícia eu já tô feliz?
Você consegue conviver com o fato de eu ter um emprego novo, um carro novo, uma rotina nova e um coração novo?
Consegue conviver com essa avalanche de felicidade? Consegue?
Saber que a vida foi muito legal comigo e que tudo que eu sempre quis com você, hoje eu tenho sem você?
Consegue conviver com a notícia de que comprei uma xícara nova pro café da manhã e nela ta escrito eu te amo, mas não é pra você?
Consegue aceitar que eu deito pra assistir filme no colo de outra pessoa? Que eu ganho cafuné sem pedir? Que ela não tem alergia das flores e por isso a casa sempre amanhece com cheiro de férias no campo?
Enfim, espero que você esteja tão feliz quanto eu pra que eu não fique tão triste quanto você.
Vem me visitar qualquer dia. Vamos trocar lembranças. Falar de mofos e rancores.
Quem sabe a gente não descobre que a felicidade sempre foi sustentada por pilares de tristeza.
Essa é a vida, meu bem.
Um desequilíbrio de igualdades.

Eu queria girar em volta de você

- Você tem medo do que?
- Das pessoas não me perdoarem.
- E o que você fez de tão ruim assim?
- E o que eu não fiz de tão bom, seria a pergunta certa.
- Mas é lua cheia. As pessoas vão olhar pra cima a noite toda.
- Eu nunca olhei ninguém nos olhos.
- É disso que você tem medo?
- É disso que eu tenho menos coragem, seria a resposta certa.
- Você já roubou alguma vez na vida?
- Não, mas já fui roubado. Que é a mesma coisa. Só que ao contrário.
- Uma vez eu guardei pessoas dentro de mim, sem pedir.
- E o que aconteceu? - Perguntou Fabrício olhando pra Lua.
- Elas escorreram.
- É. As pessoas que não estão mais com a gente viram água do mar na nossa cara.
- Qual sua maior coragem?
- Não ter coragem, eu acho.
- Já reparou que é Lua cheia?
- Aquela não é a Lua. É a lâmpada do poste.
- Então a gente é tipo inseto?
- Eu queria girar em volta de você.
Ela sorriu.
- Que foi?
- Meu nome é Solange. Mas pode me chamar de Sol.
Os dois continuaram olhando por um bom tempo, cada um, seu Astro particular.

O passado é um presente que muita gente não quer ganhar

Não me importam mais as coisas que deixei com você.
Não me devolva nada.
Cada pedaço meu que eu trouxer de volta traz junto um pedaço de passado.
Cada pedaço de passado que voltar vai ser um presente ruim de abrir.
E sabe o que é mais engraçado?
Mesmo não trazendo nada daí,
o passado entrou aqui.
Talvez enquanto eu esfregava os olhos pra enxugar as lágrimas
eu tenha descuidado e deixado ele entrar.
Entrou e se espalhou como mofo pela casa.
O passado tem um incrível poder lacrimejante.
Acho que é o jeito do meu corpo dizer que eu tenho alergia das nossas lembranças.
Hoje, aqui em casa, tudo parece uma caixinha de música que toca o som da saudade.
Eu abro uma mala e ouço nossa última viagem.
Eu abro uma panela e ouço um jantar regado a tinto risoto e risada.
Eu abro a porta do quarto vazio e ouço vontades gemidos e sussurros.
Eu abro um livro e ouço você dizendo,
fecha isso, senta aqui, vem ficar comigo até eu pegar no sono.
Eu ouço gavetas
ouço tampas de canetas.
Nada mais tem o som que merece.
Tudo tem apenas o som que não precisa.
Você é a bailarina que roda no quadrado pequeno com imã no pé,
eu sou o garoto que o espelho reflete com olhar brilhante,
a tampa
da caixa
da vida
não fecha.
A música da solidão
toca implacável
por toda casa
e eu sou
o meu próprio par.

Eu queria que meu perfume fosse pra você como o cheiro da roupa de cama nova

Eu tento encontrar nomes pro amor que eu sinto, porque no fundo eu sei que eu não te amo como eu consigo. Eu não te amo por mim, eu te amo pelos outros. Eu escrevo pra você palavras que não são minhas. Eu te levo pra filmes que eu não participei. Eu te canto músicas que outros criaram. Eu te mostro fotos que eu não tirei. Eu te levo em parques que eu não construí. Eu te dou presentes que eu não fiz. Eu queria te amar como as pessoas amam as frases do Caio Fernando de Abreu. Eu queria te aplaudir como as pessoas fazem com o pôr do sol. Eu queria gostar de você como se precisasse de um autógrafo seu todos os dias. Eu queria me sujar de você como as pessoas se lambuzam com Nutella. Eu queria que meu perfume fosse pra você como o cheiro da roupa de cama nova. Sabe quando você tira o sapato apertado depois de um longo dia? Eu queria ser o chão gelado que toca seu pé. Sabe quando o dia tá meio nublado e mesmo assim você desce pra piscina e de repente o sol aparece? Eu queria ser o sorriso que surge no canto da sua boca. Eu queria ser aquela sua vontade de fumar um cigarro. Sabe quando você esquece que é dia de pagamento e olha a conta e tem um monte de dinheiro? Eu queria ser o seu cartão de crédito. Eu queria que meu abraço fosse aquele seu prazer de chegar em casa depois da viagem. Eu queria que quando você me olhasse você arrumasse o cabelo atrás da orelha como você faz toda vez que vê brigadeiro. Eu queria ser aquela bonequinha brega de porcelana que era da sua vó e você nunca vai jogar fora.
Mas
eu não consigo
ser nada do que eu quero
pra que você
me queira.
Vem cá. Vamos ser sinceros. Ainda tem cota na sua vida pra mim?

Microconto #656

Na casa da vovó, o vovô mora num porta retrato. O forninho tem cheiro de fubá. Faltam netos no quintal. A vida vai passando lentamente. Ao som de uma novela do SBT.

Microconto #655

Marionetes. Era a única coisa que conseguia fazer na vida. Já não se sabia mais se o homem controlava o boneco ou se o boneco controlava o homem.

O coração é um órgão involuntariamente apaixonável

Pra onde a noite vai depois que o dia nasce?
Júlia sempre começa com essa pergunta. Eu não sou tão bom em respostas como Helena era mas, alguém precisa fazer esse papel agora. Eu digo pra Júlia que a noite vai encontrar pessoas que precisam descansar. Depois disso, ela desencadeia uma sucessão de perguntas que só acabam quando ela pega no sono.
O que acontece na cabeça quando a gente descansa?
Quando a gente descansa, a cabeça coloca pra trabalhar tudo que a gente aprendeu durante o dia, pra não esquecer quando acordar.
Por que a cabeça não explode com tanta coisa?
Por que na verdade a gente não guarda tudo na cabeça. Tem coisa que vai pro coração também.
O coração não dorme?
Dorme quando a gente tá apaixonado. É por isso que a gente não consegue prestar atenção em mais nada quando tá apaixonado.
Hum... então é ruim ficar apaixonado?
Não. Não é ruim. A cabeça presta atenção no que precisa e deixa o coração prestar atenção no que merece.
Então a gente não ama com a cabeça?
Ama também, Júlia. Mas a cabeça a gente controla, o coração não. O coração trabalha sozinho.
Ah, a professora Márcia disse isso uma vez, que o coração tem vontade própria.
Você vai aprender muita coisa na escola ainda, mas nem todas a vida vai colocar em prática.
Você também aprendeu sobre amor na escola?

Um silêncio toma conta do quarto por alguns segundos.
Essa é a hora que a noite começa a guardar coisas na cabeça da Júlia.
A professora Márcia é uma mulher muito boa.
Essa é a hora que o amor começa a guardar coisas no meu coração.

Microconto #654

Eu me apaixonei por uma menina vesga.
Mas ela só tinha olhos pros outros.

Desequilíbrios

Tômas deixou um bilhete em cima da mesa antes de ir embora.
Quando peguei o bilhete na mão o mundo começou a inclinar. O mundo foi inclinando, inclinando, inclinando até minha cabeça encostar no chão.
Eu era vertical antes do seu bilhete, Tômas.
Acho que todo mundo uma vez na vida já teve vontade de deixar um bilhete em cima da mesa e ir embora. A diferença é o tempo que você fica com essa vontade. Às vezes, ela dura alguns segundos, às vezes, ela dura pra sempre.
O amor não é o tanto que você gosta de uma pessoa, mas o tanto que consegue conviver com as coisas que odeia nela. Uma vez, li em algum lugar, que o amor é o ódio na medida certa. Vai ver é isso Tômas, nossa balança quebrou. Nosso amor era uma linha reta, como as linhas da folha do bilhete que você deixou. Vai ver é isso Tômas, a gente desorizontalizou.

Tinha pelo menos uma hora que eu tava no chão quando a porta abriu.
Tômas entrou segurando uma sacola de mercado em cada mão e ficou parado me olhando sem entender o que tava acontecendo. Eu fiquei olhando pro Tômas durante alguns segundos. Então levantei a mão, olhei o bilhete e descobri que “fui no mercado, volto logo”.
Enquanto Tômas guardava as compras, reclamava das minhas loucuras, dizia que não aguentava mais essas crises, não aguentava mais meus desequilíbrios, que um dia ele ia jogar tudo pro alto, ia me largar e fugir.
Foi então que eu comecei a chorar. Tômas parou tudo, me esticou a mão e verticalizou meu mundo. Eu não sei quantos bilhetes de mercado Tômas ainda vai deixar.

Saudade é o espaço que você ocupa quando você não ocupa espaço nenhum

Quando você chegou meus livros perderam audiência.
Toda noite parece que é nossa primeira noite.
É engraçado acordar de manhã e sentir seu cheiro pela casa. É como se a casa não fosse mais minha. É como se eu não mandasse mais na velocidade do ventilador. É como se meu xampu anticaspa tivesse virado anti frizz.
O que você tá fazendo com a minha vida?
Por quê a televisão não me obedece mais?
Por quê agora eu ouço só as suas músicas?
Você trouxe um sol que antes eu não tinha. O que tá acontecendo? O que você tá fazendo?
Eu arrumo a mesa pra dois, mesmo quando você não tá em casa.
Eu compro tudo dobrado.
Eu faço planos que antes não tinha.
Eu vejo o futuro na borra do café, no bafo do banho que fica no espelho. Eu meto o dedo ali e desenho recados e corações e coisas que desaparecem depois que eu saio do banheiro.
Eu escovo os dentes várias vezes por dia porque não sei que horas você vai chegar e já pensou, me beijar e descobrir que eu não comi nada desde ontem pra não perder seu gosto em mim?
Eu esqueço de regar os vasos com flor.
Eu fico olhando os cantos e imaginando o eco da palavra amor.
Vê se não demora hoje.
Tô aqui te esperando.
A saudade é uma péssima companhia.

Conflito a(r)mado

Eu confundo solidão com paz, garota. E a culpa é mais minha do que sua.
Apesar de você ter um pouco de culpa eu não te culpo tanto quanto gostaria.
Eu não te culpo porque tô sempre ocupado tentando não ficar sozinho.
E não me sobra tempo pra te botar culpa.
E sim, isso é mais uma desculpa.

Eu confundo paz com solidão, garota. E a culpa é mais sua do que minha.
Você me deixou sozinho e eu não te acompanho tanto quanto gostaria.
Eu não te acompanho porque vivo tentando achar alguém pra culpar.
E não me sobra tempo pra acompanhar ninguém.
E sim, isso é mais uma solidão.

Eu confundo guerra com multidão, garota.
Eu confundo fome com saudade, garota.
Eu confundo você com outras garotas.
Eu me confundo todo e a culpa eu já não sei mais de quem é.

Você tem o som de um pudim

Se eu ligar o rádio agora, não vai tocar nada que me lembre você. E isso não tem nada a ver com amor, nada a ver com ódio e muito menos a ver com saudade. É pura e simplesmente uma constatação.

Já reparou que a gente nunca teve uma música? Aquela música que quando toca você lembra da pessoa. A gente nunca escreveu uma música também. A gente nunca cantou nada junto, nem cozinhando, nem tomando banho e nem no karaokê. Meu deus, a gente nem sabe tocar um instrumento.

Acho engraçado como a maioria das coisas têm um gosto e um cheiro mas não têm um som. Você é tipo um pudim. Um pudim de leite. Que é gostoso, cheiroso, mas ninguém sabe que tem pudim de sobremesa só pelo som. Por mais que eu goste de pudim, não consigo dizer qual é o som do pudim.

Mas tem som que engana a gente também. Por exemplo, quantas vezes você não ouviu o som da geladeira abrindo e no fim era só gelatina? Se tem um gosto e um cheiro que o amor não tem, é de gelatina. Quando eu era pequeno eu chacoalhava a gelatina perto do ouvido pra ouvir aquele barulhinho molenga. Até som gelatina tem. Até ela tem som. E a gente não tem.

Já coloquei o ouvido na porta pra tentar te ouvir. Já me tranquei dentro do guarda-roupa. Já assisti filme mudo. Já batuquei na caixa de sapato que você deixou. Mas nada. Nenhum som me faz lembrar você.

Update: Dia desses eu tava ouvindo jazz. Nunca fui muito de jazz. Mas dia desses eu tava ouvindo jazz. Achei que talvez tivesse encontrado seu som. Mas descobri que jazz não tem gosto e nem cheiro. Talvez jazz não seja seu som também. Talvez jazz seja o som de alguém que eu ainda não cheirei, sei lá. Dou notícias.

Cuidado, você pode estar sendo romântico demais.

O romantismo é uma arma que o cérebro usa pra nos tornar a pessoa mais apaixonável do mundo. Flores. Presentes. Ligação terça à tarde. Mensagem domingo à noite. Aquela música que não vai pro ouvido, mas direto pro coração. Coisas que só uma pessoa romântica é capaz de fazer o tempo todo.  

Mas, cuidado, você pode estar sendo romântica demais. O romantismo é uma arma que o cérebro usa pra nos colocar como a pessoa ideal. Você fala só o que vai agradar. Você faz só o que vai agradar. Você escreve só o que vai agradar. Você ouve só o que vai agradar. E assim, aos poucos, vai criando uma relação de uma pessoa só. O foco nunca é você, é sempre o outro. Você vai pra lugares que não gosta. Recebe pessoas que não tolera. Come coisas que não está afim. Você mascara sentimentos.  

Cuidado, nós podemos estar sendo românticos demais. Amar alguém não é colocar só amor na relação. Amar alguém é saber equilibrar o gostar com o desgostar. O amor é o ódio na medida certa. Não em excesso. Uma pessoa escolhe estar com você por muitos motivos, mas não porque você é romântico e só. Brigadeiro é bom, mas ninguém comeria brigadeiro o resto da vida.

Apenas cuidado. Se existisse um manual pra relações, provavelmente não estaria escrito: funciona com pilhas de romantismo. Uma das coisas mais importantes em uma relação é a conversa. Tire as barreiras da timidez, do medo, da insegurança, da dependência e fale. Fale tudo sobre você, seus projetos, suas vontades, seus fetiches. Não mascare seus sentimentos atrás de um romantismo desenfreado. Uma relação é feita de conversa. E o que você gosta, é tão importante quanto o que você não gosta.

Microconto #653

A menina da mesa 37 tinha o coração bagunçado.
Por mais que o garçom sorrisse, por mais que a cidade ajudasse, por mais que o sol saísse, a menina da mesa 37 continuava com o coração bagunçado.
Ter o coração bagunçado, é como ter dentro da gente, uma casa fora do lugar. E por isso, ter vergonha de chamar visita. É como não achar as soluções, porque tem pessoas, problemas e expectativas pra todo lado.
A menina sentou na mesa 37, pediu uma cerveja e deixou a vida acontecer ali na calçada. Às vezes, a gente espera as coisas acontecerem. E às vezes, essa é a melhor forma de desbagunçar o coração.
Entre um gole e outro ela pensava na vida. O vidro de casa tava tão sujo que ela não reparava que tava sendo reparada.
O começo da noite, o último gole e uma solução, chegaram quase juntos naquele bar.
A menina da mesa 37 levantou decidida e foi embora com o coração quase arrumado, mas não percebeu que deixou o garçom bagunçado.

Microconto #652

O menino enfim alcançou seus sonhos. Eles tinham o tamanho de bolinhas de gude. Caberiam no bolso o tempo inteiro. Mas a vida não usa calças. Então é mais fácil achar vontades jogadas pela rua e levar na mão. E aí, você leva só o que der pra carregar e deixa cair o que os outros podem pegar. E assim, seus excessos completam faltas.

Microconto #651

A menina pinta as coisas do mundo com a cabeça. Dentro dela as girafas são verdes, as maçãs são laranjas, os pássaros são uva, as árvores azuis, carvão rosa, olhos castanhos vermelhos amarelados. Uma sinestesia daltô-disléxica. Um mundo com mais gosto, mais cor e mais mundo.

Microconto #650

Hoje sonhei com você.
No sonho a gente andava num chão de céu.
Caminhando até a cama.
Eu deitava em seus cabelos mel esperando uma doce noite.
Eu te chamei de meu bem pela manhã.
Mas quando seus olhos abriram fui eu que acordei.
Sonhando sozinho
outra vez.

Microconto #649

O vento faz a curva onde o prédio faz a curva onde os carros fazem a curva onde as pessoas fazem a curva onde a calçada faz a curva onde a esquina é só uma esquina, porque na verdade esquina não faz a curva, ela só segue o caminho dela. Já nasceu torta, pra que a gente possa mudar de caminho. Torto foi o jeito certo dela nascer.

Microconto #648

Quando vi a escada pensei, não quero viajar agora, aqui o café da manhã é quente o suficiente, a saudade é quente insuficiente, os sonhos nem esquentam mais e os pássaros são mudos quando estou com sonho. Vou ficando até desficar.

Microconto #647

O mundo vertiginiza suas escolhas. A menina do gorro verde desiste de pegar o ônibus porque o homem do outro lado da rua esqueceu a carteira. E sem guarda-chuva os problemas caem do céu e molham as decisões. Tudo escorrega das mãos por baixo das luvas.

O peito aponta pra frente. A liberdade é logo ali.

O peito. A ponta do corpo que aponta. Que te julga por julgar o corpo quando aponta. O peito. O peito que já foi mama e agora é teta sem pudor e tenta se salvar em meio a dedos que apontam e hoje julgam o seio sem anseio e com dor. O peito. O peito que faz salivar a boca ingênua de fome é o mesmo, peito, que faz babar a fome cheia de infâmia. O peito. Que nasce, cresce e desamadurece, julgando o seio como o deitar da ofensa, da censura, e, não olha mais, o peito, a mama com ternura. A mulher leva no colo um objeto de ofensa. O peito. Quem olha pensa, por quê essa ponta de fora? Que empina a estima e rebaixa a arte? O bico. Não é o que muitos pensam, o peito, é parte de um todo, do corpo, da arte, da expressão, da liberdade, é parte que a mulher, mãe, moça e menina, acha e faz. O peito. Que aponta, não recrimina, ele aponta e mostra a direção, apenas mira. Em frente. Pra onde a consciência deve seguir, sem olhar pra trás, sem achar que não pode mais. O peito. Censura? Não. Expressão.

Fluidos literários

Tem
um pouco
de você
nos
meus dedos
agora.

Microconto #646

A menina que sempre pega o CEASA perdeu o ônibus hoje. O menino que canta alto com fone no ouvido não pareceu. O cara que sempre segura a porta do elevador não tava lá. A mulher que sempre vai de saia, não foi. O e-mail de spam que sempre chega, não chegou. A mulher que passa meu cartão na hora do almoço, não apareceu. Acho que eu tô sofrendo com falta de mesmices.

Hoje meus pés ficam pra fora de você

Lembra quando a gente foi comprar cama pela primeira vez, que o vendedor disse que espuma era melhor e quando a gente deu a entender que tinha mais dinheiro ele começou a falar bem de mola ensacada e mal do colchão de espuma e a gente ficou rindo na loja porque ele era um péssimo vendedor? Lembra?

Eu tenho um metro e noventa de altura e caber nas coisas sempre foi uma das minhas dificuldades. Só quem tem um metro e noventa de altura sabe quantas vezes precisou voltar na loja pra trocar a camisa do amigo secreto. Só quem tem um metro e noventa de altura sabe quantas vezes o tênis apertou, a calça encolheu, a meia não coube e que a blusa não tinha GG.

Mas, de todos esses problemas, só quem tem um metro e noventa de altura sabe que cama é o mais chato deles. Uma cama não é tão simples de trocar como uma camisa. Eu sempre fiquei pra fora da cama. Meus pés sempre ficaram pra fora. Uma cama tem em média um metro e oitenta e oito de comprimento. Aí você nunca deita exatamente lá em cima por causa do travesseiro, logo, faça uma conta rápido e você sabe que com um metro e noventa de altura eu sempre fiquei pra fora da cama.

Isso foi o que eu disse pra você quando a gente foi comprar cama pela primeira vez, lembra? Aí você disse que não tinha problema que a gente se ama e que ia dormir de conchinha pelo resto da vida e quem dorme de conchinha dorme encolhido juntinho encaixando confiança nas costas do outro.

Engraçado que olhando por esse lado, uma cama é tipo uma pessoa. Você pode não caber nela mas faz de tudo pra caber. Deita encolhido gira o colchão quando afunda inverte o colchão quando doem as coisas mas chega uma hora que não dá mais. E por mais que você tente ou queira você não cabe mais. É como se todo mundo tivesse um metro e noventa de altura e o amor tivesse só um metro e oitenta e oito.

Hoje eu tô dando uma olhada numas camas novas, nuns colchões diferentes, talvez eu compre algo maior, meus pés cansaram um pouco de ficar gelados.

Microconto #645

O dia cinza colocou um sorriso amarelo no rosto rosa da menina de cabelo vermelho.

E assim, sem mais nem menos, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam

Era tudo tão novo e estranho e bom e estranho de novo que demorou pra eu perceber a relação. Depois de mais de 30 anos tentando escrever alguma coisa útil, depois de mais de 30 anos recebendo não de editora, editor, jornal, revista e periódico, depois de mais de 30 anos, encontrar a história certa, é um estado de transe, uma anestesia emocional. 30 anos depois e eu me pego com a história afiada no dedo. Eu sentei, bebi, fumei, escrevi e repeti tudo isso incansavelmente. Foi quando tudo começou. A caneca de café sumiu da minha mesa pela segunda vez. Pensei que era sono e que na verdade eu não tinha colocado a caneca lá nenhuma das vezes. Eu tenho duas canecas iguais, então fui na cozinha e percebi que não tinham mais canecas. No caminho de volta pra máquina de escrever, a cômoda que eu sempre esbarro não estava lá também. Eu olhei em volta meio assustado, olhei o copo de uísque vazio e botei a culpa na bebida e um pouco mais de líquido no copo. Eu ainda não tinha feito a associação de que o desaparecimento das coisas tinha a ver com o livro que surgia. Mas quando eu sentei na cadeira e terminei mais uma página, meu sapato sumiu. Eu praticamente senti acontecer. Depois disso ficou mais fácil entender. Eu comecei a escrever pra ver as coisas sumirem. E assim, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam da minha vida. Foram móveis, roupas, quadros, discos, livros, filmes, sapatos, cama, mesa, relógio. Eu não sabia mais a hora, não sabia mais o dia, esqueci de dormir e comer. Já não tinha mais chuveiro quando lembrei do banho. Mas a sensação de ter uma história, era a coisa mais inebriante que já me aconteceu em toda vida. Eu tive certeza que era pra isso que eu vivi todos esses anos, e certeza de que foi por isso que eu esperei todo esse tempo. Pela casa faltavam coisas e sobravam páginas. Era assustadoramente gratificante. Sumiram gravatas, lâmpadas, copos, talheres, panelas, espelhos e barbeadores. Meu corpo era pêlo, pele, história e osso. O problema é que eu não conseguia parar. Nunca tinha achado a história certa e dessa vez a história certa apareceu. O livro estava ficando lindo. E lindo foi até perto do fim. Eu sabia que estava perto porque olhei em volta e percebi que restava apenas eu, a mesa, a máquina e os papéis. Faltavam poucas linhas pra história acabar. E com as últimas palavras foi embora a mesa. Restava apenas eu, a máquina e as folhas. Faltava apenas o final. E quando a história acabou, a história sumiu. Ficamos eu e máquina, nos olhando, sem nada mais pra falar.

Microconto #644

Gosto quando as mentes querem, mas não se esforçam.
Gosto quando os dedos querem, mas não tocam.
Gosto quando as bocas querem, mas não falam.
Gosto quando os olhos querem, mas não olham.
Gosto quando os corpos querem, mas não se mexem.
Gosto quando as coisas desacontecem, mesmo quando deveriam acontecer.
A imaginação nada mais é do que nossa realidade em potencial.

Microconto #643

Minhas mãos tocam um corpo que não é seu.
Essa boca não tem o seu gosto.
Esses olhos não aprenderam a me ver.
Falta seu cheiro nesse cabelo.
Suas dúvidas não tão nessa cabeça.
Esse coração abriga outra saudade.
Desconheço também essas manias.
Sua voz não está nesse gemido.
Seu suor não tem esse gosto.
E assim sigo tentando.
Só que quanto mais eu te procuro,
mais eu te perco.

Microconto #642

O homem saiu correndo da cidade, passou por estradas, ruas, trilhas e por fim chegou ao campo. Pulou a cerca. Virou um boi e deixou de viver abatido para morrer abatido.

O cesto de roupa suja agora demora mais pra encher

Olho pro lado, vejo a cama vazia e isso não me incomoda.
Minha escova de dente sozinha no banheiro também não é um problema.
Meus tênis não precisam mais dividir espaço.
O guarda-roupa agora tem mais lugar que roupa.
O cinzeiro não fica mais jogado pelos cantos. Na verdade nem tem mais cinzeiro.
Até agora o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Eu posso não fazer café da manhã e isso não deixa de ser romântico.
O sofá tem dois lugares e isso agora é muito lugar pr’uma pessoa só.
As pizzas tão durando uns dois ou três dias.
O sabonete continua acabando na mesma velocidade, o que é curioso.
Só tem um despertador tocando de manhã.
E o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Qualquer música que eu coloco dá pra dançar sozinho.
Tô até achando que tem cadeiras demais na sala.
Descobri que realmente não sei cozinhar e tudo que fiz até hoje foi apenas ser um bom ajudante.
Os potes de palmito nunca foram tão fáceis de abrir.
Não ouço mais o barulho de chave na porta.
As compras no mercado diminuíram consideravelmente.
O cesto de roupa suja ainda não encheu.
A máquina de lavar tem mais dias de folga no mês.
Tem mais coisas em quantidade ímpar do que par.
Não tem mais maquiagem na toalha do banheiro.
Acho que não me importo mais de ouvir só a minha voz pela casa.
A tampa da privada nem sabe mais o que é ser abaixada.
O celular não tem mais senha.
Agora cê me dá licença que o cesto de roupa suja encheu e eu preciso ocupar a cabeça pra continuar achando que não me importo mais com você.

Microconto #641

A Solidariedade vem andando pela rua. Cruza o caminho inteiro com Frios, Ventos e Neves. Não cumprimenta nenhum deles. Atravessa no farol vermelho enquanto uma Pressa buzina de dentro do carro. Uma Raiva reclama do barulho da cidade e uma Impaciência que passa ao lado na mesma hora concorda com um aceno de cabeça. A Solidariedade continua seu caminho. Na porta de uma loja de grife, uma linda Sedução dá bom dia, meio que convidando pra entrar. No fim da rua, pode-se ver uma Fome sentada, balançando uma caneca cheia de Ajudas, aquecida apenas por uma fina camada de Dó. A Solidariedade se aproxima. O barulho da Fome é cada vez maior. A Solidariedade passa direto, ignora a caneca, vira a esquina e morre.

Microconto #640

Já é a quarta meia que desaparece em menos de uma semana.
O problema não é que desaparece o par de meia, o problema é que desaparece uma meia só. O que que eu vou fazer com uma meia só?
Meu terapeuta disse que eu tô escondendo as coisas enquanto durmo, pra testar meu desapego. Deve ser meu inconsciente aplicando algum tipo de teste.
Um amigo disse que devo tá perdendo as meias na balada bêbado, e só percebo que tá faltando quando tô sóbrio.
Minha mãe disse que é pra eu parar de ser mão de vaca e comprar meias novas.
Minha empregada disse que não lava uma meia só, porque dá azar.
Uma menina que eu conheci na internet não disse nada, só parou de falar comigo, deve achar que eu tô maluco.
A mulher da loja de meia disse que foi meu cachorro. O que seria bem possível se eu tivesse cachorro.
Uma vidente disse que pode ser um fantasma comedor de meias. Disse que são raros os casos em que o fantasma age. Mas todas as vezes é pelo mesmo motivo. O fantasma comedor de meias come sempre uma meia só. Pra gente aprender a não viver mais em pares. Pra se acostumar com a solidão.
Fico aqui pensando se minha namorada ainda tivesse por aqui, em qual dessas teorias ela ia acreditar.

Microconto #639

A mulher de manias trocava tudo toda hora. Trocava de roupa, trocava de casa, trocava de emprego, trocava de amor, trocava de carro, trocava de amigos, trocava de caminhos. Só não trocava a mania de trocar. A mania por fim, trocou de mulher.

Microconto #638

As engrenagens dos dedos começaram a funcionar. Lentamente o vapor surgiu nas orelhas do escritor. No cérebro, os pistões subiam e desciam. A vida, enfim, jogou lenha pra queimar.

Microconto #637

O palhaço fugiu do circo levando embora um elefante de algodão doce. Nos olhos da menina começaram a escorrer caramelo. O mágico mexeu na cartola e tirou um leão. A manada de pessoas estourou. A tenda foi ao chão. O espetáculo da tragédia começou.

Microconto #636

Quando papai falou pela primeira vez como o vovô havia morrido, eu pensei que ele tinha esquecido a história no meio da frase. Foi só 7 anos depois que eu descobri que não era problema de memória; era problema de garganta. Quando a gente fala de uma pessoa que não existe mais, a garganta dói, deve ser por isso que a gente para de falar e chora. Hoje de manhã quando eu expliquei pra mamãe a minha teoria, a garganta dela também doeu. A gente tava falando do papai.

Abrem-se as cortinas

Seu Romeu tira o vinil do envelope empoeirado.
Parece um bom dia pra ouvir essa música.



Duas horas antes.

O telefone toca. Seu Romeu corre pra atender.
Não sabe que notícia vai sair do outro lado.
Sente a boca adormecer quando ouve a voz do médico.


Duas horas depois.

A vitrola toca She Loves You.
O quarteto enche a casa de nostalgia.
O velho toma banho, deixa a água cair e o som entrar.
Não ouve o telefone tocar novamente.


Duas horas antes.

O telefone vai pro gancho e ele ainda não sabe qual deve ser a reação.
Ela estava em coma a tanto tempo que ele se preparou pra tudo e,
mesmo estando preparado pra tudo,
não soube como receber a notícia.


Duas horas depois.

Ele se troca.
Escolhe uma roupa em silêncio.
A agulha gira em cima do disco preto,
mas já não acha nenhuma trilha.


Duas horas antes.

Seu Romeu procura os papéis e documentos que precisa levar.
Confunde pressa com nervosismo.


Duas horas depois.

Sai de casa a caminho do hospital.
Não avisou ninguém da família.
O trajeto parece eterno.

Duas horas antes.

São 52 anos de casados.
Sempre teve a sensação de estar bem acompanhado.
A pessoa certa a gente não acha, a gente encaixa,
costumava falar pra todo mundo.


Duas horas depois.

Chega no hospital.
A cara do médico não parece a mesma que deu a notícia mais cedo.
Seu Romeu sente no peito a tragédia.
Sua esposa não resistiu. Ela saiu do coma e minutos depois faleceu.
Tentamos ligar novamente pra avisar.


Duas horas antes.

Saber que Julieta tinha saído do coma
foi a melhor coisa que aconteceu desde que se conheceram.
Desde que casaram.
Desde que tiveram 3 filhos.
Não teve melhores nessa vida melhor do que esse.


Duas horas depois.

Seu Romeu estava preparado pra tudo e,
mesmo estando preparado pra tudo,
não conseguiu beijar a esposa pela última vez.
A cortina da vida fechou pra ele também, ali mesmo,
na recepção do hospital.

16h

Gente chegando, mala saindo; o aeroporto de Congonhas em São Paulo tem mais movimento do que imaginava nesse horário. Luiz segue atrás do motorista até o estacionamento. Um senhor grisalho, aparentemente simpático, que leva sua bagagem com classe, até o carro. Na outra mão, ainda à mostra, a plaquinha que apresentou os dois na área de desembarque, com o nome Luiz Otávio Martins escrito em vermelho.
A multinacional com sede em Minas Gerais, onde Luiz Otávio trabalha, está fechando um acordo de distribuição com uma empresa de São Bernardo. O encontro de hoje a noite vai decidir os rumos de produção do próximo semestre. A viagem à capital paulista é um ponto importante no contrato. São Paulo é um pólo de negócios. Mas também é um ótimo centro gastronômico e o refúgio da Meire, diria a mulher de Luiz.

Meire foi sua primeira esposa. Casados por 11 anos, Luiz Otávio passou por um processo difícil de separação. Meire era amor antigo. Foi ela quem pôs fim na relação. Vera, a atual esposa, acompanhou de fora a degradação do relacionamento. Vera era a terapeuta de Luiz na época. Depois do divórcio, os dois se encontraram uma vez, fora do consultório, por coincidência, na festa de um amigo. Bastaram mais três jantares até a coisa se consolidar. Vera diz que se apaixonou, porque Luiz era um cara totalmente diferente fora do consultório. Luiz diz que se apaixonou, porque Vera era a mesma.
A sintonia do casal era evidente. Os amigos de infância deram muita força pro Luiz. É difícil recomeçar depois dos 40. Luiz sempre foi um cara preso às raízes. Um dos motivos pelo qual não saiu de Minas. Foram muitos os convites da multinacional para gerenciar filiais em outros países. Viagens internacionais nunca preocuparam Vera. Alguns dias, semanas e até uma vez que Luiz ficou dois meses em Istambul não tinham incomodado tanto quanto essa viagem pra São Paulo. Meire mora na cidade desde que romperam; e Luiz descobriu que Vera é uma mulher ciumenta faz mais ou menos uns 15 dias, quando contou sobre a viagem.
Vera é uma mulher forte, organizadora. Academia cinco vezes na semana, comida balanceada, um ritmo de vida que mudou também a rotina de Luiz, que já perdeu mais de 15 quilos desde que estão juntos. A saúde melhorou, o colesterol desceu uns quatro andares; outra vida, Luiz costuma dizer pros amigos. Apesar do jeito impositivo, Luiz acha a esposa frágil. Não entende de onde vem a falta de confiança. Bonita, conservada e inteligente, não são muitas mulheres por aí que concentram qualidades como Vera. Mas Luiz entende a preocupação; ele mesmo tentou se esquivar da viagem.

O carro ainda não saiu do retorno da Bandeirantes. Faz mais de 20 minutos que deixaram o aeroporto. Luiz puxa papo com o motorista. Seu Agnaldo é casado, três filhos, mora num bairro chamado Guainazes, ou algo assim. Ao contrário da primeira impressão, Seu Agnaldo não é muito de papo, responde as perguntas sem entrar em detalhes. Histórico do último trabalho, onde foi dispensado por se envolver demais com os clientes.
Luiz olha pela janela uma cidade que é nova, mas não muito diferente de outras que já passou. Um pouco de cinza, um pouco de sol, um pouco de carro, um pouco de caos. Lembra a Cidade do México em alguns pontos. Nessa hora o celular vibra no bolso da calça social.
“Já em terras paulistanas?”
Luiz sorri e responde, “Hoje o dia está corrido. Preciso preparar a papelada para o jantar. Mas amanhã estou livre.”
O celular vibra de novo.
“Vamos marcar algo. Vou te mostrar um pouco da cidade.”
Pensa um pouco antes de responder. Precisa ter cautela. Sem exageros. Vera vai ficar puta se descobrir que ele chutou a dieta pra escanteio na visita a São Paulo. Mas Luiz se empolga com o convite. Faz tempo que não vê o amigo.
O celular vibra de novo.
“A gente almoça no Estadão. Clássico. Vc vai curtir. Fica com o endereço aí, Viaduto 9 de julho, 193.”

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Esse é um dos contos que faz parte do livro São Paulo - Cidadexpressa que eu escrevi junto com o amigo Mauro Paz. São 48 histórias que se conectam como um plano sequência pela cidade. Esse conto continua aqui e se quiser comprar o livro pra conhecer as outras 46 histórias, ele está a venda aqui.
Espero que gostem do resultado ; )

Microconto #635

De repente, um gato gigante aparece na cidadezinha. Correria e tumultuo assustam os moradores. Após um duro período de buscas, o animal é imobilizado. Uma série de jornalistas mudam a rotina do lugar. Notícias internacionais colocam o vilarejo no foco do mundo. Até o dia em que uma mulher gigante surge pra salvar o gato. O número de mortos aumenta. A mulher é capturada. Um homem gigante aparece pra ajudar. Eles se apaixonam. Os dois têm um filho. As pessoas não param de morrer. A família gigante vai aumentando. O número de pessoas no mundo vai reduzindo drasticamente. Os gigantes começam a dominar todo o planeta. Mais e mais gigantes. Cachorros gigantes, elefantes gigantes, geladeiras gigantes, Coca-Colas gigantes, latas de lixo gigantes, fichas de fliperama gigantes... quando por fim, todas as pessoas deixam de existir. Resta apenas uma Terra de gigantes. Logo, não existe mais tamanhos pra serem comparados. Não existe mais escala. Nem proporção. O gigante agora é o novo normal. E tudo volta a ser como antes.

Microconto #634

Os dois se encontraram atrás da casinha de madeira que os pais de Nicholas tinham montado no jardim. Evelyn levantou o vestido e abaixou a calcinha. Nicholas já tinha ouvido os amigos da 2ª série falarem sobre mulheres peladas mas, ver a Evelyn foi diferente. Ele tocou naquele corpo ainda órfão de pêlos. Mexeu em peitos tão grandes quanto os dele. Ela deu risada, arrumou o vestido e saiu correndo. Nicholas olhou a menina voltar pra caixa de areia, sentiu um negócio diferente em seu pinto e respirou apaixonado. Os anos passaram. Nicholas envelheceu. Suas namoradas não.

Em tempos de dedo na cara eu queria falar um pouco sobre árvores

Esse não é um texto partidário. Também não é um texto reclamando das manifestações. Nem um texto reclamando de você que foi pra rua ou de você que ficou na varanda. Muito menos um texto reclamando de quem escolheu mal nas eleições e resolveu pedir o impeachment ignorando a democracia.

Esse é um texto reclamando de mim. Só isso.

Uma vez, um professor me ensinou uma frase que eu pensei que nunca ia precisar usar. A frase dizia assim "A floresta é verde porque as árvores são verdes.
" O que eu peço é que você reflita pelo menos 10 segundos sobre essa frase tão óbvia antes de continuar a leitura.

Na época, essa frase não mexeu muito comigo, assim como a gente acha que nunca vai usar equação pra comprar pão, sabe? Ou usar química pra falar de seriado na TV, ou entender de física pra comentar futebol. Mas acontece que hoje essa frase ecoou na minha cabeça. Então, deixa eu falar um pouco de árvore.

Eu queria muito na vida nunca ter colado numa prova. Nunca ter roubado chocolate nas Lojas Americanas. Nunca ter passado embaixo da catraca do ônibus. Nunca ter falsificado a carteirinha de estudante. Nunca ter ficado com o troco que veio a mais. Nunca ter tirado vantagem de alguém. Nunca ter sido interesseiro. Nunca ter ignorado uma infração cometida na minha frente.

Mas não. Eu, uma árvore inocente, desde de pequeno, me deixei levar pela brisa da corrupção. O problema ético e moral do país, não está, necessariamente, no congresso. Está dentro de casa. Na frente do meu espelho. Enquanto eu continuar conivente com os meus erros, eu vou ensinar errado, vou permitir que outros errem também e vou votar em quem erra. Simples. A floresta vai continuar verde.

Hoje, analisando friamente, a minha consciência não está limpa pra reclamar da corrupção. Se eu pudesse dar um conselho pra outra árvore verde eu diria: tente melhorar a sua consciência, a do seu filho, a do seu funcionário, a da sua chefe, a do seu porteiro, a do cara que finge dormir no banco preferencial, a do cara que fura fila e a da mulher que para em cima da vaga de idoso. Uma semente de honestidade não faz mal pra ninguém. Muito menos pra mim.

Enfim. Professor, sabe de uma coisa? Eu tenho esperança que a floresta mude de cor ainda. Vai demorar um pouco, eu sei, porque pra isso eu preciso plantar árvores novas. E sabe como é, árvore não cresce de um dia pro outro.

Mesmo assim, obrigado pela metáfora.
Acabei de escrever um adubo.

Microconto #633

Alyson está cagando no banheiro de casa quando começa a pensar sobre o assunto. Não lembra de ter lido em nenhum livro, alguma cena que tivesse um personagem cagando. Acha graça no pensamento. Olha as revistas empilhadas no canto do banheiro, a luz do sol que entra pela janela é intensa. É manhã de sábado. Um cheiro adocicado de café passa por baixo da porta. Alyson acha estranha toda essa definição detalhada do que acontece dentro do banheiro. Ouve um leve som de uma pessoa digitando. Olha curioso pra cima. O teto é branco, um pouco transparente. No canto esquerdo, começam a aparecer letras no ritmo da digitação. Alyson serra os olhos pra enxergar melhor o que acontece. Percebe um vulto através das palavras. Tem a sensação de que uma pessoa gigante está vendo ele cagar nesse exato momento através do teto. É aí que eu paro de escrever. Nada mais acontece no banheiro. Acho que Alyson me viu.

A combinar

A gente podia combinar um café
e no café combinar um almoço
e no almoço combinar um jantar
e quem sabe no jantar
a gente não descobre
que pode se combinar.

Conformitância

Minha poesia é fraca
Mas eu sei porquê.
Nela tem muito de mim
E quase nada de você.

Microconto #632

A menina deu sinal pro taxi. O carro branco parou. Ela abriu a porta, entrou e sentou. Quando a porta bateu, ela não estava mais dentro do carro. Era uma sala branca. Com quadros abstratos na parede, um vaso com flores amarelas no canto e uma tubulação de ar silenciosa. Um frio na barriga como se a vida passasse pela janela dos olhos em alta velocidade. Uma porta abre. De dentro sai um caminhão vestido de enfermeira. Da boca, uma buzina forte. A menina levanta, entra pelo corredor que vai escurecendo, deita na maca. No teto um giroflex vermelho colore o ambiente. Ela abre as pernas, e da própria vagina, cai a si mesma, como um feto, abortado, morto pro futuro.

Microconto #631

Durante o jantar, depois de umas cinco taças de vinho, a gente tava falando alguma coisa engraçada sobre algum filme. Todo mundo ria. Foi quando a Flávia disse – Ele tem a cara torta igual a do seu tio. – A mesa ficou em silêncio por alguns segundos. As pessoas sem graça. A Flávia não percebeu. Virei pra ela e comentei meio sem jeito – Titio teve AVC. – A Flávia tomou mais um gole do vinho, começou a rir de novo e corrigiu – Ele tem a cara de AVC igual a do seu tio.

Microconto #630

Entre a ponte e a rodovia, 39 metros dividia medo e ousadia.
Pulou corajoso.
Morreu covarde.

Microconto #629

O fim de tarde entra pela janela. Pinta de laranja o começo da noite. A chaleira canta o som do café no fogão. Naquele momento o mundo é só isso e nada mais.

Microconto #628

O homem comprou óculos escuros mágicos. Óculos escuros que o deixavam invisível. Passou a roubar bancos, entrar em banheiros femininos, ficar pelado em salas de espera. Anda aprontando poucas e boas no hospício. Acha demais que ninguém o veja.

Microconto #627

Dentro do trem um pai humilde segura seu filho sentado no colo. Os dois de chinelo e roupa puída. Os vagões passam apressados pela beirada da Marginal Pinheiros. Entre o trem e o rio, uma ciclo faixa diverte as pessoas que aproveitam o lazer do final de semana. O pai cutuca o filho, aponta envergonhado pra ciclo faixa e diz baixinho – Tá vendo aquela cerca amarela que separa a pista do rio? Aquela ali que impede que as pessoas caiam na água suja? Aquela cerquinha onde tem gente encostada descansando e aproveitando o sol? Aquela cerca ali, foi o papai que pintou. – O menino sorri. Já sabe o que quer ser quando crescer.

Microconto #626

Pelo vidro da cafeteria o menino olha a mulher. Ele segura a caixa de graxa. Ela segura a xícara de expresso. A mulher oferece um pedaço do bolo e o menino faz sinal que sim com a cabeça. A mulher levanta, paga a conta e sai. O estômago do menino ronca. Ela passa pelo pivete e diz – É só 4 e 50, entra lá e compra.

Microconto #625

Ouvi barulhos estranhos na porta da vizinha nova. Uns gemidos que se repetiam todos os dias. No começo era excitante, mas depois acabei me sentindo inferior. Falei com minha mulher de tomarmos uma atitude. Começamos a meter mais forte. Começamos a fazer mais barulho. Nada de ficar pra trás. Engraçado que nosso sexo melhorou. Os outros vizinhos começaram a olhar estranho pra gente. O nosso barulho também deve ter incomodado o pessoal. Ontem de manhã eu e minha mulher conhecemos a vizinha nova. Ela mora sozinha com um filho deficiente que geme de dor o tempo todo.

Microconto #624

Parado no ponto, o ônibus espera a multidão embarcar. Sentado no sexto banco um garoto com fone de ouvido escuta a trilha sonora da vida que ele assiste pela janela. Uma mulher, excitada, esfrega a perna na dele, levemente, mas o musical leva o prêmio essa noite.

Microconto #623

A velha tenta pela sétima vez passar na porta giratória do banco. Já deixou bolsa, sapato, colares, relógio, carteira, chaves, pulseira e brincos. A velha se irrita, levanta o vestido e deixa os peitos a mostra. Só então o guarda libera a porta que tem trava manual.

Microconto #622

Na rua perto de casa tinha um homem de chapéu. Ele virou com uma arma na mão e disse pra mulher que passava em cima de uma bicicleta – desce que eu quero pedalar. A mulher, assustada, jogou a bicicleta em cima de um velho que, assustado, pulou da calçada pra rua, um motorista, assustado, jogou o carro pra cima de um motoboy que não teve tempo de se assustar.

Heroína

A médica plantonista vem pelo corredor. Vai ficando maior, maior e maior até chegar perto. – Mãe, não tem seringa na enfermaria, vô passar um xarope pra ele – ela diz. É sempre a mesma coisa, no pronto-socorro nunca tem nada. Nessa hora, Graça lembra do serviço. Trabalha há seis anos numa empresa de materiais hospitalares, e seringa quase não falta. Depois do xarope, os dois se acomodam nas cadeiras. Graça olha o relógio na parede branca rachada atrás da recepção do pê-ésse. Duas e quarenta e seis da manhã. Dormem até o primeiro ônibus voltar a circular. É domingo. Ainda bem.

Em casa, Graça limpa, lava e passa tudo o que acumulou da semana. Paulinho dorme. Tosse danada. O dia vai ser longo. Cleber não está em casa pra ajudar. Na verdade, quase nunca está. Trabalha de pê eme e faz biscate de segurança nos dias de folga. Os vizinhos não sabem, ali no Morro da Providência, o emprego não seria bem-vindo. O dia passa e Cleber chega. – Não faz barulho que vai acordar o menino –  explica a mãe. O pai senta no colchonete, acarinha a cabeça do pequeno. De repente tudo embaça. Cleber Chora.

Quatro e meia da manhã. O relógio verde quadrado avisa que a semana recomeça. Graça levanta e prepara o café ralo pra economizar no pó. Cleber aparece na cozinha, sorri e pergunta se o menino acordou a noite tossindo. Paulinho ainda é pequeno pra escola e na creche da prefeitura, Graça não conseguiu vaga, por isso fica na vizinha, que, junto com o aluguel do barraco, a água, a luz, o telefone, o gás, a comida e a loteria, leva todo o dinheiro do casal. Às cinco e dez, descem o morro sentido Central do Brasil. Vão juntos até Madureira, de lá, Graça vai pra Duque de Caxias e Cleber, quarenta e seis minutos pro outro lado. Santa Cruz podia ser mais perto.

No ponto, Graça põe a mão na bolsa pra pegar a condução e acha uma seringa. Lembra do serviço na hora. E do pê-ésse. E da bronquite do menino. Será que tá melhor? Quer ligar do orelhão, mas ainda está cedo, prefere não incomodar. Entra no ônibus espremida e pega lugar pra sentar. Chega atrasada na firma. – O ônibus quebrou – fala. Mentira. Dormiu e perdeu a parada. Lá, ninguém sabe do filho com bronquite, do aluguel e das contas que decoram a porta bamba da geladeira. Ninguém sabe que mora na comunidade.

O dia de Cleber também não está sendo muito bom. Toda vez que o filho fica doente ele se culpa por não ser mais presente, não ter mais dinheiro, não morar melhor, não viver melhor, não ter nada melhor do que queria. – Tiros e perseguição, copiou? – o rádio pergunta. O parceiro de Cleber resmunga, prefere busca e apreensão. A qualidade da administração na secretaria de segurança pública do Rio de Janeiro, ensinou o Boca a gostar de suborno.

O tiroteio não deu em nada. Cleber prefere desse jeito, não está com cabeça hoje. Param na padaria do Antunes pra almoçar. – O de sempre – pedem os dois. O próprio Antunes leva o pê efe. – Ficaram sabendo do Marcão da Golçalvez? – Antunes puxa assunto. Boca diz que não com a cabeça. Apesar do apelido não é muito de papo. – Morreu na festa de noivado, acham que é dívida – continua. Só que Cleber já não ouve mais nada. Noivado. Casamento. Por isso Graça tava desanimada hoje de manhã. Dois anos. Como foi esquecer.

Chegar na própria casa a noite é uma aventura. A viela escura recebe Cleber sem sombra. A bolsa da metalúrgica esconde a farda. Mas hoje chega diferente, chega um pouco mais feliz. Vai faltar no bico amanhã. Pra Graça ainda é surpresa. Paulinho também vai ficar contente quando acordar. A porta range o som do alívio de ter o marido em casa. Cleber abraça a mulher. Coloca a bolsa no chão e beija o filho sem barulho. O marido e o buquê embaçam. Agora é Graça que chora.

No quintal, sob o teto preto do céu, sentam num tijolo baiano. O banco improvisado faz parte do sonho da reforma. Conversam projetos distantes. Ele conta do trabalho. Dos perigos. Da dificuldade de conviver com a corrupção. E do desejo de sair dali, mudar pr’um lugar melhor. Ela não conta sobre seus problemas. Muito menos das  coisas que rouba da empresa. A elite do tráfico de heroína comanda o morro em segredo já faz um tempo, e abastecer os viciados que sabem do marido policial, não é fácil. Lembra do serviço na hora. E do pê-ésse de novo. E da bronquite do menino. Será que tá dormindo?

Lá dentro, entre uma tosse leve e outra, o menino acorda. Acostumado com a falta da mãe, não chora. Não chama. Levanta e vê a bolsa do pai. Feliz, procura doce como foi acostumado a achar. No lugar, um brinquedo novo. Ansioso pela felicidade de Graça, Cleber deixou a mala do jeito que estava quando chegou do serviço. A farda, a cinta, a arma. O menino leva na mão o arrependimento do pai. A janela aberta mostra a cidade carioca brilhando lá embaixo, longe. Ele olha as luzes, mira com ingenuidade e aperta o gatilho, sem fazer ideia do que vai apagar.

Microconto #621

A boca era cega de beleza.
Os olhos, calados de paixão.
O coração nunca ouviu amor.

Microconto #620

Dois ceguinhos sentaram lado a lado no ônibus.
Não se conheciam.
E não se conheceram.

Microconto #619

O ciúmes chegou mais cedo em casa.
A tranquilidade esperava na cama, leve,
depois do regime de consciência.

Microconto #618

A chuva molha o rosto e escorre junto com as lágrimas.
Ela confunde o céu.
Mas não confunde o coração.

Microconto #617

Quando por fim as bocas tocaram, deu pra ouvir a música do amor.

Microconto #616

De repente,
todos os monstros sumiram,
embaixo do cobertor xadrez.

Microconto #615

Seu Miguel fala baixinho pra enfermeira que troca a fralda.
Aqui, no asilo, eu tenho todos os amigos de que não preciso.

Microconto #614

Esqueceu de esquecer dos esquecimentos.
A vida agora é só deslembranças.

Microconto #613

Teve a sensação que alguém chamou seu nome.
Ficou assustada, era a primeira vez que fazia contato com o mundo dos vivos.

Microconto #612

Não media a vida pelo tempo, mas pelo destempo.
Contava tudo pra trás.
Regredindo.
No fim, morreu novo. Cru.
Quase um começo.

Microconto #611

Uma mulher retoca a maquiagem dentro do vagão. Dois bancos pro lado um homem retoca o relacionamento pelo celular. Na próxima estação vai entrar uma senhora sem muita coisa pra retocar.

Microconto #610

A baba cai da boca.
O sol cai no céu.
A alma cai do corpo.
E assim acaba mais uma vida no calendário da Geriatria.

Microconto #609

Os olhos fecharam, os sons sumiram e os pensamentos viajaram mais rápido que o carro desgovernado em direção ao muro.

Microconto #608

De repente, as coisas começaram a subir rápido demais.
A rua, os carros, as pessoas, os postes, o chão.
E em segundos, tudo parecia estar aqui, no vigésimo andar, onde eu estava.
No fim, não sabia se estava morto ou confuso.

Microconto #607

Essa é a hora.
Vem.
Vamos nos encontrar em corpos sedentos, entregar-nos às palavras e, guimarãeziando, inventar sussurros ao pé d’ouvido.

Microconto #606

A bala percorreu uma longa distância até ser encontrada por uma distraída e infantil cabeça.

O Palhaço

O homem que chega na rodoviária, tem o rosto pálido, as roupas descombinadas, o sapato vários números maior que seu pé e uma mala vazia na mão.

Microconto #605

Meu filho nasceu.
Decidi visitar minha mãe, depois de 27 anos. A casa estava do mesmo jeito.
Ela me levou no quintal de terra, depois do almoço, mostrou o velho balanço pendurado no jacarandá e me deu umas sementes de presente. Aquilo plantou em minha cabeça uma árvore de lembranças.

Microconto #604

O policial sempre soltava o bandido que tinha dentro dele.

Natimorto

O destino se perde no tempo.
Não sabe mais o que é passado, presente ou futuro.
E por um erro de conjugação da vida.
O menino nasce morrido.

Microconto #603

O poeta com Parkinson preferiu acreditar que as palavras é que ficaram rebeldes.

Microconto #602

O escritor dramaturgo chorava pelas mãos.

Microconto #601

Queria dar aos pais tudo o que sempre ganhou na infância.
Só que no caso deles, preferia que sangrassem mais.

Microconto #600

O coração desritmado do músico, batia no compasso errado do amor.