Microconto #634

Os dois se encontraram atrás da casinha de madeira que os pais de Nicholas tinham montado no jardim. Evelyn levantou o vestido e abaixou a calcinha. Nicholas já tinha ouvido os amigos da 2ª série falarem sobre mulheres peladas mas, ver a Evelyn foi diferente. Ele tocou naquele corpo ainda órfão de pêlos. Mexeu em peitos tão grandes quanto os dele. Ela deu risada, arrumou o vestido e saiu correndo. Nicholas olhou a menina voltar pra caixa de areia, sentiu um negócio diferente em seu pinto e respirou apaixonado. Os anos passaram. Nicholas envelheceu. Suas namoradas não.

Em tempos de dedo na cara eu queria falar um pouco sobre árvores

Esse não é um texto partidário. Também não é um texto reclamando das manifestações. Nem um texto reclamando de você que foi pra rua ou de você que ficou na varanda. Muito menos um texto reclamando de quem escolheu mal nas eleições e resolveu pedir o impeachment ignorando a democracia.

Esse é um texto reclamando de mim. Só isso.

Uma vez, um professor me ensinou uma frase que eu pensei que nunca ia precisar usar. A frase dizia assim "A floresta é verde porque as árvores são verdes.
" O que eu peço é que você reflita pelo menos 10 segundos sobre essa frase tão óbvia antes de continuar a leitura.

Na época, essa frase não mexeu muito comigo, assim como a gente acha que nunca vai usar equação pra comprar pão, sabe? Ou usar química pra falar de seriado na TV, ou entender de física pra comentar futebol. Mas acontece que hoje essa frase ecoou na minha cabeça. Então, deixa eu falar um pouco de árvore.

Eu queria muito na vida nunca ter colado numa prova. Nunca ter roubado chocolate nas Lojas Americanas. Nunca ter passado embaixo da catraca do ônibus. Nunca ter falsificado a carteirinha de estudante. Nunca ter ficado com o troco que veio a mais. Nunca ter tirado vantagem de alguém. Nunca ter sido interesseiro. Nunca ter ignorado uma infração cometida na minha frente.

Mas não. Eu, uma árvore inocente, desde de pequeno, me deixei levar pela brisa da corrupção. O problema ético e moral do país, não está, necessariamente, no congresso. Está dentro de casa. Na frente do meu espelho. Enquanto eu continuar conivente com os meus erros, eu vou ensinar errado, vou permitir que outros errem também e vou votar em quem erra. Simples. A floresta vai continuar verde.

Hoje, analisando friamente, a minha consciência não está limpa pra reclamar da corrupção. Se eu pudesse dar um conselho pra outra árvore verde eu diria: tente melhorar a sua consciência, a do seu filho, a do seu funcionário, a da sua chefe, a do seu porteiro, a do cara que finge dormir no banco preferencial, a do cara que fura fila e a da mulher que para em cima da vaga de idoso. Uma semente de honestidade não faz mal pra ninguém. Muito menos pra mim.

Enfim. Professor, sabe de uma coisa? Eu tenho esperança que a floresta mude de cor ainda. Vai demorar um pouco, eu sei, porque pra isso eu preciso plantar árvores novas. E sabe como é, árvore não cresce de um dia pro outro.

Mesmo assim, obrigado pela metáfora.
Acabei de escrever um adubo.

Microconto #633

Alyson está cagando no banheiro de casa quando começa a pensar sobre o assunto. Não lembra de ter lido em nenhum livro, alguma cena que tivesse um personagem cagando. Acha graça no pensamento. Olha as revistas empilhadas no canto do banheiro, a luz do sol que entra pela janela é intensa. É manhã de sábado. Um cheiro adocicado de café passa por baixo da porta. Alyson acha estranha toda essa definição detalhada do que acontece dentro do banheiro. Ouve um leve som de uma pessoa digitando. Olha curioso pra cima. O teto é branco, um pouco transparente. No canto esquerdo, começam a aparecer letras no ritmo da digitação. Alyson serra os olhos pra enxergar melhor o que acontece. Percebe um vulto através das palavras. Tem a sensação de que uma pessoa gigante está vendo ele cagar nesse exato momento através do teto. É aí que eu paro de escrever. Nada mais acontece no banheiro. Acho que Alyson me viu.

A combinar

A gente podia combinar um café
e no café combinar um almoço
e no almoço combinar um jantar
e quem sabe no jantar
a gente não descobre
que pode se combinar.

Conformitância

Minha poesia é fraca
Mas eu sei porquê.
Nela tem muito de mim
E quase nada de você.

Microconto #632

A menina deu sinal pro taxi. O carro branco parou. Ela abriu a porta, entrou e sentou. Quando a porta bateu, ela não estava mais dentro do carro. Era uma sala branca. Com quadros abstratos na parede, um vaso com flores amarelas no canto e uma tubulação de ar silenciosa. Um frio na barriga como se a vida passasse pela janela dos olhos em alta velocidade. Uma porta abre. De dentro sai um caminhão vestido de enfermeira. Da boca, uma buzina forte. A menina levanta, entra pelo corredor que vai escurecendo, deita na maca. No teto um giroflex vermelho colore o ambiente. Ela abre as pernas, e da própria vagina, cai a si mesma, como um feto, abortado, morto pro futuro.

Microconto #631

Durante o jantar, depois de umas cinco taças de vinho, a gente tava falando alguma coisa engraçada sobre algum filme. Todo mundo ria. Foi quando a Flávia disse – Ele tem a cara torta igual a do seu tio. – A mesa ficou em silêncio por alguns segundos. As pessoas sem graça. A Flávia não percebeu. Virei pra ela e comentei meio sem jeito – Titio teve AVC. – A Flávia tomou mais um gole do vinho, começou a rir de novo e corrigiu – Ele tem a cara de AVC igual a do seu tio.

Microconto #630

Entre a ponte e a rodovia, 39 metros dividia medo e ousadia.
Pulou corajoso.
Morreu covarde.

Microconto #629

O fim de tarde entra pela janela. Pinta de laranja o começo da noite. A chaleira canta o som do café no fogão. Naquele momento o mundo é só isso e nada mais.

Microconto #628

O homem comprou óculos escuros mágicos. Óculos escuros que o deixavam invisível. Passou a roubar bancos, entrar em banheiros femininos, ficar pelado em salas de espera. Anda aprontando poucas e boas no hospício. Acha demais que ninguém o veja.

Microconto #627

Dentro do trem um pai humilde segura seu filho sentado no colo. Os dois de chinelo e roupa puída. Os vagões passam apressados pela beirada da Marginal Pinheiros. Entre o trem e o rio, uma ciclo faixa diverte as pessoas que aproveitam o lazer do final de semana. O pai cutuca o filho, aponta envergonhado pra ciclo faixa e diz baixinho – Tá vendo aquela cerca amarela que separa a pista do rio? Aquela ali que impede que as pessoas caiam na água suja? Aquela cerquinha onde tem gente encostada descansando e aproveitando o sol? Aquela cerca ali, foi o papai que pintou. – O menino sorri. Já sabe o que quer ser quando crescer.

Microconto #626

Pelo vidro da cafeteria o menino olha a mulher. Ele segura a caixa de graxa. Ela segura a xícara de expresso. A mulher oferece um pedaço do bolo e o menino faz sinal que sim com a cabeça. A mulher levanta, paga a conta e sai. O estômago do menino ronca. Ela passa pelo pivete e diz – É só 4 e 50, entra lá e compra.

Microconto #625

Ouvi barulhos estranhos na porta da vizinha nova. Uns gemidos que se repetiam todos os dias. No começo era excitante, mas depois acabei me sentindo inferior. Falei com minha mulher de tomarmos uma atitude. Começamos a meter mais forte. Começamos a fazer mais barulho. Nada de ficar pra trás. Engraçado que nosso sexo melhorou. Os outros vizinhos começaram a olhar estranho pra gente. O nosso barulho também deve ter incomodado o pessoal. Ontem de manhã eu e minha mulher conhecemos a vizinha nova. Ela mora sozinha com um filho deficiente que geme de dor o tempo todo.

Microconto #624

Parado no ponto, o ônibus espera a multidão embarcar. Sentado no sexto banco um garoto com fone de ouvido escuta a trilha sonora da vida que ele assiste pela janela. Uma mulher, excitada, esfrega a perna na dele, levemente, mas o musical leva o prêmio essa noite.

Microconto #623

A velha tenta pela sétima vez passar na porta giratória do banco. Já deixou bolsa, sapato, colares, relógio, carteira, chaves, pulseira e brincos. A velha se irrita, levanta o vestido e deixa os peitos a mostra. Só então o guarda libera a porta que tem trava manual.

Microconto #622

Na rua perto de casa tinha um homem de chapéu. Ele virou com uma arma na mão e disse pra mulher que passava em cima de uma bicicleta – desce que eu quero pedalar. A mulher, assustada, jogou a bicicleta em cima de um velho que, assustado, pulou da calçada pra rua, um motorista, assustado, jogou o carro pra cima de um motoboy que não teve tempo de se assustar.

Heroína

A médica plantonista vem pelo corredor. Vai ficando maior, maior e maior até chegar perto. – Mãe, não tem seringa na enfermaria, vô passar um xarope pra ele – ela diz. É sempre a mesma coisa, no pronto-socorro nunca tem nada. Nessa hora, Graça lembra do serviço. Trabalha há seis anos numa empresa de materiais hospitalares, e seringa quase não falta. Depois do xarope, os dois se acomodam nas cadeiras. Graça olha o relógio na parede branca rachada atrás da recepção do pê-ésse. Duas e quarenta e seis da manhã. Dormem até o primeiro ônibus voltar a circular. É domingo. Ainda bem.

Em casa, Graça limpa, lava e passa tudo o que acumulou da semana. Paulinho dorme. Tosse danada. O dia vai ser longo. Cleber não está em casa pra ajudar. Na verdade, quase nunca está. Trabalha de pê eme e faz biscate de segurança nos dias de folga. Os vizinhos não sabem, ali no Morro da Providência, o emprego não seria bem-vindo. O dia passa e Cleber chega. – Não faz barulho que vai acordar o menino –  explica a mãe. O pai senta no colchonete, acarinha a cabeça do pequeno. De repente tudo embaça. Cleber Chora.

Quatro e meia da manhã. O relógio verde quadrado avisa que a semana recomeça. Graça levanta e prepara o café ralo pra economizar no pó. Cleber aparece na cozinha, sorri e pergunta se o menino acordou a noite tossindo. Paulinho ainda é pequeno pra escola e na creche da prefeitura, Graça não conseguiu vaga, por isso fica na vizinha, que, junto com o aluguel do barraco, a água, a luz, o telefone, o gás, a comida e a loteria, leva todo o dinheiro do casal. Às cinco e dez, descem o morro sentido Central do Brasil. Vão juntos até Madureira, de lá, Graça vai pra Duque de Caxias e Cleber, quarenta e seis minutos pro outro lado. Santa Cruz podia ser mais perto.

No ponto, Graça põe a mão na bolsa pra pegar a condução e acha uma seringa. Lembra do serviço na hora. E do pê-ésse. E da bronquite do menino. Será que tá melhor? Quer ligar do orelhão, mas ainda está cedo, prefere não incomodar. Entra no ônibus espremida e pega lugar pra sentar. Chega atrasada na firma. – O ônibus quebrou – fala. Mentira. Dormiu e perdeu a parada. Lá, ninguém sabe do filho com bronquite, do aluguel e das contas que decoram a porta bamba da geladeira. Ninguém sabe que mora na comunidade.

O dia de Cleber também não está sendo muito bom. Toda vez que o filho fica doente ele se culpa por não ser mais presente, não ter mais dinheiro, não morar melhor, não viver melhor, não ter nada melhor do que queria. – Tiros e perseguição, copiou? – o rádio pergunta. O parceiro de Cleber resmunga, prefere busca e apreensão. A qualidade da administração na secretaria de segurança pública do Rio de Janeiro, ensinou o Boca a gostar de suborno.

O tiroteio não deu em nada. Cleber prefere desse jeito, não está com cabeça hoje. Param na padaria do Antunes pra almoçar. – O de sempre – pedem os dois. O próprio Antunes leva o pê efe. – Ficaram sabendo do Marcão da Golçalvez? – Antunes puxa assunto. Boca diz que não com a cabeça. Apesar do apelido não é muito de papo. – Morreu na festa de noivado, acham que é dívida – continua. Só que Cleber já não ouve mais nada. Noivado. Casamento. Por isso Graça tava desanimada hoje de manhã. Dois anos. Como foi esquecer.

Chegar na própria casa a noite é uma aventura. A viela escura recebe Cleber sem sombra. A bolsa da metalúrgica esconde a farda. Mas hoje chega diferente, chega um pouco mais feliz. Vai faltar no bico amanhã. Pra Graça ainda é surpresa. Paulinho também vai ficar contente quando acordar. A porta range o som do alívio de ter o marido em casa. Cleber abraça a mulher. Coloca a bolsa no chão e beija o filho sem barulho. O marido e o buquê embaçam. Agora é Graça que chora.

No quintal, sob o teto preto do céu, sentam num tijolo baiano. O banco improvisado faz parte do sonho da reforma. Conversam projetos distantes. Ele conta do trabalho. Dos perigos. Da dificuldade de conviver com a corrupção. E do desejo de sair dali, mudar pr’um lugar melhor. Ela não conta sobre seus problemas. Muito menos das  coisas que rouba da empresa. A elite do tráfico de heroína comanda o morro em segredo já faz um tempo, e abastecer os viciados que sabem do marido policial, não é fácil. Lembra do serviço na hora. E do pê-ésse de novo. E da bronquite do menino. Será que tá dormindo?

Lá dentro, entre uma tosse leve e outra, o menino acorda. Acostumado com a falta da mãe, não chora. Não chama. Levanta e vê a bolsa do pai. Feliz, procura doce como foi acostumado a achar. No lugar, um brinquedo novo. Ansioso pela felicidade de Graça, Cleber deixou a mala do jeito que estava quando chegou do serviço. A farda, a cinta, a arma. O menino leva na mão o arrependimento do pai. A janela aberta mostra a cidade carioca brilhando lá embaixo, longe. Ele olha as luzes, mira com ingenuidade e aperta o gatilho, sem fazer ideia do que vai apagar.

Microconto #621

A boca era cega de beleza.
Os olhos, calados de paixão.
O coração nunca ouviu amor.

Microconto #620

Dois ceguinhos sentaram lado a lado no ônibus.
Não se conheciam.
E não se conheceram.

Microconto #619

O ciúmes chegou mais cedo em casa.
A tranquilidade esperava na cama, leve,
depois do regime de consciência.

Microconto #618

A chuva molha o rosto e escorre junto com as lágrimas.
Ela confunde o céu.
Mas não confunde o coração.

Microconto #617

Quando por fim as bocas tocaram, deu pra ouvir a música do amor.

Microconto #616

De repente,
todos os monstros sumiram,
embaixo do cobertor xadrez.

Microconto #615

Seu Miguel fala baixinho pra enfermeira que troca a fralda.
Aqui, no asilo, eu tenho todos os amigos de que não preciso.

Microconto #614

Esqueceu de esquecer dos esquecimentos.
A vida agora é só deslembranças.

Microconto #613

Teve a sensação que alguém chamou seu nome.
Ficou assustada, era a primeira vez que fazia contato com o mundo dos vivos.

Microconto #612

Não media a vida pelo tempo, mas pelo destempo.
Contava tudo pra trás.
Regredindo.
No fim, morreu novo. Cru.
Quase um começo.

Microconto #611

Uma mulher retoca a maquiagem dentro do vagão. Dois bancos pro lado um homem retoca o relacionamento pelo celular. Na próxima estação vai entrar uma senhora sem muita coisa pra retocar.

Microconto #610

A baba cai da boca.
O sol cai no céu.
A alma cai do corpo.
E assim acaba mais uma vida no calendário da Geriatria.

Microconto #609

Os olhos fecharam, os sons sumiram e os pensamentos viajaram mais rápido que o carro desgovernado em direção ao muro.

Microconto #608

De repente, as coisas começaram a subir rápido demais.
A rua, os carros, as pessoas, os postes, o chão.
E em segundos, tudo parecia estar aqui, no vigésimo andar, onde eu estava.
No fim, não sabia se estava morto ou confuso.

Microconto #607

Essa é a hora.
Vem.
Vamos nos encontrar em corpos sedentos, entregar-nos às palavras e, guimarãeziando, inventar sussurros ao pé d’ouvido.

Microconto #606

A bala percorreu uma longa distância até ser encontrada por uma distraída e infantil cabeça.

O Palhaço

O homem que chega na rodoviária, tem o rosto pálido, as roupas descombinadas, o sapato vários números maior que seu pé e uma mala vazia na mão.

Microconto #605

Meu filho nasceu.
Decidi visitar minha mãe, depois de 27 anos. A casa estava do mesmo jeito.
Ela me levou no quintal de terra, depois do almoço, mostrou o velho balanço pendurado no jacarandá e me deu umas sementes de presente. Aquilo plantou em minha cabeça uma árvore de lembranças.

Microconto #604

O policial sempre soltava o bandido que tinha dentro dele.

Natimorto

O destino se perde no tempo.
Não sabe mais o que é passado, presente ou futuro.
E por um erro de conjugação da vida.
O menino nasce morrido.

Microconto #603

O poeta com Parkinson preferiu acreditar que as palavras é que ficaram rebeldes.

Microconto #602

O escritor dramaturgo chorava pelas mãos.

Microconto #601

Queria dar aos pais tudo o que sempre ganhou na infância.
Só que no caso deles, preferia que sangrassem mais.

Microconto #600

O coração desritmado do músico, batia no compasso errado do amor.

Microconto #599

Chamou os amigos, fez um brinde, puxou a arma e se matou.
Tirando o pai, ninguém ali na sala entendeu o motivo.

Microconto #598

Com um nó de certeza, amarrou a esperança em volta do pescoço, subiu 50 centímetros de confiança e chutou a cadeira de problemas.

Microconto #597

Chegou o dia em que não aconteceram mais desgraças e os super-heróis passaram a jogar xadrez na praça.
Cada um roubando ao seu modo.

Microconto #596

29... 30.
Virou e só encontrou a mãe, que em prantos disse: continua procurando, talvez um dia seu pai resolve aparecer.

Microconto #595

Jurado de morte por todo o bairro, a sorte foi a única que não fez visita na noite do acerto de contas.

Microconto #594

A vista era linda, pena que a queda durou pouco.

Microconto #593

Era conhecido na vida por copiar tudo.
Inclusive, essa história, nem é dele.

Microconto #592

Acordou atrasado, perdeu o ônibus, dormiu no ponto e chegou depois do assalto.
Foi assim que o vigia do turno anterior morreu em seu lugar.

Microconto #591

Entre gritos e sussurros havia gemidos e murros.

Microconto #590

- Que fio eu corto? Perguntou o soldado daltônico.

Microconto #589

A única coisa do dia
que o trabalhador via
era a paisagem embaçada
pelo bafo matinal
no vidro da condução.

Microconto #588

Levou um buquê de plástico pro velório do filho.
A começar pelas rosas, tudo ali eram mentiras.

Microconto #587

Os dois trombaram numa esquina qualquer.
O encontro foi tão forte que fez os corpos grudarem.
Viveram pra sempre como siameses do amor.

Origem/Destino

Ninguém sabe onde começa.
Nem sabe onde termina.
O amor é feito de infinitudes.

Microconto #586

O gosto ficou em sua boca por muito tempo. A sensação foi magnífica.
Aguardaria ansiosamente o dia de poder saborear outra refeição.

Microconto #585

A luz ficou vermelha e mesmo assim ele insistiu em atravessar.
As pernas não obedeceram,
nem antes, nem depois do acidente.

Microconto #584

Se me deixares teu corpo,
nu e branco,
livre para criação,
escrever-te-ia toda,
até o final dos fluidos.

Microconto #583

Fiquei sozinho na sala de espera depois que minha mãe saiu chorando.
Apesar de pequeno ainda lembro bem do médico que não trouxe meu pai de volta.

Microconto #582

A janela trazia uma visão triste, só que era o mais longe que a cadeira de rodas chegava.

Microconto #581

O céu escureceu, as trombetas ganharam frequência e um raio de luz iluminou toda a Terra.
Depois disso não houve mais nada para ser dito.

Microconto #580

A criança senta no beiral e olha os carros passarem lá embaixo. Parecem o Hot Wheels que ganhou de aniversário. A mãozinha esticada no ar.
Semana que vem chega a rede de proteção do apartamento novo.
No sofá, o pai assiste ao jogo. Da cozinha a mãe grita “Amor, o Lucas taí com você?” O pai responde que sim sem tirar os olhos do contra-ataque.
No quinto andar, alguém se assusta com um vulto que passa pela janela e perde o lance do gol.

Microconto #579

Admirava a cama vazia pelo vidro da UTI.
Como era bom saber que o marido não sofria mais.

Microconto #578

Na firma ninguém percebeu, mas o café tava com gosto de tristeza.
Dona Maria, a faxineira, deixou cair no coador, uma lágrima de remorso.

Microconto #577

Queria que ele visse o mundo, saísse daquele coma, levantasse daquela cama e deixasse o branco do hospital pra trás.
17 anos já bastavam.

Microconto #576

- Às vezes tenho impressão que nossa história já tava escrita sabia? Só que toda embaralhada, como se fosse pra ninguém roubar.

Microconto #575

Precisava tocá-la e beijá-la de qualquer jeito; estava ali, calada e tentadora; além disso, a autópsia poderia muito bem esperar.

Microconto #574

Tudo o que trouxe daquela guerra foi a saudade de suas pernas.

Microconto #573

Na favela, imaginando pequenos cometas, a criança fez pedidos em uma ingênua liberdade, ao ver as balas cruzarem o céu noturno.

Microconto #572

O sol coloria o dia com o reflexo nas pipas, enquanto a noite, a lua iluminava sozinha os becos da periferia onde o colorido não existia.

Microconto #571

Com seu talento de menoscabar os textos, reduzia poeticamente os espaços entre os parágrafos e os pontos finais.

Microconto #570

De uma forma estranha, começou a se sentir estranho, e, estranhamente, a estranheza passou a ser normal.

Microconto #569

- E eu vou fazer o quê, sozinha com essa criança?
- Cuidar, ué! Foi você que disse que me amava.

Microconto #568

O casal decidiu não encarar como final.
Nem que a carne trema, nem que a mente gema e nem que os fluidos vazem.
Nunca.
Sem final é melhor.

Microconto #567

Se os pensamentos permitissem diminuir as distâncias,
o aroma dela far-se-ia presente,
e o beijo,
quente,
como nunca fora.

Microconto #566

Gotas ácidas começaram a cair de uma chuva nunca antes vista. Casas, carros e pessoas derreteram, escoando pelo ralo da extinção.

Microconto #565

Não me venha novamente, nua e quente, com o seu jogo de sedução.
Não caio mais nessa.
E se cair, é só mais uma vez.

Microconto #564

No quarto do hotel a luz foi apagada e a cortina aberta. A vista pro mar daria ótimas férias, se o emprego dela não fosse o de arrumadeira.

Microconto #563

O mundo em involução,
deixou Deus sem saber o que fazer,
quando no último dia,
os céus e a Terra deixaram de existir.

Microconto #562

A dupla personalidade não o deixava terminar a biografia.
Um escrevia. O outro apagava.

Microconto #561

Sentou no banco a beira mar. Pensou na velha história de abandonar tudo e vender coco na praia. Justo o sonho mais difícil de realizar. No céu, a fila de pedidos tá enorme.
Do outro lado do calçadão, seu Flávio pensa em largar a barraca e morar na cidade. Mas não acha ninguém pra trocar. Tá todo mundo acomodado na fila do coco, fazendo nada pra mudar.

Microconto #560

Encontrei no velho baú,
roupas órfãs do meu cheiro.

Microconto #559

Na premiação do homem mais impaciente do mundo ninguém esperou o resultado.

Microconto #558

No asilo, os velhinhos só falavam do passado.

Microconto #557

A insônia foi consumindo, um a um, todos os sonhos.

Microconto #556

Negro, e com 89 anos, presenciou a assinatura que aboliu a escravidão.
Foi exatamente a última coisa que viu.
Uma pena.

Microconto #555

Pai e mãe aguardam ansiosos no desembarque o reencontro com a filha depois de 14 anos.

O painel sinaliza o atraso com mais de duas horas.
Seu Firmino vê uma movimentação estranha no saguão do aeroporto. No alto falante, uma voz calma e fria, solicita a todos que aguardam o voo 964, que se dirijam pra sala VIP da companhia.
Dona Cleide aperta a mão do marido e uma lágrima premonitória escorre por todos os cantos dos olhos.

Microconto #554

O mundo desacelera, as coisas ganham cor, os detalhes ganham vida e tudo vira música.
Dois olhos se encontraram numa esquina.

Microconto #553

Num dia contrário a democracia,
quando todos resolveram desobedecer,
a vida foi decrescente.

Degradação

Acendeu outro cigarro, jogou a cerveja no rio e observou a velocidade da lata na correnteza. Reparou também como não dava pra perceber aquele movimento com uma simples olhada. A água parecia um tapete, denso e escuro.

Muitas coisas percorreram sua cabeça enquanto esteve ali parado. Uma delas, é como aqueles caras do jornal sabiam quantos litros de água passavam por segundo num rio. Nunca na vida viu alguém parado na beira d’água contando ou medindo.

Outra coisa que o deixava muito curioso era a questão da poluição. Já tinha visto alguns ecochatos na TV falando sobre o assunto, mas era a primeira vez que conferia de perto. Um cheiro horrível tomava conta da beirada do rio, uma névoa de cor indefinida se confundia com a cerração matinal, e a água, só de olhar dava pra entender o que eles queriam dizer com, diferença de densidade.

Acendeu mais um cigarro e jogou a bituca do antigo também no rio. Só que dessa vez a cabeça não estava lá. Pensava no trabalho. No esforço pra encher as panelas e pra não deixar as contas enfeitarem a porta da geladeira. Pensava nos filhos que queria ter, nas melhores profissões que estavam por vir, na realização dos sonhos de consumo, na reforma, no carro, nas viagens, nas chances e nas terças-feiras chuvosas que preferiu não sair de casa; pensava no cachorro, nos bolinhos de carne, pensava também se aquela era a hora que ele começava a chorar.

Não chorou.

Mas continuou pensando; no amor, no sexo, na família, no vizinho inocente de quem nunca suspeitara, e na mulher, aquela vagabunda sustentada agora pelas pedras no fundo do rio.

Terminou mais um cigarro, virou as costas e torceu pra ser verdade o que falavam todos os ambientalistas, e que, aquele papo de lixo tóxico e água com altos índices de acidez, resolvessem rápido o problema da decomposição.

Microconto #552

Dois corpos acelerados em uma constante e medíocre troca de fluidos.
A única comunicação eram gemidos.
O único carinho era atrito.

Microconto #551

Na manhã seguinte,
junto com o porre,
foi embora a beleza.

Microconto #550

Consumia, aceleradamente, os anos de vida restantes, em maços de 20 unidades.

Microconto #549

Ele cortou a pensão e ela a mangueira de óleo do freio.

Microconto #548

Nossas conversas estão aqui guardadas, numa pasta chamada Naftalina.
E-mails carinhosos, saudosos e sexuais.
Um pouco de passado dentro de um baú virtual.

Abro sempre uma frestinha pra lembrar de ti.

Mas fecho logo. O mofo às vezes faz mal.

Por fim

Foi morrendo devagar, bem devagarinho.
Assim, aos poucos, bem pouquinho.
Um tiquinho só por vez.
Até não sobrar mais nada, nadinha.
Nem saudade.

Microconto #547

A primavera foi embora ontem a noite. Levou a mala cheia e o coração vazio.
Disse que não voltava mais.

Microconto #546

Numa travessa ali na Paulista, num condomínio ali da Bela Cintra, num apartamento ali do 9º andar, amanhece um inverno fora de época.

Microconto #545

Saiu de mansinho pra trabalhar. Era domingo, 5 da manhã e um frio danado lá fora. Preferiu não acordar ninguém. Mas teria dado um beijo nos filhos se soubesse que não ia voltar.

Microconto #544

E num planeta distante,
numa galáxia mais ainda,
a maior guerra atômica estourou.
Aqui na Terra,
além da gangorra,
nada mais mexeu.