E assim, sem mais nem menos, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam

Era tudo tão novo e estranho e bom e estranho de novo que demorou pra eu perceber a relação. Depois de mais de 30 anos tentando escrever alguma coisa útil, depois de mais de 30 anos recebendo não de editora, editor, jornal, revista e periódico, depois de mais de 30 anos, encontrar a história certa, é um estado de transe, uma anestesia emocional. 30 anos depois e eu me pego com a história afiada no dedo. Eu sentei, bebi, fumei, escrevi e repeti tudo isso incansavelmente. Foi quando tudo começou. A caneca de café sumiu da minha mesa pela segunda vez. Pensei que era sono e que na verdade eu não tinha colocado a caneca lá nenhuma das vezes. Eu tenho duas canecas iguais, então fui na cozinha e percebi que não tinham mais canecas. No caminho de volta pra máquina de escrever, a cômoda que eu sempre esbarro não estava lá também. Eu olhei em volta meio assustado, olhei o copo de uísque vazio e botei a culpa na bebida e um pouco mais de líquido no copo. Eu ainda não tinha feito a associação de que o desaparecimento das coisas tinha a ver com o livro que surgia. Mas quando eu sentei na cadeira e terminei mais uma página, meu sapato sumiu. Eu praticamente senti acontecer. Depois disso ficou mais fácil entender. Eu comecei a escrever pra ver as coisas sumirem. E assim, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam da minha vida. Foram móveis, roupas, quadros, discos, livros, filmes, sapatos, cama, mesa, relógio. Eu não sabia mais a hora, não sabia mais o dia, esqueci de dormir e comer. Já não tinha mais chuveiro quando lembrei do banho. Mas a sensação de ter uma história, era a coisa mais inebriante que já me aconteceu em toda vida. Eu tive certeza que era pra isso que eu vivi todos esses anos, e certeza de que foi por isso que eu esperei todo esse tempo. Pela casa faltavam coisas e sobravam páginas. Era assustadoramente gratificante. Sumiram gravatas, lâmpadas, copos, talheres, panelas, espelhos e barbeadores. Meu corpo era pêlo, pele, história e osso. O problema é que eu não conseguia parar. Nunca tinha achado a história certa e dessa vez a história certa apareceu. O livro estava ficando lindo. E lindo foi até perto do fim. Eu sabia que estava perto porque olhei em volta e percebi que restava apenas eu, a mesa, a máquina e os papéis. Faltavam poucas linhas pra história acabar. E com as últimas palavras foi embora a mesa. Restava apenas eu, a máquina e as folhas. Faltava apenas o final. E quando a história acabou, a história sumiu. Ficamos eu e máquina, nos olhando, sem nada mais pra falar.

Microconto #644

Gosto quando as mentes querem, mas não se esforçam.
Gosto quando os dedos querem, mas não tocam.
Gosto quando as bocas querem, mas não falam.
Gosto quando os olhos querem, mas não olham.
Gosto quando os corpos querem, mas não se mexem.
Gosto quando as coisas desacontecem, mesmo quando deveriam acontecer.
A imaginação nada mais é do que nossa realidade em potencial.

Microconto #643

Minhas mãos tocam um corpo que não é seu.
Essa boca não tem o seu gosto.
Esses olhos não aprenderam a me ver.
Falta seu cheiro nesse cabelo.
Suas dúvidas não tão nessa cabeça.
Esse coração abriga outra saudade.
Desconheço também essas manias.
Sua voz não está nesse gemido.
Seu suor não tem esse gosto.
E assim sigo tentando.
Só que quanto mais eu te procuro,
mais eu te perco.

Microconto #642

O homem saiu correndo da cidade, passou por estradas, ruas, trilhas e por fim chegou ao campo. Pulou a cerca. Virou um boi e deixou de viver abatido para morrer abatido.

O cesto de roupa suja agora demora mais pra encher

Olho pro lado, vejo a cama vazia e isso não me incomoda.
Minha escova de dente sozinha no banheiro também não é um problema.
Meus tênis não precisam mais dividir espaço.
O guarda-roupa agora tem mais lugar que roupa.
O cinzeiro não fica mais jogado pelos cantos. Na verdade nem tem mais cinzeiro.
Até agora o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Eu posso não fazer café da manhã e isso não deixa de ser romântico.
O sofá tem dois lugares e isso agora é muito lugar pr’uma pessoa só.
As pizzas tão durando uns dois ou três dias.
O sabonete continua acabando na mesma velocidade, o que é curioso.
Só tem um despertador tocando de manhã.
E o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Qualquer música que eu coloco dá pra dançar sozinho.
Tô até achando que tem cadeiras demais na sala.
Descobri que realmente não sei cozinhar e tudo que fiz até hoje foi apenas ser um bom ajudante.
Os potes de palmito nunca foram tão fáceis de abrir.
Não ouço mais o barulho de chave na porta.
As compras no mercado diminuíram consideravelmente.
O cesto de roupa suja ainda não encheu.
A máquina de lavar tem mais dias de folga no mês.
Tem mais coisas em quantidade ímpar do que par.
Não tem mais maquiagem na toalha do banheiro.
Acho que não me importo mais de ouvir só a minha voz pela casa.
A tampa da privada nem sabe mais o que é ser abaixada.
O celular não tem mais senha.
Agora cê me dá licença que o cesto de roupa suja encheu e eu preciso ocupar a cabeça pra continuar achando que não me importo mais com você.

Microconto #641

A Solidariedade vem andando pela rua. Cruza o caminho inteiro com Frios, Ventos e Neves. Não cumprimenta nenhum deles. Atravessa no farol vermelho enquanto uma Pressa buzina de dentro do carro. Uma Raiva reclama do barulho da cidade e uma Impaciência que passa ao lado na mesma hora concorda com um aceno de cabeça. A Solidariedade continua seu caminho. Na porta de uma loja de grife, uma linda Sedução dá bom dia, meio que convidando pra entrar. No fim da rua, pode-se ver uma Fome sentada, balançando uma caneca cheia de Ajudas, aquecida apenas por uma fina camada de Dó. A Solidariedade se aproxima. O barulho da Fome é cada vez maior. A Solidariedade passa direto, ignora a caneca, vira a esquina e morre.

Microconto #640

Já é a quarta meia que desaparece em menos de uma semana.
O problema não é que desaparece o par de meia, o problema é que desaparece uma meia só. O que que eu vou fazer com uma meia só?
Meu terapeuta disse que eu tô escondendo as coisas enquanto durmo, pra testar meu desapego. Deve ser meu inconsciente aplicando algum tipo de teste.
Um amigo disse que devo tá perdendo as meias na balada bêbado, e só percebo que tá faltando quando tô sóbrio.
Minha mãe disse que é pra eu parar de ser mão de vaca e comprar meias novas.
Minha empregada disse que não lava uma meia só, porque dá azar.
Uma menina que eu conheci na internet não disse nada, só parou de falar comigo, deve achar que eu tô maluco.
A mulher da loja de meia disse que foi meu cachorro. O que seria bem possível se eu tivesse cachorro.
Uma vidente disse que pode ser um fantasma comedor de meias. Disse que são raros os casos em que o fantasma age. Mas todas as vezes é pelo mesmo motivo. O fantasma comedor de meias come sempre uma meia só. Pra gente aprender a não viver mais em pares. Pra se acostumar com a solidão.
Fico aqui pensando se minha namorada ainda tivesse por aqui, em qual dessas teorias ela ia acreditar.

Microconto #639

A mulher de manias trocava tudo toda hora. Trocava de roupa, trocava de casa, trocava de emprego, trocava de amor, trocava de carro, trocava de amigos, trocava de caminhos. Só não trocava a mania de trocar. A mania por fim, trocou de mulher.

Microconto #638

As engrenagens dos dedos começaram a funcionar. Lentamente o vapor surgiu nas orelhas do escritor. No cérebro, os pistões subiam e desciam. A vida, enfim, jogou lenha pra queimar.

Microconto #637

O palhaço fugiu do circo levando embora um elefante de algodão doce. Nos olhos da menina começaram a escorrer caramelo. O mágico mexeu na cartola e tirou um leão. A manada de pessoas estourou. A tenda foi ao chão. O espetáculo da tragédia começou.

Microconto #636

Quando papai falou pela primeira vez como o vovô havia morrido, eu pensei que ele tinha esquecido a história no meio da frase. Foi só 7 anos depois que eu descobri que não era problema de memória; era problema de garganta. Quando a gente fala de uma pessoa que não existe mais, a garganta dói, deve ser por isso que a gente para de falar e chora. Hoje de manhã quando eu expliquei pra mamãe a minha teoria, a garganta dela também doeu. A gente tava falando do papai.

Abrem-se as cortinas

Seu Romeu tira o vinil do envelope empoeirado.
Parece um bom dia pra ouvir essa música.



Duas horas antes.

O telefone toca. Seu Romeu corre pra atender.
Não sabe que notícia vai sair do outro lado.
Sente a boca adormecer quando ouve a voz do médico.


Duas horas depois.

A vitrola toca She Loves You.
O quarteto enche a casa de nostalgia.
O velho toma banho, deixa a água cair e o som entrar.
Não ouve o telefone tocar novamente.


Duas horas antes.

O telefone vai pro gancho e ele ainda não sabe qual deve ser a reação.
Ela estava em coma a tanto tempo que ele se preparou pra tudo e,
mesmo estando preparado pra tudo,
não soube como receber a notícia.


Duas horas depois.

Ele se troca.
Escolhe uma roupa em silêncio.
A agulha gira em cima do disco preto,
mas já não acha nenhuma trilha.


Duas horas antes.

Seu Romeu procura os papéis e documentos que precisa levar.
Confunde pressa com nervosismo.


Duas horas depois.

Sai de casa a caminho do hospital.
Não avisou ninguém da família.
O trajeto parece eterno.

Duas horas antes.

São 52 anos de casados.
Sempre teve a sensação de estar bem acompanhado.
A pessoa certa a gente não acha, a gente encaixa,
costumava falar pra todo mundo.


Duas horas depois.

Chega no hospital.
A cara do médico não parece a mesma que deu a notícia mais cedo.
Seu Romeu sente no peito a tragédia.
Sua esposa não resistiu. Ela saiu do coma e minutos depois faleceu.
Tentamos ligar novamente pra avisar.


Duas horas antes.

Saber que Julieta tinha saído do coma
foi a melhor coisa que aconteceu desde que se conheceram.
Desde que casaram.
Desde que tiveram 3 filhos.
Não teve melhores nessa vida melhor do que esse.


Duas horas depois.

Seu Romeu estava preparado pra tudo e,
mesmo estando preparado pra tudo,
não conseguiu beijar a esposa pela última vez.
A cortina da vida fechou pra ele também, ali mesmo,
na recepção do hospital.

16h

Gente chegando, mala saindo; o aeroporto de Congonhas em São Paulo tem mais movimento do que imaginava nesse horário. Luiz segue atrás do motorista até o estacionamento. Um senhor grisalho, aparentemente simpático, que leva sua bagagem com classe, até o carro. Na outra mão, ainda à mostra, a plaquinha que apresentou os dois na área de desembarque, com o nome Luiz Otávio Martins escrito em vermelho.
A multinacional com sede em Minas Gerais, onde Luiz Otávio trabalha, está fechando um acordo de distribuição com uma empresa de São Bernardo. O encontro de hoje a noite vai decidir os rumos de produção do próximo semestre. A viagem à capital paulista é um ponto importante no contrato. São Paulo é um pólo de negócios. Mas também é um ótimo centro gastronômico e o refúgio da Meire, diria a mulher de Luiz.

Meire foi sua primeira esposa. Casados por 11 anos, Luiz Otávio passou por um processo difícil de separação. Meire era amor antigo. Foi ela quem pôs fim na relação. Vera, a atual esposa, acompanhou de fora a degradação do relacionamento. Vera era a terapeuta de Luiz na época. Depois do divórcio, os dois se encontraram uma vez, fora do consultório, por coincidência, na festa de um amigo. Bastaram mais três jantares até a coisa se consolidar. Vera diz que se apaixonou, porque Luiz era um cara totalmente diferente fora do consultório. Luiz diz que se apaixonou, porque Vera era a mesma.
A sintonia do casal era evidente. Os amigos de infância deram muita força pro Luiz. É difícil recomeçar depois dos 40. Luiz sempre foi um cara preso às raízes. Um dos motivos pelo qual não saiu de Minas. Foram muitos os convites da multinacional para gerenciar filiais em outros países. Viagens internacionais nunca preocuparam Vera. Alguns dias, semanas e até uma vez que Luiz ficou dois meses em Istambul não tinham incomodado tanto quanto essa viagem pra São Paulo. Meire mora na cidade desde que romperam; e Luiz descobriu que Vera é uma mulher ciumenta faz mais ou menos uns 15 dias, quando contou sobre a viagem.
Vera é uma mulher forte, organizadora. Academia cinco vezes na semana, comida balanceada, um ritmo de vida que mudou também a rotina de Luiz, que já perdeu mais de 15 quilos desde que estão juntos. A saúde melhorou, o colesterol desceu uns quatro andares; outra vida, Luiz costuma dizer pros amigos. Apesar do jeito impositivo, Luiz acha a esposa frágil. Não entende de onde vem a falta de confiança. Bonita, conservada e inteligente, não são muitas mulheres por aí que concentram qualidades como Vera. Mas Luiz entende a preocupação; ele mesmo tentou se esquivar da viagem.

O carro ainda não saiu do retorno da Bandeirantes. Faz mais de 20 minutos que deixaram o aeroporto. Luiz puxa papo com o motorista. Seu Agnaldo é casado, três filhos, mora num bairro chamado Guainazes, ou algo assim. Ao contrário da primeira impressão, Seu Agnaldo não é muito de papo, responde as perguntas sem entrar em detalhes. Histórico do último trabalho, onde foi dispensado por se envolver demais com os clientes.
Luiz olha pela janela uma cidade que é nova, mas não muito diferente de outras que já passou. Um pouco de cinza, um pouco de sol, um pouco de carro, um pouco de caos. Lembra a Cidade do México em alguns pontos. Nessa hora o celular vibra no bolso da calça social.
“Já em terras paulistanas?”
Luiz sorri e responde, “Hoje o dia está corrido. Preciso preparar a papelada para o jantar. Mas amanhã estou livre.”
O celular vibra de novo.
“Vamos marcar algo. Vou te mostrar um pouco da cidade.”
Pensa um pouco antes de responder. Precisa ter cautela. Sem exageros. Vera vai ficar puta se descobrir que ele chutou a dieta pra escanteio na visita a São Paulo. Mas Luiz se empolga com o convite. Faz tempo que não vê o amigo.
O celular vibra de novo.
“A gente almoça no Estadão. Clássico. Vc vai curtir. Fica com o endereço aí, Viaduto 9 de julho, 193.”

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Esse é um dos contos que faz parte do livro São Paulo - Cidadexpressa que eu escrevi junto com o amigo Mauro Paz. São 48 histórias que se conectam como um plano sequência pela cidade. Esse conto continua aqui e se quiser comprar o livro pra conhecer as outras 46 histórias, ele está a venda aqui.
Espero que gostem do resultado ; )

Microconto #635

De repente, um gato gigante aparece na cidadezinha. Correria e tumultuo assustam os moradores. Após um duro período de buscas, o animal é imobilizado. Uma série de jornalistas mudam a rotina do lugar. Notícias internacionais colocam o vilarejo no foco do mundo. Até o dia em que uma mulher gigante surge pra salvar o gato. O número de mortos aumenta. A mulher é capturada. Um homem gigante aparece pra ajudar. Eles se apaixonam. Os dois têm um filho. As pessoas não param de morrer. A família gigante vai aumentando. O número de pessoas no mundo vai reduzindo drasticamente. Os gigantes começam a dominar todo o planeta. Mais e mais gigantes. Cachorros gigantes, elefantes gigantes, geladeiras gigantes, Coca-Colas gigantes, latas de lixo gigantes, fichas de fliperama gigantes... quando por fim, todas as pessoas deixam de existir. Resta apenas uma Terra de gigantes. Logo, não existe mais tamanhos pra serem comparados. Não existe mais escala. Nem proporção. O gigante agora é o novo normal. E tudo volta a ser como antes.

Microconto #634

Os dois se encontraram atrás da casinha de madeira que os pais de Nicholas tinham montado no jardim. Evelyn levantou o vestido e abaixou a calcinha. Nicholas já tinha ouvido os amigos da 2ª série falarem sobre mulheres peladas mas, ver a Evelyn foi diferente. Ele tocou naquele corpo ainda órfão de pêlos. Mexeu em peitos tão grandes quanto os dele. Ela deu risada, arrumou o vestido e saiu correndo. Nicholas olhou a menina voltar pra caixa de areia, sentiu um negócio diferente em seu pinto e respirou apaixonado. Os anos passaram. Nicholas envelheceu. Suas namoradas não.

Em tempos de dedo na cara eu queria falar um pouco sobre árvores

Esse não é um texto partidário. Também não é um texto reclamando das manifestações. Nem um texto reclamando de você que foi pra rua ou de você que ficou na varanda. Muito menos um texto reclamando de quem escolheu mal nas eleições e resolveu pedir o impeachment ignorando a democracia.

Esse é um texto reclamando de mim. Só isso.

Uma vez, um professor me ensinou uma frase que eu pensei que nunca ia precisar usar. A frase dizia assim "A floresta é verde porque as árvores são verdes.
" O que eu peço é que você reflita pelo menos 10 segundos sobre essa frase tão óbvia antes de continuar a leitura.

Na época, essa frase não mexeu muito comigo, assim como a gente acha que nunca vai usar equação pra comprar pão, sabe? Ou usar química pra falar de seriado na TV, ou entender de física pra comentar futebol. Mas acontece que hoje essa frase ecoou na minha cabeça. Então, deixa eu falar um pouco de árvore.

Eu queria muito na vida nunca ter colado numa prova. Nunca ter roubado chocolate nas Lojas Americanas. Nunca ter passado embaixo da catraca do ônibus. Nunca ter falsificado a carteirinha de estudante. Nunca ter ficado com o troco que veio a mais. Nunca ter tirado vantagem de alguém. Nunca ter sido interesseiro. Nunca ter ignorado uma infração cometida na minha frente.

Mas não. Eu, uma árvore inocente, desde de pequeno, me deixei levar pela brisa da corrupção. O problema ético e moral do país, não está, necessariamente, no congresso. Está dentro de casa. Na frente do meu espelho. Enquanto eu continuar conivente com os meus erros, eu vou ensinar errado, vou permitir que outros errem também e vou votar em quem erra. Simples. A floresta vai continuar verde.

Hoje, analisando friamente, a minha consciência não está limpa pra reclamar da corrupção. Se eu pudesse dar um conselho pra outra árvore verde eu diria: tente melhorar a sua consciência, a do seu filho, a do seu funcionário, a da sua chefe, a do seu porteiro, a do cara que finge dormir no banco preferencial, a do cara que fura fila e a da mulher que para em cima da vaga de idoso. Uma semente de honestidade não faz mal pra ninguém. Muito menos pra mim.

Enfim. Professor, sabe de uma coisa? Eu tenho esperança que a floresta mude de cor ainda. Vai demorar um pouco, eu sei, porque pra isso eu preciso plantar árvores novas. E sabe como é, árvore não cresce de um dia pro outro.

Mesmo assim, obrigado pela metáfora.
Acabei de escrever um adubo.

Microconto #633

Alyson está cagando no banheiro de casa quando começa a pensar sobre o assunto. Não lembra de ter lido em nenhum livro, alguma cena que tivesse um personagem cagando. Acha graça no pensamento. Olha as revistas empilhadas no canto do banheiro, a luz do sol que entra pela janela é intensa. É manhã de sábado. Um cheiro adocicado de café passa por baixo da porta. Alyson acha estranha toda essa definição detalhada do que acontece dentro do banheiro. Ouve um leve som de uma pessoa digitando. Olha curioso pra cima. O teto é branco, um pouco transparente. No canto esquerdo, começam a aparecer letras no ritmo da digitação. Alyson serra os olhos pra enxergar melhor o que acontece. Percebe um vulto através das palavras. Tem a sensação de que uma pessoa gigante está vendo ele cagar nesse exato momento através do teto. É aí que eu paro de escrever. Nada mais acontece no banheiro. Acho que Alyson me viu.

A combinar

A gente podia combinar um café
e no café combinar um almoço
e no almoço combinar um jantar
e quem sabe no jantar
a gente não descobre
que pode se combinar.

Conformitância

Minha poesia é fraca
Mas eu sei porquê.
Nela tem muito de mim
E quase nada de você.

Microconto #632

A menina deu sinal pro taxi. O carro branco parou. Ela abriu a porta, entrou e sentou. Quando a porta bateu, ela não estava mais dentro do carro. Era uma sala branca. Com quadros abstratos na parede, um vaso com flores amarelas no canto e uma tubulação de ar silenciosa. Um frio na barriga como se a vida passasse pela janela dos olhos em alta velocidade. Uma porta abre. De dentro sai um caminhão vestido de enfermeira. Da boca, uma buzina forte. A menina levanta, entra pelo corredor que vai escurecendo, deita na maca. No teto um giroflex vermelho colore o ambiente. Ela abre as pernas, e da própria vagina, cai a si mesma, como um feto, abortado, morto pro futuro.

Microconto #631

Durante o jantar, depois de umas cinco taças de vinho, a gente tava falando alguma coisa engraçada sobre algum filme. Todo mundo ria. Foi quando a Flávia disse – Ele tem a cara torta igual a do seu tio. – A mesa ficou em silêncio por alguns segundos. As pessoas sem graça. A Flávia não percebeu. Virei pra ela e comentei meio sem jeito – Titio teve AVC. – A Flávia tomou mais um gole do vinho, começou a rir de novo e corrigiu – Ele tem a cara de AVC igual a do seu tio.

Microconto #630

Entre a ponte e a rodovia, 39 metros dividia medo e ousadia.
Pulou corajoso.
Morreu covarde.

Microconto #629

O fim de tarde entra pela janela. Pinta de laranja o começo da noite. A chaleira canta o som do café no fogão. Naquele momento o mundo é só isso e nada mais.

Microconto #628

O homem comprou óculos escuros mágicos. Óculos escuros que o deixavam invisível. Passou a roubar bancos, entrar em banheiros femininos, ficar pelado em salas de espera. Anda aprontando poucas e boas no hospício. Acha demais que ninguém o veja.

Microconto #627

Dentro do trem um pai humilde segura seu filho sentado no colo. Os dois de chinelo e roupa puída. Os vagões passam apressados pela beirada da Marginal Pinheiros. Entre o trem e o rio, uma ciclo faixa diverte as pessoas que aproveitam o lazer do final de semana. O pai cutuca o filho, aponta envergonhado pra ciclo faixa e diz baixinho – Tá vendo aquela cerca amarela que separa a pista do rio? Aquela ali que impede que as pessoas caiam na água suja? Aquela cerquinha onde tem gente encostada descansando e aproveitando o sol? Aquela cerca ali, foi o papai que pintou. – O menino sorri. Já sabe o que quer ser quando crescer.

Microconto #626

Pelo vidro da cafeteria o menino olha a mulher. Ele segura a caixa de graxa. Ela segura a xícara de expresso. A mulher oferece um pedaço do bolo e o menino faz sinal que sim com a cabeça. A mulher levanta, paga a conta e sai. O estômago do menino ronca. Ela passa pelo pivete e diz – É só 4 e 50, entra lá e compra.

Microconto #625

Ouvi barulhos estranhos na porta da vizinha nova. Uns gemidos que se repetiam todos os dias. No começo era excitante, mas depois acabei me sentindo inferior. Falei com minha mulher de tomarmos uma atitude. Começamos a meter mais forte. Começamos a fazer mais barulho. Nada de ficar pra trás. Engraçado que nosso sexo melhorou. Os outros vizinhos começaram a olhar estranho pra gente. O nosso barulho também deve ter incomodado o pessoal. Ontem de manhã eu e minha mulher conhecemos a vizinha nova. Ela mora sozinha com um filho deficiente que geme de dor o tempo todo.

Microconto #624

Parado no ponto, o ônibus espera a multidão embarcar. Sentado no sexto banco um garoto com fone de ouvido escuta a trilha sonora da vida que ele assiste pela janela. Uma mulher, excitada, esfrega a perna na dele, levemente, mas o musical leva o prêmio essa noite.

Microconto #623

A velha tenta pela sétima vez passar na porta giratória do banco. Já deixou bolsa, sapato, colares, relógio, carteira, chaves, pulseira e brincos. A velha se irrita, levanta o vestido e deixa os peitos a mostra. Só então o guarda libera a porta que tem trava manual.

Microconto #622

Na rua perto de casa tinha um homem de chapéu. Ele virou com uma arma na mão e disse pra mulher que passava em cima de uma bicicleta – desce que eu quero pedalar. A mulher, assustada, jogou a bicicleta em cima de um velho que, assustado, pulou da calçada pra rua, um motorista, assustado, jogou o carro pra cima de um motoboy que não teve tempo de se assustar.

Heroína

A médica plantonista vem pelo corredor. Vai ficando maior, maior e maior até chegar perto. – Mãe, não tem seringa na enfermaria, vô passar um xarope pra ele – ela diz. É sempre a mesma coisa, no pronto-socorro nunca tem nada. Nessa hora, Graça lembra do serviço. Trabalha há seis anos numa empresa de materiais hospitalares, e seringa quase não falta. Depois do xarope, os dois se acomodam nas cadeiras. Graça olha o relógio na parede branca rachada atrás da recepção do pê-ésse. Duas e quarenta e seis da manhã. Dormem até o primeiro ônibus voltar a circular. É domingo. Ainda bem.

Em casa, Graça limpa, lava e passa tudo o que acumulou da semana. Paulinho dorme. Tosse danada. O dia vai ser longo. Cleber não está em casa pra ajudar. Na verdade, quase nunca está. Trabalha de pê eme e faz biscate de segurança nos dias de folga. Os vizinhos não sabem, ali no Morro da Providência, o emprego não seria bem-vindo. O dia passa e Cleber chega. – Não faz barulho que vai acordar o menino –  explica a mãe. O pai senta no colchonete, acarinha a cabeça do pequeno. De repente tudo embaça. Cleber Chora.

Quatro e meia da manhã. O relógio verde quadrado avisa que a semana recomeça. Graça levanta e prepara o café ralo pra economizar no pó. Cleber aparece na cozinha, sorri e pergunta se o menino acordou a noite tossindo. Paulinho ainda é pequeno pra escola e na creche da prefeitura, Graça não conseguiu vaga, por isso fica na vizinha, que, junto com o aluguel do barraco, a água, a luz, o telefone, o gás, a comida e a loteria, leva todo o dinheiro do casal. Às cinco e dez, descem o morro sentido Central do Brasil. Vão juntos até Madureira, de lá, Graça vai pra Duque de Caxias e Cleber, quarenta e seis minutos pro outro lado. Santa Cruz podia ser mais perto.

No ponto, Graça põe a mão na bolsa pra pegar a condução e acha uma seringa. Lembra do serviço na hora. E do pê-ésse. E da bronquite do menino. Será que tá melhor? Quer ligar do orelhão, mas ainda está cedo, prefere não incomodar. Entra no ônibus espremida e pega lugar pra sentar. Chega atrasada na firma. – O ônibus quebrou – fala. Mentira. Dormiu e perdeu a parada. Lá, ninguém sabe do filho com bronquite, do aluguel e das contas que decoram a porta bamba da geladeira. Ninguém sabe que mora na comunidade.

O dia de Cleber também não está sendo muito bom. Toda vez que o filho fica doente ele se culpa por não ser mais presente, não ter mais dinheiro, não morar melhor, não viver melhor, não ter nada melhor do que queria. – Tiros e perseguição, copiou? – o rádio pergunta. O parceiro de Cleber resmunga, prefere busca e apreensão. A qualidade da administração na secretaria de segurança pública do Rio de Janeiro, ensinou o Boca a gostar de suborno.

O tiroteio não deu em nada. Cleber prefere desse jeito, não está com cabeça hoje. Param na padaria do Antunes pra almoçar. – O de sempre – pedem os dois. O próprio Antunes leva o pê efe. – Ficaram sabendo do Marcão da Golçalvez? – Antunes puxa assunto. Boca diz que não com a cabeça. Apesar do apelido não é muito de papo. – Morreu na festa de noivado, acham que é dívida – continua. Só que Cleber já não ouve mais nada. Noivado. Casamento. Por isso Graça tava desanimada hoje de manhã. Dois anos. Como foi esquecer.

Chegar na própria casa a noite é uma aventura. A viela escura recebe Cleber sem sombra. A bolsa da metalúrgica esconde a farda. Mas hoje chega diferente, chega um pouco mais feliz. Vai faltar no bico amanhã. Pra Graça ainda é surpresa. Paulinho também vai ficar contente quando acordar. A porta range o som do alívio de ter o marido em casa. Cleber abraça a mulher. Coloca a bolsa no chão e beija o filho sem barulho. O marido e o buquê embaçam. Agora é Graça que chora.

No quintal, sob o teto preto do céu, sentam num tijolo baiano. O banco improvisado faz parte do sonho da reforma. Conversam projetos distantes. Ele conta do trabalho. Dos perigos. Da dificuldade de conviver com a corrupção. E do desejo de sair dali, mudar pr’um lugar melhor. Ela não conta sobre seus problemas. Muito menos das  coisas que rouba da empresa. A elite do tráfico de heroína comanda o morro em segredo já faz um tempo, e abastecer os viciados que sabem do marido policial, não é fácil. Lembra do serviço na hora. E do pê-ésse de novo. E da bronquite do menino. Será que tá dormindo?

Lá dentro, entre uma tosse leve e outra, o menino acorda. Acostumado com a falta da mãe, não chora. Não chama. Levanta e vê a bolsa do pai. Feliz, procura doce como foi acostumado a achar. No lugar, um brinquedo novo. Ansioso pela felicidade de Graça, Cleber deixou a mala do jeito que estava quando chegou do serviço. A farda, a cinta, a arma. O menino leva na mão o arrependimento do pai. A janela aberta mostra a cidade carioca brilhando lá embaixo, longe. Ele olha as luzes, mira com ingenuidade e aperta o gatilho, sem fazer ideia do que vai apagar.

Microconto #621

A boca era cega de beleza.
Os olhos, calados de paixão.
O coração nunca ouviu amor.

Microconto #620

Dois ceguinhos sentaram lado a lado no ônibus.
Não se conheciam.
E não se conheceram.

Microconto #619

O ciúmes chegou mais cedo em casa.
A tranquilidade esperava na cama, leve,
depois do regime de consciência.

Microconto #618

A chuva molha o rosto e escorre junto com as lágrimas.
Ela confunde o céu.
Mas não confunde o coração.

Microconto #617

Quando por fim as bocas tocaram, deu pra ouvir a música do amor.

Microconto #616

De repente,
todos os monstros sumiram,
embaixo do cobertor xadrez.

Microconto #615

Seu Miguel fala baixinho pra enfermeira que troca a fralda.
Aqui, no asilo, eu tenho todos os amigos de que não preciso.

Microconto #614

Esqueceu de esquecer dos esquecimentos.
A vida agora é só deslembranças.

Microconto #613

Teve a sensação que alguém chamou seu nome.
Ficou assustada, era a primeira vez que fazia contato com o mundo dos vivos.

Microconto #612

Não media a vida pelo tempo, mas pelo destempo.
Contava tudo pra trás.
Regredindo.
No fim, morreu novo. Cru.
Quase um começo.

Microconto #611

Uma mulher retoca a maquiagem dentro do vagão. Dois bancos pro lado um homem retoca o relacionamento pelo celular. Na próxima estação vai entrar uma senhora sem muita coisa pra retocar.

Microconto #610

A baba cai da boca.
O sol cai no céu.
A alma cai do corpo.
E assim acaba mais uma vida no calendário da Geriatria.

Microconto #609

Os olhos fecharam, os sons sumiram e os pensamentos viajaram mais rápido que o carro desgovernado em direção ao muro.

Microconto #608

De repente, as coisas começaram a subir rápido demais.
A rua, os carros, as pessoas, os postes, o chão.
E em segundos, tudo parecia estar aqui, no vigésimo andar, onde eu estava.
No fim, não sabia se estava morto ou confuso.

Microconto #607

Essa é a hora.
Vem.
Vamos nos encontrar em corpos sedentos, entregar-nos às palavras e, guimarãeziando, inventar sussurros ao pé d’ouvido.

Microconto #606

A bala percorreu uma longa distância até ser encontrada por uma distraída e infantil cabeça.

O Palhaço

O homem que chega na rodoviária, tem o rosto pálido, as roupas descombinadas, o sapato vários números maior que seu pé e uma mala vazia na mão.

Microconto #605

Meu filho nasceu.
Decidi visitar minha mãe, depois de 27 anos. A casa estava do mesmo jeito.
Ela me levou no quintal de terra, depois do almoço, mostrou o velho balanço pendurado no jacarandá e me deu umas sementes de presente. Aquilo plantou em minha cabeça uma árvore de lembranças.

Microconto #604

O policial sempre soltava o bandido que tinha dentro dele.

Natimorto

O destino se perde no tempo.
Não sabe mais o que é passado, presente ou futuro.
E por um erro de conjugação da vida.
O menino nasce morrido.

Microconto #603

O poeta com Parkinson preferiu acreditar que as palavras é que ficaram rebeldes.

Microconto #602

O escritor dramaturgo chorava pelas mãos.

Microconto #601

Queria dar aos pais tudo o que sempre ganhou na infância.
Só que no caso deles, preferia que sangrassem mais.

Microconto #600

O coração desritmado do músico, batia no compasso errado do amor.

Microconto #599

Chamou os amigos, fez um brinde, puxou a arma e se matou.
Tirando o pai, ninguém ali na sala entendeu o motivo.

Microconto #598

Com um nó de certeza, amarrou a esperança em volta do pescoço, subiu 50 centímetros de confiança e chutou a cadeira de problemas.

Microconto #597

Chegou o dia em que não aconteceram mais desgraças e os super-heróis passaram a jogar xadrez na praça.
Cada um roubando ao seu modo.

Microconto #596

29... 30.
Virou e só encontrou a mãe, que em prantos disse: continua procurando, talvez um dia seu pai resolve aparecer.

Microconto #595

Jurado de morte por todo o bairro, a sorte foi a única que não fez visita na noite do acerto de contas.

Microconto #594

A vista era linda, pena que a queda durou pouco.

Microconto #593

Era conhecido na vida por copiar tudo.
Inclusive, essa história, nem é dele.

Microconto #592

Acordou atrasado, perdeu o ônibus, dormiu no ponto e chegou depois do assalto.
Foi assim que o vigia do turno anterior morreu em seu lugar.

Microconto #591

Entre gritos e sussurros havia gemidos e murros.

Microconto #590

- Que fio eu corto? Perguntou o soldado daltônico.

Microconto #589

A única coisa do dia
que o trabalhador via
era a paisagem embaçada
pelo bafo matinal
no vidro da condução.

Microconto #588

Levou um buquê de plástico pro velório do filho.
A começar pelas rosas, tudo ali eram mentiras.

Microconto #587

Os dois trombaram numa esquina qualquer.
O encontro foi tão forte que fez os corpos grudarem.
Viveram pra sempre como siameses do amor.

Origem/Destino

Ninguém sabe onde começa.
Nem sabe onde termina.
O amor é feito de infinitudes.

Microconto #586

O gosto ficou em sua boca por muito tempo. A sensação foi magnífica.
Aguardaria ansiosamente o dia de poder saborear outra refeição.

Microconto #585

A luz ficou vermelha e mesmo assim ele insistiu em atravessar.
As pernas não obedeceram,
nem antes, nem depois do acidente.

Microconto #584

Se me deixares teu corpo,
nu e branco,
livre para criação,
escrever-te-ia toda,
até o final dos fluidos.

Microconto #583

Fiquei sozinho na sala de espera depois que minha mãe saiu chorando.
Apesar de pequeno ainda lembro bem do médico que não trouxe meu pai de volta.

Microconto #582

A janela trazia uma visão triste, só que era o mais longe que a cadeira de rodas chegava.

Microconto #581

O céu escureceu, as trombetas ganharam frequência e um raio de luz iluminou toda a Terra.
Depois disso não houve mais nada para ser dito.

Microconto #580

A criança senta no beiral e olha os carros passarem lá embaixo. Parecem o Hot Wheels que ganhou de aniversário. A mãozinha esticada no ar.
Semana que vem chega a rede de proteção do apartamento novo.
No sofá, o pai assiste ao jogo. Da cozinha a mãe grita “Amor, o Lucas taí com você?” O pai responde que sim sem tirar os olhos do contra-ataque.
No quinto andar, alguém se assusta com um vulto que passa pela janela e perde o lance do gol.

Microconto #579

Admirava a cama vazia pelo vidro da UTI.
Como era bom saber que o marido não sofria mais.

Microconto #578

Na firma ninguém percebeu, mas o café tava com gosto de tristeza.
Dona Maria, a faxineira, deixou cair no coador, uma lágrima de remorso.

Microconto #577

Queria que ele visse o mundo, saísse daquele coma, levantasse daquela cama e deixasse o branco do hospital pra trás.
17 anos já bastavam.

Microconto #576

- Às vezes tenho impressão que nossa história já tava escrita sabia? Só que toda embaralhada, como se fosse pra ninguém roubar.

Microconto #575

Precisava tocá-la e beijá-la de qualquer jeito; estava ali, calada e tentadora; além disso, a autópsia poderia muito bem esperar.

Microconto #574

Tudo o que trouxe daquela guerra foi a saudade de suas pernas.

Microconto #573

Na favela, imaginando pequenos cometas, a criança fez pedidos em uma ingênua liberdade, ao ver as balas cruzarem o céu noturno.

Microconto #572

O sol coloria o dia com o reflexo nas pipas, enquanto a noite, a lua iluminava sozinha os becos da periferia onde o colorido não existia.

Microconto #571

Com seu talento de menoscabar os textos, reduzia poeticamente os espaços entre os parágrafos e os pontos finais.

Microconto #570

De uma forma estranha, começou a se sentir estranho, e, estranhamente, a estranheza passou a ser normal.

Microconto #569

- E eu vou fazer o quê, sozinha com essa criança?
- Cuidar, ué! Foi você que disse que me amava.

Microconto #568

O casal decidiu não encarar como final.
Nem que a carne trema, nem que a mente gema e nem que os fluidos vazem.
Nunca.
Sem final é melhor.

Microconto #567

Se os pensamentos permitissem diminuir as distâncias,
o aroma dela far-se-ia presente,
e o beijo,
quente,
como nunca fora.

Microconto #566

Gotas ácidas começaram a cair de uma chuva nunca antes vista. Casas, carros e pessoas derreteram, escoando pelo ralo da extinção.

Microconto #565

Não me venha novamente, nua e quente, com o seu jogo de sedução.
Não caio mais nessa.
E se cair, é só mais uma vez.

Microconto #564

No quarto do hotel a luz foi apagada e a cortina aberta. A vista pro mar daria ótimas férias, se o emprego dela não fosse o de arrumadeira.

Microconto #563

O mundo em involução,
deixou Deus sem saber o que fazer,
quando no último dia,
os céus e a Terra deixaram de existir.

Microconto #562

A dupla personalidade não o deixava terminar a biografia.
Um escrevia. O outro apagava.

Microconto #561

Sentou no banco a beira mar. Pensou na velha história de abandonar tudo e vender coco na praia. Justo o sonho mais difícil de realizar. No céu, a fila de pedidos tá enorme.
Do outro lado do calçadão, seu Flávio pensa em largar a barraca e morar na cidade. Mas não acha ninguém pra trocar. Tá todo mundo acomodado na fila do coco, fazendo nada pra mudar.

Microconto #560

Encontrei no velho baú,
roupas órfãs do meu cheiro.

Microconto #559

Na premiação do homem mais impaciente do mundo ninguém esperou o resultado.

Microconto #558

No asilo, os velhinhos só falavam do passado.

Microconto #557

A insônia foi consumindo, um a um, todos os sonhos.

Microconto #556

Negro, e com 89 anos, presenciou a assinatura que aboliu a escravidão.
Foi exatamente a última coisa que viu.
Uma pena.