quanto mais eu menos eu

tenho acordado diferente já tem um tempo. 
sinto que minhas vontades ainda estão aqui
mas o desânimo que me desperta não é meu.
olho pra minha mão e não reconheço meus gestos
nunca fiz tão pouca coisa assim.
olho pra minha cara e não reconheço essa tristeza.
sei que nunca fui muito de sorrir 
mas o coração já foi mais alegre.
divido os dias em personalidades.
não bebo como antes
não falo como antes
não saio como antes
parei até de conhecer novos lugares e novas pessoas.
já troquei de cabelo várias vezes
não sei mais o que são as mesmas roupas.
tenho saudade de outros cidadãos que já fui.
tenho passaporte e identidade diferentes
não me reconheço em espelhos
reflexos
e reflexões.
escrevo sob o pseudônimo de um cara amargo
apago sob o nome de um cara desiludido
tento de novo sob a visão de alguém sem esperança.
sou esquizofrênico surdo
mudo
e desamado.
por ora paro por aqui
mesmo querendo escrever além.

depois da luta o luto

quando a dor vai embora
sobram pratos e prantos quebrados.
da janela vejo a sirene mudar de som enquanto se afasta
estica as ondas e a dor
prolongando a tragédia.
quando uma ambulância passa sempre me pergunto quando vou ouvir de dentro.
tenta não parecer sirene
mas não engana ninguém.
é sirene.
leva com ela um corpo e um copo de esperança
meio vazios.
o sangue seca na calçada.
murcham plantas em casa
não cuido nem de mim.
o luto é companheiro.
quando o preto chega nos olhos
a vida escurece.
o chão é gelado.
apesar do corpo ainda quente
sinto frio.
a próxima ambulância é minha.
poucos sonhos a gente consegue realizar.

você roubou meu coração numa noite de muita chuva.

eu passava por uma estrada deserta.
vontades furadas.
sem amores estepes.
parei e deixei cair sobre mim
todas as lágrimas do mundo.
quando percebi
a beira da rodo-
via
você
chegar a(r)mada.
um tiro seco na alma
minha carcaça é toda sua.
mas antes da bala chegar
só deu tempo de avisar
eu tô vazio
largado sem nada
fique a vontade pra encher
antes de repovoar.

caro vinho caro

na tevê não passa nada.
armário e geladeira e coração
tudo vazio.
já tô cheio disso.
tomo mais um gole do vinho
e a única coisa que molha
é o chão com as gotas
que pingam.
de mim e da taça.
como é difícil segurar isso 
quando se chora soluçando.
a tristeza vale muito mais
que o vinho.
e olha que o vinho custou muito mais
que muita coisa aqui em casa.
que barato é a vida.

dez minutos atrás

eu costumava pensar que a vida duraria mais.
eu costumava gostar mais das coisas
das pessoas e dos animais.
eu costumava ter mais saudade
ter mais amigos
e inimigos.
a vida não para de existir
quando as coisas boas param.
a vida para de existir 
quando até as coisas ruins param também.
a vida para.
o desacontecimento é o pior dos acontecimentos.
o nada
é o máximo que o tudo pode chegar.
até pensar eu costumava mais.
hoje não me acostumo a mais nada.
é ruim quando você perde o acostumar.
é ruim quando você não tem mais nada a perder.
essa é a hora.

esta é uma obra de ficção

meu personagem sou eu.
por mais que invente nomes
por mais que mude datas
o que conto é só meu
vívido e vivido.
escrevo salgado sobre doces sensações inéditas.
antena de tristezas
o papel.
conto histórias de saudade em primeira pessoa.
meu narrador é onisciente
onipresente
e impotente.
não muda passado.
assim como não consegue mexer no presente.
e se futuro existisse
seria imutável
também.
nada se mexe nessa vida.
estátuas de sonhos.
sou narrador-personagem-protagonista-testemunha ocular
cegamente certo que só eu olho por mim.
peço dinheiro na rua
passo por mim anestesiado.
limpo minhas próprias desgraças.
sigo ganancioso de sofrimentos.
minha única qualidade
nessa vida
é reconhecer todos os meus
problemas.

nunca sei se um sorriso é onde começa ou onde termina uma tristeza.

olho pra boca das pessoas e não vejo
sinais
nem nos olhos
nem nas mãos
nem no coração.
nem tudo que tá dentro da gente
sai.
guardar é mais que uma reação
natural.
a gente se fecha pro mundo
quando não abre nem mais um sorriso.
é incrível o poder que nossa boca tem
e não usa.
olho pro lençol
um
dois
três
sete fios de cabelo.
nosso corpo já se livra de tanta coisa.
porque algumas ainda tão aqui?
na tevê
a moça sorri
e dá um beijo ali onde confunde a intenção.
nunca sei se é o fim da bochecha
ou o começo da boca.
tanta coisa acaba antes de começar.

a rua mais bonita que já vi não leva a lugar nenhum.

a vida em mão dupla
faz a gente passar pelas decisões
numa velocidade alta demais
cê não acha?
nossos sonhos vivem em rotatórias
complicadas de sair.
a rua mais bonita que já vi
é mais bonita
que rua.
tem placas limpas e vazias
pessoas arrumadas e perdidas
umas árvores lindas no canteiro central
que distraem a gente
pra não prestar atenção no caminho.
essas estradas da vida andam cheias de distração.
eu sigo sem ultrapassar limites
mas também sem andar lento demais.
e mesmo sem nem saber muito bem o que tô fazendo da minha vida
de vez em quando
eu ainda pego o retorno mais próximo.
me diz
pra quê?

iminências

tem um mendigo deitado perto da entrada do metrô. ele tá coberto com restos de um cartaz das manifestações de ontem. da outra vez que a gente veio não tava tão frio. e não tinha protesto também. santiago mudou muito desde a última vez que estivemos aqui. pra falar a verdade, o mundo mudou bastante desde quando a gente chegou. tudo anda tão sensível e inflamado. a gente olha pras pessoas na rua e vê uma briga iminente, um desemprego iminente, um assassinato iminente, uma ofensa iminente. é ruim ter que viver cheio de dedos, sendo que a gente nem tem tanta coisa pra segurar ultimamente. nessa hora você pega minha mão. somos só nós dois andando pelas ruas geladas num domingo de manhã. santiago deve tá olhando pra gente agora e pensando, eles mudaram tanto desde a última vez.

já viu como cabem mais lágrimas num bilhete do que num livro inteiro?

escrevi num papel velho
um verso qualquer sobre saudade
guardei a folha na gaveta
vazia de coisas suas
e vou esperar
se amanhã ainda fizer sentido
a gaveta 
mesmo com uma coisa só
vai estar cheia de você de novo.

o calor da saudade faz os olhos suarem.

a cidade acordou cinza.
eu
azul.
as novidades nem sempre vêm
com o sol.
já viu como cabem mais lágrimas
num bilhete
do que num livro?
não pego mais o mesmo caminho
apesar de querer
chegar no mesmo lugar.
você já me levou embora
de mim.
quando olho da rua
me vejo oco
no reflexo da janela
da casa vazia.
não tenho nada pra colocar na mala.
espero o dia escurecer.
me despeço
claramente
avermelhado.
minha vida é tudo aquilo que
desacontece
antes e depois de você fechar a porta.

não tenho nada a dizer

não vou escrever poema
nem carta
nem declaração.
no momento nada me agrada.
mas também nada desagrada
a ponto de botar na ponta do lápis.
não sinto saudades
não tenho rancores.
meus olhos estão secos
minha garganta também anda seca
será que é o tempo
sem escrever?
não tenho nada a dizer
e mesmo assim
já o disse.

tudo que ela encosta vira saudade

simples assim.
a foto tá lá na gaveta
faz tempo
sem fazer mal nenhum
foi só achar
que o papel virou água salgada.
tinha uma camiseta perdida dentro do armário
foi ela cheirar
que o pano virou saudade.
como pode um perfume durar tanto tempo?
os presentes e lembranças pela casa que não foram pro lixo
ainda
foi ela encontrar
que tudo começou a escorrer na cara.
no rádio tá tocando uma música muito particular
foi desligar
e desatou a chorar.
ela não tem nome
ou prefere não falar
sofrer é ainda mais triste quando sabem que ela
pode ser você 
não é?

adubo a tristeza em silêncio

o que nasce hoje em mim
não é cor.
é casa sem fruteira
carnaval sem tinta.
o que bate no meu peito 
é couro rasgado
de tambor apanhado
na rua.
é música no mudo.
é mundo sem rotação.
parado
o carro abandonado
enferruja destinos
e sonhos.
o alaranjar dos dias
me anoitece
gra
da
ti
va
e mente.
de fora não se vê
mas de dentro verão
inverno.
sou chão infértil. 
já escrevi isso antes
e nada mudou.
ódio é uma flor pertinente
mato
danado
não morre.

trabalhadores sem brasil

oxalá a gente trabalhe menos
pra pagar o que quer mais
oxalá.
o menino veio aqui com latinha de moeda na mão
visse?
pedindo pão
mas não tinha moeda não
veio só cá latinha.
que também é metal
mas um dia alguém disse
que vale menos
só porque não tem rosto de gente importante
nem monumento nem construção.
vai saber quantas latinhas
precisa pegar na rua pra fazer moeda.
essas coisas não ensinam na escola não
que é pra gente não saber como faz dinheiro.
já pensou que coisa louca
se toda coca-cola aqui na venda 
fosse virar moeda pro pão?
quantas cocas ia custar o café da manhã 
na casa do filho de tonhão?
ei
aponte esse dedo pra cá não
visse?
que aqui ninguém é ladrão.
ainda me lembro bem
que o único vício lá em casa era comida.
todo mundo queria comer
todo dia
já imaginou?
baita desespero
já vi até meu pai vender tevê
pra comprar feijão.
eta vício danado de se ter.

do viaduto sumaré dá pra ver o céu

pulei.
pulei e flutuei.
logo eu.
pena.
pulei com um sorriso aberto
no rosto.
sorrisos são ótimos
pra segurar a gente
vivo.
só descobri depois
de pular.
pena.
deixei sobre a ponte
problemas.
deixei sob a ponte
carruagem.
flutuei.
flutuei até um lugar branco.
bonito.
cheio de simpatia e luz.
era pra ser o céu.
pena.

Parece alzheimer, mas é saudade

É domingo.
De novo.
Arranco a folha do calendário na parede da cozinha.
Embaixo é domingo de novo.
Tudo que fiz ontem tá pra refazer. A louça. O lixo. A roupa. As contas. Acordei com o mesmo sono. Com a mesma fome. E inclusive, sem a mesma vontade.
Como é difícil ser a gente mesmo duas vezes na mesma vida.
O cachorro traz a bolinha suja de terra. Olho no relógio e é a mesma hora de ontem. Se não me engano a chaleira vai começar a apitar em instantes. A nuvem vai liberar o sol e um feixe de luz vai entrar pela janela. Clareando a cozinha. Mas não vai esquentar. Grãos de poeira vão dançar dentro da luz. O telefone vai tocar umas sete vezes até eu chegar na sala. Vou atender com a mão e o coração apertados. Do outro lado uma voz cheia dúvida não sabe se fala ou soluça.
Vovô morreu.
Não vou ouvir mais nada. Em parte porque eu não consigo, em parte porque eu não quero. Mesmo sabendo que isso vai acontecer de novo, não estarei preparado. O dia de hoje nunca mais vai sair da minha cabeça. 
Vou correr até a cozinha, levantar a folha do calendário, amanhã é domingo de novo. Perder vovô uma vez, é perder vovô todos os dias.
Essa é a hora que vai começar a chover.

coração ambulante

acordo na grama com o policial
me chamando pro céu
o uniforme cheira cansaço.
o sol é mais quente que sua coberta
já pensou numa coisa dessas?
levanto ainda sonhando
com o dia que a gente se conheceu.
tem um adesivo na placa da rua
tem um e.t. em cima de um pedestre
será que os animais acham que aviões vieram
do espaço?
já passei em frente de casa três vezes
não entro em lugar vazio
prometi pra mim mesmo
não sei como ainda tô no meu coração.
carrego a mala cheia
o peso das pessoas que passam
na vida da gente
não se compara ao peso da gente na vida
das pessoas.
meu reflexo no vidro da cafeteria segue
pro lado contrário.
tem gente descendo a escada rolante do metrô
eu taria subindo
voltando pra casa
pra te achar
maldito reflexo da mentirosa cafeteria
meu mundo não vai pra frente
nem quando vai pra frente.

sem título

não acredito em numerologia.
nem em santo que promete
e não cumpre. não
acredito nos maias
nos incas
no zodíaco
no horóscopo chinês.
não me importo com rato
cavalo
cachorro.
bicho
nem no bicho eu jogo.
na lua eu não boto fé.
não me venha com oxum
iemanjá
ave maria acreditar
em superstição.
não tenho sorte nem pra ter
azar
o meu
não ter no que me segurar.
que deus abençoe
as pessoas
que acreditam em deus.
não confio em terapia
psicologia
e psiquiatria.
nunca li freud
nem parei pra ouvir monge
falar. hare cristinas
que me perdoem
mas ufologia pra mim
é tudo igual.
só acredito no coração
e olhe lá
que mesmo assim
nesses dias azuis
cheios de cinzas
voando por aí
anda muito difícil
acredita?

o amor dói tanto quanto o desamor

gostar de alguém muda sua vida
muda seu jeito
muda suas escolhas 
te molda.
ficar sozinho muda sua vida
igual.
quando você se acostuma
seja de um lado
ou do outro
não
novamente não
tudo já não é o que você planejou
tá tudo mudado.
mas por mais que a vida mude
suas escolhas são suas
as dos outros 
não.
depois do não
todo resto é assédio
de vida
de coisas
de sonhos.
tira a mão daí
de mim
deixa meu coração de saia curta
levo minha bunda pra onde quero
sento num banco qualquer
te espero
te inspiro
e te expiro.
é engraçado como
o mesmo ar que dá vida
também pode matar.

o terremoto de fora parecia tanto com o terremoto de dentro

o copo tremia
e de repente a casa inteira tremia.
tudo tremia.
as cadeiras tremiam.
o suco escorria na mão.
as portas do armário batiam
os talheres dançavam em cima da mesa
e as panelas protestavam sozinhas na pia.
o retrato da família caiu virado pra cima
e o rachado no vidro separou as pessoas
que a vida já tinha separado.
pobre rachado
atrasado.
a janela chacoalhava.
a porta batia
mas não era ninguém.
o terremoto de fora
parecia tanto com o terremoto de dentro.
as plantas balançavam penduradas na varanda.
não sabiam o que era vento
ou desastre.
infeliz tragédia é a alienação.
aos poucos
assim
bem devagar
o silêncio foi voltando.
ao longe só alarmes de carros.
a cidade em parkinson
deixou pra trás dor
tristeza
e destruição.
o terremoto de fora
parecia tanto com o terremoto de dentro.

sem título


muita coisa
passou a ser mais difícil
recentemente.
não só as graves
mas de pouca gravidade
também.
tudo tem sido mais complicado
de lidar
entender
ou resolver.
e a culpa não é da coisa
sabe?
a culpa é da gravidade
que não se importa muito
com o peso das coisas
e segue puxando pra baixo
do mesmo jeito
problemas diferentes.
todo poço tem um fundo.
e isso
talvez
seja o jeito mais reconfortante
no momento 
de lidar com a queda livre.

o que pintam sobre o amor, no fundo, não é um quadro tão bonito assim

não tem muito espaço
pra você
neste espaço que é meu.
na verdade
não tem muito espaço
nem pra mim
neste espaço que não é seu.
já recebi visitas.
já passei calor
e já passei frio aqui dentro.
a vista parece bonita
de fora.
mas você não faz ideia
do cheiro de mofo.
tem o conforto de uma cama.
que pouca gente já deitou.
e esse pouco inclui você.
acham que esse pedaço
está me enlouquecendo.
loucos são
os que acham que isso é possível.
quando fico aqui
nada me faz mal.
já tentei sair.
tentei olhar o mundo.
só que sem chave
meu peito é minha prisão.
meu coração hoje
parece um quarto de Van Gogh.
feio e vazio.

R3L4C10N4M3NT05 M0D3RN05

— desliga e vem.
— se liga, se eu desligar, quem vai te botar pilha?
— amor é à bateria.
— por isso mesmo, um dia acaba.
— amor é renovável, baby. reciclável. remontável. eu paguei por você e pelo seu amor, minha boneca.
— por que anda tão frio?
— sou feito de um novo material, à prova de remorsos.
— onde cê guardou meu coração?
— na gaveta.
— pra que cê precisa dele?
— não sou eu que preciso, é você que não precisa.
— aonde você vai?
— fui vendido de novo. tem alguma cama por aí com espaço demais nesse momento.
— volta logo. o estoque fica vazio demais sem você.

apesar de bonito o arco-íris nada mais é que um sorriso invertido.

no metrô
a propaganda do dentista sorri pra mim.
penso
quantos sorrisos eu vi
nos últimos dias?
uma vez ouvi
que a gente mexe
mais músculos sorrindo
do que chorando.
mas já ouvi
o contrário também.
essas coisas de felicidade
vêm só pra confundir.
me pergunto quanto tempo ainda
o sorriso vai existir.
se as desgraças andam aumentando
rápido demais.
tem dias que acho mais fácil
chorar.
nada parece feio
quando tá embaçado.
ando na rua querendo encontrar
pessoas boas.
mas o que é a caridade
senão
a gente usando a felicidade do outro
pra suprir nossa felicidade?
sorrir é muito mais falso que fácil
pra mim. quando você também
descobrir
onde vão parar o sorrisos no fim?
será que há esperança na próxima esquina?
viro à direita
um lugar cheio de flores
esculturas
pinturas na parede
a atendente
séria me olha nos olhos
me taca o pedido na mesa.
em silêncio
sento.
olho pra baixo
vejo um sorriso se formar
na espuma do café.
será?
mas não é.
já voltou a ser só

café.

vaso bom quebra

se tem uma certeza que sempre tive na vida foi a morte.
vejo os meninos brincando de esconde-esconde na rua.
talvez eles se achem.
talvez não.
vejo o casal que namora no banco da praça.
talvez eles se casem.
talvez não.
vejo a pomba me olhar no beiral da janela.
talvez ela voe.
talvez não.
a vida é cheia de talvezes em cada certeza.
vejo mamãe na cama.
a morte não é talvez.
a morte vem chegando
ora chega gritando avisando que tá aqui
ora chega de mansinho
pé ante pé
no ritmo da respiração que vem acabando.
ouço um barulho estranho
viro rápido pra dentro do quarto
esbarro na estante
vejo o vaso cair em câmera lenta
talvez ele quebre.
talvez não.
em cima da cama 

não tem mais nenhum talvez.

quantos poemas já não morreram por felicidade?

bem-me-quer. 
morre uma flor. 
bem-me-quer. 
morre outra flor.
apesar de bonito
o amor é fúnebre. 
existe mais saudade no cemitério
do que na minha cama.
eu deito 
a noite deita
e ninguém mais deita.
sonho solitário.
bem-me-quer. 
morre mais uma flor.
a natureza pouco se importa pro meu ciclo. 
a vida fora de mim segue.
o mar
com toda sua bravura
não obedece ninguém
a não ser a lua
já disse uma vez eduardo galeano.
quantas coisas a gente já não matou
por amor?
quantos amores a natureza já não matou
por rotina?
malmequer.

minha barriga não enche na mesma velocidade do meu coração

aprendi com meu pai que os farelos
de pão do café da manhã
não podem ficar na mesa até a hora do almoço.
toda refeição tem sua própria história.
já ouvi minha mãe falar de religião
política e novela enquanto lava a louça.
eu sentado ali na mesa
engolindo café
e juntando os farelos com a ponta do dedo
e secando o coração na ponta do nariz
com a palma da mão.
uma bolinha amassada de miolo de pão
vira um disco gordinho
com sua digital impressa ao contrário.
quantos contrários a gente já não deixou por aí?
lembra quando te mostrei a estátua do lasar segall
que tem no parque perto de casa
e você apertou minha mão
sorriu
arrumou o cabelo
e eu achei que era amor?
então
contrário.
devia ter ouvido mais o meu pai.
cada refeição tem sua própria história
ninguém é mais o mesmo
nem depois de um pique nique.
a mesa tá pronta mais uma vez
o cheiro de comida no ar.
estamos eu
mamãe e meu pai.
o silêncio frio na mesa
amores líquidos continuam escorrendo pelo rosto
pelas panelas
pá.
de novo
ela.
choro.
os velhos falam de política pra disfarçar.
comemos
esperando que depois do jantar
tudo possa mudar.

no livro da minha vida a parte que fala de você eu risquei. mas com caneta marca texto.

nasceu um girassol no meu peito
acho que não te falei.
nem era primavera.
é cada coisa que a gente carrega
sem precisar.
já levei muito peso nas costas
muita tranqueira na bolsa 
mas no coração
é a primeira vez.
seria lindo acordar de manhã
e te mostrar meu jardim.
fazia tempo que não nascia nada aqui.
de uns meses pra cá
nem o abajur iluminava minhas noites azuis.
só percebo que estou chorando
quando vejo na parede
minha sombra
soluçar.
é difícil quando a gente perde a sensibilidade
das coisas
dos jeitos
dos textos.
leio mais
escrevo mais
e mesmo assim não salva nada.
pode não importar pra você
mas não quero deixar o girassol morrer.
plantas não sobrevivem com água salgada.

É engraçado como a gente queima mais o dedo fazendo coisa boa do que coisa ruim

é tipo quando a gente queima o dedo
cozinhando pra alguém.
cê não tava fazendo nada de errado.
pelo contrário
tava se esforçando pra fazer o melhor.
cuidando de todos os detalhes.
mas aí, sem mais nem menos,
queima o dedo. 
o jantar fica incrível.
a noite fica incrível.
a relação fica incrível.
mas seu dedo fica uma bosta.
então vem a bolha.
bolhas são necessários.
conviva com isso.
queimar o jantar é ruim.
não ter com quem jantar é ruim.
mas as bolhas não são.
elas fazem parte das coisas boas. 
acredite.
e aqui vai um conselho 
nunca
em hipótese alguma
estoure a bolha.
aquela água que forma dentro
é o seu corpo tentando curar
o que aconteceu.
a melhor coisa é esperar. 
a bolha vai incomodar.
vai arder.
vai doer.
mas ela tá ali por um motivo muito importante.
pra você lembrar o quanto aquela noite foi especial. 
eu nunca queimei o dedo
soltando rojão no quintal do vizinho.
nunca queimei o dedo
fazendo arte com vela.
nunca queimei o dedo
aprontando na fogueira.
mas é cada bolha
que eu já tive 
tentando ser romântico.

Sangue novo

Álvares entra na sala e algo pinga no sapato. As gotas caem do ventilador de teto. Há respingos pela parede. Sinal de que ainda tinha energia na casa quando a família foi morta. É a primeira vez que isso acontece nessa cidade. E até onde Álvares sabe, é a primeira vez que isso acontece no país. Notícias assim já teriam corrido os jornais.

Não há rastros. Não existem armas. Não é  possível ver arrombamento. Nada parece que foi roubado. Cinco corpos espalhados pela casa. Aos pedaços. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista.

Álvares aguarda a chegada do xerife. Mexe nas coisas. Tapa o nariz e a boca. O cheiro já não é dos melhores. Um dos corpos não é da família. Isso deixa o caso ainda mais intrigante. Álvares se aproxima. A mulher nem parece familiar. Nunca a viu pela cidade. Os cabelos escondem metade do rosto. O policial desliza levemente uma mecha e pra seu espanto, os olhos da vítima abrem repentinamente. Uma boca solta um grito. Álvares vira assustado pra ver do que se trata. Depois disso silêncio. A cabeça de Álvares caiu no chão. O pescoço espirra sangue no ventilador que volta a girar. O ventilador volta a espirrar sangue nas paredes. O corpo cai. 

É a primeira vez que isso acontece nessa cidade, pensa o xerife quando entra na sala.

pacífico

meu barco cruza o oceano
agitado deixo pra trás
porto.
parto em busca de novas terras
pra apessoar.
navego sob(re) águas salgadas.
em dias agitados
não durmo nem pesco
passo fome sede e rancor.
avisto ilhas
mas não atraco.
quando o mar acalma
acalmo.
saudade
à vista arde.
náuseas.
no meio do caminho
decido voltar.
e agora?
espero você
ou a maré?
é metade pra lá
metade pra cá
e só um remando.
não dá pra cruzar
o (a)mar sozinho.

é um dia lindo de sol alguém diria

julho chegou e ainda tinha um
pau lá
fincado na areia
no lugar do mar.
uma placa de tinta quase apagada.
desde a estação passada
já não se vê mais água
nem vegetação em lugar nenhum.
a madeira na praia é velha
e pede gentilmente
pra que a população
despeje copos d’água.
é claro que é uma piada
nem da torneira
sai mais nada.
o mundo anda em desmaré
que é o ato de inverter o nome
da maré
pra explicar porque tá tudo
desacontecendo.
a cacofonia não serve pra muita coisa nessa vida
mas agora serviu pra lembrar
não se vê por aqui muitos animais também.
dia após dia
depois da grande tragédia o
pau lá
aguarda solitário e triste
ser lido por pelo menos alguém.
mesmo sabendo que na terra
não tem mais ninguém.
é engraçado que quando os problemas morrem
até as coisas pequenas

viram desgraça das grandes.

pra ler ao som de chico

talvez num tempo de delicadeza
você descubra que discutir
é perder tempo de beijo.
que não dar um bom dia
faz realmente
o dia ser um mau dia.
que passar perfume
pode fazer diferença na vida de alguém.
sei lá quem.
talvez num tempo de delicadeza
você perceba que palavras têm peso.
que coxas são travesseiros.
que bocas não beijam só bocas.
que cinema sempre é pretexto.
que vinho sempre é contexto.
que mãos não servem só pra serem mãos.
que santos não fazem milagres
sem que a gente peça.
que olavo bilac faria mais poesias
se a gente tivesse mais moleza no coração.
que o abraço
nada mais é
que um pedido do corpo
pra você não se afastar.
ah se vivêssemos num tempo de delicadeza
você veria este texto com mais carinho
e menos tristeza.
ah chico
ninguém precisaria de você.
que tempo horrível seria esse pra se viver.
imagina eu
você
ouvindo delicadeza
lavando a louça
uma imagem de são francisco na parede.
isso pode fazer diferença na vida de alguém.
sei lá quem.