trabalhadores sem brasil

oxalá a gente trabalhe menos
pra pagar o que quer mais
oxalá.
o menino veio aqui com latinha de moeda na mão
visse?
pedindo pão
mas não tinha moeda não
veio só cá latinha.
que também é metal
mas um dia alguém disse
que vale menos
só porque não tem rosto de gente importante
nem monumento nem construção.
vai saber quantas latinhas
precisa pegar na rua pra fazer moeda.
essas coisas não ensinam na escola não
que é pra gente não saber como faz dinheiro.
já pensou que coisa louca
se toda coca-cola aqui na venda 
fosse virar moeda pro pão?
quantas cocas ia custar o café da manhã 
na casa do filho de tonhão?
ei
aponte esse dedo pra cá não
visse?
que aqui ninguém é ladrão.
ainda me lembro bem
que o único vício lá em casa era comida.
todo mundo queria comer
todo dia
já imaginou?
baita desespero
já vi até meu pai vender tevê
pra comprar feijão.
eta vício danado de se ter.

do viaduto sumaré dá pra ver o céu

pulei.
pulei e flutuei.
logo eu.
pena.
pulei com um sorriso aberto
no rosto.
sorrisos são ótimos
pra segurar a gente
vivo.
só descobri depois
de pular.
pena.
deixei sobre a ponte
problemas.
deixei sob a ponte
carruagem.
flutuei.
flutuei até um lugar branco.
bonito.
cheio de simpatia e luz.
era pra ser o céu.
pena.

Parece alzheimer, mas é saudade

É domingo.
De novo.
Arranco a folha do calendário na parede da cozinha.
Embaixo é domingo de novo.
Tudo que fiz ontem tá pra refazer. A louça. O lixo. A roupa. As contas. Acordei com o mesmo sono. Com a mesma fome. E inclusive, sem a mesma vontade.
Como é difícil ser a gente mesmo duas vezes na mesma vida.
O cachorro traz a bolinha suja de terra. Olho no relógio e é a mesma hora de ontem. Se não me engano a chaleira vai começar a apitar em instantes. A nuvem vai liberar o sol e um feixe de luz vai entrar pela janela. Clareando a cozinha. Mas não vai esquentar. Grãos de poeira vão dançar dentro da luz. O telefone vai tocar umas sete vezes até eu chegar na sala. Vou atender com a mão e o coração apertados. Do outro lado uma voz cheia dúvida não sabe se fala ou soluça.
Vovô morreu.
Não vou ouvir mais nada. Em parte porque eu não consigo, em parte porque eu não quero. Mesmo sabendo que isso vai acontecer de novo, não estarei preparado. O dia de hoje nunca mais vai sair da minha cabeça. 
Vou correr até a cozinha, levantar a folha do calendário, amanhã é domingo de novo. Perder vovô uma vez, é perder vovô todos os dias.
Essa é a hora que vai começar a chover.

coração ambulante

acordo na grama com o policial
me chamando pro céu
o uniforme cheira cansaço.
o sol é mais quente que sua coberta
já pensou numa coisa dessas?
levanto ainda sonhando
com o dia que a gente se conheceu.
tem um adesivo na placa da rua
tem um e.t. em cima de um pedestre
será que os animais acham que aviões vieram
do espaço?
já passei em frente de casa três vezes
não entro em lugar vazio
prometi pra mim mesmo
não sei como ainda tô no meu coração.
carrego a mala cheia
o peso das pessoas que passam
na vida da gente
não se compara ao peso da gente na vida
das pessoas.
meu reflexo no vidro da cafeteria segue
pro lado contrário.
tem gente descendo a escada rolante do metrô
eu taria subindo
voltando pra casa
pra te achar
maldito reflexo da mentirosa cafeteria
meu mundo não vai pra frente
nem quando vai pra frente.

sem título

não acredito em numerologia.
nem em santo que promete
e não cumpre. não
acredito nos maias
nos incas
no zodíaco
no horóscopo chinês.
não me importo com rato
cavalo
cachorro.
bicho
nem no bicho eu jogo.
na lua eu não boto fé.
não me venha com oxum
iemanjá
ave maria acreditar
em superstição.
não tenho sorte nem pra ter
azar
o meu
não ter no que me segurar.
que deus abençoe
as pessoas
que acreditam em deus.
não confio em terapia
psicologia
e psiquiatria.
nunca li freud
nem parei pra ouvir monge
falar. hare cristinas
que me perdoem
mas ufologia pra mim
é tudo igual.
só acredito no coração
e olhe lá
que mesmo assim
nesses dias azuis
cheios de cinzas
voando por aí
anda muito difícil
acredita?

o amor dói tanto quanto o desamor

gostar de alguém muda sua vida
muda seu jeito
muda suas escolhas 
te molda.
ficar sozinho muda sua vida
igual.
quando você se acostuma
seja de um lado
ou do outro
não
novamente não
tudo já não é o que você planejou
tá tudo mudado.
mas por mais que a vida mude
suas escolhas são suas
as dos outros 
não.
depois do não
todo resto é assédio
de vida
de coisas
de sonhos.
tira a mão daí
de mim
deixa meu coração de saia curta
levo minha bunda pra onde quero
sento num banco qualquer
te espero
te inspiro
e te expiro.
é engraçado como
o mesmo ar que dá vida
também pode matar.

o terremoto de fora parecia tanto com o terremoto de dentro

o copo tremia
e de repente a casa inteira tremia.
tudo tremia.
as cadeiras tremiam.
o suco escorria na mão.
as portas do armário batiam
os talheres dançavam em cima da mesa
e as panelas protestavam sozinhas na pia.
o retrato da família caiu virado pra cima
e o rachado no vidro separou as pessoas
que a vida já tinha separado.
pobre rachado
atrasado.
a janela chacoalhava.
a porta batia
mas não era ninguém.
o terremoto de fora
parecia tanto com o terremoto de dentro.
as plantas balançavam penduradas na varanda.
não sabiam o que era vento
ou desastre.
infeliz tragédia é a alienação.
aos poucos
assim
bem devagar
o silêncio foi voltando.
ao longe só alarmes de carros.
a cidade em parkinson
deixou pra trás dor
tristeza
e destruição.
o terremoto de fora
parecia tanto com o terremoto de dentro.

sem título


muita coisa
passou a ser mais difícil
recentemente.
não só as graves
mas de pouca gravidade
também.
tudo tem sido mais complicado
de lidar
entender
ou resolver.
e a culpa não é da coisa
sabe?
a culpa é da gravidade
que não se importa muito
com o peso das coisas
e segue puxando pra baixo
do mesmo jeito
problemas diferentes.
todo poço tem um fundo.
e isso
talvez
seja o jeito mais reconfortante
no momento 
de lidar com a queda livre.

o que pintam sobre o amor, no fundo, não é um quadro tão bonito assim

não tem muito espaço
pra você
neste espaço que é meu.
na verdade
não tem muito espaço
nem pra mim
neste espaço que não é seu.
já recebi visitas.
já passei calor
e já passei frio aqui dentro.
a vista parece bonita
de fora.
mas você não faz ideia
do cheiro de mofo.
tem o conforto de uma cama.
que pouca gente já deitou.
e esse pouco inclui você.
acham que esse pedaço
está me enlouquecendo.
loucos são
os que acham que isso é possível.
quando fico aqui
nada me faz mal.
já tentei sair.
tentei olhar o mundo.
só que sem chave
meu peito é minha prisão.
meu coração hoje
parece um quarto de Van Gogh.
feio e vazio.

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— desliga e vem.
— se liga, se eu desligar, quem vai te botar pilha?
— amor é à bateria.
— por isso mesmo, um dia acaba.
— amor é renovável, baby. reciclável. remontável. eu paguei por você e pelo seu amor, minha boneca.
— por que anda tão frio?
— sou feito de um novo material, à prova de remorsos.
— onde cê guardou meu coração?
— na gaveta.
— pra que cê precisa dele?
— não sou eu que preciso, é você que não precisa.
— aonde você vai?
— fui vendido de novo. tem alguma cama por aí com espaço demais nesse momento.
— volta logo. o estoque fica vazio demais sem você.

apesar de bonito o arco-íris nada mais é que um sorriso invertido.

no metrô
a propaganda do dentista sorri pra mim.
penso
quantos sorrisos eu vi
nos últimos dias?
uma vez ouvi
que a gente mexe
mais músculos sorrindo
do que chorando.
mas já ouvi
o contrário também.
essas coisas de felicidade
vêm só pra confundir.
me pergunto quanto tempo ainda
o sorriso vai existir.
se as desgraças andam aumentando
rápido demais.
tem dias que acho mais fácil
chorar.
nada parece feio
quando tá embaçado.
ando na rua querendo encontrar
pessoas boas.
mas o que é a caridade
senão
a gente usando a felicidade do outro
pra suprir nossa felicidade?
sorrir é muito mais falso que fácil
pra mim. quando você também
descobrir
onde vão parar o sorrisos no fim?
será que há esperança na próxima esquina?
viro à direita
um lugar cheio de flores
esculturas
pinturas na parede
a atendente
séria me olha nos olhos
me taca o pedido na mesa.
em silêncio
sento.
olho pra baixo
vejo um sorriso se formar
na espuma do café.
será?
mas não é.
já voltou a ser só

café.

vaso bom quebra

se tem uma certeza que sempre tive na vida foi a morte.
vejo os meninos brincando de esconde-esconde na rua.
talvez eles se achem.
talvez não.
vejo o casal que namora no banco da praça.
talvez eles se casem.
talvez não.
vejo a pomba me olhar no beiral da janela.
talvez ela voe.
talvez não.
a vida é cheia de talvezes em cada certeza.
vejo mamãe na cama.
a morte não é talvez.
a morte vem chegando
ora chega gritando avisando que tá aqui
ora chega de mansinho
pé ante pé
no ritmo da respiração que vem acabando.
ouço um barulho estranho
viro rápido pra dentro do quarto
esbarro na estante
vejo o vaso cair em câmera lenta
talvez ele quebre.
talvez não.
em cima da cama 

não tem mais nenhum talvez.

quantos poemas já não morreram por felicidade?

bem-me-quer. 
morre uma flor. 
bem-me-quer. 
morre outra flor.
apesar de bonito
o amor é fúnebre. 
existe mais saudade no cemitério
do que na minha cama.
eu deito 
a noite deita
e ninguém mais deita.
sonho solitário.
bem-me-quer. 
morre mais uma flor.
a natureza pouco se importa pro meu ciclo. 
a vida fora de mim segue.
o mar
com toda sua bravura
não obedece ninguém
a não ser a lua
já disse uma vez eduardo galeano.
quantas coisas a gente já não matou
por amor?
quantos amores a natureza já não matou
por rotina?
malmequer.

minha barriga não enche na mesma velocidade do meu coração

aprendi com meu pai que os farelos
de pão do café da manhã
não podem ficar na mesa até a hora do almoço.
toda refeição tem sua própria história.
já ouvi minha mãe falar de religião
política e novela enquanto lava a louça.
eu sentado ali na mesa
engolindo café
e juntando os farelos com a ponta do dedo
e secando o coração na ponta do nariz
com a palma da mão.
uma bolinha amassada de miolo de pão
vira um disco gordinho
com sua digital impressa ao contrário.
quantos contrários a gente já não deixou por aí?
lembra quando te mostrei a estátua do lasar segall
que tem no parque perto de casa
e você apertou minha mão
sorriu
arrumou o cabelo
e eu achei que era amor?
então
contrário.
devia ter ouvido mais o meu pai.
cada refeição tem sua própria história
ninguém é mais o mesmo
nem depois de um pique nique.
a mesa tá pronta mais uma vez
o cheiro de comida no ar.
estamos eu
mamãe e meu pai.
o silêncio frio na mesa
amores líquidos continuam escorrendo pelo rosto
pelas panelas
pá.
de novo
ela.
choro.
os velhos falam de política pra disfarçar.
comemos
esperando que depois do jantar
tudo possa mudar.

no livro da minha vida a parte que fala de você eu risquei. mas com caneta marca texto.

nasceu um girassol no meu peito
acho que não te falei.
nem era primavera.
é cada coisa que a gente carrega
sem precisar.
já levei muito peso nas costas
muita tranqueira na bolsa 
mas no coração
é a primeira vez.
seria lindo acordar de manhã
e te mostrar meu jardim.
fazia tempo que não nascia nada aqui.
de uns meses pra cá
nem o abajur iluminava minhas noites azuis.
só percebo que estou chorando
quando vejo na parede
minha sombra
soluçar.
é difícil quando a gente perde a sensibilidade
das coisas
dos jeitos
dos textos.
leio mais
escrevo mais
e mesmo assim não salva nada.
pode não importar pra você
mas não quero deixar o girassol morrer.
plantas não sobrevivem com água salgada.

É engraçado como a gente queima mais o dedo fazendo coisa boa do que coisa ruim

é tipo quando a gente queima o dedo
cozinhando pra alguém.
cê não tava fazendo nada de errado.
pelo contrário
tava se esforçando pra fazer o melhor.
cuidando de todos os detalhes.
mas aí, sem mais nem menos,
queima o dedo. 
o jantar fica incrível.
a noite fica incrível.
a relação fica incrível.
mas seu dedo fica uma bosta.
então vem a bolha.
bolhas são necessários.
conviva com isso.
queimar o jantar é ruim.
não ter com quem jantar é ruim.
mas as bolhas não são.
elas fazem parte das coisas boas. 
acredite.
e aqui vai um conselho 
nunca
em hipótese alguma
estoure a bolha.
aquela água que forma dentro
é o seu corpo tentando curar
o que aconteceu.
a melhor coisa é esperar. 
a bolha vai incomodar.
vai arder.
vai doer.
mas ela tá ali por um motivo muito importante.
pra você lembrar o quanto aquela noite foi especial. 
eu nunca queimei o dedo
soltando rojão no quintal do vizinho.
nunca queimei o dedo
fazendo arte com vela.
nunca queimei o dedo
aprontando na fogueira.
mas é cada bolha
que eu já tive 
tentando ser romântico.

Sangue novo

Álvares entra na sala e algo pinga no sapato. As gotas caem do ventilador de teto. Há respingos pela parede. Sinal de que ainda tinha energia na casa quando a família foi morta. É a primeira vez que isso acontece nessa cidade. E até onde Álvares sabe, é a primeira vez que isso acontece no país. Notícias assim já teriam corrido os jornais.

Não há rastros. Não existem armas. Não é  possível ver arrombamento. Nada parece que foi roubado. Cinco corpos espalhados pela casa. Aos pedaços. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista.

Álvares aguarda a chegada do xerife. Mexe nas coisas. Tapa o nariz e a boca. O cheiro já não é dos melhores. Um dos corpos não é da família. Isso deixa o caso ainda mais intrigante. Álvares se aproxima. A mulher nem parece familiar. Nunca a viu pela cidade. Os cabelos escondem metade do rosto. O policial desliza levemente uma mecha e pra seu espanto, os olhos da vítima abrem repentinamente. Uma boca solta um grito. Álvares vira assustado pra ver do que se trata. Depois disso silêncio. A cabeça de Álvares caiu no chão. O pescoço espirra sangue no ventilador que volta a girar. O ventilador volta a espirrar sangue nas paredes. O corpo cai. 

É a primeira vez que isso acontece nessa cidade, pensa o xerife quando entra na sala.

pacífico

meu barco cruza o oceano
agitado deixo pra trás
porto.
parto em busca de novas terras
pra apessoar.
navego sob(re) águas salgadas.
em dias agitados
não durmo nem pesco
passo fome sede e rancor.
avisto ilhas
mas não atraco.
quando o mar acalma
acalmo.
saudade
à vista arde.
náuseas.
no meio do caminho
decido voltar.
e agora?
espero você
ou a maré?
é metade pra lá
metade pra cá
e só um remando.
não dá pra cruzar
o (a)mar sozinho.

é um dia lindo de sol alguém diria

julho chegou e ainda tinha um
pau lá
fincado na areia
no lugar do mar.
uma placa de tinta quase apagada.
desde a estação passada
já não se vê mais água
nem vegetação em lugar nenhum.
a madeira na praia é velha
e pede gentilmente
pra que a população
despeje copos d’água.
é claro que é uma piada
nem da torneira
sai mais nada.
o mundo anda em desmaré
que é o ato de inverter o nome
da maré
pra explicar porque tá tudo
desacontecendo.
a cacofonia não serve pra muita coisa nessa vida
mas agora serviu pra lembrar
não se vê por aqui muitos animais também.
dia após dia
depois da grande tragédia o
pau lá
aguarda solitário e triste
ser lido por pelo menos alguém.
mesmo sabendo que na terra
não tem mais ninguém.
é engraçado que quando os problemas morrem
até as coisas pequenas

viram desgraça das grandes.

pra ler ao som de chico

talvez num tempo de delicadeza
você descubra que discutir
é perder tempo de beijo.
que não dar um bom dia
faz realmente
o dia ser um mau dia.
que passar perfume
pode fazer diferença na vida de alguém.
sei lá quem.
talvez num tempo de delicadeza
você perceba que palavras têm peso.
que coxas são travesseiros.
que bocas não beijam só bocas.
que cinema sempre é pretexto.
que vinho sempre é contexto.
que mãos não servem só pra serem mãos.
que santos não fazem milagres
sem que a gente peça.
que olavo bilac faria mais poesias
se a gente tivesse mais moleza no coração.
que o abraço
nada mais é
que um pedido do corpo
pra você não se afastar.
ah se vivêssemos num tempo de delicadeza
você veria este texto com mais carinho
e menos tristeza.
ah chico
ninguém precisaria de você.
que tempo horrível seria esse pra se viver.
imagina eu
você
ouvindo delicadeza
lavando a louça
uma imagem de são francisco na parede.
isso pode fazer diferença na vida de alguém.
sei lá quem.

Futuro radioativo

(texto inspirado nesta notícia: Coreia do Norte acusa EUA de declarar guerra e ameaça abater bombardeiros americanos) 

Sun Hee acorda no meio da noite com uma sensação estranha. A TV ligou sozinha. É uma TV velha, de tubo. O barulho do chiado não é muito agradável. Sun levanta, aperta o botão e a casa volta a ficar em silêncio. Pega um copo d’água na cozinha enquanto olha pela janela. A cidade é quieta e seca e fria à noite. Quando volta pro quarto a TV tá ligada de novo. Um repórter fala sobre a radiação das novas bombas. Sun desliga, deita na cama e tenta dormir. Segundos depois um zumbido agudo começa a surgir. Aumenta muito rápido. Um pedaço gigante de uma aeronave atravessa o teto e acerta Sun em cheio na cama.

Sun acorda assustado no meio da noite com uma sensação estranha. Um copo d’água, quieto e frio e seco descansa sob a TV desligada. É uma TV velha, de tubo. Sun levanta, olha pela janela, aperta o botão da cozinha e tenta dormir. Um chiado começa na TV do quarto. Um repórter fala sobre radiação. Sun bebe em silêncio o copo gigante. O chiado aumenta muito rápido. Sun volta pra cama, deita e instantes antes de pegar no sono, um pedaço gigante de uma TV atravessa o teto e acerta Sun em cheio na aeronave.

Sun acorda assustado no meio de uma aeronave. Lá fora é tudo chiado. Levanta, anda sobre TV’s e pega um copo d’água que aumenta rapidamente. Vai até a cozinha, aperta o botão no silêncio e olha pela janela. Um repórter na cama velha, de tubo, seca e fria, faz um barulho de radiação não muito agradável lá fora. Sun volta pro quarto. Deita e tenta dormir. Instantes depois, um pedaço gigante de uma cama, atravessa o teto e acerta a TV em cheio.

A cama acorda assustada no meio da água. É frio. Um barulho não muito seco vem da cozinha. A aeronave levanta e desliga Sun que faz um chiado que vem aumentando. Volta pra TV e bebe o tubo de radiação. Antes de desligar, um pedaço gigante de velho atravessa o cheio e acerta o teto.

A aeronave bebe uma TV fria. Sun olha pra dentro da cama pela janela. Aperta o botão da radiação. Um pedaço gigante de copo acerta um repórter. O silêncio vem aumentando até nada atravessar o teto e acertar em cheio a cidade no quarto.

O teto da TV bebe assustado a radiação. Um repórter faz um chiado seco. A aeronave atravessa o silêncio.

A radiação aumenta. Sun volta a ficar em silêncio.

Radiação lá fora.

Silêncio.

Se eu colocar um título cêis vão achar que é história

Meu cartão do Bradesco tá vencido. Mas até aí beleza, só queria realizar umas transações on-line. Não deu. Depois de 20 minutos ao telefone descobri que, pra habilitar a chave de segurança do aplicativo, eu precisava ir numa agência. Fui.

- Oi. Queria cadastrar minha chave de segurança.
- Empresta seu cartão, por favor.
- ...
- Ih. Tá vencido.
- Tudo bem. Não uso. Só quero a chave de segurança no aplicativo.
- Você pode cadastrar a biometria e solicitar a chave de segurança direto no caixa eletrônico.
- Certo. Vou fazer isso.
- Mas o senhor precisa de um cartão.
- Beleza. Tudo bem. Vamos nessa. Pode solicitar outro.
- Mas pra solicitar outro só pode ser na sua agência.
- Minha agência é muito longe, não dá pra ser aqui?

No outro dia. Eu na minha agência.

- Oi. Tudo bem? Queria solicitar outro cartão, que o meu tá vencido.
Preenche formulário. Assina papel. Coloca senha.
- Pronto. Algo mais?
- Queria cadastrar a chave de segurança no meu celular e a biometria também.
- Bom. Primeiro o senhor precisa receber o novo cartão.
- É sério isso? Eu só queria habilitar transações on-line. 
- O senhor precisa ter o cartão pra isso.
- Mas eu preciso voltar nessa agência ou pode ser em qualquer uma?
- Com o cartão em mãos pode ser em qualquer uma, senhor.

Dez dias depois meu cartão chegou e eu fui num caixa eletrônico pra desbloquear. O caixa eletrônico pediu o número do Token que eu tinha deixado em casa. Bom, não deu.
Hoje, acordei, peguei o Token e fui na primeira agência. Hoje vai ser diferente, pensei. Tá sol o dia tá bonito vai dar tudo certo. O número do Token deu inválido no caixa eletrônico. Tive que falar com uma atendente.

- Oi, por favor, quero só desbloquear meu cartão, mas o número do Token não tá aceitando no caixa eletrônico.
- Ah, esse Token não acessa mais mesmo. Só biometria e chave de segurança, agora.
- Moça. Eu só quero habilitar as transações on-line na minha conta. Cadastra minha biometria e minha chave de segurança?
- Mas o senhor precisa desbloquear o cartão primeiro.


Mano. Sério. Eu só queria habilitar transações on-line pra não precisar ir no banco toda vez. Enfim. Depois de uns bons minutos dentro da agência falando com dois atendentes e dois gerentes, o cartão foi desbloqueado, o Token foi descartado, a chave de segurança, habilitada no celular e minha biometria tá cadastrada no sistema. Resta agora eu lembrar qual era a transação que eu precisava mesmo fazer.

Não me falta nada

Meu príncipe não tem cavalo branco.
Meu príncipe não tem castelo, não tem coroa, nem cetro.
Não tem dinheiro. Não fala formal. Nunca pagou caro em roupa nenhuma. Nunca viajou o mundo. Ninguém traz o que ele pede.
Meu príncipe não tem o cabelo tratado. Não sabe o que é pele hidratada. Meu príncipe jamais subiu em carruagem. Nunca encostou no dourado. Nem pisou no mármore.
Meu príncipe nunca me deu um Taj Mahal. Meu príncipe jamais encostou em uma joia. Nem olhou pruma pérola. Não sabe a cor da esmeralda.
Meu príncipe não chega com cornetas. Nunca andou com segurança. Não sabe cortejar.
Meu príncipe não tem nada. Falta emprego. Falta estudo. Falta higiene. Falta dinheiro. Falta sonhos. Falta objetivos. Falta chinelo. Meu príncipe perdeu o chinelo. Meu príncipe é incompleto dos pés a cabeça.

E mesmo assim me completa como um rei.

Mulholland Drive

o corpo é carro
rodando pela vida
amorosa
esburacada.
a mente guia
com destino fixo
enquanto mente
qualquer nome numa placa
qualquer.
espera o próximo quilômetro
paisagem que não muda.
ao longe dois pontos verdes
na cara da mudança
sinalização nova de rumo
à frente
o coração assume a direção
agora quer dirigir.
sou amante desgovernado.
o amor é estrada
recapeada.
não sei ainda pra onde ir
acelero com tudo
mesmo sem nada.

O som do amor

O pai, o avô e o tio são policiais.
Uma família inteira de militares.
A criança pega em casa o que não devia.
Leva pra escola o objeto escondido.
Tira da mochila no meio da aula.
Aponta pra professora e diz:
Hoje cê morre de amor por mim.
Quando a diretora liga pra avisar.
A mãe não acredita no que o filho fez.
Roubou a caixinha de música da vovó.

O sabor da novidade

Olho no relógio e sei que tô atrasado. O pé balança. A perna balança. Olho pra mesa. Um pote de biscoitos. Quem deixa isso sem identificação na porta de um vizinho? Faço uma retrospectiva e algumas pessoas me parecem prováveis. Cruzo o olhar com a vizinha do 63 quase todo dia de manhã. Mas alguns bom dias não sei se são suficientes pra isso. Lembro também do vizinho do 62. Um cara que mora sozinho, mas tá sempre com outros caras, deve achar que também sou gay. Pessoas simpáticas têm mais chance de ser homossexuais? Que mundo doido esse. Pego um biscoito e saio.

Olho o relógio e sei que tô atrasado. Já é o terceiro dia seguido. Foi difícil dormir noite passada. Ontem, voltando pra casa, cruzei no elevador com a vizinha do 63. Nenhum olhar ou comentário suspeito. Certeza que não foi ela. Tomara que não seja o vizinho do 62. Tô com medo? Tô. Nessa altura do campeonato podia ser até a viúva do 67. Paro de balançar a perna, pego outro biscoito e saio pra trabalhar. Puta biscoito bom.

No quinto dia seguido de atraso já não sei mais qual desculpa dar no trabalho. Os biscoitos tão acabando e eu não sei lidar muito bem com essa ausência iminente. Ninguém fala nada. Ninguém deixou bilhete. Ninguém deixou mais nada. Já cruzei com todo mundo nos corredores. Ninguém se manifesta. Só não vi ainda o vizinho do 62. Que nessa altura do campeonato já nem me parece mais tão estranho.

Dia 6. Olho pro pote sobre a mesa com o último biscoito dentro. O relógio marca a mesma hora do atraso de todos os dias. Minha perna já treme mais do que no primeiro dia. Pego o biscoito, a mala e saio desesperado. A porta do elevador fecha, desço nervoso. Se tudo der certo ganho mais dessas coisas gostosas. O bilhete na porta do 62 ficou romântico na medida certa. Resta aguardar.

Verdades amargas

o choro
menos salgado
azeda até
o sorriso
mais doce.

Microconto #667

O domingo era o de sempre.
Na mesa, a comida de sempre.
Ao redor, a família de sempre.
No ar, um assunto novo.
O filho mais velho
assume que é pai.
Todos ficam surpresos.
Menos a mãe.

Chuva salgada

eu não queria
escrever sobre
lágrimas
eu queria
escrever sobre
dias de sol
mas chove sob
meus dedos.

fer(i)mento

a vida toda
mamãe fez bolo
pro café da tarde.
hoje tinha pão.
não é sinal de que não tem bolo.
é sinal de que não tem mamãe.
agora
pra vida toda.

cinzas

a maria fumaça
passa.
a esposa traz
o fumo.
o homem de chapéu
fuma.
como nóis
já fumo feliz
ela pensa.
ele fuma.
o tempo esfumaça.
a maria fumaça
passa.

Como é alto o silêncio que a gente grita pra dentro

Depois daquele silêncio constrangedor que incomoda a garganta. Aquele silêncio que um olha pro outro e quer falar e tem o que falar, na verdade tem muito o que falar. Aquele silêncio de um olhando pro outro querendo confessar, querendo dizer, querendo ser honesto. Depois daquele silêncio que vem depois de uma briga, de verdades cuspidas, de coisas que antes ninguém tinha coragem de dizer. Depois daquele silêncio que ouve só o barulho da faca raspar no prato do jantar que sobrou todo na panela. Aquele silêncio que vê o vinho balançar na taça, o fogo balançar na vela, o relacionamento balançar na mesa. Depois daquele silêncio ensurdecedor que acorda o coração. Depois daquele silêncio, ela fala, ela enfim, fala, depois de ficar calada por muito tempo, depois de ficar calada por toda uma relação, de ficar quieta por uma eternidade, ela abre a boca, ela põe pra fora, insatisfeita com tantos problemas, ela abre a boca, quebra o silêncio e diz, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. Mesmo tudo muito ruim, tudo muito complicado, ela falou, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. Agora ela já tem um novo amor, ela já achou um novo coração pra morar, ela por fim abre a boca e fala, quebra o silêncio. Aquele silêncio que vem antes dela confessar com tanto pudor, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. A confissão se mistura com poesia, e ela quebra o silêncio pra quebrar a relação, mas quebra a cara porque o que ela diz é mal interpretado, mal entendido, é cabeça demais, é profundo demais, e ele entende de menos, acha que é mais bonito que triste e que tem aí, um recomeço. Uma chance. Que ela disse isso depois do silêncio pra dizer que mesmo com tanto problema, tá tudo bem. Mas não foi isso. Depois dizer tudo o que ela queria de um jeito que não necessariamente ela queria, ela prefere ficar em silêncio.

mofo

tinha esquecido
dentro da mala
tinha uma carta
esquecida
na carta
uma ordem
há tempos
esquecida
em letras pequenas
tava escrito
amá-la
tinha esquecido

O fim é a evolução natural das coisas

Onde antes tinha barulho
agora som nenhum.
Os acontecimentos mais sérios na vida
são coisas desacontecendo
já reparou
como
perder
é a melhor forma de dar valor?
Não que melhor seja a palavra certa.
Queria palavra melhor
só que
melhor
foi o melhor
que consegui.
Você sabe que a onda tá vindo
porque a água vai embora.
A maré de lágrimas subiu. 
Imagina
um oceano na cara
imagina
no corpo só órgãos boiando
imagina
quanto menos tudo o corpo tivesse
mais nada você veria
imagina?
A cama parece maior.
Não deram frutas nessa estação.
Imagina só
o mercúrio vazou.
A gente não sabe mais
como tá o clima entre duas pessoas
e a culpa
no fim das contas
é que agora existe uma pessoa só.

procusto

a gente não nasceu pra caber.
é sapato que aperta.
é calça que não entra.
é coração menor que amor.
parece triste
mas é verdade.
não é a verdade de mentira
que passa na TV.
se bem que na TV
também passa verdade de verdade.
minha tia Vânia
aprendeu a fazer um bolo de beterraba
assistindo TV
e o bolo é de verdade.
o coração devia ter um Procusto
pra fazer o amor caber.
porque essa é a história dele
ele serra quando é grande
e estica quando é pequeno.
mas o engraçado é que
Procusto morreu de tamanho.
não cabia dentro da própria mitologia.
quando a gente é grande quer ser pequeno.
quando a gente é pequeno quer ser grande.
quando eu era pequeno eu queria ser frentista.
achava frentista legal.
ele fazia o carro do papai andar
e assim
a gente chegava no sítio da vovó
pra ver o tio Nelson tocar.
isso tudo quem fazia era o frentista.
eu gosto do cheiro da gasolina.
ele cabe no meu gosto.
quando um cheiro cabe em você
é porque ele tem o tamanho do seu nariz
ou o tamanho do seu pulmão.
mas nem tudo cabe em você.
vai ver
não caber
seja o tamanho certo.
nem o bolo de beterraba da tia Vânia
cabe na forma.
ele derrama todo
pra dentro da gente.

Microconto #666

A menina com miopia perdeu os óculos no caminho da entrevista. Não enxergou mais nada de importante. Agora, as lentes da vida mostram só as desimportâncias.

Cê não faz ideia de quanta roupa dá pra guardar com uma mão

O menino tem um coração a mais
e mesmo assim
não sabe o que é amar.
A vida é cheia de
(d)eficiências amorosas.
Já parou pra pensar
como deve ser triste
um armário trancado
e tanta roupa ainda do lado de fora pra guardar?
A flor que não vê água
mesmo com uma sede danada.
O menino tá seco de amor
nem dois corações são suficientes
pra regar o guarda-roupa.
Quantos quadros
a gente tem que tirar da parede
até sobrar espaço
pra mais alguém?
A menina ali sentada no metrô
parece que tem um (a)braço só.

Deve ter perdido o outro num acidente.

Às vezes 
o amor
vai rápido demais
e não sabe frear.

"Mas que bobagem as rosas não falam"

Milhões de anos de evolução e a humanidade não percebeu ainda que as plantas de casa não gostam nem de sol, nem de água. As plantas de casa gostam mesmo é de fofoca.

Passar o dia aqui sozinha me deixa entediada. A TV não funciona quando a dona tá longe. Ninguém atende o celular quando a casa tá vazia. Fotossíntese é bom, mas cê já ouviu uma boa fofoca?

As plantas são quase sempre as primeiras a saberem das novidades. Outro dia mesmo, o Fred contou aqui nessa sala, que tá saindo com a Martina, chefe dele no trabalho. Olha só que loucura, lá, ninguém pode se relacionar. Não vejo a hora do Fred entrar por aquela porta de novo, dizendo que ele ou a mulher foram pra rua.

Vem cá. Por acaso cê acha que vasos de flores caem à toa das janelas? Isso é ócio. É tédio. É pura e simplesmente suicídio. Flores que não têm companhia pra fofoca, pulam da janela na primeira oportunidade. E nunca, ninguém, soube da verdade.

Já reparou como é comum alguém ficar se perguntando quando volta de viagem, o que será que aconteceu, botei água demais ou deixei muito longe da janela? Por quê será que essa planta tá morrendo?

Fofoca, meu bem.

Quando cê viaja, nada acontece nessa casa. Ninguém chora, ninguém grita, ninguém sussurra. Se vocês soubessem que não adianta falar com gato e cachorro, vocês dariam mais atenção pra essa flor aqui. Já pensou?

Olha só. Sai pra lá com essa água. Vai passar um café. Senta aqui. Vamos conversar. Me conta o que aconteceu com a Cristina. Cê sabe que eu não vou falar pra ninguém.