Branco literário

Incansavelmente eu tentava resgatar algumas palavras do ainda mínimo repertório que tinha. Não era fácil. Além da saudade que a inspiração deixava, minha simples bagagem não era suficiente nem pra uma humilde viagem ao mundo da criatividade literária.

Foram letras difíceis. Muito difíceis por sinal. A cada nova palavra que esboçava se formar, um turbilhão de alegria se exauria, e óbvio, secava novamente a fonte da insistência.

Não era fácil.

Inquietação, desespero e raiva da mente, tomavam conta do meu corpo. O corpo, por sua vez, sentia a ânsia de vomitar naquele pedaço branco do editor de texto, apenas uma palavra. Uma - maldita - palavra - que - pudesse - resgatar - a - inspiração.

Mas, contra minha vontade, o relógio não parou seu ciclo, o tempo não deixou de seguir sua forma rápida e cruel de passar e o insensível pontapé inicial não saia. O branco se tornava mais branco. Eu não sabia o que cuspir na tela. Escarrar, quem sabe; até o asco poderia resolver o meu problema.

Mas não. Nem ele apareceu.

Foram no começo, saudáveis minutos, depois, estranhas horas e agora, agonizantes dias. Mas não veio. Nada. Nem mesmo uma frase, um ditado, um trocadilho ou quem sabe um trocadalho.

Seco.

Escasso.

Parco.
Poderia ser um verso. É. Isso. Um verso. Pedi à memória que resgatasse qualquer resquício romântico, perdido e largado no fundo do inconsciente. Mas o que eu não lembrava é que não amo faz tempo. Não sei mais o que é amor.

Nossa. Será que até isso secou? Já não bastava a inspiração para escrever? Por que o amor também teve que sumir?

Não, por favor, o amor não. Pedi inocentemente, deixe-me pelo menos o amor pela escrita. Com ele acho que recupero a inspiração.

Nada feito.

Cheguei ao final dessa crônica sem saber como começar. Não sei se estou em uma abstinência literária criativa ou apenas em uma rebeldia mental. Não sei mesmo. A única coisa que sei agora, é, socraticamente, que nada sei.

Tokyo! e as 3 visões da existência

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Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong. Três gigantes nomes do cinema se encontram pra dividir a direção em Tokyo!

O filme é uma reunião de signos, estereótipos, significações, referências e críticas divididas em três partes. Cada uma comandada sob o olhar de um dos diretores.

“Os filmes”, ganham muito com as propostas de narrativas e com as personagens. Não há como destacar um dos três, todos trabalham com um olhar contemporâneo os problemas da atualidade, da tecnologia, do encasulamento social, da necessidade constante de se sentir útil e dos preconceitos, não necessariamente nessa ordem, mas todos com o olhar clássico e extravagante do cinema oriental, em alguns casos até sarcástico.

Vale conferir. Muito boa referência de cinema alternativo. Só esperava mais na questão de novidades nos enquadramentos, fotografias e cenas, tanto quanto inovaram nos roteiros. Mas o que não faz o longa dos curtas perder em momento algum.

Microconto #166

Depois de dar mais quatro tiros, o custo do assalto saiu mais caro do que o retorno.

Microconto #165

A única certeza que tinha era a de estar sempre cheio de dúvidas.

Microconto #164

Pra ele não existia esse negócio romântico de Romeu e Julieta. Deu a ela todo o veneno e foi curtir a vida de solteiro.

Homogeneamente juntos

Quero te ver, sentir e beijar.
Quero, o seu arrepio, na minha pele.
Quero você, macia, no meu corpo.
Quero sua boca, molhada, na minha.
Quero suas costas, quente, no meu peito.
O calor.
O prazer.
O carinho.
E o tesão.
Tudo misturado.

Microconto #163

De repente as coisas começaram a encaixar.
Nunca entendeu por quê sofrimentos, desgraças e problemas.
Nada daquilo fazia mais sentido agora.

Microconto #162

- Ei! Por favor, volta aqui!
Você esqueceu de levar a saudade, ela pensou.

Microconto #161

Sempre no mesmo horário eu sento no banco, abro o jornal e vejo ela passar.
Claro que ela sabe que é amor. Todo dia é o mesmo jornal.

Coisas de casal

De uma hora pra outra a cama pareceu suportar perfeitamente os dois corpos. O que no fundo foi uma realidade ilusória, pois o ranger não se fazia mais presente, justamente porque os corpos agora tinham atrito entre si.

O som da noite voltava ao normal com seus carros, buzinas e sirenes. Os gemidos deixavam saudade até para o vizinho solitário do quarto ao lado que os usava como forma de companhia fictícia.

A bela visão do espelho desaparecera. Não havia mais imagem agradável como resposta ao mundo, daquele objeto que refletia um lindo e desnudo corpo de curvas, contornos e cores femininas.

A gaveta parece a de uma nova casa. Roupas e peças menores que despertavam desejos e excitações, não estavam mais lá, ocupavam agora uma mala a caminho de um lugar desconhecido.

A libido, enfim, acalmara os ânimos. Aquele vestido que desfilava propositalmente da sala para o quarto, do quarto para o banheiro e do banheiro para sala novamente, completando o ciclo de tortura e sedução, estava na mesma mala do resto das roupas.

As refeições tornar-se-iam mais caseiras. Os jantares românticos, as velas refletidas em olhares apaixonados e as taças com marcas atraentes de batom, ficaram somente para a memória.

O silêncio reinaria. As declarações escandalosas, os galanteios sussurrados e as provocações ditas com palavras escrotamente safadas, sumiram e deixaram prevalecer a ausência de ruído.

O relacionamento por hora, estará tranquilo. Ela foi refugiar-se daquela desilusão na casa da mãe, que sempre lhe aconselhou. Ele foi refugiar-se em goles de algum tipo de álcool, em estiletes sem cortes e comprimidos sem efeitos; não podia morrer, sabia que ela sempre voltava.

Microconto #160

Hoje a mão dela encostou na minha. Me deu um frio na barriga.
Sempre ouvi dizer que amor de colégio dura a vida toda.

Microconto #159

No sábado a tarde,
deitados na cama,
ela me contava as pintas pelo corpo, e eu,
perdia a conta de quanto tempo ainda queria ficar ali.

José

Por que Paloma partiu? – Pensava Pedro permanentemente.

Preferiu perder-se por paixão própria?

Preferiu parir por parte palaciana para perder propositalmente Pedro pobre? – Pensava palidamente.

Prematuramente Paloma partiu. Poemas, poesias, papéis paupérrimos; por poucas partes perdia-se Paloma.

Paixões plurais preocupavam Pedro. Paloma pervertida? Pior, Paloma puta? - Pelo pai! - Por que pensar porcaria? - Para! - Partiu por pura preferência.

Pouco pafioso, preferia pensar puramente - Perdi Paloma pela pobreza.

Pedro pediu perdão pro Pai por pensar problemas propositais. Perdeu passado; presente; Paloma.

Proclamou publicamente prólogo, prefácio, prelúdio para posterior ponto positivo. Puro pifianismo.

- Porra. Perfeitamente. Perdeu Paloma por promessa paterna.

Pachocho Pedro, preferira permanecer preso pelo “P”, para padronizar propósito prometido pelos pais.

Portanto, perdeu Paloma para Paulo. Era Paulo, mas era José Paulo.

Microconto #158

A cada discussão imatura o relacionamento escoava junto com as lágrimas.

Microconto #157

Depois de muito custo, realizou o fantasioso Ménage à Trois do marido.
O difícil mesmo foi assistir de fora.

Microconto #156

A loteria acumulava, assim como os sonhos e as dívidas.

O que ficou de ontem

Depois de encontrar, depois de conversar, depois de provocar, depois de ver, depois de mostrar, depois de ouvir, depois de falar, depois de ler, depois de escrever, depois de querer, depois de desejar, depois de imaginar, depois de pensar, depois de acarinhar, depois de beijar, depois de tocar, depois de suar, depois de excitar, depois do prazer,
depois do tesão,
depois de mim,
depois de você,
depois de tudo.

O que ficou foi lembrança.
Escorrendo na mão,
simples,
branca e
quente.

Microconto #155

Uma vez conheci um cara bem otimista.
Desses que a gente encontra no espelho sabe?
Infelizmente foi só uma vez.

Microconto #154

- Adoro quando você fala dormindo. Hoje, por exemplo, aconteceu de novo. Só que mais uma vez não foi o meu nome que você disse.

Microconto #153

As coisas que ela mais gostava eram exatamente as que ele menos fazia.

Resposta a um e-mail provocativo

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Não responderia por meu corpo.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Não obedeceria meus limites.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Quereria tu não as ter pronunciado.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Seria pouca tua imaginação pra responder o prazer.

Ah malditas palavras que cá não estão.
Que fazem de ti bendita,
e ainda viverá até o próximo gozo.

Deixa ela entrar

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Fazendo parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema, Deixa Ela Entrar é um filme considerado atípico.

Numa época onde os sucessos hollywoodianos estouram de bilheteria com filmes comercias contando histórias de vampiros, o diretor Tomas Alfredson consegue fazer diferente. O filme sueco é uma história de vampiro pra gente grande.

Apesar do enredo simples e com alguns clichês, é possível perceber detalhes de câmera, roteiro e fotografia que dificilmente um filme de terror poderia apresentar.

Inteligente, nada grotesco e ao mesmo tempo delicado, o longa acumula até o momento mais de 40 (já perdi a conta) prêmios internacionais. Não só como roteiro mas como referência para o cinema, cogita-se já a possibilidade dele ser regravado em hollywood. O que convenhamos, ganharia muito em investimento enquanto paralelamente, perderia muito na simplicidade.

Microconto #152

Descobriu que àquela hora da noite os arbustos não costumavam se mexer sozinhos.

Microconto #151

Quando o pai entrava no quarto da pequena, junto com a tranquilidade, morria também a inocência.

Microconto #150

Pensou em escrever uma autobiografia repleta de realizações pessoais.
Só não foi em frente por falta de conteúdo.

A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar

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Acho que o que me fez ficar muito em dúvida se gostava ou não do romance, foi a mistura de linguagens. Não que seja ruim experimentar mas, não sei se a dosagem foi boa.

No romance, por meio de uma terapia de vidas passadas, a personagem principal descobre ter sido “responsável” por escrever a Bíblia (óbvio). Ela é uma das 700 mulheres de Salomão, a mais feia de todas e até passa por situações interessantes.

O legal do texto é justamente a criação de Scliar pra desenhar e explicar os acontecimentos em cima de todo o trabalho da tal escrita. Acho que aí ficou o problema, esses, que são os detalhes mais legais na construção da narrativa, foram os menos explorados.

O livro rendeu a Scliar, o Prêmio Jabuti em 2000. Scliar levou agora em 2009, mais um Jabuti na categoria romance, com o livro Manual da Paixão Solitária.

O mais engraçado é que o Jabuti, de uns tempos prá cá, já não vem agradando muita gente, ou pela repetição, ou pelo julgamento, ou às vezes, por causa de algumas qualidades. Não generalizemos, claro, mas espero que eu goste mais dessa nova obra de Scliar.

Li esse ano coisas bem melhores, mas fica a dica pra quem quiser discutir opiniões: A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar.

Microconto #149

Desfilava nas noites paulistanas com roupa apertada, fantasias inconscientes e só não conseguia mais dinheiro por causa do volume frontal na calça.

Microconto #148

A mão caiu junto com o corpo.
A cabeça achou o travesseiro,
o braço o chão
e o vidro a cadeira, revelando pra cima seu rótulo assassino.

Microconto #147

As nuvens levaram uns 3 animais,
do meu sorvete metade já deslizou e o papai,
com a bola,
continua brincando de morto na poça de sangue.

Subject - Sem assunto

Baby?
Passa aqui em casa antes de trabalhar. Passa?
Queria ralar minha língua na sua pele,
suar minha mão em seu prazer,
me acabar com seu corpo,
percorrer suas curvas,
encontrar brechas e me perder de amor.

Baby?
Passa aqui em casa antes de estudar. Passa?
Queria mostrar que no mapa do seu corpo todo ponto é G,
te ensinar que na cama o português pode ser errado,
que foder também dá pra conjugar,
que um mais um somos nós dois,
que sexo é orgânico e dois corpos ocupam o mesmo lugar.

Baby?
Passa aqui em casa depois que esse e-mail acabar. Passa?