Microconto #510

Antes que o arrependimento chegasse ao dedo,
esse já dobrara,
e sorvera a vida,
através da bala.

Microconto #509

Na parede do velório
as sombras dançam ao som da vela.
Tudo bem, consolam Aninha,
papai não sabia dançar mesmo.

Morte encomendada

Tinham certeza que era o Zé Elias voltando pra casa naquela viela sem iluminação.
Foram três tiros certeiros no peito da pessoa errada.

Amor prematuro

Vivem juntos não tem quatro meses e o amor já nasceu.

Microconto #508

Para com isso, pega um chocolate e vem ver a novela,
a Helena vai beijar o Pedro.
Senta aqui. Seremos, nós dois, o doce e a mesmice.

Microconto #507

Guardava problemas e angústias.
Jogava tudo numa caixa velha com cheiro de esperança e abria de vez em quando pra pensar na sorte.

Microconto #506

O calor da insistência derreteu minhas esperanças de relacionamento.
Hoje vejo sentimentos moles, como obras de Dalí.

Microconto #505

É noite.
Sozinho divido meu silêncio com o estalar dos móveis.
Amanhã não.
Amanhã,
junto com a carta,
deixo a mobília falando sozinha.

Microconto #504

E no carro do simpático moço,
o menino se escondeu da família.
Pra sempre.

Microconto #503

Produzir literatura e depois reproduzir.
Foi assim, com uma ambiguidade inocente no texto,
que a gente acabou indo além das palavras.

Microconto #502

Ilusoriamente acompanhado,
consigo ouvir um monólogo de dupla personalidade,
apaixonado,
platônicamente,
por mim mesmo.

Microconto #501

Bateu na mesa o copo, com uma dose de consolo e duas pedras de gelo.
O bar vazio replicou o eco do descaso alheio.

Microconto #500

Abraçados na sala,
sentiram músicas,
cantaram sonhos,
uniram mentes e
passaram o resto da noite confundindo sentidos.

Microconto #499

Deixou a barba crescer,
colocou 2 quilos de pólvora embaixo do casaco
e saiu por aí a subtrair futuros.

Microconto #498

A banda passa.
Na janela Maria sorri.
Não é sempre que um som diferente do choro dos filhos abafa o ronco da fome.

Microconto #497

As árvores choram folhas enquanto o céu não desmolha.
Com sede depois da estação do Sol,
resta só a caatinga e uma família.

Microconto #496

Num impulso literário, o microcontista desatou a escrever, e, passando da primeira linha, achou mesmo que não fosse mais parar.

Microconto #495

Aumentou a música favorita, abaixou pra tirar o sapato e antes de voltar a atenção pra estrada, conseguiu ouvir o refrão pela última vez.

Keep walking

Para na beira do mar, olha pra trás e vê as pegadas na areia.
Imagina as marcas como decisões mal tomadas que seguem ele até hoje.
Fica ali alguns minutos.
A maré sobe.
O futuro molha seus pés.
Desperta assustado e pensa, daqui pra frente posso caminhar sem remorso, dentro da água, os rastros de história vão desaparecer.

Microconto #494

Naufrago em copo
destilado
enquanto você me ignora
por toda parte.

Microconto #493

Nas ruas, apenas putas, mendigos e drogados.
A vida acaba de virar uma sequência de passado, presente e só.

Microconto #492

Falando ao nada,
a velha abandonada,
ouvindo seus murmúrios,
consolava a própria solidão.

Microconto #491

Suas fotos, até hoje, têm efeito lacrimogêneo.

Microconto #490

Tô com aquele friozinho na barriga do primeiro encontro, sabe?
Deve ser amor.
Afinal, a gente já se conhece há mais de 3 anos.

Microconto #489

Entre o tic e o tac do relógio consigo ouvir minha solidão.

Microconto #488

Fugiu pra longe.
Lá onde mora a saudade.

Microconto #487

O vento noturno assobiava a canção do medo do lado de fora da janela.

Microconto #486

Sob a chuva, indo embora no banco de trás, a única coisa que vi, foi um adeus achando ser temporário.

Microconto #485

Levava na barriga, uma xícara de café, duas bolachas água e sal e um punhado de esperança.

Microconto #484

A faca desce,
o aço entra,
a carne sangra
e o prazer mal passado agrada todo mundo no churrasco em família.

Microconto #483

Abro os olhos de manhã e percebo que ela também tá acordada.
A luz do sol passa arisca pela cortina.
Viro pro lado e vejo a orelha dela perdida em meio ao cabelo bagunçado.
Falo te amo, baixinho, ao pé d’ouvido.
Ela ri com desdém.
Droga, penso; parece que o nosso amor acaba de se perder no meio de uma piada.

Receita nossa

Uma xícara de café, uma colher de açúcar e uma pitada de amor.
Uma colher de amor, uma pitada de café e uma xícara de açúcar.
Uma pitada de açúcar, uma xícara de amor e uma colher de café.
Eu tento, mudo, misturo e invento. Mas a saudade que escorre do bule sempre vai ter gosto de você.

Microconto #482

Aqui da varanda vejo meus filhos brincando no quintal. O cachorro corre atrás da Helen e do Mateus.
Lá dentro, na cozinha, minha mulher prepara o almoço. O cheiro do prato predileto vem me provocar.
Queria poder brincar.
Queria poder ajudar.
Queria poder me mexer.
São tantos quereres depois do acidente.

Microconto #481

A mulher barbada se depilou, o malabarista perdeu o equilíbrio, o mágico errou o truque e o palhaço foi o único que continuou achando graça.

Microconto #480

Sob o chapéu uma mente gasta de vida.
Sob os olhos um bigode amarelo de problemas.
Sob o peito um coração parado de desgosto.

Microconto #479

Chega mais cedo.
Abre a porta com intenção de surpresa.
Desapontado, encontra na cama, a mulher, e o marido.

Microconto #478

No parque, pai e filho, dividindo uma Coca-Cola e três coxinhas, curtiam toda a felicidade que o dinheiro podia comprar.

Microconto #477

Na volta pra casa, uma briga entre passageiro e cobrador da linha Lapa, terminou com quatro tiros, dois corpos e nenhuma saudade.

Microconto #476

Entre cartas, copos e fumaça,
apostava a vida sem muita sorte.

Microconto #475

Quando o pai morreu, o corpo alimentou a terra, a alma alimentou o céu e ninguém alimentou os filhos.

Microconto #474

Depois de muito tempo fora, a única manifestação de saudade foi o balanço de um rabo canino, não correspondido.

Microconto #473

Na fila há muito tempo, esperando sua vez, o homem pensa - Senhor, por que já não nascemos com dois corações?

Microconto #472

Revirando o porão, Seu Felipe resmunga baixinho, como pode caber tanta saudade dentro dessas caixinhas de brinquedo?

Microconto #471

Na frente da tevê, Carlos assiste ao noticiário na companhia do seu novo estado civil.

Microconto #470

Vovô morreu por falta de memória.
Um dia, assim, sem mais nem menos, ele esqueceu de respirar.

Microconto #469

Chove; pela janela entra um cheiro doce e fresco de saudade. A coberta está mais vazia hoje. Ainda acho que a música do dia podia ser você.

A vida imitando a arte imitando a vida

Fernanda perde um tempo procurando a chave do carro. Vão chegar atrasados no jantar. A viagem inteira Fernanda pensa no noivado. Acha até que o casamento pode sair ano que vem.
Felipe tá estranho hoje, percebeu na hora que ele chegou do trabalho. Sabe que tem um projeto novo pra entregar, deve ser isso que tá incomodando. E ficar falando do trabalho só vai piorar. Felipe mudou de emprego recentemente, foi trabalhar no mesmo escritório de arquitetura da Célia, a amiga que estão indo visitar. Célia é casada com Frank, um inglês naturalizado. Se conhecem desde a faculdade.
Quando chegam, Frank está mais feliz que Célia, dá pra ver na cara dela, parece impaciente. Entram e se cumprimentam como toda cerimônia social padrão. Fernanda acompanha Célia até a cozinha pra acertar os preparativos.
Durante o jantar, depois de algumas taças de vinho, é engraçado como o assunto passa do carro novo que o Felipe comprou, pro último filme que a Fernanda assistiu.
O que Fernanda achou mais legal foi como o diretor segurou uma hora e meia num único assunto. O filme acompanha uma noite na vida de um casal que está indo jantar na casa de dois amigos. Acontece que o homem do primeiro casal tem uma relação escondida com a mulher do outro casal. Tudo começou depois que ele entrou pra trabalhar no mesmo lugar que ela. E o jantar foi marcado para que eles colocassem na mesa toda a história que estava acontecendo. Não dava mais para suportar a situação. O casal troca olhares em segredo durante todo o jantar. Os diálogos são ótimos. Mas aí, a mulher traída acaba entrando num assunto sobre um conto que tinha lido recentemente. O papo desvirtua, o foco muda e no fim, ninguém fala nada.
Corta. A cena volta pra sala de jantar. Fernanda termina de contar o filme. A mesa segue calada. Felipe olha pra Célia. Tudo escurece. Os créditos sobem.

Microconto #468

Bebeto,
a caminho da cidade grande,
leva na mão uma mala folgada,
espera da rodoviária o ônibus,
e da vida nada.

Microconto #467

A mãe colocou um pouco no prato de cada um, sentou e agradeceu por hoje ter uma boca a menos pra alimentar.

Microconto #466

Dona Zizi chega em casa depois de um dia inteiro de trabalho. Empurra o portão que deixou aberto e percebe que o cachorro não fugiu. 
Uma pena. Não sabe se essa noite vai dar pra dividir o jantar por cinco de novo.

Microconto #465

O policial racista foi morto por uma arma branca.

Microconto #464

O carinho, inato.
O calor, interno.
O frio, pretexto
e a paixão, renovável.
Estávamos nós,
a Eiffel
e mais nada pra dizer.

Microconto #463

06 de agosto de 1945.
Hiroshima, 8 e 15 da manhã.
Ligação internacional.
Chateado com a mãe ele prefere não atender na primeira tentativa.

Microconto #462

Enquanto isso,
no vidro do carro de luxo,
dava pra ver o reflexo da pobreza do pedinte.

Microconto #461

Trocamos elogios a noite toda na tentativa de salvar o casamento.
Não adiantou.
De manhã ela pegou a mala cheia de adjetivos e foi embora pro meu passado.

Microconto #460

Deu um beijo na mulher e no filho,
olhou pro cachorro,
abriu a geladeira pela última vez
e resolveu desistir de tudo.

Microconto #459

Entre latas e papéis,
o homem sujo e desdentado,
procura comida e dignidade.

Microconto #458

E lá vai ela, ao lado do marido, como sempre.
A frente do cortejo, segurando a alça do caixão.

Microconto #457

Tinha na cabeça, sonhos, projetos e uma bala, deu na autópsia.

Microconto #456

- Ai meu deus! - Disse ao cair do prédio, o ateu.

Microconto #455

Dentro de mim tem pedaços de história jogados por todos os lados.
É a bagunça que sobra depois que a nossa festa acaba.
Uma música toca baixinho. Paro, ouço melhor e percebo que, na verdade, é apenas o som da solidão.

Microconto #454

Cansei de escrever sobre a saudade.
Hoje, a literatura que sai dos meus dedos,
é uma viagem que me leva cada vez mais pra longe de você.

Lembranças e outras coisas para esquecer

Se tinha uma coisa que incomodava Larissa, eram as frustrações do passado. Romances, amizades, família e agora o ex-emprego. Bastaram quatro dias no Laboratório Guadalupe e um exame positivo passar em suas mãos pra decidir: isso não é pra mim. Foi assim que há algumas semanas Larissa deixou o jaleco em cima da recepção. Poderia dizer que foi uma experiência passageira, não fosse aquele resultado de HIV que voltava sempre a cabeça. Não sabia ao certo por que aquilo ainda a incomodava. Talvez a coisa de imaginar a tal Cecília recebendo a notícia do exame, quem sabe.

Levanta da cadeira, chacoalha os farelos do bolo de laranja, pega a bolsa sobre a mesa da cozinha e decide parar de pensar nisso a caminho do mercado.

Entre uma e outra prateleira, a mente vaga e Larissa pensa em Diego. Outro problema mal resolvido. Conheceu Diego num bar perto do mercado, em uma das poucas vezes que saiu à noite. Ela, Carmen e Mira, sentadas a procura de nada. Acabaram se encontrando no dia seguinte, no mesmo lugar, no mesmo horário, mas sem as mesmas companhias. A relação ia bem. Saídas periódicas, sexo passional, cinema comercial e presentes aleatórios. Uma rotina nova depois de tantas repetições. O romance evoluiu e Larissa achava que não estavam se vendo como deveriam. Cobrou presença. A frequência dos encontros aumentou, mas durou o suficiente pra não incomodar Célia.

Diego era casado.

No caminho pra casa, Larissa repara nas roupas das pessoas pela rua, especialmente nos cortes e estilos antigos, acha reconfortante ver como os outros também se apegam ao velho.

Resultado: Amostra POSITIVA.

Abre a porta de casa. Coloca as sacolas sobre a mesa. Vê que ninguém ligou. Senta na cama, olha pela janela e lembra do apartamento que a Carmen mora, onde a paisagem recortada de Montevidéu é bem mais bonita. Adormece pensando nesse cenário do horizonte, onde a vista acaba em água e verde.

Diego.

Acorda incomodada, mas levanta animada por não lembrar do sonho. Liga o computador. Sete novas mensagens na caixa de entrada. Duas delas, respostas de emprego. Se realmente estava interessada em mudar de vida, um novo emprego seria uma das melhores ajudas. Descarta a primeira proposta pela distância, a segunda, apesar do salário baixo, é a mais certa. Dá pra enganar as contas mais uns meses como auxiliar administrativa. Responde, levanta e vai preparar alguma coisa para comer.

Na cozinha, mexendo nas compras, vê que esqueceu de colocar a carne na geladeira. O bife não estava nos planos, mas já descongelou. Prepara o jantar pensando em muitas coisas que poderia fazer pra ajudar no seu recomeço. Esquecer do passado não é tão fácil. Um dos caminhos seria encher a casa de novidades. Pra começar, poderia muito bem levantar um dinheiro vendendo as coisas antigas. Resolveria dois problemas de uma vez só.

Revira fotos, objetos e recordações. As músicas, os almoços em família e as trocas de presentes natalinas inundam os olhos. O coração acelera quando pega a vitrola da mãe falecida e lembra do pai, percebe que as memórias, na verdade, são frutos de associação. Decide então que se realmente quer botar um fim no passado ruim, deve começar por ali. Afinal, de todas as lembranças precoces e doloridas da infância, as do pai, são justamente as que ela menos quer guardar.

Mil e oitocentos pesos. É assim que anuncia, no dia seguinte, a vitrola no Mercado Livre.

Microconto #453

A corrente de ar se esquiva entre os casacos que passam pela rua.
O vento frio chega impiedoso no mendigo.
Congela as mãos, os pés, o resto de sopa, o pão e a cena.

Microconto #452

Enquanto afogava Carla, na lagoa da Conceição, olhava em silêncio o reflexo da Lua. Aquela mesma que prometeu no começo do namoro.

Microconto #451

Bia chamava de mãe, todas as funcionárias do orfanato.

Microconto #450

A carta de suicídio ficou lá, incompleta, em cima da mesa.

Microconto #449

- Estou grávida!
A mãe, estática, ficou surpresa.
O pai, com o cano quente do revólver na mão, ficou arrependido.

Microconto #448

Perdeu o pai,
o vô,
a mãe,
o irmão,
a tia;
e do jeito que a coisa ia,
logo logo todo mundo se encontrava de novo.

Microconto #447

Rum.
É disso que eu preciso.
Vou encher a cara, esquecer problemas, lugares, datas e me perder com alguns piratas, no século XVI dessa noite.

Microconto #446

Nesses tempos de chuva, a solidão é tão triste, que me obriga a ficar no apartamento, imaginando amigos e vendo a janela chorar.

Microconto #445

Confusão;
e a ambulância passa apressada
deformando o som da sirene.
Aqui fora a vida continua.
Lá dentro não.

Microconto #444

Ela comprou vinho; ele, chicote.
Ela comprou chocolate; ele, algemas.
Quando se viram, ela passou fome e ele vontade.
Eram novatos.

Microconto #443

- Próximo!
Depois de duas horas e quarenta e oito minutos no corredor do Pronto Socorro, foi a última coisa que Dona Eloísa ouviu.

Microconto #442

A moto passou apressada entre a fileira de carros parados.
Uma porta abriu.
E o motoboy entrou no céu.

Microconto #441

Na laje do barraco,
com a antena da TV na mão,
o pai sintoniza no grito,
a diversão do pequeno João.

Microconto #440

Tomou coragem, o último gole, olhou pra mulher e disse:
- Querida! Eu traí você a vida toda.
Ela já sabia. Era mesmo o último gole.

O dia que comecei a fumar

Chove.
Clara ainda não acordou. Deve ter demorado pra pegar no sono.

A gente tava atrasado. O bom é que da cama pro carro foi rápido.

Eu suava e tremia. Parecia até que era comigo.

Ela não abriu a boca durante o caminho. Também não falei nada. Achei que ia deixá-la mais nervosa.

Era a primeira gravidez.

Demoramos pra chegar. Se soubesse que a porra da mulher do tempo era incompetente, saia mais cedo.

Entramos.

Com hora marcada, não demoraram pra chamar a Clara.

Perdi a noção de quanto tempo durou a cirurgia.

Tô esperando a Clara sair daquela sala até hoje.

Não é justo. No aborto a gente costuma tirar só uma vida.

Microconto #439

Ganhava panetones no natal, ovos na páscoa e presentes no aniversário.
Mas o que ele mais queria era alguém no dia das mães.

Microconto #438

No espelho, a troca reflexiva de olhares comigo mesmo, às vezes, mas só às vezes, fazia-me ver o quão podre eu era também por dentro.

Microconto #437

A melhor forma de não pensar mais nos problemas foi ocupar a cabeça com chumbo.

Microconto #436

Com o curso de enfermagem, salvou a vida do pai que sempre quis um filho advogado.

Microconto #435

Ele mentiu que era engenheiro, ela mentiu que era casada.
O destino bem que tentou, mas não teve jeito.

Microconto #434

O choro do bebê vem de longe. Bem devagar. Aos poucos. Até acordar o pai.
É a quarta vez na mesma noite. Sem falar das outras vezes nos últimos dias.
Ele não aguenta mais. Levanta, vai até o berço e resolve o problema.

Microconto #433

Prestou os primeiros e últimos socorros.

Microconto #432

Sozinho em casa, personifico objetos seus.
Falo com botas, ouço retratos e acarinho roupas vazias.