Microconto #575

Precisava tocá-la e beijá-la de qualquer jeito; estava ali, calada e tentadora; além disso, a autópsia poderia muito bem esperar.

Microconto #574

Tudo o que trouxe daquela guerra foi a saudade de suas pernas.

Microconto #573

Na favela, imaginando pequenos cometas, a criança fez pedidos em uma ingênua liberdade, ao ver as balas cruzarem o céu noturno.

Microconto #572

O sol coloria o dia com o reflexo nas pipas, enquanto a noite, a lua iluminava sozinha os becos da periferia onde o colorido não existia.

Microconto #571

Com seu talento de menoscabar os textos, reduzia poeticamente os espaços entre os parágrafos e os pontos finais.

Microconto #570

De uma forma estranha, começou a se sentir estranho, e, estranhamente, a estranheza passou a ser normal.

Microconto #569

- E eu vou fazer o quê, sozinha com essa criança?
- Cuidar, ué! Foi você que disse que me amava.

Microconto #568

O casal decidiu não encarar como final.
Nem que a carne trema, nem que a mente gema e nem que os fluidos vazem.
Nunca.
Sem final é melhor.

Microconto #567

Se os pensamentos permitissem diminuir as distâncias,
o aroma dela far-se-ia presente,
e o beijo,
quente,
como nunca fora.

Microconto #566

Gotas ácidas começaram a cair de uma chuva nunca antes vista. Casas, carros e pessoas derreteram, escoando pelo ralo da extinção.

Microconto #565

Não me venha novamente, nua e quente, com o seu jogo de sedução.
Não caio mais nessa.
E se cair, é só mais uma vez.

Microconto #564

No quarto do hotel a luz foi apagada e a cortina aberta. A vista pro mar daria ótimas férias, se o emprego dela não fosse o de arrumadeira.

Microconto #563

O mundo em involução,
deixou Deus sem saber o que fazer,
quando no último dia,
os céus e a Terra deixaram de existir.

Microconto #562

A dupla personalidade não o deixava terminar a biografia.
Um escrevia. O outro apagava.

Microconto #561

Sentou no banco a beira mar. Pensou na velha história de abandonar tudo e vender coco na praia. Justo o sonho mais difícil de realizar. No céu, a fila de pedidos tá enorme.
Do outro lado do calçadão, seu Flávio pensa em largar a barraca e morar na cidade. Mas não acha ninguém pra trocar. Tá todo mundo acomodado na fila do coco, fazendo nada pra mudar.

Microconto #560

Encontrei no velho baú,
roupas órfãs do meu cheiro.

Microconto #559

Na premiação do homem mais impaciente do mundo ninguém esperou o resultado.

Microconto #558

No asilo, os velhinhos só falavam do passado.

Microconto #557

A insônia foi consumindo, um a um, todos os sonhos.

Microconto #556

Negro, e com 89 anos, presenciou a assinatura que aboliu a escravidão.
Foi exatamente a última coisa que viu.
Uma pena.

Microconto #555

Pai e mãe aguardam ansiosos no desembarque o reencontro com a filha depois de 14 anos.

O painel sinaliza o atraso com mais de duas horas.
Seu Firmino vê uma movimentação estranha no saguão do aeroporto. No alto falante, uma voz calma e fria, solicita a todos que aguardam o voo 964, que se dirijam pra sala VIP da companhia.
Dona Cleide aperta a mão do marido e uma lágrima premonitória escorre por todos os cantos dos olhos.

Microconto #554

O mundo desacelera, as coisas ganham cor, os detalhes ganham vida e tudo vira música.
Dois olhos se encontraram numa esquina.

Microconto #553

Num dia contrário a democracia,
quando todos resolveram desobedecer,
a vida foi decrescente.

Degradação

Acendeu outro cigarro, jogou a cerveja no rio e observou a velocidade da lata na correnteza. Reparou também como não dava pra perceber aquele movimento com uma simples olhada. A água parecia um tapete, denso e escuro.

Muitas coisas percorreram sua cabeça enquanto esteve ali parado. Uma delas, é como aqueles caras do jornal sabiam quantos litros de água passavam por segundo num rio. Nunca na vida viu alguém parado na beira d’água contando ou medindo.

Outra coisa que o deixava muito curioso era a questão da poluição. Já tinha visto alguns ecochatos na TV falando sobre o assunto, mas era a primeira vez que conferia de perto. Um cheiro horrível tomava conta da beirada do rio, uma névoa de cor indefinida se confundia com a cerração matinal, e a água, só de olhar dava pra entender o que eles queriam dizer com, diferença de densidade.

Acendeu mais um cigarro e jogou a bituca do antigo também no rio. Só que dessa vez a cabeça não estava lá. Pensava no trabalho. No esforço pra encher as panelas e pra não deixar as contas enfeitarem a porta da geladeira. Pensava nos filhos que queria ter, nas melhores profissões que estavam por vir, na realização dos sonhos de consumo, na reforma, no carro, nas viagens, nas chances e nas terças-feiras chuvosas que preferiu não sair de casa; pensava no cachorro, nos bolinhos de carne, pensava também se aquela era a hora que ele começava a chorar.

Não chorou.

Mas continuou pensando; no amor, no sexo, na família, no vizinho inocente de quem nunca suspeitara, e na mulher, aquela vagabunda sustentada agora pelas pedras no fundo do rio.

Terminou mais um cigarro, virou as costas e torceu pra ser verdade o que falavam todos os ambientalistas, e que, aquele papo de lixo tóxico e água com altos índices de acidez, resolvessem rápido o problema da decomposição.

Microconto #552

Dois corpos acelerados em uma constante e medíocre troca de fluidos.
A única comunicação eram gemidos.
O único carinho era atrito.

Microconto #551

Na manhã seguinte,
junto com o porre,
foi embora a beleza.

Microconto #550

Consumia, aceleradamente, os anos de vida restantes, em maços de 20 unidades.

Microconto #549

Ele cortou a pensão e ela a mangueira de óleo do freio.

Microconto #548

Nossas conversas estão aqui guardadas, numa pasta chamada Naftalina.
E-mails carinhosos, saudosos e sexuais.
Um pouco de passado dentro de um baú virtual.

Abro sempre uma frestinha pra lembrar de ti.

Mas fecho logo. O mofo às vezes faz mal.

Por fim

Foi morrendo devagar, bem devagarinho.
Assim, aos poucos, bem pouquinho.
Um tiquinho só por vez.
Até não sobrar mais nada, nadinha.
Nem saudade.

Microconto #547

A primavera foi embora ontem a noite. Levou a mala cheia e o coração vazio.
Disse que não voltava mais.

Microconto #546

Numa travessa ali na Paulista, num condomínio ali da Bela Cintra, num apartamento ali do 9º andar, amanhece um inverno fora de época.

Microconto #545

Saiu de mansinho pra trabalhar. Era domingo, 5 da manhã e um frio danado lá fora. Preferiu não acordar ninguém. Mas teria dado um beijo nos filhos se soubesse que não ia voltar.

Microconto #544

E num planeta distante,
numa galáxia mais ainda,
a maior guerra atômica estourou.
Aqui na Terra,
além da gangorra,
nada mais mexeu.

Microconto #543

Na sala,
numa extensão de sol que entrava pela cortina,
partículas de poeira dançavam a solidão.
Lá fora,
mais um cachorro mijava no poste.

Microconto #542

Na festa de sete anos do Juninho,
as crianças se afogam em alegria,
os balões colorem a lembrança
e os doces alimentam a infância.

Microconto #541

A pipa enrosca no fio. E começa o cabo de guerra da vida.
De um lado da linha a criança puxa sem maldade.
Do outro, puxa a eletricidade.

Microconto #540

Ficamos horas na praça,
cada um em uma ponta do banco,
trocando olhares a tarde toda,
separados apenas por nossa timidez.

Microconto #539

No fim do dia o palhaço lava o rosto.
Na pia escorre a alegria e o sorriso.
No espelho restam as rugas e a verdade.

Microconto #538

Como se fosse contagioso,
o suor escorria,
um a um,
ao meio dia,
a testa de todos,
na fila dos desempregados.

Microconto #537

Longe de você as palavras não vêm,
sinto-me largado no mundo gramatical, sem orações,
mas ainda com fé.

Microconto #536

Uma vez,
quando ainda eram pequenos,
chegaram a se conhecer por baixo do vestido.

Microconto #535

E no mato, junto com os outros pedaços, marcando 190, foi encontrado o velocímetro.

Microconto #534

A chuva leva as roupas, os móveis e o carro.
Lava de lama, o quarto, o quintal e a rua.
Resta apenas dúvida, tristeza e mais chuva.

Microconto #533

Abraçada ao filho, chorou até não ter mais lágrimas.
Os olhos secaram depois de um tempo, assim como o remorso do assassinato.

Microconto #532

Tragando problemas,
o homem com perfume de nicotina,
acabou com o cigarro.
E vice versa.

Microconto #531

Afrodite ficou conhecida como “Deusa do Amor”.
Dava na rua tudo o que eles não tinham em casa.

Microconto #530

Perdeu as lembranças da infância dentro da velha caixa de brinquedos.

Microconto #529

Em visita a Casa Mal Assombrada, mais turistas entravam do que saíam.

Microconto #528

Subia e descia o morro fazendo a alegria da molecada.
Em cima distribuía doce,
embaixo ganhava bala.

Microconto #527

Cruzei com ela na frente de um boteco, ali na Floriano Peixoto.
Nunca tinha me apaixonado antes.
O engraçado foi que o perfume dela se perdeu em meio ao cheiro do óleo de coxinha.
Até hoje choro toda vez que entro num bar.

Microconto #526

No canteiro central, uma senhora de aproximadamente 70 anos, segura com cuidado seu Yorkshire e espera, pacientemente, já que a velocidade dos carros ainda é baixa demais.

Mal entendido

Duas fileiras com cinco telas em preto e branco. Da esquerda pra direita, Denis olha os monitores na sala de segurança. O movimento da cabeça é sonolento. Os olhos fecham devagar, a mão amolece e o copo de café esvazia na calça. O susto é maior que a raiva. A roupa preta ameniza a mancha. A porta abre, Jackson entra sem falar, Denis aproveita que a sala não vai ficar sozinha e sai rápido pra não mostrar a cagada.

A caminho do banheiro, Denis olha as salas vazias. Os primeiros funcionários só chegam a partir das oito. Denis para, pega um copo d’água e encosta ao lado do bebedouro com cara de quem não vai aguentar esse ritmo por muito tempo. O trabalho escalonado e o curso de administração a noite, estão desregulando o sono. Mas não vai desistir. Vê na bolsa que conseguiu na faculdade a chance que precisava pra trocar a sala de segurança pela sala do financeiro. Claudio, o diretor, disse que a próxima vaga que abrir é dele. Todo mundo no departamento já percebeu os encontros de corredor. Na faculdade o pessoal também comenta sobre a pré-disposição. Só em casa que ainda não.

Claudio é casado. Pra não dar bandeira, mantêm contato com Denis por um chip pré-pago. Denis fica parado mais alguns minutos, imaginando seu futuro trabalho e projetando novos sonhos. Aproveita os minutos sozinho e pega o celular “Hj a noite n tem aula a gente podia ir naquele motel.”

Coloca o telefone no bolso. Apoia a cabeça na parede. O sono bate de novo. A mão amolece e o copo d’água esvazia no carpete. Denis pega o copo, sai sorridente e nem percebe que, distraído, digitou no celular, um número errado.

Microconto #525

As lágrimas tornaram-se
o orvalho dos olhos
depois de uma noite
de frio relacionamento.

Microconto #524

Guarda rancor do tio
desde que sentiu no colo
muito mais do que carinho.

Microconto #523

Numa ação rápida, a polícia pôs fim ao assalto.
Bastou um tiro, e o bandido não tinha mais refém.

Microconto #522

- Não fala assim, amor. Ela é minha mãe.
- Mas eu cansei dessa intromissão na nossa vida. Decide. Ou eu, ou ela, Édipo.

Microconto #521

Começou a tocar nossa música.
Peço mais uma dose, choro discreto e imagino que agora você já tem outro ritmo.

Microconto #520

Os olhos eram os únicos que conversavam no silêncio depois da transa.

Microconto #519

No fim das contas, o que encheu o coração, foi a sensação de vazio.

Microconto #518

Não nos olhávamos diretamente.
Paquerávamos,
ora sim, ora não,
pelo reflexo que o escuro do túnel,
fazia aparecer no vidro do vagão.

Microconto #517

Na cena do crime:
uma bituca, uma moeda, algumas folhas e um corpo gelado.
Os legistas vieram.
As providências não.

Microconto #516

No cruzar de cada passante o cachorro fazia novo dono.

Microconto #515

No aeroporto,
estamos eu, a mulher com bebê e a menina chilena,
vendo na TV,
o avião que caiu
do voo que nós perdemos.

Microconto #514

Não denunciou o abuso sexual na esperança de mais uma chance.

Microconto #513

Morri, disse o vidente antes de morrer.

Microconto #512

Flertei um bom tempo,
daí ela levanta,
arma a bengala,
coloca os óculos escuros
e vai embora sem saber que foi amada.

Microconto #511

Filósofa e solitária,
morando no subúrbio,
desejava um homem que fizesse na cama, pelo menos metade do estrago que Procusto fazia.

Novas velhas histórias

Já te falei da vez que seu pai escondeu o cachorro do vizinho? A vovó fala e ri.
Ele não parava um minuto. Todo dia aprontava uma nova. Era uma briga na rua pra ver qual dos dois era o melhor. Se um tinha figurinha do álbum o outro precisava ter o álbum completo. Se o seu pai ganhava um pião, o Jorge aparecia com pião e bolinha de gude. A vovó seca a boca com o pano de prato e continua. Aí, um belo dia, no meio dessa disputa de criança, o Jorge apareceu com um cachorro. Eu e o seu vô não deixamos seu pai pegar um cachorro também, aí já viu né, o jeito foi dar sumiço no cachorro do vizinho. A molecada era fogo. Uma confusão. A vovó tira o óculos e coça o olho. Para. Fica em silêncio. Presta atenção nos passarinhos da gaiola. Ri sozinha e começava de novo com a mesma empolgação, como se nunca tivesse contado aquela história. Como se tudo fosse inédito. Como se nunca tivesse tido a doença da memória.
Já te falei da vez que seu pai escondeu o cachorro do vizinho? E ri.