Um pequeno passo pro homem, um passo gigantesco pra saudade

É tipo uma praia, só que sem água.
Uma praia fria.
Que os grãos de areia caem da mão em câmera lenta.
É vermelho.
Vermelho como a terra no sítio do tio Frank.
Só que não tem o pomar.
Nem a casa.
Nem o tio Frank.
É grande.
Dava pra ter muitos pomares, muitas casas e muitos Franks.
Dava pra colocar uma piscina ali.
Congelada.
Que ninguém ia nadar.
Então colocaria uma churrasqueira lá.
E como não tem oxigênio, a churrasqueira não ia acender.
Ia ficar apagada igual o fogão da vó Ewa quando ela não queria fazer bolo de milho.
Quando foi a última vez que eu entrei numa piscina mesmo?
Nem churrasco eu lembro de ter comido.
Tá tudo meio lento.
A vida podia passar mais devagar também.
Imagina o tio Frank mais devagar.
Imagina a vó andando igual os grãos vermelhos.
Imagina a praia dentro da casa.
Um churrasco inteiro de pomares.
Só que sem bolo de milho porque não tem piscina.
Quanta tecnologia o futuro trouxe pra gente.
E ainda não podemos visitar o passado.
Ficam só lembranças que vão se apagar como essa pegada aqui.
Há quantas pegadas eu tô de casa?
Há quantas pegadas eu tô do sítio?
Há quantas pegadas eu tô do passado?
Vó Ewa ia ficar puta com a casa toda suja de vermelho.
Olha o tamanho desse planeta e não tem nenhum pomar.
Lá fora do capacete a lágrima ia cair em câmera lenta.

A vida é imprevisível até quando é previsível

Eu tava chegando em casa quando vi a movimentação. Ninguém precisa te dizer que tem alguma coisa errada. Coisa errada tem cheiro de coisa errada. A rua alternava entre vermelho e azul. Tinha a mesma quantidade de carros de polícia e carros de bombeiro. Pessoas espalhadas em pequenos grupos conversavam olhando pro alto. O trânsito tinha sido desviado pra rua debaixo. Do resto, parecia que tudo corria bem. Não tinha nenhum som estranho. Não tinha nenhuma ambulância. Pensei, bom, parece que nada de grave aconteceu. Quando eu virei na minha rua, tinha pedaços de vidro por toda calçada. Um bombeiro colocou a mão no peito no momento que eu coloquei a mão na porta. Senhor, teve um incêndio no prédio, o senhor precisa aguardar a vistoria e a liberação pra subir. Em qual apartamento...



Nessa hora um zumbido agudo e baixo não me deixou ouvir o resto. Como eles vão dar a notícia pro morador? Quem será o morador? Será que tá tudo bem? Será que atingiu muitos apartamentos? Será que tinha gente morando onde pegou fogo? Porque pode ser que nem tinha gente morando. Lembrei de como é dolorido perder coisas. Lembrei das coisas que já perdi na vida. Meus pais que foram embora antes dos 19. Meus empregos que ficaram pra trás. Meus brinquedos. Meus dois cachorros. Meus avós. Alguns amigos. A carteira semana passada. A Márcia ano passado. Talvez de todos os meus relacionamentos, a Márcia foi o que mais doeu perder.



... senhor? Qual apartamento o senhor mora? No 72, respondi. O bombeiro colocou a mão no meu ombro e pediu que eu acompanhasse ele até a viatura. Foi só nessa hora que eu percebi que era comigo toda aquela história. Eu era o personagem do incêndio. Por isso todo mundo tava me olhando quando eu passei. Por isso não tinha ambulância. Por que não tem ninguém em casa quando eu não tô em casa. Eu comecei a rir. O bombeiro me abraçou achando que eu chorava. Mais algumas pessoas chegaram pra me consolar. Eu continuei rindo. Não era de nervoso. Era de certeza. Perder tudo seria muito mais dolorido se eu tivesse alguma coisa. Ninguém entendeu nada.

Ainda sei imitar sua letra

Falei durante horas com o objeto no chão que esperou meu monólogo acabar. Olhar praquilo me faz pensar em você toda vez. Não sei se é a cor, o tamanho ou o cheiro de sei lá o que. Mas, ver aquilo só me traz lembranças suas. Lembranças nossas, na verdade. Tem pó pela casa. Tem pó na mesa. Tem pó pelas coisas. Tem pó em mim. Não escrevo nada faz tempo. Perder você me tirou a produção. Queria organizar a casa, seguir em frente e, quem sabe, superar essa ida. Todas as histórias que contei antes da carta tinham vida, todas as histórias que não contei depois da carta têm morte. Sou agora um escritor sem alma. Olhar aquela folha de passado no chão com palavras suas impressas me fez pensar que, de todas as histórias lacrimáveis que eu já escrevi, uma carta de suicídio não se compara a nenhuma delas. Gostar em excesso de você não imaginei que levaria a isso. Te amarrar foi um jeito que achei pra te segurar. Ninguém desconfiou que te matei. Eu amava demais pra duvidarem.

O dia que eu não vi neve pela primeira vez

Foi num café da manhã em Istambul. Eu comia bolo de farinha, homus e pepino. Sei lá, tinha tudo isso na mesa e eu peguei. Na minha frente tinha uma família mexicana. Cada um deles tentando resolver um problema. Um dos problemas era sobre um chip pré-pago. Na mesa do lado tinha uma mulher estranha sentada sozinha. Ela tinha as unhas gigantes. Mal conseguia segurar as coisas que comia. Uma rádio local tava sintonizada na TV. O locutor falava há muito tempo. O resto do salão estava repleto de turcos em silêncio. O garçom limpou todas as mesas. Mas deixou apenas uma suja. Lá fora, um gato desfilava de um lado pro outro em cima da calha que separava o terreno do café, da casa do lado.

De repente, na minha frente, como se eu tivesse esperando, caiu um floco de neve. Não era sujeira, não era cinza, não era folha, não era pena. Eu nunca tinha visto um floco de neve. Mas sabia que era um floco de neve. Eu vi só o começo da cena. O resto ficou embaçado. Depois de um tempo, enxuguei os olhos e continuei olhando. Esperando. Outros flocos caíram de leve. Não era o suficiente pra deixar o chão branco. Não era o suficiente pra deixar nada branco, na verdade. Eram poucos. Solitários. Eu nunca tive o sonho de ver neve. É um espetáculo bonito. Eu sabia que um dia ia ver. Mas nunca foi o sonho. Tanto é que eu não tava preparado. Aquilo foi tão sutil, tão calmo, tão leve e pequeno que me pegou de um jeito muito forte. Fiquei ali sentado quase uma hora. Olhando o que acontecia lá dentro e lá fora.

Só que ninguém mais tinha reparado que nevava. Na verdade, ninguém tinha reparado em nada do que acontecia. Eu vi tudo isso acontecer durante muito tempo. E quer saber, mesmo se eu não tivesse reparado em nada, tudo ia continuar acontecendo. As coisas não precisam ser vistas pra existir. Elas vão existir. Cabe a gente merecer ver. E não é você que escolhe, são as coisas que escolhem você. E assim, de uma hora pra outra, tudo fez sentido. Eu não tava ali pra ver a neve. Eu tava ali pra ouvir os mexicanos e o locutor. Eu tava ali pra ver a mulher estranha de unha grande que ninguém olhava. Eu tava ali pra ver os turcos em silêncio. Eu tava ali pra reparar na mesa suja que ninguém notava. Eu tava ali ver ver o desfile do gato. E foi nesse dia que eu descobri que não nevou pra mim.

MIDAS

Fernanda tapou o grito com o dedo cortado. Uma gota de sangue na pia, perto do queijo e uma gota na camiseta, perto da testa da Twiggy. O silêncio na cozinha foi uma mistura de dó e arrependimento. Não devia ter pedido pra ela cortar mais queijo. Eu devia ter cortado o queijo. Fernanda já tava bêbada. Eu já tava bêbado. A gente nem ia comer mais queijo. Ninguém devia ter cortado queijo. A taça de vinho ficou parada na minha mão alguns instantes e só não ficou mais imóvel porque a taça dela tava em cima da pia, obviamente mais parada. Olhar a Fernanda lavando o dedo e ver a água rosa escorrer pelo ralo me fez pensar no Lucas, que tava de rosa quando passou mal no show de ontem e a gente teve que deixar tudo pra trás e levar ele embora. Foi nessa hora que as coisas começaram a fazer sentido na minha cabeça. Como eu não tinha reparado antes? Todo mundo em volta de mim começou a se machucar. Nessa noite eu não consegui dormir.

No caminho do trabalho, a avenida principal tava bloqueada, um motoqueiro foi atingido por um Toyota que trocou de faixa sem dar sinal, disse o homem que subiu fora do ponto. Quando cheguei no escritório, o elevador tava quebrado. Vânia, da contabilidade, tinha ficado presa quando descia pra fumar. Logo a Vânia que tem claustrofobia. No email, uma nota de falecimento do RH pros funcionários, seu Tino, vô da Clara, a telefonista. O resto do dia não teve mais surpresas. Mas foi só a terça-feira começar que coisas voltaram a acontecer. Uma mulher tropeçou na minha frente quando eu chegava no ponto. Um senhor bateu a testa no ferro dentro do ônibus. No almoço, uma menina se engasgou na mesa do lado. A TV me ajudava a ignorar as desgraças, diluindo as coisas ruins no meio de esportes e bobagens. É mais difícil prestar atenção na dor quando não dói na gente.

Isso já deve tá acontecendo faz um tempo. Tô tentando lembrar quantas vezes nas últimas semanas fui parar num hospital ou numa farmácia com algum amigo. Não consegui. Pior que quanto mais eu reparo, mais eu vejo desgraças e problemas acontecerem. Minha vizinha. Meu porteiro. O cara da banca. A mulher do café na esquina. Meu irmão. A Marina. Puta que pariu. A Marina. “Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” e saiu. Foi essa a última coisa que a Marina me disse antes de sair da livraria no dia que a gente terminou. Sabe aquelas coisas que as pessoas te falam e você não dá importância? A Marina sempre foi uma pessoa especial. Na minha vida e na vida de quem vivia em volta da gente. Todo mundo que queria um conselho, uma ajuda, ou uma opinião, falava com ela. Marina tinha virado uma espécie de trampolim na vida das pessoas. Até a minha vida foi outra no tempo que a gente viveu junto. Na verdade, tudo sempre deu certo pra Marina, mesmo antes da gente se conhecer. Nessa noite eu não consegui dormir, de novo.

“Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” foi a frase que ficou na minha cabeça durante dias. Eu gostava da Marina. Mas a gente foi deixando de se amar com o tempo. E com o tempo, minha vida foi virando uma merda. E a merda foi incomodando. E um belo dia a gente terminou com essa frase de trilha sonora. Bom, de lá pra cá as coisas só pioraram. Hoje, olhando esse monte de gente se machucando em volta de mim, vejo o quanto é difícil viver com essa responsabilidade. Cada dia, cada hora, alguém que eu gosto, conheço, convivo ou, simplesmente me relaciono, se machuca. Ora leve, ora grave. Ninguém sabe que a culpa é minha. Só eu e a Marina. Tem ficado cada dia mais difícil suportar isso. E eu sei que só me restam duas alternativas, suicídio ou voltar com ela. E de ambas as duas vou me arrepender.

O telefone toca pela décima quinta vez até cair na caixa postal. Quantas vezes um telefone toca em média até cair na caixa postal? As pessoas ainda usam caixa postal? Eu odeio quando deixam recado pra mim. "Marina? É o Fran. Será que a gente podia..." foi a única coisa que deu tempo de gravar. Pensei demais antes de falar alguma coisa. Dois dias. Foi o tempo que passou até eu receber uma mensagem. Marcamos um café. Precisava conversar. Marina sabia de tudo que eu tinha pra dizer. De cada problema. De cada detalhe. De cada decisão. Marina não gosta mais de mim também. E mesmo assim, decidimos voltar. Foi uma decisão muito triste e amarga. Mas não era pelo nosso bem. Era pelo bem de todo mundo que cercava nossas vidas. Era pelo bem de amigos, conhecidos e familiares. Nessa noite, ninguém mais se machucou. Além da gente.