Quase primavera

Setembro.

Um longo inverno branco como algodão, castiga o sul do país de uma forma nunca vista antes.

Seu Beto, com quase três quartos de século nas costas, é o único humano morador de uma casa bem afastada da civilização.

Como que por castigo a seus pobres ossos, o frio não permanece do lado de fora da casa como deveria, e dolorosamente pode ser ouvido maltratando as janelas de madeira apodrecida.

Dentro da casa, uma lareira, com fogo ainda intenso, tenta em vão, aquecer seu Beto e o ambiente, que sofrem com o infeliz desejo climático da natureza.

Um ninho de pássaros no telhado, abriga uma pequena família que ainda não desistiu de completar o ciclo de vida natural e trava uma luta contra o tempo, na busca de resistir até o próximo raiar do sol. O que a essa altura da noite, não parece estar tão próximo e certo.

Não só os pobres pássaros, mas alguns animais ainda podem ser ouvidos fora da cabana,
mas isso,
só por enquanto.

Na cozinha, um bule corajoso, vence o desgraçado frio, e como vitória, ganha o direito de aquecer um pouco de água. Água essa, que o morador colocou na esperança de beber um pouco de chá muito em breve. A bebida está longe de ficar pronta, não pela falta de mantimentos que a memória fez seu Beto esquecer, mas, porque o frio reduz muito seus movimentos.

Mesmo com toda a humilde proteção de sua cabana, o corpo do morador esfria cada vez mais. Uma corrente de ar gélido ultrapassa as portas que rangem suavemente.

As horas passam, o vento continua soprando e já não se ouve mais nenhum animal fora da casa; enquanto isso, dentro dela, o máximo esforço que seu Beto consegue fazer, é virar as poucas páginas de um livro próximo do final. Usa isso como distração para ignorar os calafrios que movimentam seu corpo esporadicamente.

Um momento incerto da noite, não se sabe à hora, pois até o relógio poupa suas forças; o vento cessa, a neve não cai, as portas não rangem, as janelas não batem, a água do bule já evaporara, a lareira já apagara, e um simples fio de luz do sol, faz com que o único som que possa ser ouvido, seja a felicidade de uma família de pássaros que aguardou intermináveis dias para enfim, poder saborear a época das flores.

Sorte deles, pois naquela casa de campo, foram os únicos moradores que puderam acordar para ver a primavera.

Microconto #312

Domingo a casa se enche de fubá,
parece até que a vovó ainda tá por aqui.

Microconto #311

A única coisa que sabia fazer a esposa sádica
era rir do marido aidético.

Microconto #310

Sentei na pedra e torci pra dar tempo de ver o sol.
Lembrei de tudo que a gente fez junto.
A saudade bateu.
O coração não.

Microconto #309

Sentiu um forte cheiro de terra molhada
quando acordou já dentro do caixão.

Microconto #308

Tentou uma ponte, três atropelamentos, 26 comprimidos, duas cordas e um afogamento antes de morrer de desgosto.

Microconto #307

Depois que pegou o bilhete da amante no paletó e saiu sem olhar pra trás,
a verdadeira inspiração do poeta nunca mais voltou.

Microconto #306

Sétimo dia da Criação.
Epílogo.
- E agora, o que Eu faço? Já sei. Vou fazer o contrário. Só que bem mais devagar.

A Rede Social. Agora por nós mesmos.



Acelerado, um tanto quanto nerd e com o ego afiado. Essas e outras características da geração Y e Z estão presentes no novo trabalho de David Fincher.

Fincher tem na carreira filmes que marcaram época como Seven - Os Sete Crimes Capitais e Clube da Luta. E agora, com A Rede Social, por quê não, mais uma tendência?

O filme não tem nada de sofisticado, mas foi bem feito. Bastante movimento, cortes de câmera e diálogos rápidos retratam bem a impaciência que vem tomando conta dessa sociedade conectada.

Eu sei que o filme não é o melhor retrato do “mundo internet”, como bem disse o Tiago Dória, mas mesmo assim é rico em informações e metáforas contemporâneas.

Definitivamente, A Rede Social é um fillme dessa geração feito pra essa geração. A história não é complexa, mas grande parte da audência não vai entender a profundidade do tema. Fora que a cena final, além de foda, é um resumo de todos os conflitos internos do personagem de Mark Zuckerberg, vulgo, nós.

Microconto #305

Acabou baby.
Não, não tem mais volta.
Ah, e por favor, não chora. Não quero que meu relacionamento pareça filme americano.

Microconto #304

- Senta aí e me conta tudo.
E assim, o divã virou sua segunda cama, o consultório sua segunda casa e o psicólogo seu segundo marido.

Microconto #303

Os pés na beirada do prédio aguardavam a coragem.
Sempre foi um grande covarde na vida.
Mas não dessa vez.

Microconto #302

Nunca contaria à família sobre a homossexualidade, só não teve escolha quando o pai roubou seu namorado.

Microconto #301

Nem uma gota de saliva, dos sedentos habitantes, a terra seca consegue pra se alimentar no agreste sertão.

Microconto #300

Vi tudo aqui de cima.
Do teto da igreja vazavam luzes,
do altar, preces,
e dos olhos da mamãe, lágrimas de saudades minha.

Microconto #299

Infelizmente o senhor não tem muito mais tempo de vida.
Ouviu?

Microconto #298

Pro Almeida, todo mundo parecia culpado na mira do 38.

Microconto #297

Devo terei algum problema.
Não era possível que eu não conseguiu regular direito essa máquina do tempo.

Microconto #296

Tento lembrar de você em meio a sombras do passado.
Mas tudo que consigo é um eclipse total do coração.

A visita de Angélica

1º ATO - ANTES DA VIAGEM.
Nossas conversas virtuais marcam minha inspiração.
Mais de uma hora por dia conectado em você.

2º ATO - VOCÊ VEIO. E EU VI.
As marcas de sol na sua pele.
Cento e sessenta e cinco centímetros bronzeados de desejo.

3º ATO - A ESTADIA.
Os diferentes costumes marcam a rotina.
Peças que não vimos, filmes que não assistimos e lugares onde não comemos lembram você.

4º ATO - VOCÊ VOLTOU.
Esse sotaque ao telefone marca sua ausência.
Dois mil trezentos e noventa quilômetros de saudade.

EPÍLOGO.
E começa a contagem regressiva do novo encontro.

Microconto #295

Depois que ela morreu foi fácil confessar o adultério.
O difícil foi explicar quando ela voltou pra tirar satisfação.

Microconto #294

Beijou a bochecha da mãe – estava macia.
Pegou a mochila, abriu a porta e disse adeus premonitoriamente.

Mi careta, su careta

Jogou confete e serpentina.
Jogou também as mãos pro alto.
Sambaram desengonçados a noite toda naquele carnaval fora de época.
Sozinhos na sala, ele e ela,
grudando papéis pelo corpo,
grudando sorrisos na cara,
grudando amores no peito.
Cedo pra dizer,
mas acho que daqui uns 13 anos quando ficarem de maior,
os carnavais não serão mais tão alegres assim.

Microconto #293

Vende-se coisas sem importância.
Tratar direto no asilo.

Microconto #292

Quer ser um bom aluno quando crescer,
ter emprego, casa, família e morrer dormindo.
Só que até lá, a ordem das coisas vai mudar.

Microconto #291

A rotina foi a essência e o veneno daquele relacionamento.

Microconto #290

A modernidade fez dela uma mãe menos presente,
dele, um pai muito liberal
e dos filhos, praticamente órfãos.

Microconto #289

Sentia o vento no rosto e com ele uma incrível sensação de liberdade.
Morar na rua também tinha seu lado bom.

Microconto #288

Levantou de manhã, olhou pro céu e pediu um dia bom.
Só não contava com a cacofonia divina.

Microconto #287

Mãos e bocas desconhecidas se tocaram no cinema.
No escuro ela ficou empolgada.
No claro ele ficou arrependido.

Microconto #286

O tempo que o corpo levou da ponte pro chão, foi suficiente pra se arrepender de tudo que fez na vida.
Inclusive ter pulado.

Cena do Crime - Capítulo 5/5

Três dias depois foi o enterro do militar morto no confronto.
E, enquanto o caixão descia, mais um grito de justiça não foi ouvido.

Cena do Crime - Capítulo 4/5

O carro do IML não deixava o lugar. Pedras voaram, pneus queimaram e o confronto foi inevitável.
Apenas um policial morreu.

Cena do Crime - Capítulo 3/5

- Justiça! Gritou uma das mulheres que deu início ao coro da multidão.
Sob ordens, os subordinados retiraram o corpo do trabalhador.

Cena do Crime - Capítulo 2/5

Do lado de fora um investigador apenas anotava e fotografava, ao som dos flashs e do vento balançando a faixa listrada de proteção.

Cena do Crime - Capítulo 1/5

Vermelho, azul, vermelho, azul.
A cor ambiente alternou comandada pela luz da viatura.

Microconto #285

Os moradores de rua,
brincavam de escolher cardápio,
em frente a um outdoor do McDonalds.

Microconto #284

Hoje, depois de todo esse tempo sem você, olhei pra cama e te imaginei de costas, dormindo, nua sob o lençol a me provocar fetiches.

Microconto #283

O relógio porra! Bateu no vidro a arma.
Não tirou. O filho que deu.
Olhou o farol.
Vermelho, mas dava.
Não deu.

Para Elisa

E nossos encontros passaram a ser fictícios.

Não no começo. No começo, na verdade, nós nem nos encontrávamos. Trocávamos mensagens que eram exercícios sintéticos e mal intencionados. Remetiam na cabeça dela, mesmo sendo comprometida, a algo romântico; mas na minha cabeça, a libertinagem dava gás aos pensamentos.

Eram mensagens curtas, longas e às vezes desconexas. Eu alimentando um desejo inviável e ela alimentando uma paixão imatura. Eu querendo algo profundo e ela buscando superficialidade. Eu torcendo por um sim e ela contente com qualquer talvez.

A comunicação foi aumentando assim como minha admiração. Passava horas pra redigir uma linha que expressasse tudo o que eu sentia. Às vezes dias pra escrever uma mensagem que deveria dizer muito mais do que minha capacidade intelectual permitia.

Aos poucos nossas palavras começaram a parecer mais íntimas. Nossos destinos tendiam a se cruzar em breve. E eu não estava errado. Foi o que aconteceu em pouco tempo. Não sei com quem começou e nem como, mas as rotinas sincronizaram, e dia e a hora foram marcados.

Lá estava. Eu, claro. Ela deveria chegar em breve. Deveria, pelo menos era esse o combinado. Atraso considerado, afinal, era o primeiro encontro, ela tinha o direito, isso não seria nenhum problema pra mim. Resisti paciente.

Ela não foi.

Fisicamente. Mas estava lá no meu coração. Cheguei a fantasiar o momento do encontro, o momento em que meus olhos veriam aqueles lábios dizendo “oi” com toda a delicadeza que a fantasia me permitia imaginar. Mas ela não foi.

Nem por isso deixei de pensar na sua presença. Nem por isso deixei de imaginar seu corpo, seu sorriso e seus olhos. Ela também não mais escreveu.

Nem por isso deixei de escrever. Nem por isso deixei de imaginar as respostas, as gírias, os jeitos e as manias. Ela nunca mais apareceu.

Nem por isso deixei de acreditar num novo encontro. Nem por isso deixei de marcar novos encontros. Continuei a aparecer, todos os dias, nas mesmas horas e sempre a via chegar. Ela nunca soube, mas foi assim que nossos encontros passaram a ser fictícios.

Microconto #282

O mundo balançava,
toda vez que o autista se irritava.

Microconto #281

As esperanças ganharam coragem na camuflagem noturna.
E assim, de hoje em diante, todos os travesseiros passaram a derramar sonhos.

Microconto #280

A noite, no convento, o quarto do pecado era o único lugar onde ninguém dormia.

Microconto #279

Olhando pela janela do futuro não conseguia ver do outro lado.
Tudo culpa da condensação de um presente sórdido e frio.

Microconto #278

“Fui comprar cigarros. Papai te ama.”

Ela chora enquanto lê,
e uma lágrima molha o papel,
hoje, amarelado.

Microconto #277

O homem ímpar teve apenas uma mulher, um filho, um emprego legal e um carro da moda, porque não passou da primeira safena.

Microconto #276

No ponto de ônibus,
enquanto os casacos indicavam a temperatura,
a saia chamava atenção.
O emprego era mais importante que o frio.

E o segundo turno, promete?

Numa coisa a gente vai concordar, nem todo mundo faz a escolha certa. Na sua opinião, devemos fazer mudanças ousadas ou como diz os mais conservadores, em time que está ganhando não se mexe?

Fato é, que muitos não merecem ocupar a posição que ocupam, e digo mais, muitos não têm amadurecimento pra tanto, e é incrível como tem gente que ainda acredita no contrário.

Indo mais fundo, a questão financeira é outro ponto que me incomoda. É absurda a quantidade de dinheiro que essas pessoas levam sem merecer, e pior, nosso retorno e satisfação nunca são correspondidos.

Mas quer saber o que é pior ainda? As pessoas que preferem não se envolver por achar que a situação no país não vai mudar e assim, ficam em cima do muro, na maioria das vezes desconversando sobre o assunto.

Quer um exemplo? Lê o texto de novo e imagina que eu tô reclamando do segundo turno do campeonato brasileiro de futebol. É a mesma coisa.

Este post expressa superficialmente a visão do autor sobre política.
E sobre futebol também.

Microconto #275

As pessoas foram perdendo as sombras, uma a uma, até a escuridão total.

Microconto #274

Enfim, o poeta começou a replicar na vida real, os carinhos antes derramados em secas, apaixonadas e solitárias cartas.

Microconto #273

Sempre nos intervalos,
entre uma transa e outra,
ele ligava pra mulher.

Velha infância

A saudade da infância começou a atormentar sua vida. Não era como uma nostalgia que vinha e saia aos poucos. Dessa vez era algo diferente. Mais profundo, agudo e quase desumano.

Os sabores, os cheiros e as cores daquela época, tudo isso passou a fazer parte do seu repertório calvo, rugoso e reumático.

Parecia ouvir os gritos de todos os amigos, apesar da baixa audição.

Parecia ver a bola rolar ladeira abaixo, apesar dos graus de miopia.

Os netos nas manhãs de domingo, ajudavam a refrescar ainda mais esses devaneios temporais. Brincando, correndo e gritando por toda parte, fizeram dele um velho menos resmungão do presente e com saudade de todos os momentos passados.

A comida servida em uma papa pré-mastigada, contribuía para as lembranças remotas. Lembranças de uma época em que todas as comidas eram bem parecidas, não como as que vinham à sua boca através de uma colher monomotor barulhenta, mas uma fase um pouco mais à frente.

As cantigas de ninar ecoavam em fragmentos dentro de sua fraca mente.

Que, francamente,
era mesmo fraca.

Com ingenuidade,
a idade o fazia confundir algumas dessas letras com marchinhas de carnaval, que por sua vez, retomava-lhe os devaneios, agora por outro mundo perdido das lembranças.

Qualquer coisa diferente de sua rotina o jogava de volta para o início da vida. Fatos, rumores e até, por menores que fossem, especulações. Os brinquedos faziam falta. As brincadeiras faziam falta. E mesmo nunca tendo pensado nisto, a escola também fazia falta.

Queria correr novamente, pular, estar rodeados de amigos, cantar músicas das quais conseguia lembrar pelo menos metade da letra. As aventuras sexuais, os galanteios, os bailes, as festas, os docinhos e os brotinhos, todas as experiências juvenis misturadas em uma única memória.

Mas não.

Nada disso voltaria.

Nunca reclamou com ninguém.

Nunca demonstrou nenhum interesse visível de voltar no tempo.

Nunca demonstrou fisicamente a saudade de outrora.

Só às vezes, uma ou outra lágrima rolava preguiçosamente por seu rosto, mas mesmo assim, era confundida com um simples lacrimejar, que caia de um velho, já sem muita disposição até para chorar.

Microconto #272

Na Viela Dois, a família do Oswaldo, assiste à novela reunida.
Sonham com outra realidade,
vendo a ficção de sempre.

Microconto #271

- A última vez que eu soube ela tava grávida.
- Puxa, que legal! De quem?
- De mim.

Microconto #270

Dentro e fora,
o calor que nos unia,
lubrificava o corpo com prazer.
Minhas mãos se perdiam pra achar,
as coxas,
as costas,
os peitos
e você.

Microcontos. Agora também no Metrô.

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A partir dessa segunda-feira (20/09), entrou no ar a nova programação da TV Minuto, e com ela, meu novo projeto literário.

A TV Minuto é um serviço Out of Home do grupo Band, que exibe notícias, entretenimento e cultura dentro dos trem do metrô de São Paulo. E agora, nesses intervalos, teremos cápsulas do TV Minuto Art, com charges, tirinhas e microcontos. Ou melhor, esses microcontos.

Quem anda de trem igual o fudido aqui, vai ter mais um coisa pra fazer, fora ser encoxado. Já quem tem recursos igual o Leo (piada interna), pode conferir no site aqui.

Toalha molhada, roupa no chão e outras coisas mais que eu faço pra lembrar de você

Ontem desarrumei a cama.
Desculpa, eu sei que você não gosta.
Mas quando olhei tudo aquilo em ordem..., a casa ficou mais vazia.
A sensação de desordem me passa a impressão que levantei no meio da noite pra tomar água, e quando voltei, você tinha ido no banheiro.
Eu sei que depois de deitar vou continuar sozinho do mesmo jeito, mas, pelo menos me iludo achando que peguei no sono antes de você voltar.

Microconto #269

Todas as manhãs no trem cheio, era um jogo de sedução involuntária, entre bundas anônimas e paus alheios.

Microconto #268

Nossos carinhos são amargamente sonoros.
Com um silêncio docemente violento.
Vivemos, certamente, uma história contrária.

Microconto #267

Da janela vejo o céu. Uma estrela brilha inutilmente esperançosa. Acredita que com o espetáculo a parte, consegue desviar minha mente de ti.

Microconto #266

Os flocos brancos de neve
do lado de fora,
sincronizavam a dança dos corpos quentes
do lado de dentro.

Microconto #265

O escritor precoce acabava seus contos no prefixo micro.

A VC

O colchão afunda.
Não sinto, mas percebo o movimento da cama.
Seu rosto aparece com uma expressão de dó.
Ou pena.
Ou carinho.
Não consigo definir.
Me fala sobre o seu dia, como sempre fazia quando chegava em casa.
Dá pra ver que você passa a mão no meu rosto e depois desce. Não sei pra onde vai, mas é gostoso imaginar.
Não faço ideia de quanto tempo tô aqui. Mas acho que é muito, levando em consideração o tanto de vezes que as enfermeiras cortaram meu cabelo.
Que por sinal deve tá uma merda.
Elas cortam, lavam e penteiam. Há quanto tempo você não me via de cabelo penteado?
Ah, quer saber, tudo deve tá uma merda.
Minha cara, meu corpo e minha falta de expressão.
Não adianta ficar reclamando né? Acho que vai ser assim pra sempre.
Essa é a hora que você vai embora.
Acabou de me dar um beijo.
Li nos seus lábios que você me ama.
Hoje vejo realmente o quanto isso é verdade.
Também falo um te amo, mas, diferente da nossa vida toda, dessa vez só eu ouço.

Microconto #264

Após a separação decidiram dividir o filho.

Microconto #263

Admirava da janela a despreocupação da infância se materializando em briga, que decidiria de quem era a vez no pique-esconde.

Microconto #262

O bom de ter misturado veneno no suco de laranja era não precisar mais se preocupar com as faxinas de sexta-feira.

Perco o dinheiro, mas não perco a piada

Essa indecisão, um tanto quanto sexual do Supremo Tribunal Federal, em liberar ou não liberar, as sátiras e manifestações de humor contra politicos durante as eleições, não é o principal dos problemas.

A passeata do Humor Sem Censura que os humoristas fizeram no Rio de Janeiro, e que reuniu mais de 600 pessoas entre elas grandes nomes do humor (atual), também não é o principal dos problemas.

Nem humor, nem governo. O principal problema está na população.

Enquanto tivermos pessoas extremamente interessadas em resolver o futuro do seu próprio umbigo, teremos candidatos carnavalescos a divertir épocas eleitorais.

Enquanto tivermos pessoas interessadas em fazer valer seu direito de vir e ir tomar no cu, teremos lavagens, extorções, subornos e desvios, do seu e do meu imposto, idiota.

Enquanto tivermos pessoas super afim de exercer seu espaço como cidadão de merda, teremos mais votos nulos e brancos na urna, fazendo com que os candidatos da frente, continuem a frente.

Não tenho nada contra piadas políticas. Só acho que, fora os risos, deveria haver um pouco mais de atitude da população.

Microconto #261

Entre os dedos escorria areia.
Ampulheta natural com outras medidas.
O tempo aqui era o que menos importava.

Microconto #260

O abraço durou até a última chamada para o embarque.

Microconto #259

A pele responde ao instinto,
o coração responde à alma
e a mente,
nessa hora,
é a única que não responde a mais nada.
Gozemos.

Microconto #258

Nunca viu a vida com o colorido que todos falavam.
Era daltônico, mas em compensação, via um mundo só dele.

Microconto #257

Depois da discussão,
ele chegou ao térreo
e esperou até de manhã pra que ela achasse o corpo.

Escrivão, obrigado

Quando Aurélio me contou,
achei que fosse brincadeira.
Impossível que isso seja,
felicidade assim tão verdadeira.

Como pode tanto agrado
emanar pra me trazer?
Difícil achar alguém aqui,
que faça como você.

Substantivo contrário de tristeza,
nem Aurora, nem Augusta,
nem Amélia consegue ser.

Sinônimo feminino de alegria,
muito usado em poesia,
ela é Letícia; prazer.

A Origem, a precocidade e um pouco de não é pra tanto



Como é comum em toda superprodução cinematográfica, o barulho em torno de A Origem não foi diferente (afinal, o dinheiro que vai, tem que voltar). O filme encanta muito mais pelo fôlego reconhecido dos estúdios em fazer um projeto novo, e pelo bom uso dos efeitos especiais (vide cenas em “gravidade zero”), do que pelo conjunto do trabalho, que possui deslizes e alguns pontos fracos.

Junto com essa expectativa, alguns precoces contemporâneos aficionados por Hollywood, já decretaram o filme como uma das melhores e mais inteligentes projeções dos últimos anos. Aí me pergunto, o quanto longe esse pessoal já foi no cinema. e a metalinguagem de Fellini, Primer, o delicioso e nerd projeto independente de ficção científica, ou mesmo Sinédoque, Nova Iorque, pra ser mais recente, seriam algumas das respostas que gostaria de ouvir.

Não dá pra entrar muito no filme, que, apesar de ter roteiro um tanto quanto diferente para padrões de blockbusters, não possui uma trama tão complexa assim, logo, qualquer detalhe a mais seria um triste spoiler.

Como bem resumiu o jornalista Mauricio Stycer, ”Don Cobb (Leonardo DiCaprio), é um especialista em entrar na mente das pessoas para roubar segredos. A missão que vamos acompanhar na tela é mais complexa: em vez de extrair, ele deve inserir uma ideia na mente de um empresário”. É isso. Essa é a linha central do filme.

Apesar de ser uma experiência que vale a pena conferir, o longa peca em dois pontos clássicos de Hollywood: personagens superficiais demais, como por exemplo Michael Cane, no papel de Miles; e a falta de aprofundamento em temas e discussões. Dava pra tirar muito mais de assuntos como Psicanálise, Subconsciente e Catarse. Só que aí, o fadado cinema clichê-comercial, ficaria inteligente demais, difícil demais e com bilheteria de menos.

Microconto #256

A gente tá longe, mas tudo bem.
A tempestade lá fora que nos separa, é só o ciúmes inútil e temporário da natureza.

Microconto #255

De um lado da cama o marido deita com perfume etílico.
Do outro, a mulher finge dormir pra ignorar qualquer sensação.

No meio do caminho tinha uma pedra

A queda.
O tranco no chão.
Um estalo seco no osso do braço dividindo em dois.
O silêncio após a primeira fratura.
Com sangue ainda quente, a dor deu lugar a dormência.
Caído ali, esperando socorro, por um momento, só conseguia pensar na semana que vem, em quem assinaria seu gesso na escola.

Microconto #254

Esperei você sob o lençol, sem vestes, sem pudor e com carinho.
Te devoraria mais que Djavan fez com um tal Caetano e di Caprio.

Microconto #253

Amanhece mais um dia de visita.
Remédios, banho, sopa e andador até a recepção.
Tudo sempre igual.
Inclusive o descaso da família.

Microconto #252

- Amo sua perna.
- Você fala isso porque não tem escolha.
- Magina, mesmo se você tivesse as duas eu ia gostar mais dessa.

Microconto #251

O sinal da escola tocou, a multidão correu e ninguém viu que na sala 204, o professor ainda abusava da Flavinha.

Microconto #250

No farol,
junto com as bolinhas,
o menino catarrento,
jogava a esperança também.

Microconto #249

Sem teto e sem terra,
o homem sem família,
ficou esquecido como tantos outros sem pátria.

Microconto #248

Depois que o déjà vu passou a ser repetitivo,
ele ficou preso eternamente numa falha do destino.

Te conto em uma licença poética

Ah, suas mãos.
Te digo.
Como é diferente esse toque do que já foi um dia.
Te peço.
Fica mais um pouco e faz o que quer que seja.
Te quero.
Suas mãos são pouco pra excitação do agora.
Te olho.
O que você faz obedece uma lógica não linear.
Te toco.
Sua pele mesmo arrepiada não perde a maciez.
Te aperto.
Sua voz, suspiro e gemido se confundem em minha mente.
Te bato.
Sua cara não apresenta repressão.
Te mordo.
Suas costas não demonstram devoção.
Te molho.
Meu suor gruda na sua degustação.
Te xingo.
Seu nome se perde em palavrões.
Te excito.
Entramos em transe consequente mesmo antes da transa.
Te cuspo.
Os fluidos se misturam num ritual infanto-masoquista.
Te falo.
Com o corpo em espasmos naturais.
Te dispo.
Enfim toda sua pele reflete em meus olhos.
Te mostro.
Dentro e fora a casca da paixão.
Te penetro.
Os corpos ainda lembram o ritmo.
Te como.
O amor perde a vez.
Te violo.
Somos duas massas atrás de prazer.
Te jogo.
Meu corpo te encontra novamente por atração.
Te seguro.
Aproveito da sua indiferença.
Te gozo.
De uma paixão rendida e um retorno ilusório.
Te imagino.
Como se fossemos reatar.
Te acabo.
Já com saudades no coração.
Me acabo.
Em uma solitária masturbação.

Microconto #247

Uma vez no ponto de ônibus,
vi um homem dançando no ritmo da música que eu ouvia no iPod.
Engraçado, o resto do dia pareceu um Musical.

Microconto #246

Depois de um disparo seco,
entre um poste e outro da Roger Veiga,
onde a noite é mais escura,
um homem gemeu a noite toda.

Microconto #245

Ela chegou de mansinho,
com carinho,
mas sem nenhum jeitinho.
Tudo bem, gosto dela,
mesmo com toda essa beleza renascentista.

Das vezes que eu passo

Passo pra te dar carinho, beijo na boca e deitar no teu colo.
Passo pra mostrar que me importo, que te imagino na grama a falar sorrisos.
Passo pra dizer que és bela, e te convido pra contar estrelas, num pedaço do céu só nosso.
Passo pra dizer que tô bem, que foi bom acordar do teu lado aquele dia com bochecha de noite quente.
Passo pra dizer que já sinto saudade, que tuas mãos me provocaram, mais do que tua mente pensava.
Passo pra dizer que não passei de um simples passante em tua vida,
e que voltarei pra dizer que passo quantas vezes mais você sonhar.

Microcontos Molestos - AVC

Pelo menos o safado não vira mais pra olhar as menininhas na rua.

Microcontos Molestos - Câncer

No natal comprou um presente a menos.

Microcontos Molestos - Alzheimer

- Veja bem Dona Rosa. Esse é o remédio do coração, e a senhora só pode tomar uma vez por dia.

Microcontos Molestos - AIDS

Levou mais do que os bens na separação.

Microconto #244

Amigo... minha dose nasceu,
desce aí pra mim mais um filho com gelo...
meu troco não volta hoje mesmo.
Pode ficar ca minha mulher se quiser.

Microconto #243

Aqui de trás,
tudo que vejo em suas costas é o arrepio,
provando que o nosso calor também dá frio.

Microconto #242

A vida foi injusta.
Esperaria isso de qualquer um. Mas,
saber que sua cara encheria de rugas,
deixou-a prematuramente velha.

Microconto #241

Depois de atirarem as pedras,
os pecadores voltaram pra casa,
sem nenhum peso na consciência.

Microconto #240

O mercado árabe multiplicou seus clientes depois da explosão.

Microconto #239

No velho sítio, tudo traz o passado;
a cocada tem lembranças,
o armário tem cheiro
e o vô tem saudades.

Microconto #238

Sob a árvore,
olhando a mata destruída,
descansa o lenhador.

Microconto #237

Ela se recusou a beijar o sapo.
Estava desiludida com príncipes encantados.

Microconto #236

Se não é pecado,
por que eu não posso contar pra mamãe,
padre?

Microconto #235

Todo mundo já comeu.
Até o marido.

Sempre há riscos

- Volta aqui seu filha da puta, cretino, otário, sem noção.

Ela insistiu nisso mais ou menos umas três vezes, como se a porta fechada há alguns minutos, a jornada do elevador ao térreo e o carro que já dobrava a esquina, fossem permitir que ele ainda ouvisse.

Poucos segundos depois, estava refletindo o porquê demorou tanto para gritar. Medo que ele soubesse seus reais sentimentos? Medo que ele soubesse que daquele jeito ela não ia viver muito tempo? Medo que ele soubesse que ela tinha medo? Medo do medo? Ou seria, simplesmente medo?

Ainda estava com o cheiro do suor dele no corpo, o gosto do sexo na boca e o eco das últimas palavras ao pé d’ouvido - eu tô sem grana de novo.

16h - Capítulo 5/5

O vizinho assassino não foi achado.
Mas, dessa vez, fazendo compras, o mordomo escapava de ser o culpado.

16h - Capítulo 4/5

Ao fundo a porta fechada sem provas do suspeito.
À frente, os olhos abertos sem vestígios vitais.

16h - Capítulo 3/5

No relógio a badalada marcava a hora certa.
Na boca, o último suspiro marcava a errada.

16h - Capítulo 2/5

No chão um fragmento de história dividido em dezenas.
No coração, a recordação em dezenas de histórias.

16h - Capítulo 1/5

Na janela escorria uma das milhares de partes da chuva.
Na cômoda, uma gota vermelha, revelava o crime.

Microconto #234

Dorme comigo e deixa a lua guardar segredo.
A noite vai ser só nossa.
O sol não precisa saber mesmo.

Microconto #233

Quis pensar algo bom, pra ver se a gente saia dessa merda.
Mas sua mente sempre me joga no passado,
cru,
frio
e
obviamente real.

Microconto #232

Não é que eu sou porco,
mas os pelos no ralo do banheiro foi só o que sobrou de você.

Microconto #231

Na frente do computador, passando a limpo o caderno de receitas, ela o provoca no bate papo, e ele acreditando, bate muito mais que isso.

Microconto #230

Descobriu que não era tão bom motorista enquanto dormia.

Microconto #229

A maquiagem dela dizia muito sobre nossa noite.
Começava bem feita e terminava borrada.

Microconto #228

Encaixaram-se as mãos, os braços e o resto do corpo,
as bocas também teriam o mesmo fim,
não fosse o tamanho das barbas.

Microconto #227

Na banheira com gelo ela pensa,
o rim é o de menos,
pior mesmo foi perder aquele gato.

Microconto #226

Estava tão envolvida que não sabia mais quem era marido e quem era amante.

Trabalho decente

Niht Club,
sinalizava a fachada.
Assim mesmo,
com o g apagado.
Ali embaixo,
ganhava a vida,
uma prostituta semi analfabeta,
que nunca deu falta disso.
Por sinal, sabia de poucas coisas,
uma delas era que nem todos tinham como pagar o prazer de neon,
e assim sobravam clientes.
Sabia também que os que trocavam sempre de carro,
eram casados,
que os que passavam de vidro aberto, braço pra fora e na maioria das vezes com som alto,
só queriam aparecer, já que não tinham como pagar.
Conhecimentos empíricos e involuntários.
O destino foi justo com ela apesar da injustiça que fazia com o corpo.
Anônima nos prazeres,
Carla era conhecida como microempresária pelos vizinhos da vila onde morava.
Tinha dinheiro,
era comunicativa,
independente
e trabalhava no centro comercial,
na área nobre,
frequentada só por gente boa de grana.
Perto de um tal “Clube Nit”, como ela dizia.

Microconto #225

Trocou a cidade pelo campo,
o marido pela solidão
mas só percebeu a depressão quando os pulsos choraram.

Microconto #224

O escritor solitário conversava com o papel,
o papel respondia em argumentos vazios
e a literatura se enchia de sofridos devaneios.

Microconto #223

Olhava pro céu todas as noites na esperança de ver a mesma lua do casamento. Assim como o amor, o brilho nunca mais foi o mesmo.

Microconto #222

- Papai, tava pensando, acho que não é tão ruim morrer.
- Aé? Por quê?
- Por que vai dar pra ver a mamãe.

Figurinhas de Max Ernst

Dia desses reservei um tempo e fui ali no MASP ver umas colagens.
O artista era Max Ernst, pintor surrealista alemão.
A exposição era Uma Semana de Bondade, guardada há mais de 70 anos.
Foi bom. A mostra é separada em dias da semana: Segunda, Terça, Quarta e o resto de sempre. Max representa cada dia com elementos que retratam as dificuldades sociais da época. Contraditoriamente aos costumes trabalhistas atuais, a Segunda-feira é a melhor delas. Nada contra os outros dias, mas os leões representantes do poder, dão à Segunda um charme especial.
Cheguei em casa e contei pra minha mãe; ela disse que viu uma reportagem a respeito na TV. A repórter falou que o MASP tinha virado o ponto de encontro dos colecionadores de figurinhas da Copa, e que todo mundo ia lá pra trocar e colar.
E pra fechar com chave de ouro ela ainda me perguntou se a figurinha desse tal de Max “Ernesti” que eu falei, era mesmo a mais importante dessa colagem.

Microconto #221

Não conseguia terminar a carta de despedida.
A cada palavra que jogava no papel, outras eram borradas pelas lágrimas.

Microconto #220

O roteirista anônimo ganhava dinheiro escrevendo sua própria história.

O livro de Gênesis, segundo Antubal

É dito de uma vila, onde um camponês humilde cuidava de sua casa e de um filho calado. Tanto pai, como filho e mais toda a vila, frequentavam a pequena igreja que coordenava a vivência no local. O filho, conhecido como Antubal, parecia ser o único na região que não demonstrava com afinco, o amor pela santidade aclamada na capela.

Não só para o pai, mas para todos os moradores, começava a ser nítida essa antipatia gerada pela igreja no coração do menino. Os comentários cresciam, e a revolta chegara ao pároco, que mesmo sem saber o porquê, já alimentava, contraditoriamente as leis da igreja, repugnância pelo jovem.

A pressão trazendo cada vez mais constrangimento ao camponês, fez com que marcasse um encontro do filho com o comandante religioso. Local definido e tema acertado, o menino receberia todas as ordens apostólicas, e de uma vez por todas, faria parte da igreja.

O relato a seguir pode ter sofrido algumas mudanças com o passar do tempo, entre palavras e expressões, mas é exatamente o que saiu do encontro, a versão de Antubal sobre a origem.

Explica-se no livro escrito à várias mãos, que a origem do homem veio por intermédio de um casal conhecido, ele por Adão, e ela por Eva. Opostamente aos mais entendidos da ciência não divina, que atestam a origem do homem como a evolução de um animal que ganhou o nome de macaco não se sabe quando.

O que Antubal disse ao cervo religioso, foi a mais louca das blasfêmias já ouvidas desde a origem desta história. Disse, que na verdade, ambas as mentes defendem a mesma coisa sem saber. Afirmou que Adão e Eva eram macacos, e por serem animais, tem confirmado e explicado o motivo que permitiu o cruzamento e assim a reprodução entre os próprios descendentes.

Não parou por aí, disse também que a metáfora de terem visto que estavam nus, diz respeito aos anos de evolução das espécies e consequentemente da perda dos pelos do corpo. E que sendo assim, Deus, em sua infinita glória e tendo até hoje nunca dado as caras, e, por ter feito de Adão e Eva sua imagem e semelhança, torna-se também, um grande macaco.

Ao término da confissão, o padre, desconjurado pela invenção frustrante de Antubal, veio a falecer de morte morrida. Jogou-se da torre da capela, não suportando ouvir aquilo. Antubal, chocado com a credulidade e compaixão do velho sacerdote, converteu-se imediatamente ao mundo religioso e abandonou de uma vez por todas sua tese hipotética.

Mas, dizem, até meados dos dias que se escreve esta história, que o pobre homem da fé, ainda vaga pelas redondezas da porta do céu, justamente por não saber se comunicar com os primatas.

Microconto #219

Amor de mãe. Deu a benção e a última facada.

Microconto #218

Aquela pele fina em formato ovalado, fazia dela, um ser deformado, que gerava um fruto, independente do amor ter acabado.

Microconto #217

Entre eles faltavam palavras pra demonstrar o amor. Mesmo assim, formavam um lindo casal de mudos.

Microconto #216

- Peraí, quem é o assassino agora? Perguntou ao juiz, o condenado a morte.

Alguém viu um filme por aí?

.


Sempre gostei de Tim Burton mais por sua visão artística do cinema do que pelo conjunto. Salvo exceções do tipo Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas.

Não esperava um grande filme sobre a história da menina Alice, principalmente porque não considero a história original tão grande assim. Lewis Carroll, sempre mostrou ser melhor matemático do que escritor. O filme dirigido por Burton é, na verdade, uma possível continuação da história original, onde Alice volta, depois de grande, ao “País das Maravilhas”. Que aqui sim, cabe muito bem o “Maravilhas”.

Com visual quase impecável, Tim Burton leva aos cinemas, mais uma vez, vida, cor e detalhe. O que enche os olhos, infelizmente não enche a expectativa. História acelerada, com diálogos fracos e de baixo conteúdo. Tim Burton se une ao time de Cameron e mostra mais uma vez que precisa de roteiristas. Alice, assim como Avatar, presa pela perfeição estética e peca na simplicidade narrativa.

Agora o que resta é dúvida: quem leva mais gente aos cinemas, Tim Burton e sua reunião de fãs alternativos, Johnny Depp e sua versatilidade ou animações 3D sem conteúdo?

Microconto #215

Passou por mim na contramão da escada rolante.
Sumiu da vista.
Mas sempre aparece nos sonhos.

Microconto #214

Seu maior desejo era acordar.
Acordar desse mundo midiaticamente surrealista.
Queria simplesmente ver o mundo real.

Microconto #213

- Pronto, já comprei a luneta, agora só falta o apartamento.

Calaboca

E chegou o dia que Ruth não sabia mais o que falar. Quase ninguém notou no começo, ela, uma mulher inteligente, madura, com voz própria e autoritária, entrou em uma mudez involuntária, da qual não sabia o início nem muito menos o desfecho.

Quando percebeu, foram só simples palavras que não saíram. Achou ser um instante de vazio intelectual, nada que fosse durar por muito tempo. Preferiu não comentar com ninguém e ficou redundantemente calada. Aos poucos, aquilo começou a incomodar Ruth que sempre gostou de falar, e que provavelmente deve ter engolido uma agulha de vitrola quando pequena, coisa que a mãe sempre dizia.

Até chegar o momento que ela não aguentou mais o barulho do seu próprio silêncio. Tentava desabafar, mas era em vão. As horas passaram, os dias passaram e tudo mais o que pudesse passar passou. Ruth já havia se perdido no tempo. Queria saber por que ninguém reparava na sua ausência de palavras.

Mais tempo passou até que Ruth percebesse que junto com ela, outras pessoas também começaram a perder a voz. Eram multidões e multidões que se multiplicavam aos montes. Mais e mais pessoas, milhares e depois milhões. A sociedade deu lugar ao convívio sorrateiro e silencioso.

Depois de todo o desgaste e sofrimento, nada mais foi necessário; de tanto guardar seus argumentos só pra ela, acabou sucumbindo ao mudismo dos povos. O que só ela notava no início, agora já não fazia mais diferença. Ninguém mais falava, ficaram todos calados e não se ouvia mais nenhuma manifestação ou ideia.

E assim, com uma forçada e torturada transição, o ano de 63 conheceu o de 64, e a democracia deixou saudades.

Microconto #212

Passaria do presente não fosse um erro de conjugação da vida.

Microconto #211

Pro velho ranzinza, a recompensa da morte foi o silêncio.

Romances efêmeros

Ah, paixão efêmera, de uma infância efêmera de efêmeras também lembranças. Queria eu poder dizer dessa época como se já tivesse passado há muito tempo. Mas isso faria parecer-me calunioso, pois essa fase ainda nem bem pode ser chamada de passado, graças ao seu recente acontecimento.

Repito esses momentos aqui, pois dia desses, cruzei pelas andanças, com paixão antiga, paixão como disse, efêmera. Queria eu podê-la chamar de eternal, mas a brevidade do amor não me permitiu.

Foram pequenos instantes, mas instantes suficientes para que a memória sofresse com o desejo do regresso. Quando disse infância, quis referir-me ao mais puro e angelical momento dos amores, os amores jovens, sem pesos e cobranças. Os amores dos beijos.

Cobiçada por alguns; não por todos, já que beleza é somente um gostar subjetivo; eu era um desses alguns. Lindos olhos, era isso que me atraia. Nunca me passou pela ingênua mente que aquele desejo viraria realidade, não por falta de imaginação, claro, mais por falta de contexto.

Apesar de ser uma recordação não muito distante, faltam-me lembranças para explicar ao leitor como tudo aconteceu, sei que foi um momento de fraqueza romântica da menina, como na ocasião ainda poderia ser chamada. As palavras foram trocadas, as bocas unidas e assim, o mundo calou-se naquele instante.

Aos meus olhos, houve prestidigitação, apesar de breve, muito breve por sinal, um beijo que me fez sentir iludido, e usado para acalentar um coração. Mesmo sabendo que não era recíproco amor, beijei; fui beijado e usado, disso eu tinha certeza. Mas, reiterando, dia desses, cruzei pelas andanças, com paixão antiga.

Os olhares também se cruzaram, diferentemente das bocas que só se limitaram a um regozijo. As lembranças deixaram saudade, e, por mais que eu quisesse, sabia que, infelizmente, não voltaria a me sentir usado.

Microconto #210

Escreveu na pele dele todo o amor daquele momento.
O calor dos corpos borrou a mentira da mesma forma que a frieza borrou a relação.

Microconto #209

- Senhores passageiros, espero que tenham realizado os sonhos ainda em vida.

Microconto #208

Na isolada casa de campo, o corpo demorou a ser encontrado.

Microconto #207

Pegou os patins, o carro e alimentou o sonho nostálgico.

O lago era o mesmo da infância,

inclusive, o gelo também deve ter ficado por lá.

Microconto #206

Tinha vários caminhos pra seguir depois que a relação terminou.

Escolheu o que acabava mais rápido.

Microconto #205

Há alguns anos começou a ver o mundo de uma forma mais clara. Não percebeu, mas a idade trazia junto, males como a catarata.

Microconto #204

Aquele vidro também era a prova de amor.

O máximo que consegui dela foi só o nome, e ainda por causa do crachá dedo duro.

Não vou me alongar

Texto publicado originalmente em Caixa de Histórias


A produção atual de conteúdo versus a falta de tempo é uma batalha que vem fazendo vítimas e mais vítimas a cada dia. É possível afirmar que passamos daquele momento do discurso palestrante sobre ”Como administrar seu tempo” e entramos numa nova fase, a de “O que colocar no seu tempo”.


O problema hoje não é mais arrumar um espaço em sua rotina, afinal ela não vai ter um espaço mesmo, então, desista disso. A prioridade é como escolher o que vai ocupá-la. Quer ler um livro? Abra mão de um filme. Quer ver um filme? Abra mão da academia. Quer ir à academia? Abra mão do sono. E assim, as necessidades diárias vão sendo revezadas.


O que me fez escrever sobre isso, foi uma discussão iniciada no Twitter há alguns dias. Tinha acabado de ler Crime e Castigo do Dostoievski, que por sinal levei um bom tempo, e fiz um comentário do tipo “Crime e Castigo é uma análise ótima e pertinente do comportamento humano, mas com páginas em excesso fora de sua época literária”. Meu objetivo não era desmerecer o trabalho, e sim, gerar uma reflexão. Pense comigo, com a velocidade que as coisas acontecem e com o volume de informação a qual somos submetidos, não é todo mundo que consegue pegar um livro, por exemplo, de 600 páginas e consumi-lo, sem deixar de lado outras opções de atividades.


Outra inferência externa que pode ser levada em consideração é o comportamento da sociedade. O consumismo e a interatividade são duas características pertinentes que nos levam a outras duas: a busca acelerada em ter alguma coisa, te traz a ansiedade, enquanto a busca acelerada em fazer parte de alguma coisa, te traz o imediatismo.


Ambas as atitudes geram pessoas desesperadas pelo todo. Queremos ver tudo, ler tudo, saber de tudo, falar de tudo, fazer de tudo e ter tudo. Aqui entramos novamente na questão “administração de tempo”. A quantidade de desejos realizáveis, não é mais compatível com o espaço ocupável do seu dia. Logo, seus desejos precisam ser realocados. Nada de arrumar um tempo, hoje, o máximo que você consegue, é trocar uma coisa pela outra.


Eu sei que o assunto ainda dá pé, mas prometi não me alongar. Afinal, provavelmente você teve que trocar alguma coisa importante pra poder ler isso até aqui.

Microconto #203

Nunca mais mentiria na vida.
Essa era a última vez.

Microconto #202

Pr'uma muda conversa de bocas, até que os corpos se entenderam muito bem.

Do lado de cá do telefone

Deixa eu ler você?
A gente tá longe, por isso que eu queria ler.
Não. As palavras não resolvem eu sei, mas ajudam com a saudade.
Bobeira?
Bobeira só se for pra você, pra mim é bom. As letras te revelam, consigo te ver nos textos. Isso é bom.
É sério, não tô brincando. É uma coisa forte.
Para de falar e escreve vai. Você fica mais romântica nos textos. Entre uma frase e outra eu respiro. Paro. Espero. Continuo depois se eu quiser. Ah, e você nem fica sabendo viu?
Falando não, se eu quero calar, você enerva, bufa, fica puta, fala que não dou atenção, que tô seco, grosso e todos os outros clichês de relacionamento.
Tá vendo? Ficou nervosa já.
Deixa eu ler você, deixa vai?
Pelo menos no texto você não grita.

Microconto #201

Sinto que tenho companhia toda vez que vou pra casa de campo sozinho.

Microconto #200

É a primeira vez que vê o mar depois do acidente.

Só não dá pra pisar na água ainda porque as próteses não são impermeáveis.

Microconto #199

Entre você e eu só existe a minha mulher.

Microcontos Molestos - Cirrose

Bebia pra esquecer da doença.

Microcontos Molestos - Parkinson

Vovó, apesar da idade, levava uma vida agitada.

Microcontos Molestos - DST

- Mas já?
- Não, não, isso é pus.

Microcontos Molestos - Lepra

Pediu a mão dela em casamento.
E o pai deu.

Microconto #198

Quando ele prometeu que o casamento seria um amálgama perfeito, ela, ingenuamente, pensou ser mais pela liga do que pela frieza.

Microconto #197

Encontraram-se por acaso e tiveram um breve caso, mas com intensidade suficiente pra decidir.

- Casa comigo?

- Caso.

Despertar

Quando Harry abre os olhos em um súbito despertar, reconhece a casa de campo da família, mas não vê no primeiro momento a carnificina que compartilha o final de semana. Ouve um gemido ao fundo e rapidamente se coloca de pé a correr em busca do reconhecimento. Cruza o grande espelho do corredor, só que a velocidade e o desespero o cegam a ponto de não perceber como o sangue pinta de vermelho grande parte de sua roupa.


A visão que tem quando chega ao quarto é de uma imensa crueldade. A mulher, semi nua e praticamente inconsciente, geme e se confunde com o vermelho que ensopa a cama. Os membros amarrados nas quatro pontas do leito, fizeram com que permanecessem ali próximo ao corpo, mesmo depois da mutilação.


O desespero tomou conta de seu interior com tanta força que não sabia o que fazer primeiro, se acudia a situação, pedia socorro ou entregava-se ao pranto de agonia. Ainda sem definir qual seria sua decisão, correu aos outros quartos e a barbárie parecia se repetir.


Não conseguia discernir a avalanche de monstruosidade que invadira sua vida de uma hora pra outra. Encontrou os dois filhos em quatro partes da casa. Parecia que aquela altura somente a mulher ainda sobrevivera, e mesmo assim, por pouco tempo se nada fosse feito. A respiração funda, que até então era o único som que conseguia emitir, deu lugar ao choro preso no peito a ao grito preso na garganta.


A primeira atitude tomada, depois de recuperar brevemente a percepção do real, foi ligar e pedir ajuda a quem pudesse atender. Voltando para o quarto onde a mulher estava, passou pela sala e pode ver o cachorro aberto, que parecia ter sido usado como cinzeiro. O sangue era visto por várias partes, inclusive, essa foi a primeira vez que percebeu sua roupa avermelhada, e mesmo assim, com o pensamento na esposa, esqueceu de conferir se ainda havia alguma parte do seu corpo de onde o sangue saia.


Chegando ao quarto, e agora um pouco mais ciente da situação, pode ver a deformação nas partes do corpo que não estavam cobertas pelo grude coagulado. Ajoelhou ao lado da cama, e em prantos segurou a mão da esposa, que mesmo se estivesse viva não sentiria. Esquecera brevemente que o braço não estava mais ligado.


Encostou a cabeça no colchão e chorando, começou a pensar em quem poderia ter feito aquilo com sua família. Por que não gravou o nascimento dos filhos. Se ainda estava na casa. Por que o deixou vivo. Por que torturou o animal. Como foi lindo o casamento. Se os para-médicos conseguirão salvar a esposa. Por que faltou na apresentação de dança da Aninha...


Em meio ao desespero e aos pensamentos vagos de sua vida, adormeceu anestesiado pela dor.


Sem saber ao certo quanto tempo ficou naquela posição, foi acordado pelo socorro e pelos policiais que já ocupavam toda a casa. O processo de reconhecimento e identificação dos corpos só não foi mais complicado, porque sempre depois do sono, Harry despertava possuído de sua segunda personalidade, e que nesse caso, foi a responsável pela festa banhada de hemoglobina.

Microconto #196

No isolamento, buscou inspiração para o romance.

Acabou escrevendo cartas de saudade.

Microconto #195

- Fale a uma altura que meus ouvidos possam ouvir e meu coração possa sentir. Pediu ele, friamente, à namorada apaixonada.

Microconto #194

- Você é a razão da minha vida. Declarou o ambientalista apaixonado.

Como resposta ao carinho, o ar dava-lhe sempre novo fôlego.

Você e a sua mania de me deixar saudade

Sinto falta da tua boca. Aquela que cala depois da transa e deixa a gente ouvindo o coração.

Sinto falta da tua respiração dizendo que me ama e dos teus olhos piscando devagar.

Da tua mão que me procura na madrugada, só pra ter certeza que não passei de um sonho.

Dos teus fetiches, manias, desejos e fantasias.

Ah..., sinto falta também da tua testa suada, com cabelos grudados.

De como fecha os olhos e de como morde os lábios.

Sinto falta de quando não corta a unha só pra marcar de propósito.

De quando faz cara de safada e pergunta se me depilei.

Nossa...,

sinto falta de tanta coisa.

Desculpa, mas tá foda.

Não foi por mal.

Juro que pensei que a Flávia fosse melhor.

Microconto #193

A água caia do céu em formato granulado, escoava pelo corpo e lavava o sangue.

Bala perdida.

Foi isso.

Microconto #192

Saímos de mãos dadas.
Resolvemos desobedecer às ordens, conhecer o mundo e esquecer os problemas.
Mamãe tinha reunião e o jantar ia atrasar.

Microconto #191

Queria tá do seu lado pra sentir seu cheiro.

Ia te amar de noite, na chuva, com fogo e com frio.

Tanto dentro como fora do cio.

Uno

Tuas pernas me apertam os desejos,
teu suor me goza a mente,
teu gozo me molha a alma
e por instantes somos um.
És minha deusa.
Sou teu hebreu.
Eu, você,
vocêu.

Microconto #190

Em meio a gemidos ela me olha e diz:

- Você acha que consegue terminar antes da novela?

Microconto #189

Embaixo da cama não tem nada.
Os monstros odeiam companhia.

Microconto #188

Deus fazia coleção de pessoas.
E trocava com o demônio as repetidas.

Microconto #187

A cigana ganhou muito dinheiro lendo na minha mão a senha do meu banco.

Microconto #186

A única vez que não chorou pela ausência foi no velório do pai.

Que mentira que lorota boa

Teu cheiro te faz presente, em mente.
Não, mentira.
Mente pra mim, pois teu cheiro não é você.
Mentirosa.
Minha mente sabe que você mente.
Mentindo, assim, descaradamente.
Mas, de repente,
quem sabe,
entre mentira e outra nossa mente não se acha,
teu cheiro não resolve aparecer com você,
e aí sim,
mesmo mentindo,
minha mente acha que és tu, minha mentirosa.
Ah, pobre e inocente-mente.

Microconto #185

Depois do acidente todos conheceram o seu interior.

Microconto #184

Entre sessões,
sem exceções,
o tarado do cinema,
trocava de lugar
e observava cada vez menos a tela.

Microconto #183

Achei no meio da noite,
minha mão me achando,
lisa e quente,
pensando que fosse você.

Você em um Lá bem Menor

Corações sincronizados batendo numa igual melodia.
Nossos corpos balançam longe, mas pro mesmo lado.
Minha letra conta sua história e seu ritmo orienta minha dança.

E mesmo com toda essa distância, ainda consigo sentir você, até sem música.
Mas eu sei, uma hora ou outra a gente vai ter que tocar.

Microconto #182

Eram namorados virtuais.
No primeiro encontro, ela foi de verde e ele de azul.
Trocaram as cores de propósito.

Microconto #181

Os pedidos sussurrados fizeram a mão entrar por baixo da saia, levando junto, tudo mais que era necessário pra entrar no jogo da sedução.

Microconto #180

As primeiras gotas vermelhas caíram, desmonocromatizando a calma cidadezinha cinza.

Ana

Fora o telefonema (que convenhamos, não conta) o primeiro contato foi o dos olhos. Depois vieram outros dois: a fala e a audição; acho que não necessariamente nessa ordem. Foi uma troca de experiências; nada profundo, mas trocaram.

Os sons em volta pareciam não incomodar, as pessoas em volta pareciam não falar e o passado deles parecia não existir. Era uma vida nova, na verdade, duas vidas novas, e só uma residência desconhecida.

A cama dele não esperava alguém tão cedo. O contato de agora era por conta das bocas. Uma secreção minava dos corpos, era salgada apesar de ser resultado de um momento doce. As roupas não impediam mais os olhos de imaginar.

As mãos trêmulas deixavam os corpos em êxtase. Os corpos em êxtase deixavam as mentes tensas. As mentes tensas deixavam as mãos trêmulas. Era um ciclo que fechava, e fechava muito bem.

A situação aumentava o prazer, os corpos suados, nus e impacientes pela troca de fluidos, não resistiram à espera dita romântica, logo se atacaram. Foi sublime.

Ele demonstrou ter sido normal, mas era a melhor transa com uma desconhecida; ela demonstrou ser incrível, mas na verdade houve outras bem melhores; só que não confessaram, preferiram manter as aparências.

Quando a noite deixou de ser escura, despediram-se normalmente. Ela já estava acostumada com isso, pegou seu pagamento pelo prazer reciprocamente proporcionado, e mesmo ambos sofrendo com a saudade, nunca mais voltaram a se ver.

A única coisa que sabia dela, era um papel escrito “Ana Fogosa XXXX-XXXX”, mas preferia não reencontra-la. Pelo menos, não por esse nome.

A Revolta - Capítulo 5/5

O colapso geral foi iminente. Enquanto a lei buscava vivos, a revolta veio dos mortos indigentes.

A Revolta - Capítulo 4/5

Os primeiros indícios vieram à tona quando furtos e assassinatos não identificavam mais culpados.

A Revolta - Capítulo 3/5

O número de corpos anônimos e partes iguais, deixou a população com medo de se perder mesmo sendo achada.

A Revolta - Capítulo 2/5

Ainda não se criavam suspeitos. Até que mais pedaços fizeram um inteiro desconhecido.

A Revolta - Capítulo 1/5

O pedaço que a polícia achou não foi suficiente pra reconhecer quem perdeu.

Microconto #179

- Como é difícil falar da gente mesmo. Suspirou agonizante o escritor de obituários.

Microconto #178

Ele só queria resgatar a origem primitiva do amor, mas, depois de uns puxões de cabelo, viu o sol nascer sob outra forma geométrica.

Microconto #177

Conheceu da janela o lindo mundo que existia fora da paralisia.

Microconto #176

Depois de anos, o corpo dela sobre a cama pedia o desligamento dos aparelhos, mesmo os olhos dizendo que ainda existia vida.

Microconto #175

- Senhoras e Senhores! Pelo amor de Deus, acalmem-se. Isso tudo faz parte do espetáculo.

Microconto #174

Saiu pra comprar um GPS e se perdeu.

Microconto #173

O dente no chão,
a boca sangrada
e o choro inocente,
deixavam clara a troca do leite para o permanente.