Tudo o que você queria saber sobre Avatar, mas tinha medo de perguntar

Vou começar o post com um desabafo: eu não preciso gostar de Avatar, tá ok?

A febre do momento é falar sobre o mais recente trabalho de James Cameron, diretor de alguns filmes ruins e outros como: Piranhas II, Segredo do Abismo, True Lies e Fantasmas do Abismo.
Sim, vou ser irônico. Então, se você é mais um Titanicmaníaco é melhor parar de ler por aqui.

O longa tem um cuidado especial com a computação gráfica, isso é inegável. É diferente? Sim. É bonito esteticamente? Sim. Mas não consegui achar em meio a tudo isso a inovação.

O filme é feito em cima dos tradicionais estereótipos hollywoodianos, o que de cara já não dá pra falar que seria um filme para revolucionar o cinema. Vamos mais; corre boatos que o filme já estava em projeto a mais de 15 anos, e que Cameron esperou o momento certo do avanço tecnológico para lançar; o que Lucas também já fez. Além disso, o principal receio de Cameron era esperar demais e acabar lançando o filme um pouco fora de contexto, não acho que isso tenha acontecido, falar sobre aquecimento global e as interferências humanas no meio ambiente é um assunto novo e praticamente inexplorado.

Outro detalhe da chamada “obra inovadora” foi a incrível referência de roteiro (super original também, diga-se de passagem) e personagens, com a HQ Timespirits, da Marvel, lançada na década de 80. Sem falar das gastas referências na criação das situações, dos cenários e da robótica.
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Minha experiência com o filme foi em uma sala convencional de cinema, não passei por nenhum óculos 3D ou salas da IMAX. Um amigo me disse que foi exatamente por isso que o filme não me encantou, essas foram as palavras, “se você não viu em 3D você perdeu tudo”.

E foi daí que surgiu essa crítica, de uma pessoa que adorou o filme. Se a única coisa que um filme tem pra me passar é a experiência visual e sensorial, pra mim ele não é um filme. Ele é pura e simplesmente uma experiência visual e sensorial. Que aqui sim, Cameron cumpriu um bonito trabalho. Mas só.

Microconto #172

5 da manhã.
A plataforma cheia aguarda o transporte dos produtores de ganha pão.
O dia não importa,
são todos iguais.

Microconto #171

Com a música alta, fazia uma apresentação solo, pra uma platéia transeunte e nem percebia o mico que pagava com os fones no ouvido.

Microconto #170

Levava chocolate pra esposa todos os dias, mas sempre era assaltado no meio do caminho por seu próprio estômago.

Depois de um outro fim qualquer

Depois do fim, eu preciso de um tempo pra mim. Digerir a situação. Buscar uma embriagues literária, e no fim, descobrir que tudo que escrevi enquanto sofria sem sexo; está sem nexo, coesão, coerência, e principalmente, sem essência. Nada de essência.

Microconto #169

Ele acorda um dia e descobre que o mundo não é mais mundo.
O mundo, na verdade é modo, é jeito, é forma, é status, e, acima de tudo, mudo.

Microconto #168

Misturaram seus estilos em uma perfeita homogeneidade cultural.

Microconto #167

O zelador do parque de diversões, em meio a toda escuridão, nunca entendeu de onde vinha a alegria das famílias durante o dia.

Branco literário

Incansavelmente eu tentava resgatar algumas palavras do ainda mínimo repertório que tinha. Não era fácil. Além da saudade que a inspiração deixava, minha simples bagagem não era suficiente nem pra uma humilde viagem ao mundo da criatividade literária.

Foram letras difíceis. Muito difíceis por sinal. A cada nova palavra que esboçava se formar, um turbilhão de alegria se exauria, e óbvio, secava novamente a fonte da insistência.

Não era fácil.

Inquietação, desespero e raiva da mente, tomavam conta do meu corpo. O corpo, por sua vez, sentia a ânsia de vomitar naquele pedaço branco do editor de texto, apenas uma palavra. Uma - maldita - palavra - que - pudesse - resgatar - a - inspiração.

Mas, contra minha vontade, o relógio não parou seu ciclo, o tempo não deixou de seguir sua forma rápida e cruel de passar e o insensível pontapé inicial não saia. O branco se tornava mais branco. Eu não sabia o que cuspir na tela. Escarrar, quem sabe; até o asco poderia resolver o meu problema.

Mas não. Nem ele apareceu.

Foram no começo, saudáveis minutos, depois, estranhas horas e agora, agonizantes dias. Mas não veio. Nada. Nem mesmo uma frase, um ditado, um trocadilho ou quem sabe um trocadalho.

Seco.

Escasso.

Parco.
Poderia ser um verso. É. Isso. Um verso. Pedi à memória que resgatasse qualquer resquício romântico, perdido e largado no fundo do inconsciente. Mas o que eu não lembrava é que não amo faz tempo. Não sei mais o que é amor.

Nossa. Será que até isso secou? Já não bastava a inspiração para escrever? Por que o amor também teve que sumir?

Não, por favor, o amor não. Pedi inocentemente, deixe-me pelo menos o amor pela escrita. Com ele acho que recupero a inspiração.

Nada feito.

Cheguei ao final dessa crônica sem saber como começar. Não sei se estou em uma abstinência literária criativa ou apenas em uma rebeldia mental. Não sei mesmo. A única coisa que sei agora, é, socraticamente, que nada sei.

Tokyo! e as 3 visões da existência

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Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong. Três gigantes nomes do cinema se encontram pra dividir a direção em Tokyo!

O filme é uma reunião de signos, estereótipos, significações, referências e críticas divididas em três partes. Cada uma comandada sob o olhar de um dos diretores.

“Os filmes”, ganham muito com as propostas de narrativas e com as personagens. Não há como destacar um dos três, todos trabalham com um olhar contemporâneo os problemas da atualidade, da tecnologia, do encasulamento social, da necessidade constante de se sentir útil e dos preconceitos, não necessariamente nessa ordem, mas todos com o olhar clássico e extravagante do cinema oriental, em alguns casos até sarcástico.

Vale conferir. Muito boa referência de cinema alternativo. Só esperava mais na questão de novidades nos enquadramentos, fotografias e cenas, tanto quanto inovaram nos roteiros. Mas o que não faz o longa dos curtas perder em momento algum.

Microconto #166

Depois de dar mais quatro tiros, o custo do assalto saiu mais caro do que o retorno.

Microconto #165

A única certeza que tinha era a de estar sempre cheio de dúvidas.

Microconto #164

Pra ele não existia esse negócio romântico de Romeu e Julieta. Deu a ela todo o veneno e foi curtir a vida de solteiro.

Homogeneamente juntos

Quero te ver, sentir e beijar.
Quero, o seu arrepio, na minha pele.
Quero você, macia, no meu corpo.
Quero sua boca, molhada, na minha.
Quero suas costas, quente, no meu peito.
O calor.
O prazer.
O carinho.
E o tesão.
Tudo misturado.

Microconto #163

De repente as coisas começaram a encaixar.
Nunca entendeu por quê sofrimentos, desgraças e problemas.
Nada daquilo fazia mais sentido agora.

Microconto #162

- Ei! Por favor, volta aqui!
Você esqueceu de levar a saudade, ela pensou.

Microconto #161

No horário de sempre, sento no banco, abro o jornal e vejo ela passar.
Claro que ela sabe que é amor. Todo dia é o mesmo jornal.

Coisas de casal

De uma hora pra outra a cama pareceu suportar perfeitamente os dois corpos. O que no fundo foi uma realidade ilusória, pois o ranger não se fazia mais presente, justamente porque os corpos agora tinham atrito entre si.

O som da noite voltava ao normal com seus carros, buzinas e sirenes. Os gemidos deixavam saudade até para o vizinho solitário do quarto ao lado que os usava como forma de companhia fictícia.

A bela visão do espelho desaparecera. Não havia mais imagem agradável como resposta ao mundo, daquele objeto que refletia um lindo e desnudo corpo de curvas, contornos e cores femininas.

A gaveta parece a de uma nova casa. Roupas e peças menores que despertavam desejos e excitações, não estavam mais lá, ocupavam agora uma mala a caminho de um lugar desconhecido.

A libido, enfim, acalmara os ânimos. Aquele vestido que desfilava propositalmente da sala para o quarto, do quarto para o banheiro e do banheiro para sala novamente, completando o ciclo de tortura e sedução, estava na mesma mala do resto das roupas.

As refeições tornar-se-iam mais caseiras. Os jantares românticos, as velas refletidas em olhares apaixonados e as taças com marcas atraentes de batom, ficaram somente para a memória.

O silêncio reinaria. As declarações escandalosas, os galanteios sussurrados e as provocações ditas com palavras escrotamente safadas, sumiram e deixaram prevalecer a ausência de ruído.

O relacionamento por hora, estará tranquilo. Ela foi refugiar-se daquela desilusão na casa da mãe, que sempre lhe aconselhou. Ele foi refugiar-se em goles de algum tipo de álcool, em estiletes sem cortes e comprimidos sem efeitos; não podia morrer, sabia que ela sempre voltava.

Microconto #160

Hoje a mão dela encostou na minha. Me deu um frio na barriga.
Sempre ouvi dizer que amor de colégio dura a vida toda.

Microconto #159

No sábado a tarde,
deitados na cama,
ela me contava as pintas pelo corpo, e eu,
perdia a conta de quanto tempo ainda queria ficar ali.

José

Por que Paloma partiu? – Pensava Pedro permanentemente.

Preferiu perder-se por paixão própria?

Preferiu parir por parte palaciana para perder propositalmente Pedro pobre? – Pensava palidamente.

Prematuramente Paloma partiu. Poemas, poesias, papéis paupérrimos; por poucas partes perdia-se Paloma.

Paixões plurais preocupavam Pedro. Paloma pervertida? Pior, Paloma puta? - Pelo pai! - Por que pensar porcaria? - Para! - Partiu por pura preferência.

Pouco pafioso, preferia pensar puramente - Perdi Paloma pela pobreza.

Pedro pediu perdão pro Pai por pensar problemas propositais. Perdeu passado; presente; Paloma.

Proclamou publicamente prólogo, prefácio, prelúdio para posterior ponto positivo. Puro pifianismo.

- Porra. Perfeitamente. Perdeu Paloma por promessa paterna.

Pachocho Pedro, preferira permanecer preso pelo “P”, para padronizar propósito prometido pelos pais.

Portanto, perdeu Paloma para Paulo. Era Paulo, mas era José Paulo.

Microconto #158

A cada discussão imatura o relacionamento escoava junto com as lágrimas.

Microconto #157

Depois de muito custo, realizou o fantasioso Ménage à Trois do marido.
O difícil mesmo foi assistir de fora.

Microconto #156

A loteria acumulava, assim como os sonhos e as dívidas.

O que ficou de ontem

Depois de encontrar, depois de conversar, depois de provocar, depois de ver, depois de mostrar, depois de ouvir, depois de falar, depois de ler, depois de escrever, depois de querer, depois de desejar, depois de imaginar, depois de pensar, depois de acarinhar, depois de beijar, depois de tocar, depois de suar, depois de excitar, depois do prazer,
depois do tesão,
depois de mim,
depois de você,
depois de tudo.

O que ficou foi lembrança.
Escorrendo na mão,
simples,
branca e
quente.

Microconto #155

Uma vez conheci um cara bem otimista.
Desses que a gente encontra no espelho sabe?
Infelizmente foi só uma vez.

Microconto #154

- Adoro quando você fala dormindo. Hoje, por exemplo, aconteceu de novo. Só que mais uma vez não foi o meu nome que você disse.

Microconto #153

As coisas que ela mais gostava eram exatamente as que ele menos fazia.

Resposta a um e-mail provocativo

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Não responderia por meu corpo.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Não obedeceria meus limites.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Quereria tu não as ter pronunciado.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Seria pouca tua imaginação pra responder o prazer.

Ah malditas palavras que cá não estão.
Que fazem de ti bendita,
e ainda viverá até o próximo gozo.

Deixa ela entrar

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Fazendo parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema, Deixa Ela Entrar é um filme considerado atípico.

Numa época onde os sucessos hollywoodianos estouram de bilheteria com filmes comercias contando histórias de vampiros, o diretor Tomas Alfredson consegue fazer diferente. O filme sueco é uma história de vampiro pra gente grande.

Apesar do enredo simples e com alguns clichês, é possível perceber detalhes de câmera, roteiro e fotografia que dificilmente um filme de terror poderia apresentar.

Inteligente, nada grotesco e ao mesmo tempo delicado, o longa acumula até o momento mais de 40 (já perdi a conta) prêmios internacionais. Não só como roteiro mas como referência para o cinema, cogita-se já a possibilidade dele ser regravado em hollywood. O que convenhamos, ganharia muito em investimento enquanto paralelamente, perderia muito na simplicidade.

Microconto #152

Descobriu que àquela hora da noite os arbustos não costumavam se mexer sozinhos.

Microconto #151

Quando o pai entrava no quarto da pequena, junto com a tranquilidade, morria também a inocência.

Microconto #150

Pensou em escrever uma autobiografia repleta de realizações pessoais.
Só não foi em frente por falta de conteúdo.

A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar

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Acho que o que me fez ficar muito em dúvida se gostava ou não do romance, foi a mistura de linguagens. Não que seja ruim experimentar mas, não sei se a dosagem foi boa.

No romance, por meio de uma terapia de vidas passadas, a personagem principal descobre ter sido “responsável” por escrever a Bíblia (óbvio). Ela é uma das 700 mulheres de Salomão, a mais feia de todas e até passa por situações interessantes.

O legal do texto é justamente a criação de Scliar pra desenhar e explicar os acontecimentos em cima de todo o trabalho da tal escrita. Acho que aí ficou o problema, esses, que são os detalhes mais legais na construção da narrativa, foram os menos explorados.

O livro rendeu a Scliar, o Prêmio Jabuti em 2000. Scliar levou agora em 2009, mais um Jabuti na categoria romance, com o livro Manual da Paixão Solitária.

O mais engraçado é que o Jabuti, de uns tempos prá cá, já não vem agradando muita gente, ou pela repetição, ou pelo julgamento, ou às vezes, por causa de algumas qualidades. Não generalizemos, claro, mas espero que eu goste mais dessa nova obra de Scliar.

Li esse ano coisas bem melhores, mas fica a dica pra quem quiser discutir opiniões: A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar.

Microconto #149

Desfilava nas noites paulistanas com roupa apertada, fantasias inconscientes e só não conseguia mais dinheiro por causa do volume frontal na calça.

Microconto #148

A mão caiu junto com o corpo.
A cabeça achou o travesseiro,
o braço o chão
e o vidro a cadeira, revelando pra cima seu rótulo assassino.

Microconto #147

As nuvens levaram uns 3 animais,
do meu sorvete metade já derreteu e o papai,
com a bola,
continua brincando de morto na poça de sangue.

Subject - Sem assunto

Baby?
Passa aqui em casa antes de trabalhar. Passa?
Queria ralar minha língua na sua pele,
suar minha mão em seu prazer,
me acabar com seu corpo,
percorrer suas curvas,
encontrar brechas e me perder de amor.

Baby?
Passa aqui em casa antes de estudar. Passa?
Queria mostrar que no mapa do seu corpo todo ponto é G,
te ensinar que na cama o português pode ser errado,
que foder também dá pra conjugar,
que um mais um somos nós dois,
que sexo é orgânico e dois corpos ocupam o mesmo lugar.

Baby?
Passa aqui em casa depois que esse e-mail acabar. Passa?

Microconto #146

O trabalho artístico no mosaico da calçada foi inútil aos olhos do desesperado fugitivo.

Microconto #145

A aflição trazia melodia,
ao coração dos taciturnos,
e assim era escrita e cantada,
fundo,
fundo,
fundo.

Revista Imagine

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Saiu agora em outubro a Revista Imagine, uma parceria da Telefônica com a TVA, essa edição de número 5 conta com uma reportagem exclusiva sobre produção de literatura na web. Separei um trecho da reportagem que fala sobre os trabalhos desenvolvidos por Marcelino Freire, Samir Mesquita e por mim. Confere aí.
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Microconto #144

Ele pintou pensando em uma,
ela posou pensando em outro
e o que faltou pra obra ficar completa foi só um pouco de coincidência amorosa.

Microconto #143

Quando terminou, olhou bem fundo nos olhos e perguntou:
- Casa comigo?
Ela sorriu com pena. Era a primeira vez dele, mas a 34ª dela.

Microconto #142

Fazia um grafite que era reflexo dos seus problemas pessoais.
Criava obras de arte na cor vermelho–sangue.

O livro esquecido depois do fim

Não mesmo.
Não volte pra buscá-lo, na esperança de um sexo descompromissado, daqueles gostosos que só você sabe fazer.
Tocando-me de um jeito único, molhando-me com sua saliva e me arrepiando em sua respiração.
Não mesmo.
Não me venha com esse jeito safada que eu amo, de mancinho, me pegando de noite por baixo do lençol.
Não mesmo.
Deixe-me sozinho. Não quero essa boca em meu corpo.
Não mesmo?

Microconto #141

Depois que ela partiu, a necessidade de estar acompanhado fez com que pedisse pra ser enterrado na cova ao lado.

Microconto #140

Os humanos sem chuveiro, dividiam em casa, sob o teto de uma noite fria, os restos de comida, que os cães não queriam.

Microconto #139

A chuva a fez lembrar da infância, não pelo som, mas pela piscina que sua casa virou.

Microconto #138

Conheceram-se no chat, trocaram scraps, intimidades no MSN, sexo pela cam e só terminaram depois de um e-mail dele com vírus.

Osasco - Jurubatuba

O que fazia ele acreditar que aquela conversa no Nextel era interessante pra todo mundo?
Daqui do fundo, no meu banco, eu conseguia ouvir toda a rotina dele, fracionada, mas ouvia.
Trabalho, praia, mulheres, futebol e fim de semana eram palavras que eu identificava mais facilmente.
Não, e não era só eu que tava envolvido na conversa não, tinha uma tiazinha do meu lado, com uma sacola branca do Carrefour no meio das pernas, que tava prestando, acho que até mais atenção do que eu.
O trem tava cheio, não tinha gente de pé, mas todos os lugares estavam ocupados.
Na minha frente era engraçado, tinha uma menina que acordou e chegou a tirar um dos fones do ouvido só pra ficar prestando atenção na conversa do cara do Nextel.
E lá no fundo continuava o diálogo público, um bip ele falava, outro bip ele ouvia.
O cara do outro lado era corinthiano, dava pra saber porque o de cá lembrou da derrota no jogo de ontem, que por sinal foi merecida. Erraram muitos passes, chutaram pouquíssimo, e fora que assim a gente continua na frente da tabela.
Como o trem ia em silêncio, a única distração acabou sendo mesmo a conversa dele. Às vezes até saia umas coisas engraçadas. Foi numa dessas que a menina da frente olhou pra mim e deu risada. Bem, isso era um sinal, acho que daqui sai alguma coisa, pensei comigo. Na próxima brecha dela eu solto um comentário.
O papo continuou, assim como as trocas de olhares ansiosos por uma iniciativa. Acho que ela esperava eu falar alguma coisa, tipo, ela, sozinha, no trem, não ia falar comigo, além de dada ia parecer fofoqueira né? Puxou papo comigo sobre a conversa dos outros? Não, ela não ia falar. Se eu quisesse conhecer a menina da frente eu teria que abrir a boca.
Mais umas duas estações passaram, o papo continuava e eu também, esperando outro sorrisinho convidativo. Já nem prestava mais tanta atenção na conversa, fiquei aguardando o gancho pra soltar um comentário na hora certa.
Paramos na terceira estação, acho. A porta abriu e entrou um filha da puta de boné pra trás com um celular na mão ouvindo funk no último volume. O som abafou a conversa do Nextel, ninguém do lado de cá conseguia ouvir mais nada. Aí, a menina da frente colocou o fone de volta no ouvido, encostou a cabeça no vidro, fechou os olhos e voltou a dormir.
Sempre tem um pra ouvir música no celular.
Ah essa merda de tecnologia.

Microconto #137

Quando acordou e viu que o sol não estava lá, descobriu que era o início de uma grande insônia.

Microconto #136

Riscava no batente da porta a altura do filho que não mudava tanto quanto a largura. Mãe é mãe, mas nunca assumiria problemas genéticos.

Microconto #135

Os planos futuros da infância agora são passado.
Vasculha a memória procurando onde foram esquecidos.

Amor suburbano

Como parte do cotidiano, a luz vermelha é acesa, e uma multidão vai se unindo, cada um esperando o seu momento.

Vultos que buscam suas posições, confundem rapidamente minha visão.

E na busca de liberdade visual, meus olhos são presos por aquela beleza.

Com movimentos desacelerados, mesmo assim, consegue fugir de toda minha velocidade.

A brisa, agora, assume um outro aroma quando cruza aqueles cabelos.

O tempo que deveria congelar, passa a ser mais rápido, e aquela caixa com duas luzes, começa novamente a dar sinal de mudança.

Agora é a vez do verde.

Os corpos são deslocados para frente, coordenados por uma rotina fria.

O corpo dela começa a fugir da minha visão, e dos outros sentidos também.

E ainda assim, sinto o rastro de seu aroma entre os obstáculos humanos da cidade.

O resquício visual do contorno de um corpo, que inferioriza os outros, ainda se faz presente no meio da multidão.

Mas, pouco a pouco, o brilho que reflete naquela pele, vai desaparecendo.

Já quase não é mais possível acompanhar o trajeto. As pessoas não imaginam que ali acontece um romance, e assim tomam minha frente.

Sua velocidade e minha necessidade aumentam, da mesma forma que a distância entre os nossos corpos.

Quando menos se percebe, ela desaparece no aglomerado humanóide, e, como o encontro; em fração de segundos; o desencontro.

Nunca mais aquele semáforo será mesmo.

Saudades prematuras.

Microconto #134

Embaixo do velho chapéu, um corpo tão cansado, deixava em dúvida quem sustentava quem.

Microconto #133

- Nossa, como ele é feio pra ela. Disse minha inveja.

Microconto #132

O forasteiro abusou da filha do caipira e sumiu sem deixar nenhum vestígio fora dela.

A você o que é seu

Como assim você vem e muda tudo? Até parece que é tudo seu.
Eu tava muito bem aqui até você chegar.
Sozinho, isolado, no escuro.
Um simples escritor fadado a solidão como qualquer outro que se preze.
Mas não.
Tinha que chegar você. Com esse jeito ímpar, que além de única, é notória.
Tava eu aqui, deprimente, sórdido, taciturno. E de repente,
um brilho todo diferente ilumina a minha vida.
E tão rápido como vem,
vai.
Aí,
agora,
ao invés de escrever coisas frias, tristes e melancólicas como eu tava acostumado e satisfeito,
não.
Fico a vagar em parques, praças, no meio da multidão,
esperando calor, cor e inspiração,
pra escrever, iludidamente, poemas, versos e cartas,
de solidão,
claro.
E,
aqui sim, tudo é seu.
Tudo.
Que ao mesmo tempo não é nada.
Nem pra mim,
muito menos pra você.

Resultado do FUC

Nesse sábado, 12/09, aconteceu no Anhembi o evento de premiação do 2º Festival Universitário de Comunicação, conhecido como FUC. Antes da premiação pude conferir 3 palestras com João de Simoni, Antônio Fadiga e Átila Francucci que mereceriam muito mais do que só essa citação.

O festival contou com mais de 2.500 trabalhos inscritos de todo o Brasil, dos quais, 500 passaram para a final, o chamado shortlist, e desses, apenas alguns foram premiados com bronze, prata e ouro separados em categorias.

Queria dividir com vocês que o trabalho abaixo inscrito por mim, conquistou Prata Nacional. Fico feliz em poder fazer parte dessa premiação e contar com mais um passo nessa longa escada.
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Obrigado a todos pela torcida.

Microconto #131

Nosso amor crescente me faz gostar de você mais do que quando comecei esse conto.

Microconto #130

No mal-me-quer do cotidiano, minhas pétalas pararam de cair.

Microconto #129

Vamos viver assim então.
Confundir paixão com ódio e amor com tesão.
Quem sabe pelo menos a gente não engana a rotina.

Paul Auster e suas amarras

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Quando recebi a indicação do amigo Mauro Paz pra conhecer o trabalho do escritor americano Paul Auster, a sugestão era o livro A Trilogia de Nova York mas, a curiosidade foi tanta que acabei me perdendo no primeiro trabalho de Auster que achei pela frente. A vítima foi o pequeno Caderno Vermelho, um conjunto de fragmentos (ir)reais ligados por pequenos detalhes, e se, não fosse pouco pra conhecer a obra de Auster, esses pequenos detalhes movem muito mais do que um só trabalho.

Quando cheguei recentemente em A Trilogia de Nova York pude mais uma vez conferir seu poder em interligar histórias com detalhes. Três contos que funcionariam perfeitamente sozinhos, não fosse a preocupação perfeita de Auster em ligar todas as amarras. O livro é composto por três óbvias partes, Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado, trabalhando sutilmente juntos em torno de um tema comum, a perda de personalidade de seus protagonistas. Vale a leitura. Dica repassada.

Detalhe também pra capa da versão que consegui, feita pelo ilustrador Art Spiegelman, responsável pela produção do romance gráfico e mundialmente conhecido, Maus.

Microconto #128

- Nossa, que tesão. Para de gemer e diz que me ama!
- Decide. É pra fingir ou pra mentir?

Microconto #127

Abandonada com o filho na barriga, a mulher xingaria pelo resto das noites:
- Só a cabecinha né? Filadaputa!

Microconto #126

O voyeur urbano se apaixonava a cada nova esquina.

Microconto #125

- Droga! Você disse que o corpo não boiava.

Microconto #124

Cansado, sentou na praça.
Viu, cair uma folha;
subir uma pipa;
correr uma bola;
andar um gato e parar o coração.

Anticristo

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As pessoas assistem aos filmes pelas mais variadas finalidades. Confesso que quando fui ver Anticristo, tinha muito mais em mente a atuação de Charlotte Gainsbourg do que referências de Lars von Trier como diretor. Mas, preciso assumir o desapontamento.

O filme não era o que eu espera, a direção não era o que eu imaginava e muito menos as atuações passaram perto. Tudo que vi de projeção durante 100 minutos foi,
pura arte.

Uma superação. Um olhar. Um cuidado. Um detalhe.

A começar pelo prólogo. Magistralmente conduzido, o início do filme mescla cenas em preto e branco, ao som de uma ária de Handel rodado em alta captação, fazendo um mágico abuso na câmera lenta. E se não for um grande exagero da minha parte, um dos melhores inícios do cinema nos últimos tempos.

Como já decidi há alguns textos, não perder mais tempo em contar a história do filme, quero só falar sobre minha experiência com o trabalho de Lars. Fora prólogo e epílogo, o longa é dividido em outras três partes e conta uma história que você acha em qualquer resenha do filme por aí.

Além do abuso inicial da câmera lenta e outras aparições durante o filme, o diretor usa recursos maravilhosamente incômodos. Assim como as fortes cenas de violência e as grotescas cenas de sexo, capazes de provocar contorções em diversas pessoas na sala, O filme atinge seu ápice como produção, sensação, direção e principalmente interpretação, rendendo a Charlotte o prêmio de Melhor Atriz no último festival de Cannes.

Se o objetivo era ser incômodo, parabéns a Lars, saí da sala muito mais consciente de ter visto arte camuflada de filme do que um filme maquiado de provocações como o já falecido Brüno.

Saudade involuntária

Seu corpo me esquenta de um jeito que o sol ainda não aprendeu.

Parada no bar com um coquetel na mão, ela quase nem sabia o que estava fazendo. Segurava um líquido verde, mais pela beleza do que pelo gosto propriamente dito. Ouvia uma música que o seu corpo acompanhava vagamente, mas sua boca nunca, nem sequer cantarolou algum trecho daqueles refrões metalizados e sem nexo. Olhava por todos os lados de uma forma sutil, não queria que o desespero da solidão fosse visto em seus olhos.

No corpo, um vestido brilhante e reflexivo como a bola que girava no teto. Nos pés, os sapatos de uma vitrine que nunca havia parado para admirar, mas, que lhe custaram 30 dias de trabalho, e, no rosto, uma camada de beleza artificial que passara antes de sair,e que aquela hora da noite, já se tornava na verdade mais um incômodo grudento.

Seu corpo me esquenta de um jeito que o sol ainda não aprendeu.

A cada corpo que se projetava em sua frente na tentativa frustrada de chamar atenção, o coração acelerava na esperança de encontrar algo novo. Diferente. Mundano, essa seria a palavra exata. Mas as promessas provisórias de amor, sempre eram feitas da mesma forma – sozinha gata? – ou – eaí gostosa, quer compainha? – ou – vim aqui com a certeza que ia beijar essa boca tesuda. Todas iguais gramaticamente.

Quanto mais próximo do mundo real, mais longe ficava dos devaneios amorosos. Ainda não sabia o que fazia ali. Provavelmente seu corpo veio a procura de um cara legal.

Legal não.

Um cafajeste.

De caras legais estava cansada. De caras românticos estava cansada. De homens lindos e educados estava cansada. Estava cansada do certo. Já não bastava os anos que dividiu a cama com aquele príncipe de sotaque galicista de quem sente saudades até hoje, que por mais que tentasse esquecer o filha da puta certinho de uma figa, já estava inoculado em seu ouvido seus carinhosos tratamentos:

Seu corpo me esquenta de um jeito que o sol ainda não aprendeu.

Inspiração

A inspiração é como um cisco que vaga por aí e às vezes resolve cair no olho de uma mente viajante.

À Deriva

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Engraçado como o nome do filme me trouxe tantos significados.

Acho que à deriva ficaram as interpretações. Explico. Nada de ruim, mas é interessante como a novata Filipa (Laura Neiva) e o experiente Mathias (Vincent Cassel) foram sugados em cena por Clarice (Débora Bloch), a primeira justamente por ser estreante e o segundo pelo esforço em representar em português perto de um dinossauro da dramaturgia.

À deriva ficaram também algumas cenas. A sensação de repetição deixou o filme um pouco cansativo em alguns momentos. Creio ainda que se fosse uma produção somente francesa, alguns mais conservadores não ousariam falar isso.

À deriva ficou o meu palpite sobre o desenrolar da trama. Apostava minhas fichas em um final clichê. Não errei tanto, mas fui surpreendido em detalhes por Heitor Dhalia, que assim como em O Cheiro do Ralo, conseguiu me deixar na cadeira até praticamente o fim dos créditos. Diferente de algumas pessoas na sala que saíram ainda durante o filme. Ouso dizer novamente que se fosse uma produção francesa isso não aconteceria.

Ah, ainda à deriva, ficou todo meu olhar sobre o filme, que entrei na sala achando que veria um drama sobre uma família em atos de separação, com situações sofridas e todas consequências mais que são de direito. E novamente fui surpreendido, o filme é um drama psicológico sobre os últimos momentos de um casamento, mas a dor e a profundidade dos acontecimentos são de total ponto de vista de Filipa, a jovem que ao mesmo tempo em que descobre a saída da adolescente com experiências, amores, corpo, provocações e prazeres, descobre também a dura entrada no mundo adulto.

Sem contar a trilha que em alguns momentos me deixou em uma deriva sensitiva. Onde em cenas de pós discussão e de climas pesados a trilha assumia e confundia em minha cabeça, sons parecidos a respiradores de ar em hospitais, quem sabe uma anunciação para os últimos momentos de vida daquele relacionamento.

Ouso dizer, por último, que se fosse uma produção francesa, o contexto e a qualidade do filme não seriam suficientes pra me fazer escrever essa crítica.

Obrigado ao cinema brasileiro por ter me permitido resgatar mais um filme que boiava à deriva em meio a sangue, violência, nordeste, pobreza e periferia.

Microcontos Clássicos - Allan Poe

O que Microcontaria grandes escritores com apenas 140 caracteres?

A MASMORRA

A altura da torre permitia sentir o frio noturno e o canto do vento nas cortinas toda vez que sabia não estar sozinha no quarto.

Microcontos Clássicos - José Saramago

O que Microcontaria grandes escritores com apenas 140 caracteres?

A PESTE NÃO OUVE APELOS

O mistério far-se-á quando sem prévio comunicado a surdez for coletiva. Mas como, perguntou o homem alto, e o outro já não respondeu.

Microcontos Clássicos - Freud

O que Microcontaria grandes escritores com apenas 140 caracteres?

DESEJOS PRÓXIMOS

A relação entre eles sempre foi muito quente.
Desde o nascimento.

Microcontos Clássicos - Bukowski

O que Microcontaria grandes escritores com apenas 140 caracteres?

COMO ELA ME FODE

Vem na minha casa, bebe o meu vinho, fuma o meu charuto e some na hora da trepada?
Me masturbo pensando, ah se ela ficasse mais 5 minutos.

Microcontos Clássicos - Machado de Assis

O que Microcontaria grandes escritores com apenas 140 caracteres?

TRECHOS DE UM OUTRO QUINCAS

Ah, caro leitor, pobre de ti se acreditares que a felicidade dos enamorados durou mais do que o dinheiro da Senhorita.

Microconto #123

Seduzia os vizinhos na sacada, os meninos no parque, os alunos na escola, mas não dava conta do marido.

Microconto #122

Com residência fixa, resolvi me perguntar - quem será que mora hoje nos corações vazios que deixamos pra trás ao longo da vida?

Microconto #121

- Onde você estava dia 23, 9 e 20 da noite?
- ...
E por falta de álibi condenaram o mudinho.

Microconto #120

Trocou a fama pelo anonimato.
A profissão de serial killer ainda não lhe permitia tantas regalias.

Microconto #119

Antes de sair ele ainda ouviu.
- Quando vier buscar suas coisas, avisa, vou deixar a porta aberta. Mas é só porque não quero estar aqui.

Tinha tudo pra ser mais do mesmo

Não quis tirar este texto pra falar exclusivamente de um filme, mas sim de uma característica interessante e comum em dois dos quais assisti essa semana. Tratando em ordem de produção, um deles foi O Bebê de Rosemary.

Considerado um grande clássico do cinema-terror, foi dirigido pelo mestre Roman Polanski (em minha opinião, mestre, muito mais pelos trabalhos feitos de 80 pra trás, com exceção para O Pianista). Tem Mia Farrow (a queridinha de Wood Allen) como protagonista em uma ótima interpretação. Conta também com Maurice Evans (de pouca expressão), Ralph Bellamy (idem), John Cassavetes (que também já trabalhou como diretor), Sidney Blackmer e Ruth Gordon premiada com Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante na ocasião.
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O outro filme foi Primer. Pra falar desse, basicamente pode-se citar um nome, Shane Carruth. Produzido de forma independente, Primer foi a porta de entrada de Carruth como diretor, ator, roteirista, produtor, editor, compositor e diretor de fotografia. É um filme de ficção científica (pasmem), feito com míseros 7 mil dólares. Porém, o baixo orçamento não foi suficiente para desmerecer o trabalho. A história em si trata sobre um experimento que acaba proporcionando aos protagonistas, Aaron e Abe, viajar no tempo.
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Não vou perder tempo com sinopses e resenhas, sendo que é possível achar isso em qualquer outro site/blog mais especializado. O que queria discutir é sobre a capacidade de tratar um tema, sem tratar desse tema.

Tá, explico.

O Bebê de Rosemary é um filme de terror, mas um terror psicológico, talvez um ou outro frame possa fugir disso, mas não é aquele tipo de filme que monstros, sangue, olhos, ossos e gritos escorrem e ecoam por toda a sala. Muito pelo contrário, Polanski consegue colocar o horror dentro da nossa imaginação, da mesma forma que brinca com a cabeça de Rosemary, colocando-nos como cúmplices de uma loucura, ou participantes de uma seita, o que varia de acordo com o ponto de vista.

Primer por sua vez, é um filme de ficção científica que não conta com nenhum efeito especial. Denso, inteligente e instigante, pode ser chamado também de nerd. O roteiro é complexo, mas bem amarrado. O filme não tem apenas uma trama, várias pontas podem ser ligadas durante o pouco tempo de projeção. E aqui vai um conselho, caso vá assistir, reserve pelo menos o dobro do tempo, dificilmente consiga perceber todos os detalhes em uma única exibição.

Apesar de Primer ser um trabalho de baixíssimo investimento, é um grande exemplo da possibilidade de contar uma história envolvente, valendo-se apenas do contexto. Óbvio que se os direitos fossem comprados pelo cinema comercial hollywoodiano, assim como há especulações de um remake de O Bebê de Rosemary, as obras estariam repletas de efeitos especiais, entrariam pro hall da fama Spielberguiano, completariam a avalanche anual de mais dos mesmos, e aí sim, com certeza, eu não perderia tempo falando disso aqui.

Microconto #118

E chegou ao último capítulo no roteiro da vida.

Microconto #117

No fundo do bar, em sua nuvem particular de nicotina, gole a gole, ele e o garçom, já cansados da mesma música, flertaram a noite toda.

Maldita vida

Tudo começou com um barulho incrivelmente incômodo. Buzinas, freios, ferros e por fim, gritos, muitos gritos. Uma sinfonia urbana que não durou muito tempo. Fechei os olhos pra poupar minha visão. Bobeira. Quando abri não tinha como não ver, estava lá, no chão, um rapaz ensanguentado, de cara no asfalto. Imóvel.

Uma multidão se aproximava do local. Mais e mais pessoas cercavam o corpo. Corpo mesmo, pois àquela altura, a única coisa que restava do rapaz era só o corpo. Pobre corpo.

Mesmo com o número crescente de pessoas em volta da situação, minha visão do ocorrido continuava limpa e clara. Nada de sirenes, nada de ajuda, nada de nada. Só curiosos.

Eu não sentia dó do que via. Nem sequer pensava sobre a ocasião. Apenas observava. Observava como todos os outros. Alguns choravam a morte daquele ser. Não sei por qual motivo, nem o conheciam.

Telefones tocavam, a impressa chegava e o trânsito aumentava. Mas nada de alguém pra socorrer aquele pedaço da sociedade.

Eu já pensava em ir embora, afinal, o que ganharia ficando ali parado, olhando e reclamando? Uma pessoa que nenhum dos presentes conhece. Uma pessoa que talvez quisesse esse fim mesmo, vai saber. Atravessar a rua daquele jeito não era pra qualquer um. Qualquer um assim, em sã consciência. Mas pela pressa, desespero e pouca atenção, provavelmente era isso mesmo que ele queria. A morte. Bem, está aí então, se era isso que você queria, boa sorte meu caro.

O socorro chegou. Enfim, não sei pra quê. Quis até questionar, gritei – não se preocupa com esse aí não, ninguém conhece, já era - mas ninguém deu atenção, parecia que estavam em transe. Chocados. Paralisados como o corpo. Surdos emocionalmente pra ouvir reclamações, eu acho. Os socorristas continuaram o trabalho de reanimar aquele monte de carne.

- Parem. Gritei. – Deixem de ser idiotas, era isso mesmo que ele queria. Morrer. – Carreguem esse resto de ser humano pr’um cemitério. Mas, contrariando minha opinião, continuavam uma luta constante entre essa e a outra vida. Mais por obrigação do que por esperança.

O tempo passava, eu desacreditava, as pessoas desacreditavam, mas os médicos não. Insistiam e eu ria, era a única coisa que podia fazer diante da cômica situação. Uma tentativa a meu ver, frustrada, de trazer de volta alguém com passagem já marcada.

Quando um súbito mal-estar me fez parar de sorrir. Estranhamente as coisas começaram a escurecer, os barulhos começaram a voltar e uma nauseante e dolorida sensação tomou conta. Remorso?

Fechei os olhos novamente pra poupar minha visão. Mas, infelizmente só os olhos foram poupados. O corpo pôde sentir tudo aquilo. Dor. Muita dor. Quando os olhos involuntariamente voltaram a enxergar, uma película avermelhada cobria minha visão. Cobria, mas não ao ponto de me cegar, pude ver as formas que estavam em minha frente. Muitos rostos assustados e duas cabeças, responsáveis por me trazer de volta à essa vida. Maldita vida.

Microconto #116

- E o que te fez confessar todos os assassinatos, assaltos e sequestros, e desistir dessa vida?
- A concorrência doutô, a concorrência.

Microconto #115

No isolado posto onde só o sol fazia companhia diária, nem o vento parava.

Microconto #114

Pegou o lápis, cravou no olho e torceu pro ato lhe trazer, além de dor e remorso, pelo menos inspiração.

Microconto #113

O caminhoneiro irresponsável, esqueceu tarde demais, que a carga mais importante estava na cabine e não na caçamba.

Microconto #112

- Não vou viver com eles nesse mundo de loucos.
Preferiu conversar, trancado eternamente no quarto, com o amigo invisível da infância.

Lolita

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Incomparável. Acho que essa seria a palavra certa quando o que está em jogo são as duas produções de Lolita: o livro de Vladimir Nabokov e o filme de Stanley Kubrick.

Nada contra o trabalho de Kubrick, pelo contrário, linda fotografia e boa direção, sem contar que algumas interpretações ajudaram muito. Mas o livro, em minha opinião, fica um passo a frente quando colocados lado a lado. Acho, talvez, reflexo da única indicação ao Oscar em 1963, para Melhor Roteiro Adaptado.

O detalhe mais evidente que produziu essa diferenciação, foi a sensibilidade. Na obra literária, Vladimir consegue tratar o tema com um olhar delicado que permite ao leitor fazer parte da história de forma gradativa e densa, colocando Humbert, o personagem “pedófilo”, como vítima da “pequena” Dolores Haze (Lolita).

Essa capacidade intrínseca, acaba sendo diluída no filme, um pouco por conta de uma sutil frieza e outra por conta da minha subjetividade, que a essa altura já estava praticamente dentro do livro.

Resultado Segunda Edição do 140 Letras

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Demorou mas saiu. Como disse Roberto Moreno, “dificuldade de acesso à web e problemas de saúde fizeram com que eu deixasse o 140 Letras em segundo plano”. Mas o que importa é que está aí.

Foi legal participar da seleção, muita coisa boa pra conferir e muito material como referência. Também fizeram parte do Júri o ator Ivam Cabral (@ivamcabral), a produtora cultural Liliane Ferrari (@lilianeferrari), a escritora Liliane Prata (@liliprata) e o produtor musical Pena Schmidt (@penas).

Confira abaixo os três microcontos selecionados e para mais informações acesse o site do 140 Letras. Até a próxima Edição.

@bellameneses: Ela queria alguém sem consciência, sem clemência, com importância, com arrogância, com prepotência e com potência. Muita potência.

@Cerquize: Tudo que seu chefe pedia, o contorcionista fazia com o pé nas costas.

@clarissafelipe: Ela lembrou de não ter pensado em nada antes de tomar aquela decisão. Essa lembrança explicou muito da sua situação atual.

Últimos instantes

Os olhos vidrados e apreensivos. Cada segundo parecia um momento eterno. Não era sempre que ele tinha aquela sensação de desespero. Todos parados e tudo imóvel, era como se todos que estavam lá, não percebessem o que acontecia. Quanto mais tempo naquele lugar menos tempo de vida, era essa sua filosofia.

Um aglomerado de gotículas ia acumulando em sua têmpora, formando assim, uma gota única de suor que parecia não querer ser expelida de suas glândulas sudoríparas, mas que com a tensão interrupta do efeito do caos momentâneo, não demorou a seguir seu curso, percorreu toda a circunferência de sua face, proporcionando-lhe um calafrio atormentador e repulsivo.

Ninguém precisava lhe falar, ele podia ver, ouvir e sentir, sua hora estava chegando, estava ali, só há poucos minutos, que por sinal, pareciam horas realmente. De repente, um movimento sutil de um dos presentes, provocou uma reação em cadeia em todos, ninguém reparava, parece que não estavam dando à mínima. O mundo estava em constante rotação desde sua origem, e até aquele momento só ele havia percebido isso, afinal, aproximava-se cada vez mais de seu infeliz destino.

Mais um movimento sutil quebrou o atrofiamento do tempo - meu deus, será que ninguém percebe a agonia que esse instante representa? - ele gritou, mas internamente, preferia não despertar todos de uma só vez daquele transe, vai saber no que isso acarretaria. Mais um sutil movimento. Pronto, ele sabia, será sua vez, está tudo acabado.

Outra gota de suor se formou e escorreu pelo seu rosto, só que agora, o desespero era tanto que ele mal percebeu toda aquela reação biológica da primeira vez. Mais um movimento sutil, o tempo agora parece voar, no mínimo, a rotação da terra aumentou a velocidade. Outro movimento e mais uma gota, outro movimento, e outro, e outro, e outro. 3-8-4. Pronto, agora é ele. Caixa 5. Todo final de mês é a mesmo coisa. É por isso que Kléber odeia fila de banco.

Pecados íntimos (e uma infeliz tradução)

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Um filme no qual os personagens apresentam uma evolução lenta, gradativa e degradante de seus desejos e sensações oprimidos.

Não entenda isso como uma crítica, pelo contrário, esse é o melhor detalhe do longa. Os papéis de Sarah, Brad e Ronald, respectivamente representados por Kate Winslet, Patrick Wilson e Jackie Earle Haley, sendo Kate e Jackie indicados ao Oscar, são os de mais destaque. Não pelo fato de ser o trio protagonista, isso seria óbvio, mas pelo desenrolar de suas características.

O diretor Todd Field consegue oscilar os três entre mocinhos e vilões de uma forma suave e agradável. A história é simples, mas o que justifica os 130 minutos de duração são justamente essas oscilações e evoluções. Os personagens ao longo da projeção vão ganhando características fortes, e aos poucos, nos fazem coniventes com determinados atos.

Ponto para a adaptação do livro de Tom Perrotta e ponto para as interpretações. Little Children como é o título original, ou, Criancinhas em livre tradução, faz também uma ótima alusão as infantilidades cometidas por todos, tanto os personagens e suas atitudes inconsequentes, como nós, álibis das imaturidades alheias.

Pecados Íntimos não fica um nome ruim, mas o original cairia muito melhor no contexto. O filme não é o melhor que eu assisti no ano até agora, mas vale muito conferir pelos pontos positivos.

Bunker - Capítulo 5/5

A mulher na porta, quando vê o representante fardado, chora antes mesmo de ouvir a notícia. – 01/09/1940

Bunker - Capítulo 4/5

21/08/1940 – Perdemos um pessoal considerável, mas haverá renovação da tropa. Volto pra casa mês que vem.

Bunker - Capítulo 3/5

02/01/1940 – Nossas expedições duraram mais do que o planejado. Os aliados desistiram e os conflitos pioraram.

Bunker - Capítulo 2/5

15/04/1939 – Já faço parte do 48º batalhão de fuzilamento. Amanhã será minha primeira ofensiva.

Bunker - Capítulo 1/5

13/03/1939 – Chegamos hoje. As tropas montam barracas, limpam armas e ouvem estratégias.

Mas posso conhecer

Não

conheço

Camilla.

Quem se esconde por trás daqueles óculos?
Por baixo de alguns caracteres?
Em meio a recortes dos outros?

Não

conheço

Camilla.

As referências que tenho não descrevem.
O que preciso escrever não discerne.
Baixinha e autoritária,
não serve.

Não

conheço

Camilla.

E que diferença faria?
Se conhecesse Camilla?
Se mesmo assim Camilla não
conhecer-me-ia?

Não

conheço

Camilla.

Não faço mais questão.
Acho que Camilla também não.
Só conhece de mim poucas palavras,
e eu dela a intermediária.

Não

conheço

Camilla.

Microconto #111

Era um pobre coitado que já fez de tudo nessa vida. Só morrer que, infelizmente, ainda não.

Microconto #110

Sempre foi um cara que gostava de tudo perfeito vírgula mas seu tic não durou muito tempo vírgula logo sua vida teve um ponto final

Irreversível

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Contado de trás pra frente, no melhor estilo Amnésia de Christopher Nolan, Irreversível consegue ser bem diferente disso.

Aqui vão duas coisas importantes, a primeira pra você se sentir interessado no filme e a segunda pra você desistir dele:

o filme é bom, mas exige estômago.

Porém, se eu fosse você, deixaria a primeira opção falar mais alto.

Com longas cenas que dispensam cortes, com uma câmera maravilhosamente nauseante e otimamente interpretado por Vincent Cassel, Albert Dupontel e Mônica Bellucci, os 3 protagonistas, o filme vale muito a pena.

Posso destacar algumas cenas que, com certeza, ficarão na sua cabeça depois da projeção: o estupro, a briga com o extintor e a sequência pelos corredores da boate gay, que antecede a briga. Isso sem falar dos diálogos e a cara de filme noir, em seu estilo básico da variação francesa de “novela escura”.

Não tem muita coisa fora isso pra falar sem estragar algum ponto da história, além do mais, Irreversível é um filme muito visual, sensorial, psíquico e gratificante.

Microconto #109

Parado no campo a beira do lago viu seu reflexo na água e se apaixonou ainda mais,
pela esposa, já que não era nada parecido com Narciso.

Microconto #108

As luzes apagaram e a grande tela acendeu. Estava pronto para encarar a ilusão que o deixaria momentaneamente mais feliz que sua realidade.

Microilustração de um microconto

Recentemente recebi o contato de Carol Rivello. Parafraseando o que disse o Massa Cultural, Carol é “meio mineira, meio catarinense”, mas ilustradora por completo. Trabalha atualmente no studio MidiaEffects e já teve passagem pelo Brasil e exterior.

O que me deixou mais satisfeito foi sua solicitação para ilustrar um dos meus microcontos, onde o mínimo que eu poderia fazer, era dizer um sim.

Aí embaixo você confere o belo trabalho executado.
Valeu Carol, e espero que gostem como eu gostei.
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Microconto #107

Não tinha mais como esconder a bruxaria, depois de queimada 7 vezes na inquisição.

Jornal da Tarde

Saiu nessa Quarta-feira (24/06), uma reportagem no Jornal da Tarde sobre Microcontos e suas adaptações às novas tecnologias.

Fui entrevistado ao lado de
Samir Mesquita (@samirmesquita) e Marcelino Freite (@MarcelinoFreire). Falamos um pouco dos trabalhos, das referências, das mutações literárias e das divulgações (leia jabá).

Para saber mais clica na imagem aí.
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Microconto #106

Todos os dias em frente ao banco ele esperava pela sorte em forma de doação.

Apenas o fim

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Existem dois tipos de mulheres no mundo, as que acham o Johnny Deep bonito e as que acham o Chico bonito”.

Construído com diálogos atuais, simpáticos e nerds (tão nerds que seria um daqueles filmes que facilmente meus pais descartariam para o final de semana), Apenas o fim, primeiro longa metragem do jovem cineasta Matheus Souza, retrata um fragmento da vida de Adriana (Érika Mader) e Antônio (Gregório Duviver), destaque para a boa interpretação de Gregório. O casal vive instantes de discussões em torno do fim do relacionamento. Recordações sobre bons momentos intercalam com as cenas externas, montando a história vivida por eles.

Falar sobre o baixo orçamento (R$ 8 mil) e outra questões como: locações, figurinos, empréstimos e elenco, chega a ser um demérito perto da qualidade dos diálogos. O trabalho agrada pela fluidez e pelo revigoramento da qualidade de produção nacional. Particularmente, eu excluiria a cena das filmagens, uma em que aparece o Marcelo Adnet, e a cena depois dos créditos, acho que o filme é muito mais que isso. #excesso.

Outro ponto interessante (e prematuro) que gostaria de comentar: será que depois de reformulações como o Cinema Novo e o Cinema da Retomada, essa poderia ser uma deixa pro Cinema da Geração Y?

Não sei ao certo, mas fiquei satisfeito com o resultado da projeção. Valeram as gargalhadas, o roteiro e as interpretações, e espero veementemente, que isso seja para o novo cinema brasileiro, apenas o começo.

Microconto #105

A arma mais forte para sobreviver na guerra eram as cartas da mulher, marcadas de lágrimas.

Microconto #104

Depois de 35 anos na detenção ele voltou pra rua do mesmo jeito que entrou: inocente.

Microconto #103

O taxista, o carro e a viagem eram os de sempre.
Mas, agora, com o novo cliente, a vida tem que ser outra.

Microconto #102

Viraram namorados virtuais, os corpos e as mentes se entenderam a distância, mas tudo graças ao darwinismo digital da sociedade.

Microconto #101

Denunciou gritos no Ap. 712.
Porta arrombada.
Marido e mulher pegos em flagrante.
Crime mesmo seria ele não fazer as vontades dela.

Marola

Conta-se aqui, que coisa de muitos anos atrás, viveu em beira mar, moça com beleza a causar gigantesca inveja, caso existissem moradores suficientes na região litorânea.

Apesar de sua rotina simples e apesar ainda mais do minúsculo vilarejo, nunca chegou próximo do mar. Uns achavam ser superstição familiar, outros, os mais interessados na beleza, achavam ser ciúmes hereditário. E mesmo com todo o cuidado que rodeava essa fina linha carnal da perfeição, alguns ainda conseguiam flertar a menina pura.

Com olhar simplório, delicados gestos e sem intenção, ela fascinava quem a olhasse, mas não correspondia a troca de olhares e muito menos dava isso a entender, apenas vivia, e nada mais era necessário.

Enlouquecendo todos os moradores, aos poucos foi crescendo e dobrando beleza. Se é que era possível aumentar. Inveja, desejo e cobiça, proporcionalmente também aumentavam.

Como a vida não é aliada de nada, morreram anos depois, os pais da moça, que viu-se sozinha em seu pequeno mundo. A necessidade de buscar vida fora dele e a curiosidade para descobrir o além das terras de família, fez com que cruzasse os limites terrenos.

E esse foi o dia da redenção.

Todos, sem exceção, pararam para observar beleza que se materializava em mulher.

O primeiro sonho: conhecer aquilo que os pais chamaram toda vida de mar.

A passos lentos e hipnóticos, seguiu em direção ao fim da areia. Os pés tocaram a imensidão de água em um momento único, sublime e romântico, tanto pra ela como para a borda do oceano, que, até aquele dia, estática, desconhecia o significado de movimento e marola.

Até hoje, acredita-se que o mar vem a praia milhares de vezes durante o dia, em formato de ondas, na busca cegante e apaixonada de rever a moça, que naquela mesma noite, foi morta pelos moradores, consequência da inveja de beleza alheia.

Microconto #100

Nunca dava tempo de assustar ninguém com os microcontos de terror.

Microconto #99

No asilo, usavam o termo “anos de experiência”. Ninguém falava a idade, até porque, problemas de memória eram bem comuns.

Microconto #98

Condicionado a pequenos raciocínios literários, não fazia mais do que isto.

Microconto #97

Pedro e Tina se uniram no casamento, mas até hoje, compõem uma soma da qual os resultados não batem.

Microconto #96

Passou a vida inteira esfregando o chão. Decidiu mudar, pediu as contas, arrumaria outro emprego. Não suportava mais a cara da patroa.

Microconto #95

Ficou lá todos os 150 segundos. Era sua primeira vez. Frustraria o sonho da culinária se queimasse as pipocas de micro-ondas.

Budapeste e sua metalinguagem

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Metalinguagem.

Sim, essa é uma palavra que pode definir, e muito, a obra literária de Chico Buarque, Budapeste. Assim como o livro, o filme, mesmo com suas falhas execucionais (o que qualquer adaptação está sujeita), também carrega essa linguagem. Que, diga-se de passagem, muito bem detalhada por Walter Carvalho. Além da boa interpretação de quase todo elenco, o filme traz cenas agradáveis e bem construídas.

O cinema com toda sua desrealização da realidade, apresenta sempre uma forma de inovar na captação do ilusório, e em Budapeste não é diferente, o fim da projeção retoma todo um olhar do Cinema Verdade, iniciado na década de 60, e característico pelas desconstruções e pelo modo participativo. Paralelo a um documentário, o longa de Walter faz uso claro do narrador em primeira pessoa, retirado do livro, que faz aparições em voz over.

Essa montagem deixa ainda mais clara a dúvida na mente do espectador, de onde necessariamente começa a ficção, ou onde necessariamente acaba a realidade. José Costa, ghost writer, protagonista das obras, leva sua vida no anonimato, e, confunde a cada linha e a cada entrelinha, se na verdade a história é contada ao mesmo tempo em que é escrita, se é escrita ao mesmo tempo em que vivida, ou se é apenas uma dupla personalidade literária na cabeça do escritor, como fuga da vida em um mundo de sombras.

Ainda assim, fico com o livro, pelo simples fato da fluidez. O que não torna o filme de todo ruim, tirando o egocentrismo de Chico ao aparecer em cena, a interpretação de Giovanna Antonelli, fraca por sinal, e alguns detalhes inclusos para agregar valor a narrativa, Budapeste é bem fiel ao livro, com direito a gostosa confusão que é capaz de causar em nossas mentes.

Depois do fim

Só me deixa aqui, agora, com um suco na mão. Assistindo televisão, antes de ver você partir.
Fecha a porta, sem bater.
Acho que meu o coração não aguenta o ruído na solidão.
- Vai lá. Seja feliz, eu disse baixinho, mas a porta já estava fechada e a solidão também emudeceu qualquer tentativa de grito.

Microconto #94

Só não era onisciente porque faltava saber disso.

Microconto #93

Conheceram-se numa cama quente, de um dia quente, de um verão quente e para equilibrar a relação, os sentimentos eram frios.

Microconto #92

Ficou refém até não poder mais ver o fim do sequestro.

Duas ruas de um beco

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Um projeto literário e diferenciado que merece os créditos pelo alinhamento. Duas ruas de um beco é o mais novo trabalho do amigo Mauro Paz.

O projeto é simples: são 16 contos por caminhos paralelos. Oito deles serão postados periodicamente no site, e os outros oito, complementares aos primeiros, serão espalhados pelas ruas de diversas cidades do Brasil, respectivamente com a publicação on-line.

O projeto rompe com o mercado editorial e alia internet e livro impresso de forma independente. Para quem quiser os 16 contos (já que será bem difícil localizar todos por aí), um livro também será vendido no site.

Os dois primeiros contos serão publicados a partir de hoje (25/05).

Boa leitura.

Microconto #91

Não precisa falar nada, seus olhos dizem tudo. Só pelas lágrimas já dá pra ter ideia como é a dor da mutilação.

Microconto #90

Entrou suavemente, pé a pé. Ninguém na casa podia saber que estava ali. Assaltar não era legal, principalmente a geladeira do vizinho.

Microconto #89

O trabalho dele se tornava cada vez mais pesado, menos rentável, e dessa forma, igual a todos os outros.

Revista Versailles

A convite do amigo Patrício Jr., escritor, jornalista, autor do PLOG e ainda com tempo para ser publicitário, criei uma seleção de Microcontos para a edição de maio da Revista Versailles.

A edição especial traz o tema “Mães” e conta com um bonito trabalho editorial. Segue abaixo as duas páginas das quais pude ser caracteristicamente impresso.

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Sem título

De um lado da agência de publicidade, um grupo discute como será o final de semana no Chile, o ponto mais relevante da conversa deve passar por Santiago, no mínimo. Frio, neve e aluguel de carros são outras coisas que fazem o assunto se afastar do contexto. Mais ao lado, um novo grupo discute onde será a balada de quinta-feira, quem vai com quem, no carro de quem e daqui, a mais ou menos quatro metros, dá pra perceber que sozinho não vai ninguém. Logo a frente, com menos intensidade, mas não com menos importância, é possível visualizar sobre uma caixa cinza, onde um logo em formato de maçã mordida se destaca, um assistente de arte cantando em parceria com a banda do fone, ao mesmo tempo em que fuzila um layout qualquer. No planejamento, ao fundo, é possível ver brainstorms e brainstorms transfigurados em flip charts, ao passo que a impressora não para de cuspir artes cada vez mais finais, prontas para irem às ruas. E eu aqui, em uma busca constante e frenética, por uma simples, inteligente, vendedora, aprovável e não desgastada, ideia para um título.

Microconto #88

67 anos e nunca tirou férias. A primeira durou 10 dias. Pouco para descansar, mas suficiente para refletir: "Agora é tarde demais".

Microconto #87

Cuidava da casa, dos filhos, do carro e das compras como se tudo fosse dela. Tinha certeza, um dia não seria mais empregada doméstica.

Sem pressa

Pipipipi.
Pipipipi.
Pipipipi.
Pipipipi.
Pipi.

Foi isso a primeira coisa que ele ouviu naquela nova, porém igual, manhã. O inconfundível e inigualável, som do despertador comprado no camelô. Mais ou menos 16 ou 20 pi`s. Não vai lembrar ao certo pois o sono era gigante.

Mexeu os olhos para todos os lados do quarto tentando enganar o sono, mas sem tirar a cabeça do lugar. Decidiu enfim, iniciar uma reação. Começou seus movimentos pelos pés, que estavam gelados. Estranho, a noite não foi fria, mas tudo bem.

Os movimentos seguintes foram cada vez mais lentos, mas nem por isso ele se preocupou. Não tinha mesmo nenhuma pressa.

Pressa? Pra quê?
Pelo menos foi o que ele pensou, não queria que ninguém ouvisse. Se bem que se ao invés de pensar ele tivesse falado; falado não, poderia até ter gritado, ninguém daria a menor atenção. Morava sozinho desde que decidiu tocar um “foda-se na vida”.

Demorou, mas finalmente estava de pé. Foi direto, mesmo que vagarosamente, para a cozinha. Não sabia o que comer e também não estava preocupado, ia fazer qualquer coisa que demorasse. Demorasse muito.

Pensou em tomar banho para enrolar mais um pouco o tempo, só que nesse caso, a possibilidade da água quente exterminar seu sono o deixou mais preocupado, por isso não passou nem perto do banheiro. Pra se ter uma idéia, escovou os dentes na pia da cozinha mesmo.

Minutos depois, que poderiam muito bem ser horas, ele já estava de barriga cheia e dentes limpos. Só que antes de trocar de roupa, tinha que ligar a TV, sentar um pouco no sofá e por que não, tirar um cochilo? Batata. Foi exatamente o que aconteceu. Até o volume da manchete sobre o trânsito caótico na cidade o acordar de sobressalto.

Trânsito? Maravilha.

Dessa vez ele não pensou, falou mesmo. E nem olhou em volta para saber se alguém ouviu, não por que ele sabia que morava sozinho, mas porque nem percebeu que tinha falado.

Foi se trocar, ainda sem pressa. Colocou a cabeça na janela e deduziu que seu ônibus estava passando lá em baixo, também sem pressa. Nesse caso, culpa do trânsito, acreditou.

Abriu a porta, parou por um instante para ter certeza que não esquecera nada. Tudo bem que preferiria esquecer e ter que voltar. Infelizmente não foi o caso.

Trancou a porta, desceu de escada ignorando o elevador. Levou uma vida, mas desceu. Chegou à porta do prédio, disse bom dia, mas não havia ninguém para responder. Saiu.

Pôde sentir aquele ar quente da cidade na sua cara, o som dos carros que davam veracidade à notícia ouvida há pouco na TV, e, pessoas apressadas que passavam e esbarravam em seu ombro.

Todo dia era uma repetição do dia anterior. Odiava sair de casa. Por isso, nada de pressa. Devagar era seu segundo nome. Correr pra quê? Ainda mais numa cidade como essa. Individualista.

Procurou seus óculos escuros e se deu conta de que havia esquecido; o que já tinha certeza disso desde que fechou a porta de casa. Deixe estar. Colocou para fora de seu bolso a vara que é uma extensão de seu braço. Tocando o chão aos poucos, foi sentindo onde será o lugar para o seu próximo passo. Não espera que ninguém o guie. Mesmo cego de nascença, conhece aquela cidade como a palma de sua mão.

Microconto #86

Saiu da Inglaterra e para lá voltou em pouco tempo. Mal percebeu, mas deu a volta ao mundo com 80 letras.

Revista Veredas

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A Revista Veredas é uma publicação digital que ocorre mensalmente, foi criada em agosto de 1998 com o objetivo de incentivar a leitura e a escrita. Integrada desde 2008 à rede de sites do portal Artistas Gaúchos, é dedicada hoje à micronarrativa e discussões acerca deste tema.

A revista faz uma seleção mensal de textos para a publicação, que não devem ultrapassar 300 palavras. E nesse mês de maio, tive a feliz notícia de fazer parte da supra seleção. Estou com quatro microcontos publicados e um deles faz parte da capa.

Para conferir, os microcontos clique
aqui e para a capa, aqui.

Microconto #85

Mal me quer.
Dizem que após a morte os olhos registram alguns segundos. Tanto é que depois do tiro ainda pode ver a última pétala cair.

Microconto #84

- Você é um idiota apaixonante.
- Você é uma imbecil carinhosa.
E como sempre, eles terminaram e voltaram o namoro dentro da mesma conversa.

Microconto #83

A melhor visão daquele acidente deveria ser a de fora. Que por sinal, ele não pode ver.

Microconto #82

Sócrates ensinou Platão, que ensinou Aristóteles, que ensinou Alexandre, que ensinou Alexandre IV que não teve tempo de ensinar ninguém.

Microconto #81

Por mais que tentasse começar uma história com era uma vez, sabia que no final não viveriam felizes para sempre.

Microconto #80

Arrancar a rosa foi doido, mas devolvê-la à terra em forma de coroa, a 7 palmos, foi muito mais.

Microconto #79

Lembrava sempre de não passar em baixo de escada e de não cruzar com gato preto, mas esqueceu de colocar o cinto de segurança.

Microconto #78

Mesmo sem falar com ninguém, era bem conhecida pelos vizinhos. 5° andar. Janela do meio. Trocava-se sempre às 20h.

Microconto #77

Diferente do futebol de domingo a tarde, os melhores momentos da vida não passaram em câmera lenta.

Segunda Edição do 140 Letras

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Além de fomentar a criatividade literária, o 140 Letras tem como objetivo, integrar na mesma rede social, grupos de pessoas interessadas em determinado tema. O concurso acontece no Twitter e é destinado a todo e qualquer usuário do microblog.

Regras básicas:

- Os textos precisam ser escritos em português;
- Ter no máximo 140 caracteres;
- E dentro dessa margem, devem conter a tag #140 para identificação;
- Só.


Podem ser escritos quantos microcontos o participante achar necessário. Mas só serão aceitos os que forem publicados entre 0h de 19/4/2009 (domingo) e 23h59 de 2/5/2009 (sábado), pelo horário de Brasília.

Os jurados dessa edição:

- Ator - Ivam Cabral (@ivamcabral);
- Produtora Cultural - Liliane Ferrari (@lilianeferrari);
- Escritora - Liliane Prata (@liliprata);
- Produtor Musical - Pena Schmidt (@penas);
- E esse que voz escreve, Publicitário - Tiago Moralles (@tfmoralles).

O concurso é organizado pelo Roberto Moreno (@robertomoreno) e para mais informações acesse o site
140 Letras ou siga o 140 pelo Twitter (@140letras) e boa sorte.

Microconto #76

As luzes automotivas passavam. O ponto tremia de solidão. Nada do ônibus. Tudo indicava uma noite na rua.

Microconto #75

Fugindo do incêndio para a cidade, o máximo que os animais fizeram, foi mudar o estilo da extinção.

Microconto #74

Nunca acreditou naquelas histórias para dormir. Só ficava quieto porque era reconfortante o sorriso de iludida felicidade da mãe.

Equador – Miguel Sousa Tavares

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Deixando de lado todo o caso criado em torno da possibilidade de plágio sobre a obra. Miguel Sousa Tavares, com um olhar jornalístico, consegue trazer detalhes que poderiam muito bem passarem despercebidos aos devaneios de escritores mais distraídos.

Equador conta uma história no meio da História. Um romance com diálogos interessantes, faz com que sua leitura seja fluída e agradável. Luís Bernardo, personagem nomeado para ser o principal, leva-nos a lugares distantes e possibilidades questionáveis.

Tratando de temas claros sobre a política e a escravidão, Miguel coloca os romances apenas como amparos para a narrativa. As expectativas são bem trabalhadas, consegui me sentir interessado para ler o Epílogo, tanto quanto espero normalmente por um desenrolar extra após os créditos no cinema.

Sem cometer Spoiler, o fim se arrasta para algo que parece óbvio com o desfecho da história, mas que, novamente, os detalhes de Miguel conseguem fazer toda a diferença.

Quase uma história

Era digno de ser amado por qualquer bela dama. Além de beleza externa, seu corpo fazia-se o santuário de uma boa mente. As únicas coisas que não o tornava capaz de chamar atenção era sua falta de auto-estima e coragem. Simples detalhes, mas que iam de encontro as suas qualidades.

Levava uma boa vida no reino. Levava muito mais que vida, levava também encomendas dos senhorios, dos armazéns e dos mercados abertos. Como podes perceber, esse se consagra o personagem de nossa história, que por sinal, um personagem sem nome para que a vossa mente possa trabalhar.

Como comentado, sua rotina de mesmices não o permitia se destacar dos demais carregadores, de tal forma que carregava também o anonimato.

Para explicar um pouco o cenário e não desgastar demais a mente do leitor, o reino era formado por três famílias que comandavam: o plantio, o comércio e as leis. Não se sabe quando a distribuição foi feita, mas o que se sabe é que é bem respeitada. Nunca as famílias entraram em desacordo, o que serviria de ótimo exemplo para a sociedade moderna.

Para não fugir das lendas, cada família possuía uma dama que aqui não quero chamar de princesa. Os descendentes homens eram inéditos naquele reino, principalmente pela tradição não permitir mais do que uma concepção real. Obviamente que herdeiros seriam necessários; o mais certo seriam três, mas a necessidade de esse conto não atingir uma proporção cansativa à leitura, fez com que ficássemos com um só.

Então vamos aos acontecimentos.

Uma disputa foi organizada por um dos reis. Nada foi divulgado a respeito dos combates, dos concorrentes e das armas, só o que era sabido é que aquilo transformaria a vida do vencedor. Colocá-lo-ia em uma posição privilegiada, de destaque e de glórias principalmente.

Na manhã que antecedia o tão aguardado confronto, subitamente nosso personagem foi encontrado morto na entrada da floresta próxima. Nada de marcas ou vestígios que pudessem de algum modo, incriminar outro cavaleiro. Nada de nada. Uma morte seca, estúpida e o pior, inesperada. Nunca caro leitor, eu ia imaginar que o nosso personagem morreria antes do desfecho. Nunca. Se você ficou surpreso, imagine eu que não sei mais o que escrever.

Microconto #73

A irresponsabilidade das 4 rodas nunca mais foi possível sobre as 2 da cadeira.

Concurso de Tirinha

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E não é que deu certo. O blog Joãos e Joanas do queridíssimo parceiro Pedro Balboni está realizando um concurso de tirinhas.

A especialização dele é essa, criar casos do cotidiano, satirizados pela visão de Joaninhas. O objetivo do concurso era simples, criar sua própria tirinha, sua própria história e sua própria joaninha.
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Fiz isso e lá estou, na final. A votação rola até segunda-feira (05/04), clique
aqui e deixe seu voto nos comentários, se quiser uma dica, eu iria na tirinha número 2, nada de especial, só opinião pessoal.

Update: 06/04/09 às 16h45

DEU "NÓIS". OBRIGADO A QUEM VOTOU. CLICA AQUI PRA VER O RESULTADO FINAL.