Futuro radioativo

(texto inspirado nesta notícia: Coreia do Norte acusa EUA de declarar guerra e ameaça abater bombardeiros americanos) 

Sun Hee acorda no meio da noite com uma sensação estranha. A TV ligou sozinha. É uma TV velha, de tubo. O barulho do chiado não é muito agradável. Sun levanta, aperta o botão e a casa volta a ficar em silêncio. Pega um copo d’água na cozinha enquanto olha pela janela. A cidade é quieta e seca e fria à noite. Quando volta pro quarto a TV tá ligada de novo. Um repórter fala sobre a radiação das novas bombas. Sun desliga, deita na cama e tenta dormir. Segundos depois um zumbido agudo começa a surgir. Aumenta muito rápido. Um pedaço gigante de uma aeronave atravessa o teto e acerta Sun em cheio na cama.

Sun acorda assustado no meio da noite com uma sensação estranha. Um copo d’água, quieto e frio e seco descansa sob a TV desligada. É uma TV velha, de tubo. Sun levanta, olha pela janela, aperta o botão da cozinha e tenta dormir. Um chiado começa na TV do quarto. Um repórter fala sobre radiação. Sun bebe em silêncio o copo gigante. O chiado aumenta muito rápido. Sun volta pra cama, deita e instantes antes de pegar no sono, um pedaço gigante de uma TV atravessa o teto e acerta Sun em cheio na aeronave.

Sun acorda assustado no meio de uma aeronave. Lá fora é tudo chiado. Levanta, anda sobre TV’s e pega um copo d’água que aumenta rapidamente. Vai até a cozinha, aperta o botão no silêncio e olha pela janela. Um repórter na cama velha, de tubo, seca e fria, faz um barulho de radiação não muito agradável lá fora. Sun volta pro quarto. Deita e tenta dormir. Instantes depois, um pedaço gigante de uma cama, atravessa o teto e acerta a TV em cheio.

A cama acorda assustada no meio da água. É frio. Um barulho não muito seco vem da cozinha. A aeronave levanta e desliga Sun que faz um chiado que vem aumentando. Volta pra TV e bebe o tubo de radiação. Antes de desligar, um pedaço gigante de velho atravessa o cheio e acerta o teto.

A aeronave bebe uma TV fria. Sun olha pra dentro da cama pela janela. Aperta o botão da radiação. Um pedaço gigante de copo acerta um repórter. O silêncio vem aumentando até nada atravessar o teto e acertar em cheio a cidade no quarto.

O teto da TV bebe assustado a radiação. Um repórter faz um chiado seco. A aeronave atravessa o silêncio.

A radiação aumenta. Sun volta a ficar em silêncio.

Radiação lá fora.

Silêncio.

Se eu colocar um título cêis vão achar que é história

Meu cartão do Bradesco tá vencido. Mas até aí beleza, só queria realizar umas transações on-line. Não deu. Depois de 20 minutos ao telefone descobri que, pra habilitar a chave de segurança do aplicativo, eu precisava ir numa agência. Fui.

- Oi. Queria cadastrar minha chave de segurança.
- Empresta seu cartão, por favor.
- ...
- Ih. Tá vencido.
- Tudo bem. Não uso. Só quero a chave de segurança no aplicativo.
- Você pode cadastrar a biometria e solicitar a chave de segurança direto no caixa eletrônico.
- Certo. Vou fazer isso.
- Mas o senhor precisa de um cartão.
- Beleza. Tudo bem. Vamos nessa. Pode solicitar outro.
- Mas pra solicitar outro só pode ser na sua agência.
- Minha agência é muito longe, não dá pra ser aqui?

No outro dia. Eu na minha agência.

- Oi. Tudo bem? Queria solicitar outro cartão, que o meu tá vencido.
Preenche formulário. Assina papel. Coloca senha.
- Pronto. Algo mais?
- Queria cadastrar a chave de segurança no meu celular e a biometria também.
- Bom. Primeiro o senhor precisa receber o novo cartão.
- É sério isso? Eu só queria habilitar transações on-line. 
- O senhor precisa ter o cartão pra isso.
- Mas eu preciso voltar nessa agência ou pode ser em qualquer uma?
- Com o cartão em mãos pode ser em qualquer uma, senhor.

Dez dias depois meu cartão chegou e eu fui num caixa eletrônico pra desbloquear. O caixa eletrônico pediu o número do Token que eu tinha deixado em casa. Bom, não deu.
Hoje, acordei, peguei o Token e fui na primeira agência. Hoje vai ser diferente, pensei. Tá sol o dia tá bonito vai dar tudo certo. O número do Token deu inválido no caixa eletrônico. Tive que falar com uma atendente.

- Oi, por favor, quero só desbloquear meu cartão, mas o número do Token não tá aceitando no caixa eletrônico.
- Ah, esse Token não acessa mais mesmo. Só biometria e chave de segurança, agora.
- Moça. Eu só quero habilitar as transações on-line na minha conta. Cadastra minha biometria e minha chave de segurança?
- Mas o senhor precisa desbloquear o cartão primeiro.


Mano. Sério. Eu só queria habilitar transações on-line pra não precisar ir no banco toda vez. Enfim. Depois de uns bons minutos dentro da agência falando com dois atendentes e dois gerentes, o cartão foi desbloqueado, o Token foi descartado, a chave de segurança, habilitada no celular e minha biometria tá cadastrada no sistema. Resta agora eu lembrar qual era a transação que eu precisava mesmo fazer.

Não me falta nada

Meu príncipe não tem cavalo branco.
Meu príncipe não tem castelo, não tem coroa, nem cetro.
Não tem dinheiro. Não fala formal. Nunca pagou caro em roupa nenhuma. Nunca viajou o mundo. Ninguém traz o que ele pede.
Meu príncipe não tem o cabelo tratado. Não sabe o que é pele hidratada. Meu príncipe jamais subiu em carruagem. Nunca encostou no dourado. Nem pisou no mármore.
Meu príncipe nunca me deu um Taj Mahal. Meu príncipe jamais encostou em uma joia. Nem olhou pruma pérola. Não sabe a cor da esmeralda.
Meu príncipe não chega com cornetas. Nunca andou com segurança. Não sabe cortejar.
Meu príncipe não tem nada. Falta emprego. Falta estudo. Falta higiene. Falta dinheiro. Falta sonhos. Falta objetivos. Falta chinelo. Meu príncipe perdeu o chinelo. Meu príncipe é incompleto dos pés a cabeça.

E mesmo assim me completa como um rei.

Mulholland Drive

o corpo é carro
rodando pela vida
amorosa
esburacada.
a mente guia
com destino fixo
enquanto mente
qualquer nome numa placa
qualquer.
espera o próximo quilômetro
paisagem que não muda.
ao longe dois pontos verdes
na cara da mudança
sinalização nova de rumo
à frente
o coração assume a direção
agora quer dirigir.
sou amante desgovernado.
o amor é estrada
recapeada.
não sei ainda pra onde ir
acelero com tudo
mesmo sem nada.

O som do amor

O pai, o avô e o tio são policiais.
Uma família inteira de militares.
A criança pega em casa o que não devia.
Leva pra escola o objeto escondido.
Tira da mochila no meio da aula.
Aponta pra professora e diz:
Hoje cê morre de amor por mim.
Quando a diretora liga pra avisar.
A mãe não acredita no que o filho fez.
Roubou a caixinha de música da vovó.