Microconto #431

Eu e o maquinista vagamos sem rumo, parando homeopaticamente para a troca dos humanos passageiros.

Microconto #430

O jardim perdia o romantismo
toda vez que era regado de sua ausência.

Microconto #429

Os barulhos na escada de incêndio, indicavam que a vizinha do 77 estava tendo, de novo, problemas com fogo.

Microconto #428

Lembro de você nos meus versos.
Aquelas tentativas frustradas
de juntar palavras rimadas,
buscando uma inspiração que nunca esteve aqui.

Microconto #427

Na cozinha e no banheiro o cheiro denunciava o que um dia já foi comida.
Mas fora o dedo, nenhum outro vestígio foi encontrado.

Microconto #426

Acordei e o diabo tava sentado na minha cama.
Você vai conhecer o inferno, ele disse.
Levantou, foi embora e me deixou no mesmo lugar.

Microconto #425

Já era tarde e eles ainda dormiam, aproveitando o início de calor da manhã, sob o cobertor roxo, característico dos mendigos.

Microconto #424

No ar, um cheiro de despedida,
nos abraços, o calor da saudade
e nos olhos, a umidade relativa da solidão.

Microconto #423

No reflexo dos teus olhos vejo alguém que sofre por ti.
Ele chora, suplica e mente como nenhum outro.

Microconto #422

Pela janela da casa velha,
mamãe vê distante
a chuva e os sonhos.

Microconto #421

Choveu 132 dias.
O sol que nasce hoje só vê o seu reflexo.

Microconto #420

No acidente da BR 115, a Esperança, foi a primeira que morreu.

Microconto #419

Passaram a tesoura no cabeleireiro.

Bonecos

A mulher, brigando com o marido no celular, pega o pequeno no colo e vai embora.
O parque se afasta, as crianças se afastam e o velho com balões coloridos também se afasta.
Tudo fica pequeno quando tá longe.
Nove minutos. Esse foi o tempo que ele teve pra sentir que a areia do parque é mais fria, mais grossa e menos legal que a da praia.
Nos braços da mãe ouve as reclamações do jantar.
A porta de trás do carro abre e o corpo encaixa na cadeirinha.
O cinto aperta.
A mãe entra na frente ainda reclamando ao telefone. Só que agora ele já não repara. A fachada vermelha e amarela do McDonalds chama mais atenção.
O carro anda.
O McDonalds se afasta e o Shrek colado na porta também se afasta.
Tudo fica pequeno quando tá longe.
Dorme antes de acostumar com a vista da janela.
Quando acorda, parece que o tempo não passou.
A mãe desliga o carro, pega ele no banco de trás e entra no cabeleireiro.
Por toda parte há mulheres e homens que parecem mulheres.
O cheiro de banho tomado ganha o ar.
O pequeno espera numa nova cadeira enquanto alguém faz as unhas dela.
O salão começa a ficar engraçado. Com pessoas engraçadas. Cheiros engraçados. E cabelos sem graça.
Ela acaba a unha, pega o filho no colo e vai embora.
Os homens que parecem mulheres se afastam.
Tudo fica pequeno quando tá longe.
Ela volta pro carro e ele pro cinto apertado.
Ganha um boneco do Dragon Ball pra fazer companhia.
Se ela soubesse que o desenho não tá mais na moda, não dava.
Fresca, metida e mal acostumada. É assim que o marido fala.
O carro anda movido a palavrões e buzinas.
O sono volta, mas a fome do almoço é maior.
O celular toca. Ela bufa. Olha o visor, mas não atende. É mais uma ligação escrita.
A cara muda e um sorriso aparece.
O carro anda mais alguns minutos até parar.
Pega a criança e o brinquedo e caminha animada até o encontro.
Beija, agradece a mensagem e sai sorridente.
Ela não percebe, mas o filho ainda não acostumou com esse cara.
O pai geralmente dá mais atenção.
O sono vence,
a mão afrouxa,
e na calçada,
o boneco do Dragon Ball fica pequeno.

Microconto #418

Nunca entendi muito de flores e rosas, sei que o cheiro é encantador.
Aliás, essa é a única boa recordação do enterro de mamãe.

Microconto #417

Numa lanchonete, na zona sul do Rio, a geral espera os pê-emes, numa emboscada de homicídio com ketchup.

Microconto #416

Na livraria,
entre as frestas da estante,
achei um romance de olhos azuis.

Microconto #415

De degrau em degrau,
mal sabia dona Firmina,
que ficava mais perto da igreja
e mais longe da melhoria.

Microconto #414

Num momento incerto
em um certo parque,
entre o grande Ipê
e a pequena moita,
um feixe de luz abriu uma passagem pro futuro.
Ninguém viu.

Microconto #413

Na floricultura era sempre uma briga.
As flores disputavam dia a dia.
Umas iam com quem chorava,
e poucas iam com quem sorria.

Microconto #412

Depois que você foi embora, sobrei reduzido a esperanças, tomando comprimidos de esquecimento e chorando remorsos.

Microconto #411

Férias na casa de mamãe.
Saudade dessa goiabada.
Cá estou na rede, a balançar lembranças,
melando os dedos de infância.

Microconto #410

Sei que é amor porque nem a chuva segunda-feira de manhã tá me irritando.

Microconto #409

- Mulheres e crianças primeiro. Gritava Hans, educadamente, em Auschwitz.

Microconto #408

Quando chega, gosto de pensar que você é uma novidade repetida.
Engano a rotina e o coração,
e assim,
vivemos num lindo mundo idiota.

Microconto #407

O bolo esquecido no forno foi tirado pelo bombeiro.

Eutanásia

A família reunida no quarto do hospital, beija, abraça e agradece o pai por tudo.
O velho retribui com uma lágrima de remorso, faz força e diz, o último que sair pede pro médico apagar a luz.

Vazando

E as obras ganharam vida. Estou sendo escravizado por criações minhas. Monstros internos vagando por aí. Angústias, medos e problemas meus, agora assustam outras pessoas. O caderno não fecha mais, tudo o que estava escrito vazou. Fugiram meus desejos, fantasias e amores, personagens dos meus segredos. Posso vê-los andando ali. Ali mesmo, olha ali, consegue ver? São meus. Assassinos que criei, amores que inventei, saudades que não passei. Minhas mentiras e verdades inventadas. Tudo faz parte do mundo de todos. Não sou dono de mais nada. Vazaram minhas memórias, vazaram minhas esperanças, vazaram meus anseios. Estou vazando. Estou secando. Já não tenho mais nada em mim. Sou oco. Sou eco. Sou vácuo.

Microconto #406

Ela mordeu a bolacha com recheio de morango, olhou pra mim e sorriu com o dente sujo.
Foi o primeiro contato com a menina da lancheira rosa.

Microconto #405

No pagamento, cinco atrasos.
No banco, quatro dívidas.
Na casa, três famintos.
No tambor, duas balas.
Na cabeça, um furo.

Microconto #404

Preparou o jantar,
arrumou a mesa,
acendeu as velas,
sentou perfumada
e esperou ansiosamente ele tomar o fermentado de uvas e cianureto.

Microconto #403

A menina passa no bar vendendo chiclete. Ofereço um tanto pelo doce e outro tanto pela dignidade.
Ela vai embora. E leva bolso cheio.

Microconto #402

Nas intempéries do cotidiano,
os olhos choviam,
a mente ventava,
a saudade escurecia
e mesmo assim,
a relação ainda esquentava.

Microconto #401

Agora a família tá unida. Pelo menos serviu pr’alguma coisa o jazigo.

Microconto #400

Na noite do pôquer ele perdeu a cabeça.

Microconto #399

Fechou os olhos e imaginou que podia voar.

Microconto #398

“Estamos há 1 dia sem acidentes.”
Na obra, o trabalho recomeça.

Microconto #397

Eu disse pra ela que a cama andava vazia.
Ela não respondeu. Simplesmente entendeu e deitou.

Das pessoas que passam em minha vida, eu só quero que você fique.

Das coisas boas que você me ensina,
eu só quero que você repita.
Dos pedaços de histórias que dividimos,
eu só quero que você não esqueça.
Das saudades que já senti,
eu só quero que você também sinta.
Das vontades que tenho,
eu só quero que você não canse.
Das vezes que pensa em mim,
eu só quero que você goste.
Das faltas que me faz,
eu só quero que você me pague.
Das tristezas que acontecem,
eu só quero que você me console.
Das graças que faço,
eu só quero que você sempre ria.
Dos pequenos prazeres que vivo,
eu só quero que você faça parte.
Dos grandes momentos que chegam,
eu só quero que você compartilhe.
Dos pedidos que tenho pra fazer,
eu só quero que você me namore.

Microconto #396

O primeiro pedido no poço dos desejos, foi para que a fonte nunca funcionasse.

Microconto #395

Pra não cair de novo na vida, dessa vez amarrou bem a corda no pescoço.

Microconto #394

No enterro do ator tinham muitos figurantes.

Microconto #393

Caíram as roupas.
E as mentiras.

Microconto #392

A agonia das vítimas era música pros seus ouvidos.
Usava o bisturi como um maestro da dor.

Microconto #391

Abandonou, eu, as crianças e o cachorro.
Foi morrer sozinho.

Microconto #390

Reencontrei o amor relendo suas cartas antigas.
Passei a escrever pra você no passado.

Microconto #389

Entrou na vida dela como um truque de mágica: pediu silêncio, cobriu os olhos e o resto ficou por conta da serra elétrica.

Microconto #388

O poeta suspirou lentamente e pensou sozinho: por que será que na vida real as coisas não rimam?

Microconto #387

Ver a família reunida, os filhos brincando e a mulher sorridente.
Sonhou com isso os últimos 97 dias que ficou em coma.

Microconto #386

A caminho do trabalho, sem problemas com horário, uma cigana se aproxima na rua e pede pra ler meu futuro.
A curiosidade é maior que a vergonha, e como ninguém em volta parece notar, estendo a mão e deixo.
Ela pega.
Olha.
Mexe.
Me encara.
Respira fundo.
E vai embora calada.

Microconto #385

18 quilômetros de tédio, 34 graus de raiva e duas crianças chorando estresse no banco de trás.
Nada que uma cerveja a beira mar não resolvesse.

Microconto #384

Não se importava de tomar a mesma sopa e nem de dormir sozinho toda noite. A única coisa que odiava era morar na rua.

Microconto #383

Depois daquela noite ninguém mais ouviu o bebê chorar.

O carona

É noite.
A cada 200 metros um ponto fraco de luz pública ilumina a estrada. Estou andando já faz uns 40 minutos.
Minha sombra surge no asfalto embaixo dos pés e estica violentamente pra frente até se deformar. Mais um carro passou por mim.
Não sei se peço carona. Da última vez as coisas quase não terminaram bem.
Era um Ford branco. Uma picape velha. Acharam no desvio do quilômetro 107 duas semanas depois.
O motorista era grande e demorou pra acreditar quando viu a faca.
Minha sombra agora estica devagar. Um caminhão para. Aceito a carona. Sento no banco do passageiro e conto as mentiras de sempre.
Mal sabia eu que as intenções do outro lado do banco, dessa vez, eram as mesmas que as minhas.

Depois que o sino bate doze vezes em Paris descobrimos um Woody Allen romântico

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Ao invés de ruim, eu prefiro dizer que Woody Allen às vezes é abaixo de sua própria média. Gosto muito do trabalho dele pra desgostar de algumas coisas. Por isso sempre levo em consideração duas variáveis antes de questionar algum novo filme. A primeira é, que na minha opinião, Allen peca pelo excesso, enfim, quanto mais coisas você faz, maiores as chances de ter produções mais fracas, e a segunda é que, muitos dos projetos recentes que ele vem colocando na rua, foram projetos engavetados nas décadas de 70 e 80, ou seja, ele mesmo não considerava tão bom.

Comparo Woody Allen dentro de sua própria carreira porque, inegavelmente, 70 e 80 tiveram suas melhores produções, coloco Hannah e Suas Irmãs como um dos meus filmes preferidos na história do cinema. Porém, é inegável também, que Allen, de 90 pra cá vem buscando um novo rumo para seus filmes e que, acaba de ficar claro com Meia Noite em Paris, que o romantismo chegou pra sobrepor o drama. Isso fica ainda mais claro analisando os últimos trabalhos: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de 2010, meio blasé, Tudo Pode Dar Certo, de 2009, meio auto-ajuda, Vicky Cristina Barcelona, de 2008, moderninho, e Igual a Tudo na Vida, de 2003, meio melado.

Comparado a esses outros, com exceção de Vicky Cristina que eu gosto, Meia Noite em Paris é um trabalho acima dessa média recente. Tirando a mesma reinvenção de protagonista, que sempre é um alter ego de Allen, o resto do filme é um delicioso estudo de personagens. O diretor traz em cena artistas e escritores do começo do século, numa viagem descompromissada ao passado. Ao mesmo tempo faz uma crítica sobre o presente e suas dificuldades, seja esse presente em qual época for. O filme dá ainda uma aula de fotografia e direção clichê, com lindos e novos enquadramentos de um cenário já velho aos amantes da sétima arte.

O uso da cidade não é novidade na carreira dele, que por mais Novaiorquino que seja, nunca escondeu seu amor por Paris. Sou suspeito pra dizer que ficou bonito, já que gosto tanto da cidade quanto do diretor. E Carla Bruni, apesar de linda, desnecessária. Mas é claro, estava lá mais por política do que por opção. Bem, Meia Noite em Paris pra mim não está entre os melhores filmes de Woody Allen, mas certamente está no topo da lista romântica. E tenho certeza que quando for a Paris, vai me dar um frio na barriga depois que a décima segunda badalada tocar.

Microconto #382

E nesse momento os “porquês” rebatem na minha cabeça junto com o eco do disparo.

Microconto #381

A menina cresceu tanto que couberam mais sonhos dentro dela.

Microconto #380

As pernas abriram com a mesma velocidade que os olhos fecharam.
Preferiu não reagir e ficar sem marcas daquele momento de violação.

Microconto #379

Cruzei com uma menina na rua, durante duas semanas, no mesmo lugar.
Preferi sonhar que o destino é insistente, a acreditar que somos pontuais.

Microconto #378

No ar um cheiro de oportunidade.
A porta abre rangendo o medo e um grito assusta o silêncio.
O coração não aguentou a surpresa do aniversário.

Microconto #377

As palavras escaparam pelos dedos, as verdades encheram a folha e a carta viajou na esperança de um dia voltar.

O Homem ao Lado incomoda os vizinhos.

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O cinema argentino, assim como boa parte do que está sendo produzido pela América Latina nos últimos anos, vem numa ascensão agradável. O Segredo de seus Olhos foi um pedaço desse iceberg que o mundo conseguiu ver ultimamente. Não diferente seria com O Banheiro do Papa em parceria franco-uruguaia, A Teta Assustada, um filme peruano ou mesmo o também argentino XXY de 2007, todos com menos visibilidade, mas de igual qualidade.

Um dos mais recentes trabalhos dos hermanos, já premiados em alguns festivais, é O Homem ao Lado. O filme conta a história de Leonardo, sistemático, pseudo-intelectual, renomado designer/decorador e fracassado como ser humano, que mora em La Plata, com mulher e filha, na única residência que o arquiteto/urbanista francês, Le Corbusier, construiu na América Latina. Até que Víctor, o mais novo vizinho, resolve tirar a paz da família, ao fazer uma janela de frente pra casa de Leonardo. De longe ainda consegui ver uma sutil referência trazida de A Mulher do Lado, de Truffaut.

Bem, o filme é isso. Conflitos internos, conivência e metáforas. E só isso. E aqui está toda a capacidade e sensibilidade em contar histórias. Fotografia, direção, tomadas, recursos de enquadramento que mostram o protagonista sempre se escondendo da vida, o humor feito no silêncio, o drama, a interpretação, a acidez, o sarcasmo, enfim. O Homem ao Lado não é o melhor trabalho de todos os tempos, mas é a prova de que cada vez mais, o cinema argentino se aproxima do europeu, e com certeza incomoda também o vizinhos americanos.

Microconto #376

Por mais que tentasse viajar no mundo imaginário, a dor sempre o jogava de volta àquela realidade vegetativa da cama.

Microconto #375

Se me desse uma chance,
te beijaria a mão,
te contaria histórias e
te falaria do meu amor sem nem abrir a boca.

Microconto #374

Todas as folhas caíram prematuramente, anunciando a estação desregulada.

Microconto #373

O sangue dava a ele uma sensação muito estranha, que só passava depois que a vítima não tinha mais como implorar.

Microconto #372

Nasceu em um mundo hedonista, onde os amores não passavam de sentimentos narcisísticos.
Viveu condenado a uma solidão óbvia.

Microconto #371

Foi comprar um pouco de felicidade
e voltou triste porque o dinheiro não deu.

Loucuras de amor

O carro que encostou tinha "Declarações ao vivo" escrito na porta. O locutor desceu e começou a chamar o nome da Ivonete. Que só apareceu no portão depois de ter certeza que a vizinhança inteira tava vendo o presente. Durante uns dois minutos, o alto falante tocou o forró que ela mais gostava. O som abaixou. De fundo agora a música da novela das oito. O locutor começou a falar. Ivonete sabia de cor cada uma das palavras. A mulherada em volta chorava curiosa, cada uma tentando acertar palpites. Depois da mensagem vieram os fogos. O ajudante do locutor, que filmou tudo, entregou um CD pra Ivonete, deu parabéns pelo relacionamento, entrou no carro e foi embora. Ivonete voltou pra casa confiante. Sentou sorridente no sofá e pensou em quantos problemas economizava inventando namorados.

Microconto #370

Ela engravidou precocemente.
Ele teve que trabalhar prematuramente.
Óbvio que eles terminaram recentemente.

Microconto #369

Sentia tesão só de vê-lo. O coração acelerava, o buço umedecia e as mãos congelavam.
O marido jamais poderia descobrir isso.

Microconto #368

Ele ficava com raiva, mas ela é que ficava roxa.

Microconto #367

Após a captura, o navio pirata dispôs a prancha.
A carne destroçada pelos tubarões não era nada comparada à tortura de bordo.

Microconto #366

Às 6 da tarde. Na praça da Sé. Os trabalhadores voltam pra casa. Todos juntos. Cada um em sua solidão.

Microconto #365

Deixou o namorado esperando na linha e foi ali se matar.

Microconto #364

Deitou na grama à procura de algum animal nas nuvens, que provavelmente fora extinto junto com sua imaginação infantil.

Microconto #363

Pensou que conseguiria desviar quando viu o carro.

Microconto #362

No orfanato, o dia dos pais, não era feriado.

Microconto #361

Reservou a mesa pra dois.
Mas jantou sozinho.

Microconto #360

Ele ia subir, se o elevador tivesse no lugar.

Microconto #359

Foi naquele diário perdido, que me achei perdidamente em palavras achadas de paixões perdidas.

Microconto #358

Os pés,
a beira da plataforma vazia,
esperavam o trem.
A estação era a certa,
o horário era o certo,
mas o coração a enganara de novo.

Microconto #357

A rotina se afastava da infância com o mesmo arrependimento que se aproximava da velhice.

Microconto #356

Junto lembranças, pedaços de saudade e momentos mofados.
E assim, em livre associação, acabo me prendendo mais em ti.

Das duas uma

Ontem foi meu aniversário.
Só que eu não costumo comemorar. Os motivos são dois. E nem um deles é por causa daquela frescura de ficar mais velho. Até gosto, pra falar a verdade. Esse negócio de ficar protelando a vida não é comigo. Acho que a gente veio no mundo pra cumprir uma missão. Mas assim mesmo, uma só. Nada de ficar resolvendo um monte de coisa, realizando um monte de sonhos e blá blá blá.

Tenho pra mim que a gente vem pra cá com uma programação feita. Num determinado momento da vida vamos realizar aquilo que já estava no script do destino e pronto. Podemos ir.

Meu tio, por exemplo, era um cara chato pra cacete. Típico ranzinza. Passou a vida inteira brigando com todo mundo. No dia da sua morte, na cama, mal, quase sem ar, a única coisa que ele conseguiu fazer, foi pedir desculpa a quem estava presente. Acho que essa era a missão dele, reconhecer que veio aqui pra ser um cara chato.

Meu vizinho, por um outro exemplo, morreu num acidente de carro. Um Palio, quatro pessoas, três voltas no ar e só ele foi embora. Por sinal, o único que tava com cinto. 25 segundos antes, o Pedro, que tava dirigindo, colocou um CD e disse pro Rafa, meu vizinho, cara, tu vai ouvir uma banda que nunca ouviu na vida. Acho que essa era a missão do Rafa.

Parece piada né? Mas não é não. É isso que eu penso. Só não tenho culpa se as missões é que são estranhas. Isso aí eu não parei pra analisar ainda.

Mas então, ontem foi meu aniversário.

Acordei bem. Cocei o saco por cima da cueca. Olhei no espelho do banheiro, lavei mal a cara e desci. Na geladeira tinha um bilhete da Ana:

A coisa mais importante na história mesquinha da humanidade é que não pararam de fazer arte antes de você nascer.
Que esse dia tenha sido marcante na sua vida como sua vida é marcante nos meus dias.
Parabéns Dani.

Gosto muito da Ana. A gente conseguiu bastante coisa antes de morar junto. O carro, apesar de amassado, foi eu que trouxe pra cá. A TV, que só pega nos canais da novela, por coincidência, foi ela que trouxe. O Fred não, ninguém trouxe, apareceu na rua sozinho. A Ana comprou coleira, ração e disse que ele ficava só até aprender se virar sozinho. Já até esqueci quando foi isso.

Engraçado, lembrei de tudo isso muito rápido. As coisas vieram na minha cabeça com uma pitada estranha de saudade. Até agora ainda tô surpreso com o bilhete da Ana. Quatro anos de namoro e ela nunca escreveu alguma coisa pra mim. E óbvio que eu também nunca li nada dela. Quando vi a mensagem, meus olhos molharam. Por um momento preferi não tentar adivinhar de qual de nós dois seria a missão.

Microconto #355

Em frente uma vitrine das Casas Bahia, Lucival observava parado, numa TV LG de 50 polegadas, seu sonho passar calado.

Microconto #354

Vi você de costas, boina e casaco, esperando um sonho.
Beijei sem ver o rosto e mesmo assim tinha certeza que a felicidade era a sua.

Microconto #353

E um dia nasceu a mais bela das belas que até Narciso virou o pescoço para acompanhar seus passos.

Microconto #352

Das coisas que tenho saudade da infância, meninices, pequenices e idiotices não chegam nem perto das tetas da prima Neusa.

Microconto #351

O jardim não é o mesmo de quando cheguei.
Você não é a mesma.
Eu não sou o mesmo.
O mundo não,
esse ainda tá cheio de más igualdades.

Microconto #350

Caio no jardim.
Adormeço, sonho flores e não vejo a esperança ir embora com a abdução do orvalho.

Sorte

Perdeu só uma vez na roleta russa.

Algumas coisas que penso quando você reclama da unha

Eu sei que minha atenção monossilábica não resolve seu problema.
Sei que minha falta de correspondência nos olhares também não resolve.
Que fazer de conta que tô ouvindo e entendendo tudo, não cola mais.
Sei ainda, que aquele tapinha frio e seco na sua perna não serve mais de consolo.
Que falar bem da comida requentada, não resolve o fato der ter esquecido de elogiar ontem.
Que parabéns no dia seguinte ao aniversário de namoro, casamento, primeiro beijo, primeira transa, primeiro filme ou qualquer outro primeiro que você adora comemorar, não vai consertar a situação.
Dizer que gosto do seu pai não ajuda você esquecer que odeio sua mãe.
Que dizer não quero um filho agora, não é a mesma coisa que recusar um sorvete.
Que mesmo quando não quero parar na frente da loja de sapatos é melhor não dizer.
Que mesmo quando você exagera na roupa, seja pra menos ou pra mais, também é melhor não dizer.
Que nossa noção de horário é inversamente proporcional.
Que nosso sentido de amor é ironicamente hormonal.
Que nossa transa não é nada mais que carnal.
Que como seus beijos eu já tive igual.
Que nosso caso não tá mais normal.
Que seu ciúmes me faz mal.
Mal mesmo, muito mal.
E, se ainda assim, não deu pra perceber, desculpa, mas, essa atenção é tudo que eu tenho pra dar enquanto você me irrita por causa dessa porra de unha quebrada.

Microconto #349

Escreveu torto por linhas certas.
Aos 82 anos, nem deus dava mais jeito na analfabeta.

Microconto #348

Pelos ruídos no quarto ao lado tinha certeza que o vizinho era bem mais feliz.

Microconto #347

Sobrou da festa seis garrafas órfãs, dois cinzeiros cheios de histórias e algumas pessoas com vestígios de libertinagem.

Microconto #346

Quando percebeu que vivia dentro de um filme foi tarde demais. Até tinha começado bem, mas o final não seria hollywoodiano.

Microconto #345

Já sei.
É paixão digital.
Daquelas que a gente constrói com TC’s, VC’s e outras abreviações que nem o coração consegue entender.

Microconto #344

O café era a única forma dele se manter acordado,
o álcool, cafajeste,
e o viagra, casado.

Memória

Comemora lembranças. Não é sempre que lembra das coisas. Da escola, por exemplo, quase nada. Da universidade um pouco. Do casamento. Da guerra. Fisioterapia. As crianças. Os títulos do Dallas. Velório da mulher. O derrame. Os filhos que foram embora trabalhar. O pessoal da assistência social. O asilo.
Nessa hora sorri.
Lembrou de uma piada que Mark Twain fez sobre os ingleses.
Mas esqueceu de novo quando foi contar pra enfermeira.

Microconto #343

Senti um pedaço quente do meu corpo dentro dela.
Um buraco era tapado no presente e outro aberto no futuro.

Microconto #342

Sabia que era sua grande chance. Só o que separava ele de um homem rico eram 25 cm, de puro ferro com cinco balas no tambor.

Microconto #341

Gostoso acordar do teu lado,
ver em teu rosto marquinhas dos dedos,
em teu corpo, traços do lençol
e em tua cama, vestígios de amor.

Na sala de espera

Ela tinha uma aliança no dedo. O que o fez imaginar como seria sua vida de casada. Alguma coisa devia ter, ou ela não passaria esse tempo todo flertando. O que será que lhe faltava em casa? Ou na cama, quem sabe. Não era sempre que trocava olhares assim com alguém, mas sentiu que ali era especial. Bonita, atraente, sedutora. Acho que tem futuro, ele pensou. E a única coisa que passou na cabeça dela foi, por quê será que aquele careca tá me olhando?

Microconto #340

No fantástico mundo da digitalização, as teclas viravam bits e chegavam do outro lado em forma de poemas cibernéticos.

Microconto #339

A escuridão e incerteza destas breves palavras habitam o castelo frio e assustador de minha mente.

Microconto #338

Forrava as paredes do quarto com textos alheios.
Confissões dos outros que abafavam seus prazeres particulares.

Microconto #337

Contra os dogmas da igreja, o herege canibal discutia com o padre:
- Quem é mais errado em comer criancinhas?

Microconto #336

Senti.
E tenho certeza que ela também sentiu.
Estávamos só nós dois no elevador.

Microconto #335

A raiva consumia, gota a gota, minha paciência, que era sucessivamente reposta, gota a gota, com o sangue dela.

E ele amou Alice pelo resto da vida

O cinza do céu estava um tom acima se comparado aos outros dias daquele inverno. As folhas no topo das árvores pareciam queimadas pelas geadas, enquanto o restante estava lá, imóvel, intacto. Ao longe dava pra ver crianças brincando com bolas, discos e tudo mais o que os pais tinham paciência de carregar até o parque. O gramado trazia uma aparência cansada. Reflexo da alegria dos animais e da caminhada dos distraídos humanos que passaram lá por cima. Os bancos, faziam-se ocupados por famílias, namorados, amantes e solitários. Era manhã de domingo, como qualquer manhã de domingo. A diferença estava no frio, que às vezes dava trégua e às vezes preferia não.

Em meio a alegrias alheias, ele era o único que sempre estava lá; no mesmo lugar; não precisava ser domingo; não precisava estar frio; nem acompanhado, que era o mais comum. Nunca foi visto com alguém. Não sabiam como era sua voz, não sabiam o que pensava, o que fazia, ou simplesmente quem era. Após tantos anos, ele já fazia parte da paisagem. Seu pensamento e filosofia por estar sozinho se resumiam no fato de nunca ter encontrado um amor. Nunca encontrou porque na verdade nunca chegou a procurar. Achava que o amor era uma forma de camuflar ao coração, a passagem do tempo. Viveu sozinho desde que não tinha mais os pais.

No parque, como todas as vezes, a escuridão da noite se aproximava e ele não tendo mais o que fazer, preferiu levantar e seguir o caminho pra casa. Em poucos passos percebeu de longe que, no banco posto exatamente atrás do seu, repousava um livro. Que com a proximidade se fez revelar um diário. Nunca teve a vida dos outros como fonte de alimentação pra sua curiosidade, mas o que o fez ir até o banco, foi sua preocupação com livros. Não havia mais ninguém no parque e ele não o deixaria naquela situação. Pegou o diário, colocou em baixo do braço e seguiu seu destino. Chegou em casa um pouco mais tarde do que o de costume, caminhou devagar com um leve pensamento sobre o que poderia conter aquelas páginas anônimas. Pensou algumas vezes em abrir e ler, mas, manteve a tranquilidade.

Seu apartamento. Três cômodos escuros e um banheiro aparentemente limpo. Um dos cômodos era utilizado como cozinha, que levava pendurada em uma das paredes, todos os objetos que fossem necessários para criar alguma coisa que servisse de alimentação. Uma mesa central compunha o ambiente.

Em outro espaço, era feito o quarto. Uma cama cercada de livros, deixava o ambiente ainda mais tenso. Nietzsche era o nome da vez. Pelo menos parecia ser isso. Era o único que repousava na cabeceira. Completando a moradia, um outro quarto onde grande parte das coisas, em sua maioria, desnecessárias, amontoavam-se e ligavam-se primorosamente por teias tecidas especialmente para aquela situação, uma reunião de representações físicas, sonoras e olfativas do passado.

As horas passaram como em qualquer clichê da vida real, e depois de um tempo na cama sem conseguir dormir, pegou novamente o diário, que estava bem posicionado em cima de uma pilha lateral de livros, e começou a folheá-lo com todo carinho e cuidado, afinal era a vida de outra pessoa que estava traduzida ali.

E ele não tinha nada a ver com isso.

Recolocou em seu lugar a pequena biografia do cotidiano, e com a consciência pesada, virou de lado e fechou os olhos.

Os olhos ficaram fechados por muito tempo, mas o sono não chegava. Sentou na cama acendeu a luz e, definitivamente, abriu-o.

As páginas que seguiram foram resumos detalhados de uma vida construída por desgraças e desesperos. Conheceu uma mulher amargurada sem saber quem era. Descobriu mais alguém solitário no mundo assim como ele. A cada linha se identificava mais e mais. A cada página que relatava um novo dia de isolamento social, amoroso e intelectual, ele ficava mais preso aos acontecimentos. Começou a compartilhar com ela, a vida, o sofrimento e as sensações. Como ação do tempo, o dia voltou a ficar claro e ele continuava enfeitiçado pelas palavras que narravam uma taciturna história. Tornava-se cada vez mais impressionado, comovido. Vivenciava os relatos como se fosse ele.

Aquele diário passou a ser um livro em sua rotina. Acompanhava o que lia e incorporava todas as situações descritas. Iniciou o desgastante processo que muitos já conheciam; amar; e nesse caso, um amor platônico, uma paixão distante da autora daquela literatura real.

A partir daquele dia, não apareceu mais no parque; ficou isolado na solidão de seu apartamento por muito tempo e, durante semanas, construiu pela primeira vez em toda sua existência, um sentimento de extremo interesse por alguém. Uma obsessão unilateral. Um desejo egoísta, compartilhado com o espelho, sabido apenas pela consciência e invejado até por ele mesmo que, infelizmente, chegaria ao fim. Como toda boa e crua realidade.

E chegou.

Esse momento foi quando percebeu que se aproximava da última página, o pequeno caderno, e ele, mesmo sabendo tudo sobre a existência de alguém que se encaixa exatamente com seus desejos, continuaria a conhecê-la como desconhecida. Sonharia desejos infindados, choraria por amor descompartilhado. E, amargamente, na manhã daquele 23 de outubro, o diário apresenta seus últimos escritos:

“... depois de todos esses conflitos pessoais e todas as desilusões amorosas, decidi nunca mais confiar minhas angústias a alguém; viver só; essa será minha melhor experiência de vida a partir de hoje.”

Alice

Microconto #334

Pra eles, o sexo era um exercício de prazeres constantes em lugares inusitados.

Microconto #333

As palavras solteiras foram casando em uma conjugação matrimônio-literal, perfeita e duradoura.
No fim o poeta disse amém.

Microconto #332

- Escreve um poema pra mim?
- Grande ou pequeno?
- Do tamanho do nosso amor.
Ela quis acreditar que o silêncio foi por excesso de palavras.

Microconto #331

Destruiu a vida por causa de uma carreira brilhante.

Microconto #330

Depois do primeiro assalto, tudo que exigiu o pobre homem, foi um presídio que servissem comida.

Microconto #329

Em cantos opostos da sala, as pernas dela provocavam minha timidez.

Microconto #328

A família em volta da mesa, dividia os problemas e o frango.

Microconto #327

A madrugada escondia segredos precoces, violentos e mortais.
E fazia questão de contar só pra quem não queria ouvir.

Microconto #326

A janela aberta
convidava a entrar
o homem da luneta
de forma ocular.

Microconto #325

Depois da briga,
no espelho quebrado,
ela se conforma com o futuro,
num mosaico de hematomas.

Microconto #324

- Por favor, vê pra mim dois pratos principais, duas taças de vinho do Porto e uma companhia se for possível.

Microconto #323

Numa batida perfeita os corpos colidiram.

Microconto #322

O corpo velado ouviu todas as confissões de adultério.
Que culpa tinha ele, se aquele era o único momento que, enfim, ela calou?

Microconto #321

Eram inseparáveis os irmãos siameses.

Microconto #320

Corre no rio um boato de que a água não é mais pura.

Microconto #319

Será que desliguei o gás? Pensou dona Helena depois de pular.

Microconto #318

Sento e peço dois cafés.
Brindo a solidão e faço companhia a mim mesmo.

Microconto #317

O tic tac do relógio aumentava a sensação de eco em sua cabeça e o vazio o deixava ciclicamente, mais hipnotizado no objeto de chronos.

Microconto #316

O filho reclamava do cardápio repetido.
Coisa que a mãe já sabia, era do seu prato que saiam as refeições.

Limites

O raio de luz entre a porta e o batente foi diminuindo lentamente até cessar.

Muitas vezes ele foi avisado que a altura com que falava poderia acarretar um resultado assim.

Ele sempre teve um comportamento macho-egoísta. Mas mesmo assim, viveram juntos por muito tempo; ele, devoto do regime falocrata; e ela, submissa condicional.

Momentos depois da porta ter fechado; ele ainda estava no mesmo lugar, imóvel, longe do móvel, destruído. Agredi-la nunca havia ocorrido. Palavras baixas como as que não valem ser repetidas, eram comuns, mas agredi-la, nunca, pelo menos até aquela hora.

Na cabeça uma certeza, ela vai voltar. Sempre volta. Precisa de mim. Nascemos restritos aos nossos próprios corações. Era essa a certeza que mantinha sua calma.

Como numa previsão, a porta abre; não na mesma velocidade que fechara, mas abre; isso pelo menos já é um sinal. Sinal do arrependimento dessa vadia pidona, pensou ele.

Junto com a prepotência, um sorriso cínico começou a formar no canto esquerdo da boca.

Só que quando os lábios abriram, não foi outra de suas grosserias que passou entre os dentes, mas sim, uma massa de liga de chumbo.

Quando os lábios abriram, não foi o som escroto de suas palavras que saiu, mas sim, o estrondo do propelente da pólvora.

Quando os lábios abriram, não foi o anélito fedorento de costume que veio a tona, mas sim, o bafo quente e metalizado do minério pobre.

Quando os lábios abriram; os olhos fecharam pra sempre.

Microconto #315

CêEfeGê, TrêsSeteQuatroDois.
Ela tem a placa guardada na cabeça até hoje.
Do mesmo lado onde ficam as lembranças do filho.

Microconto #314

O pedinte estendeu a mão, uma, duas, três, e na quarta vez, a fome consumiu seus movimentos.

Microconto #313

O vento
gela
a vela
que apaga
o frio
da capela.