Cuidado, você pode estar sendo romântico demais.

O romantismo é uma arma que o cérebro usa pra nos tornar a pessoa mais apaixonável do mundo. Flores. Presentes. Ligação terça à tarde. Mensagem domingo à noite. Aquela música que não vai pro ouvido, mas direto pro coração. Coisas que só uma pessoa romântica é capaz de fazer o tempo todo.  

Mas, cuidado, você pode estar sendo romântica demais. O romantismo é uma arma que o cérebro usa pra nos colocar como a pessoa ideal. Você fala só o que vai agradar. Você faz só o que vai agradar. Você escreve só o que vai agradar. Você ouve só o que vai agradar. E assim, aos poucos, vai criando uma relação de uma pessoa só. O foco nunca é você, é sempre o outro. Você vai pra lugares que não gosta. Recebe pessoas que não tolera. Come coisas que não está afim. Você mascara sentimentos.  

Cuidado, nós podemos estar sendo românticos demais. Amar alguém não é colocar só amor na relação. Amar alguém é saber equilibrar o gostar com o desgostar. O amor é o ódio na medida certa. Não em excesso. Uma pessoa escolhe estar com você por muitos motivos, mas não porque você é romântico e só. Brigadeiro é bom, mas ninguém comeria brigadeiro o resto da vida.

Apenas cuidado. Se existisse um manual pra relações, provavelmente não estaria escrito: funciona com pilhas de romantismo. Uma das coisas mais importantes em uma relação é a conversa. Tire as barreiras da timidez, do medo, da insegurança, da dependência e fale. Fale tudo sobre você, seus projetos, suas vontades, seus fetiches. Não mascare seus sentimentos atrás de um romantismo desenfreado. Uma relação é feita de conversa. E o que você gosta, é tão importante quanto o que você não gosta.

Microconto #653

A menina da mesa 37 tinha o coração bagunçado.
Por mais que o garçom sorrisse, por mais que a cidade ajudasse, por mais que o sol saísse, a menina da mesa 37 continuava com o coração bagunçado.
Ter o coração bagunçado, é como ter dentro da gente, uma casa fora do lugar. E por isso, ter vergonha de chamar visita. É como não achar as soluções, porque tem pessoas, problemas e expectativas pra todo lado.
A menina sentou na mesa 37, pediu uma cerveja e deixou a vida acontecer ali na calçada. Às vezes, a gente espera as coisas acontecerem. E às vezes, essa é a melhor forma de desbagunçar o coração.
Entre um gole e outro ela pensava na vida. O vidro de casa tava tão sujo que ela não reparava que tava sendo reparada.
O começo da noite, o último gole e uma solução, chegaram quase juntos naquele bar.
A menina da mesa 37 levantou decidida e foi embora com o coração quase arrumado, mas não percebeu que deixou o garçom bagunçado.

Microconto #652

O menino enfim alcançou seus sonhos. Eles tinham o tamanho de bolinhas de gude. Caberiam no bolso o tempo inteiro. Mas a vida não usa calças. Então é mais fácil achar vontades jogadas pela rua e levar na mão. E aí, você leva só o que der pra carregar e deixa cair o que os outros podem pegar. E assim, seus excessos completam faltas.

Microconto #651

A menina pinta as coisas do mundo com a cabeça. Dentro dela as girafas são verdes, as maçãs são laranjas, os pássaros são uva, as árvores azuis, carvão rosa, olhos castanhos vermelhos amarelados. Uma sinestesia daltô-disléxica. Um mundo com mais gosto, mais cor e mais mundo.

Microconto #650

Hoje sonhei com você.
No sonho a gente andava num chão de céu.
Caminhando até a cama.
Eu deitava em seus cabelos mel esperando uma doce noite.
Eu te chamei de meu bem pela manhã.
Mas quando seus olhos abriram fui eu que acordei.
Sonhando sozinho
outra vez.

Microconto #649

O vento faz a curva onde o prédio faz a curva onde os carros fazem a curva onde as pessoas fazem a curva onde a calçada faz a curva onde a esquina é só uma esquina, porque na verdade esquina não faz a curva, ela só segue o caminho dela. Já nasceu torta, pra que a gente possa mudar de caminho. Torto foi o jeito certo dela nascer.

Microconto #648

Quando vi a escada pensei, não quero viajar agora, aqui o café da manhã é quente o suficiente, a saudade é quente insuficiente, os sonhos nem esquentam mais e os pássaros são mudos quando estou com sonho. Vou ficando até desficar.

Microconto #647

O mundo vertiginiza suas escolhas. A menina do gorro verde desiste de pegar o ônibus porque o homem do outro lado da rua esqueceu a carteira. E sem guarda-chuva os problemas caem do céu e molham as decisões. Tudo escorrega das mãos por baixo das luvas.

O peito aponta pra frente. A liberdade é logo ali.

O peito. A ponta do corpo que aponta. Que te julga por julgar o corpo quando aponta. O peito. O peito que já foi mama e agora é teta sem pudor e tenta se salvar em meio a dedos que apontam e hoje julgam o seio sem anseio e com dor. O peito. O peito que faz salivar a boca ingênua de fome é o mesmo, peito, que faz babar a fome cheia de infâmia. O peito. Que nasce, cresce e desamadurece, julgando o seio como o deitar da ofensa, da censura, e, não olha mais, o peito, a mama com ternura. A mulher leva no colo um objeto de ofensa. O peito. Quem olha pensa, por quê essa ponta de fora? Que empina a estima e rebaixa a arte? O bico. Não é o que muitos pensam, o peito, é parte de um todo, do corpo, da arte, da expressão, da liberdade, é parte que a mulher, mãe, moça e menina, acha e faz. O peito. Que aponta, não recrimina, ele aponta e mostra a direção, apenas mira. Em frente. Pra onde a consciência deve seguir, sem olhar pra trás, sem achar que não pode mais. O peito. Censura? Não. Expressão.

Fluidos literários

Tem
um pouco
de você
nos
meus dedos
agora.

Microconto #646

A menina que sempre pega o CEASA perdeu o ônibus hoje. O menino que canta alto com fone no ouvido não pareceu. O cara que sempre segura a porta do elevador não tava lá. A mulher que sempre vai de saia, não foi. O e-mail de spam que sempre chega, não chegou. A mulher que passa meu cartão na hora do almoço, não apareceu. Acho que eu tô sofrendo com falta de mesmices.

Hoje meus pés ficam pra fora de você

Lembra quando a gente foi comprar cama pela primeira vez, que o vendedor disse que espuma era melhor e quando a gente deu a entender que tinha mais dinheiro ele começou a falar bem de mola ensacada e mal do colchão de espuma e a gente ficou rindo na loja porque ele era um péssimo vendedor? Lembra?

Eu tenho um metro e noventa de altura e caber nas coisas sempre foi uma das minhas dificuldades. Só quem tem um metro e noventa de altura sabe quantas vezes precisou voltar na loja pra trocar a camisa do amigo secreto. Só quem tem um metro e noventa de altura sabe quantas vezes o tênis apertou, a calça encolheu, a meia não coube e que a blusa não tinha GG.

Mas, de todos esses problemas, só quem tem um metro e noventa de altura sabe que cama é o mais chato deles. Uma cama não é tão simples de trocar como uma camisa. Eu sempre fiquei pra fora da cama. Meus pés sempre ficaram pra fora. Uma cama tem em média um metro e oitenta e oito de comprimento. Aí você nunca deita exatamente lá em cima por causa do travesseiro, logo, faça uma conta rápido e você sabe que com um metro e noventa de altura eu sempre fiquei pra fora da cama.

Isso foi o que eu disse pra você quando a gente foi comprar cama pela primeira vez, lembra? Aí você disse que não tinha problema que a gente se ama e que ia dormir de conchinha pelo resto da vida e quem dorme de conchinha dorme encolhido juntinho encaixando confiança nas costas do outro.

Engraçado que olhando por esse lado, uma cama é tipo uma pessoa. Você pode não caber nela mas faz de tudo pra caber. Deita encolhido gira o colchão quando afunda inverte o colchão quando doem as coisas mas chega uma hora que não dá mais. E por mais que você tente ou queira você não cabe mais. É como se todo mundo tivesse um metro e noventa de altura e o amor tivesse só um metro e oitenta e oito.

Hoje eu tô dando uma olhada numas camas novas, nuns colchões diferentes, talvez eu compre algo maior, meus pés cansaram um pouco de ficar gelados.

Microconto #645

O dia cinza colocou um sorriso amarelo no rosto rosa da menina de cabelo vermelho.

E assim, sem mais nem menos, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam

Era tudo tão novo e estranho e bom e estranho de novo que demorou pra eu perceber a relação. Depois de mais de 30 anos tentando escrever alguma coisa útil, depois de mais de 30 anos recebendo não de editora, editor, jornal, revista e periódico, depois de mais de 30 anos, encontrar a história certa, é um estado de transe, uma anestesia emocional. 30 anos depois e eu me pego com a história afiada no dedo. Eu sentei, bebi, fumei, escrevi e repeti tudo isso incansavelmente. Foi quando tudo começou. A caneca de café sumiu da minha mesa pela segunda vez. Pensei que era sono e que na verdade eu não tinha colocado a caneca lá nenhuma das vezes. Eu tenho duas canecas iguais, então fui na cozinha e percebi que não tinham mais canecas. No caminho de volta pra máquina de escrever, a cômoda que eu sempre esbarro não estava lá também. Eu olhei em volta meio assustado, olhei o copo de uísque vazio e botei a culpa na bebida e um pouco mais de líquido no copo. Eu ainda não tinha feito a associação de que o desaparecimento das coisas tinha a ver com o livro que surgia. Mas quando eu sentei na cadeira e terminei mais uma página, meu sapato sumiu. Eu praticamente senti acontecer. Depois disso ficou mais fácil entender. Eu comecei a escrever pra ver as coisas sumirem. E assim, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam da minha vida. Foram móveis, roupas, quadros, discos, livros, filmes, sapatos, cama, mesa, relógio. Eu não sabia mais a hora, não sabia mais o dia, esqueci de dormir e comer. Já não tinha mais chuveiro quando lembrei do banho. Mas a sensação de ter uma história, era a coisa mais inebriante que já me aconteceu em toda vida. Eu tive certeza que era pra isso que eu vivi todos esses anos, e certeza de que foi por isso que eu esperei todo esse tempo. Pela casa faltavam coisas e sobravam páginas. Era assustadoramente gratificante. Sumiram gravatas, lâmpadas, copos, talheres, panelas, espelhos e barbeadores. Meu corpo era pêlo, pele, história e osso. O problema é que eu não conseguia parar. Nunca tinha achado a história certa e dessa vez a história certa apareceu. O livro estava ficando lindo. E lindo foi até perto do fim. Eu sabia que estava perto porque olhei em volta e percebi que restava apenas eu, a mesa, a máquina e os papéis. Faltavam poucas linhas pra história acabar. E com as últimas palavras foi embora a mesa. Restava apenas eu, a máquina e as folhas. Faltava apenas o final. E quando a história acabou, a história sumiu. Ficamos eu e máquina, nos olhando, sem nada mais pra falar.

Microconto #644

Gosto quando as mentes querem, mas não se esforçam.
Gosto quando os dedos querem, mas não tocam.
Gosto quando as bocas querem, mas não falam.
Gosto quando os olhos querem, mas não olham.
Gosto quando os corpos querem, mas não se mexem.
Gosto quando as coisas desacontecem, mesmo quando deveriam acontecer.
A imaginação nada mais é do que nossa realidade em potencial.

Microconto #643

Minhas mãos tocam um corpo que não é seu.
Essa boca não tem o seu gosto.
Esses olhos não aprenderam a me ver.
Falta seu cheiro nesse cabelo.
Suas dúvidas não tão nessa cabeça.
Esse coração abriga outra saudade.
Desconheço também essas manias.
Sua voz não está nesse gemido.
Seu suor não tem esse gosto.
E assim sigo tentando.
Só que quanto mais eu te procuro,
mais eu te perco.

Microconto #642

O homem saiu correndo da cidade, passou por estradas, ruas, trilhas e por fim chegou ao campo. Pulou a cerca. Virou um boi e deixou de viver abatido para morrer abatido.

O cesto de roupa suja agora demora mais pra encher

Olho pro lado, vejo a cama vazia e isso não me incomoda.
Minha escova de dente sozinha no banheiro também não é um problema.
Meus tênis não precisam mais dividir espaço.
O guarda-roupa agora tem mais lugar que roupa.
O cinzeiro não fica mais jogado pelos cantos. Na verdade nem tem mais cinzeiro.
Até agora o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Eu posso não fazer café da manhã e isso não deixa de ser romântico.
O sofá tem dois lugares e isso agora é muito lugar pr’uma pessoa só.
As pizzas tão durando uns dois ou três dias.
O sabonete continua acabando na mesma velocidade, o que é curioso.
Só tem um despertador tocando de manhã.
E o cesto de roupa suja ainda não encheu.
Qualquer música que eu coloco dá pra dançar sozinho.
Tô até achando que tem cadeiras demais na sala.
Descobri que realmente não sei cozinhar e tudo que fiz até hoje foi apenas ser um bom ajudante.
Os potes de palmito nunca foram tão fáceis de abrir.
Não ouço mais o barulho de chave na porta.
As compras no mercado diminuíram consideravelmente.
O cesto de roupa suja ainda não encheu.
A máquina de lavar tem mais dias de folga no mês.
Tem mais coisas em quantidade ímpar do que par.
Não tem mais maquiagem na toalha do banheiro.
Acho que não me importo mais de ouvir só a minha voz pela casa.
A tampa da privada nem sabe mais o que é ser abaixada.
O celular não tem mais senha.
Agora cê me dá licença que o cesto de roupa suja encheu e eu preciso ocupar a cabeça pra continuar achando que não me importo mais com você.

Microconto #641

A Solidariedade vem andando pela rua. Cruza o caminho inteiro com Frios, Ventos e Neves. Não cumprimenta nenhum deles. Atravessa no farol vermelho enquanto uma Pressa buzina de dentro do carro. Uma Raiva reclama do barulho da cidade e uma Impaciência que passa ao lado na mesma hora concorda com um aceno de cabeça. A Solidariedade continua seu caminho. Na porta de uma loja de grife, uma linda Sedução dá bom dia, meio que convidando pra entrar. No fim da rua, pode-se ver uma Fome sentada, balançando uma caneca cheia de Ajudas, aquecida apenas por uma fina camada de Dó. A Solidariedade se aproxima. O barulho da Fome é cada vez maior. A Solidariedade passa direto, ignora a caneca, vira a esquina e morre.

Microconto #640

Já é a quarta meia que desaparece em menos de uma semana.
O problema não é que desaparece o par de meia, o problema é que desaparece uma meia só. O que que eu vou fazer com uma meia só?
Meu terapeuta disse que eu tô escondendo as coisas enquanto durmo, pra testar meu desapego. Deve ser meu inconsciente aplicando algum tipo de teste.
Um amigo disse que devo tá perdendo as meias na balada bêbado, e só percebo que tá faltando quando tô sóbrio.
Minha mãe disse que é pra eu parar de ser mão de vaca e comprar meias novas.
Minha empregada disse que não lava uma meia só, porque dá azar.
Uma menina que eu conheci na internet não disse nada, só parou de falar comigo, deve achar que eu tô maluco.
A mulher da loja de meia disse que foi meu cachorro. O que seria bem possível se eu tivesse cachorro.
Uma vidente disse que pode ser um fantasma comedor de meias. Disse que são raros os casos em que o fantasma age. Mas todas as vezes é pelo mesmo motivo. O fantasma comedor de meias come sempre uma meia só. Pra gente aprender a não viver mais em pares. Pra se acostumar com a solidão.
Fico aqui pensando se minha namorada ainda tivesse por aqui, em qual dessas teorias ela ia acreditar.

Microconto #639

A mulher de manias trocava tudo toda hora. Trocava de roupa, trocava de casa, trocava de emprego, trocava de amor, trocava de carro, trocava de amigos, trocava de caminhos. Só não trocava a mania de trocar. A mania por fim, trocou de mulher.

Microconto #638

As engrenagens dos dedos começaram a funcionar. Lentamente o vapor surgiu nas orelhas do escritor. No cérebro, os pistões subiam e desciam. A vida, enfim, jogou lenha pra queimar.

Microconto #637

O palhaço fugiu do circo levando embora um elefante de algodão doce. Nos olhos da menina começaram a escorrer caramelo. O mágico mexeu na cartola e tirou um leão. A manada de pessoas estourou. A tenda foi ao chão. O espetáculo da tragédia começou.

Microconto #636

Quando papai falou pela primeira vez como o vovô havia morrido, eu pensei que ele tinha esquecido a história no meio da frase. Foi só 7 anos depois que eu descobri que não era problema de memória; era problema de garganta. Quando a gente fala de uma pessoa que não existe mais, a garganta dói, deve ser por isso que a gente para de falar e chora. Hoje de manhã quando eu expliquei pra mamãe a minha teoria, a garganta dela também doeu. A gente tava falando do papai.

Abrem-se as cortinas

Seu Romeu tira o vinil do envelope empoeirado.
Parece um bom dia pra ouvir essa música.



Duas horas antes.

O telefone toca. Seu Romeu corre pra atender.
Não sabe que notícia vai sair do outro lado.
Sente a boca adormecer quando ouve a voz do médico.


Duas horas depois.

A vitrola toca She Loves You.
O quarteto enche a casa de nostalgia.
O velho toma banho, deixa a água cair e o som entrar.
Não ouve o telefone tocar novamente.


Duas horas antes.

O telefone vai pro gancho e ele ainda não sabe qual deve ser a reação.
Ela estava em coma a tanto tempo que ele se preparou pra tudo e,
mesmo estando preparado pra tudo,
não soube como receber a notícia.


Duas horas depois.

Ele se troca.
Escolhe uma roupa em silêncio.
A agulha gira em cima do disco preto,
mas já não acha nenhuma trilha.


Duas horas antes.

Seu Romeu procura os papéis e documentos que precisa levar.
Confunde pressa com nervosismo.


Duas horas depois.

Sai de casa a caminho do hospital.
Não avisou ninguém da família.
O trajeto parece eterno.

Duas horas antes.

São 52 anos de casados.
Sempre teve a sensação de estar bem acompanhado.
A pessoa certa a gente não acha, a gente encaixa,
costumava falar pra todo mundo.


Duas horas depois.

Chega no hospital.
A cara do médico não parece a mesma que deu a notícia mais cedo.
Seu Romeu sente no peito a tragédia.
Sua esposa não resistiu. Ela saiu do coma e minutos depois faleceu.
Tentamos ligar novamente pra avisar.


Duas horas antes.

Saber que Julieta tinha saído do coma
foi a melhor coisa que aconteceu desde que se conheceram.
Desde que casaram.
Desde que tiveram 3 filhos.
Não teve melhores nessa vida melhor do que esse.


Duas horas depois.

Seu Romeu estava preparado pra tudo e,
mesmo estando preparado pra tudo,
não conseguiu beijar a esposa pela última vez.
A cortina da vida fechou pra ele também, ali mesmo,
na recepção do hospital.

16h

Gente chegando, mala saindo; o aeroporto de Congonhas em São Paulo tem mais movimento do que imaginava nesse horário. Luiz segue atrás do motorista até o estacionamento. Um senhor grisalho, aparentemente simpático, que leva sua bagagem com classe, até o carro. Na outra mão, ainda à mostra, a plaquinha que apresentou os dois na área de desembarque, com o nome Luiz Otávio Martins escrito em vermelho.
A multinacional com sede em Minas Gerais, onde Luiz Otávio trabalha, está fechando um acordo de distribuição com uma empresa de São Bernardo. O encontro de hoje a noite vai decidir os rumos de produção do próximo semestre. A viagem à capital paulista é um ponto importante no contrato. São Paulo é um pólo de negócios. Mas também é um ótimo centro gastronômico e o refúgio da Meire, diria a mulher de Luiz.

Meire foi sua primeira esposa. Casados por 11 anos, Luiz Otávio passou por um processo difícil de separação. Meire era amor antigo. Foi ela quem pôs fim na relação. Vera, a atual esposa, acompanhou de fora a degradação do relacionamento. Vera era a terapeuta de Luiz na época. Depois do divórcio, os dois se encontraram uma vez, fora do consultório, por coincidência, na festa de um amigo. Bastaram mais três jantares até a coisa se consolidar. Vera diz que se apaixonou, porque Luiz era um cara totalmente diferente fora do consultório. Luiz diz que se apaixonou, porque Vera era a mesma.
A sintonia do casal era evidente. Os amigos de infância deram muita força pro Luiz. É difícil recomeçar depois dos 40. Luiz sempre foi um cara preso às raízes. Um dos motivos pelo qual não saiu de Minas. Foram muitos os convites da multinacional para gerenciar filiais em outros países. Viagens internacionais nunca preocuparam Vera. Alguns dias, semanas e até uma vez que Luiz ficou dois meses em Istambul não tinham incomodado tanto quanto essa viagem pra São Paulo. Meire mora na cidade desde que romperam; e Luiz descobriu que Vera é uma mulher ciumenta faz mais ou menos uns 15 dias, quando contou sobre a viagem.
Vera é uma mulher forte, organizadora. Academia cinco vezes na semana, comida balanceada, um ritmo de vida que mudou também a rotina de Luiz, que já perdeu mais de 15 quilos desde que estão juntos. A saúde melhorou, o colesterol desceu uns quatro andares; outra vida, Luiz costuma dizer pros amigos. Apesar do jeito impositivo, Luiz acha a esposa frágil. Não entende de onde vem a falta de confiança. Bonita, conservada e inteligente, não são muitas mulheres por aí que concentram qualidades como Vera. Mas Luiz entende a preocupação; ele mesmo tentou se esquivar da viagem.

O carro ainda não saiu do retorno da Bandeirantes. Faz mais de 20 minutos que deixaram o aeroporto. Luiz puxa papo com o motorista. Seu Agnaldo é casado, três filhos, mora num bairro chamado Guainazes, ou algo assim. Ao contrário da primeira impressão, Seu Agnaldo não é muito de papo, responde as perguntas sem entrar em detalhes. Histórico do último trabalho, onde foi dispensado por se envolver demais com os clientes.
Luiz olha pela janela uma cidade que é nova, mas não muito diferente de outras que já passou. Um pouco de cinza, um pouco de sol, um pouco de carro, um pouco de caos. Lembra a Cidade do México em alguns pontos. Nessa hora o celular vibra no bolso da calça social.
“Já em terras paulistanas?”
Luiz sorri e responde, “Hoje o dia está corrido. Preciso preparar a papelada para o jantar. Mas amanhã estou livre.”
O celular vibra de novo.
“Vamos marcar algo. Vou te mostrar um pouco da cidade.”
Pensa um pouco antes de responder. Precisa ter cautela. Sem exageros. Vera vai ficar puta se descobrir que ele chutou a dieta pra escanteio na visita a São Paulo. Mas Luiz se empolga com o convite. Faz tempo que não vê o amigo.
O celular vibra de novo.
“A gente almoça no Estadão. Clássico. Vc vai curtir. Fica com o endereço aí, Viaduto 9 de julho, 193.”

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Esse é um dos contos que faz parte do livro São Paulo - Cidadexpressa que eu escrevi junto com o amigo Mauro Paz. São 48 histórias que se conectam como um plano sequência pela cidade. Esse conto continua aqui e se quiser comprar o livro pra conhecer as outras 46 histórias, ele está a venda aqui.
Espero que gostem do resultado ; )

Microconto #635

De repente, um gato gigante aparece na cidadezinha. Correria e tumultuo assustam os moradores. Após um duro período de buscas, o animal é imobilizado. Uma série de jornalistas mudam a rotina do lugar. Notícias internacionais colocam o vilarejo no foco do mundo. Até o dia em que uma mulher gigante surge pra salvar o gato. O número de mortos aumenta. A mulher é capturada. Um homem gigante aparece pra ajudar. Eles se apaixonam. Os dois têm um filho. As pessoas não param de morrer. A família gigante vai aumentando. O número de pessoas no mundo vai reduzindo drasticamente. Os gigantes começam a dominar todo o planeta. Mais e mais gigantes. Cachorros gigantes, elefantes gigantes, geladeiras gigantes, Coca-Colas gigantes, latas de lixo gigantes, fichas de fliperama gigantes... quando por fim, todas as pessoas deixam de existir. Resta apenas uma Terra de gigantes. Logo, não existe mais tamanhos pra serem comparados. Não existe mais escala. Nem proporção. O gigante agora é o novo normal. E tudo volta a ser como antes.

Microconto #634

Os dois se encontraram atrás da casinha de madeira que os pais de Nicholas tinham montado no jardim. Evelyn levantou o vestido e abaixou a calcinha. Nicholas já tinha ouvido os amigos da 2ª série falarem sobre mulheres peladas mas, ver a Evelyn foi diferente. Ele tocou naquele corpo ainda órfão de pêlos. Mexeu em peitos tão grandes quanto os dele. Ela deu risada, arrumou o vestido e saiu correndo. Nicholas olhou a menina voltar pra caixa de areia, sentiu um negócio diferente em seu pinto e respirou apaixonado. Os anos passaram. Nicholas envelheceu. Suas namoradas não.

Em tempos de dedo na cara eu queria falar um pouco sobre árvores

Esse não é um texto partidário. Também não é um texto reclamando das manifestações. Nem um texto reclamando de você que foi pra rua ou de você que ficou na varanda. Muito menos um texto reclamando de quem escolheu mal nas eleições e resolveu pedir o impeachment ignorando a democracia.

Esse é um texto reclamando de mim. Só isso.

Uma vez, um professor me ensinou uma frase que eu pensei que nunca ia precisar usar. A frase dizia assim "A floresta é verde porque as árvores são verdes.
" O que eu peço é que você reflita pelo menos 10 segundos sobre essa frase tão óbvia antes de continuar a leitura.

Na época, essa frase não mexeu muito comigo, assim como a gente acha que nunca vai usar equação pra comprar pão, sabe? Ou usar química pra falar de seriado na TV, ou entender de física pra comentar futebol. Mas acontece que hoje essa frase ecoou na minha cabeça. Então, deixa eu falar um pouco de árvore.

Eu queria muito na vida nunca ter colado numa prova. Nunca ter roubado chocolate nas Lojas Americanas. Nunca ter passado embaixo da catraca do ônibus. Nunca ter falsificado a carteirinha de estudante. Nunca ter ficado com o troco que veio a mais. Nunca ter tirado vantagem de alguém. Nunca ter sido interesseiro. Nunca ter ignorado uma infração cometida na minha frente.

Mas não. Eu, uma árvore inocente, desde de pequeno, me deixei levar pela brisa da corrupção. O problema ético e moral do país, não está, necessariamente, no congresso. Está dentro de casa. Na frente do meu espelho. Enquanto eu continuar conivente com os meus erros, eu vou ensinar errado, vou permitir que outros errem também e vou votar em quem erra. Simples. A floresta vai continuar verde.

Hoje, analisando friamente, a minha consciência não está limpa pra reclamar da corrupção. Se eu pudesse dar um conselho pra outra árvore verde eu diria: tente melhorar a sua consciência, a do seu filho, a do seu funcionário, a da sua chefe, a do seu porteiro, a do cara que finge dormir no banco preferencial, a do cara que fura fila e a da mulher que para em cima da vaga de idoso. Uma semente de honestidade não faz mal pra ninguém. Muito menos pra mim.

Enfim. Professor, sabe de uma coisa? Eu tenho esperança que a floresta mude de cor ainda. Vai demorar um pouco, eu sei, porque pra isso eu preciso plantar árvores novas. E sabe como é, árvore não cresce de um dia pro outro.

Mesmo assim, obrigado pela metáfora.
Acabei de escrever um adubo.

Microconto #633

Alyson está cagando no banheiro de casa quando começa a pensar sobre o assunto. Não lembra de ter lido em nenhum livro, alguma cena que tivesse um personagem cagando. Acha graça no pensamento. Olha as revistas empilhadas no canto do banheiro, a luz do sol que entra pela janela é intensa. É manhã de sábado. Um cheiro adocicado de café passa por baixo da porta. Alyson acha estranha toda essa definição detalhada do que acontece dentro do banheiro. Ouve um leve som de uma pessoa digitando. Olha curioso pra cima. O teto é branco, um pouco transparente. No canto esquerdo, começam a aparecer letras no ritmo da digitação. Alyson serra os olhos pra enxergar melhor o que acontece. Percebe um vulto através das palavras. Tem a sensação de que uma pessoa gigante está vendo ele cagar nesse exato momento através do teto. É aí que eu paro de escrever. Nada mais acontece no banheiro. Acho que Alyson me viu.

A combinar

A gente podia combinar um café
e no café combinar um almoço
e no almoço combinar um jantar
e quem sabe no jantar
a gente não descobre
que pode se combinar.

Conformitância

Minha poesia é fraca
Mas eu sei porquê.
Nela tem muito de mim
E quase nada de você.

Microconto #632

A menina deu sinal pro taxi. O carro branco parou. Ela abriu a porta, entrou e sentou. Quando a porta bateu, ela não estava mais dentro do carro. Era uma sala branca. Com quadros abstratos na parede, um vaso com flores amarelas no canto e uma tubulação de ar silenciosa. Um frio na barriga como se a vida passasse pela janela dos olhos em alta velocidade. Uma porta abre. De dentro sai um caminhão vestido de enfermeira. Da boca, uma buzina forte. A menina levanta, entra pelo corredor que vai escurecendo, deita na maca. No teto um giroflex vermelho colore o ambiente. Ela abre as pernas, e da própria vagina, cai a si mesma, como um feto, abortado, morto pro futuro.

Microconto #631

Durante o jantar, depois de umas cinco taças de vinho, a gente tava falando alguma coisa engraçada sobre algum filme. Todo mundo ria. Foi quando a Flávia disse – Ele tem a cara torta igual a do seu tio. – A mesa ficou em silêncio por alguns segundos. As pessoas sem graça. A Flávia não percebeu. Virei pra ela e comentei meio sem jeito – Titio teve AVC. – A Flávia tomou mais um gole do vinho, começou a rir de novo e corrigiu – Ele tem a cara de AVC igual a do seu tio.