O fetiche de viver num mundo melhor

Na casa
do casal
negro
hermafrodita 
esquizofrênico 
homossexual
quando um não quer
dois não brigam.
Mas
quando os dois querem
os quatro brincam.
Tudo é bem equilibrado 
e dividido.
Existem regras?
Existem.
Só que existem mais exceções.
Limite também
porém
inovações vão bem.
A sociedade não entende e insisto em dizer
que é tudo culpa
do antigo ditado
o pior cego é o que não quer ver
porque pro coração
meu querido
tá bem explicado.
Naquela casa 
do casal
negro
hermafrodita 
esquizofrênico 
homossexual
já passou anão
já passou travesti
só hétero
que não passa ali
afinal
o de sempre
sempre tem
né meu bem?
Alguns dizem que naquele lugar
só tem estereótipo
outros dizem que só tem amor.
Bom
enquanto você segue aí
pensando
sofrendo
discutindo
e julgando
quem entra lá só encontra 
carinho
atenção
e cor.
O mundo tá pasteurizado
preconceituado
e acinzentado
e é exatamente por isso
que o arco íris
é a bandeira

daquele país.

Enxofre

Era uma noite bem bonita, mas um cheiro de enxofre colocava umas lembranças tristes na cabeça de Macabéa. O livro que carregava embaixo do braço contava uma história sobre clonagem. O trabalho ia bem. O casamento ia bem. A família ia bem. A saúde ia bem. Tudo parecia confortável apesar do sapato que apertava. Macabéa lembrou de uma passagem da história que falava sobre metafísica e abriu pra ler de novo. Pisou na faixa de pedestre, ouviu uma freada forte e nem deu tempo de olhar pro lado. O corpo voou 10 metros. No ar, apenas o mesmo cheiro de quando a mãe morreu.