O misterioso caso do menino que chora poemas

Quem nunca errou a medida
dos ingredientes?
Nunca confundiu
centímetros e polegadas?
Ou mediu distâncias
com a saudade errada?
A régua da paixão
é mesmo muito difícil
de manejar.
Quem já tentou alcançar corações
sabe que braços
sempre são
curtos demais.
Escrevo à máquina
datilografia
é uma terapia
que ajuda a desestressar mágoas
mas todo mundo
já percebeu
que choro cas mãos
que é pra ninguém ver.
É cada declaração que voa
pro lixo
embolada no papel.
O sol tá chegando na janela
a luz começa a bater no porta retrato
da ex-namorada um baita sorrisão
olhando pra cá
os dedos esquentam de novo
e começam a bater nas teclas
um baita textão chorando por mim
não tem verão lá fora
que esquente aqui dentro.

Boom

Sabe quando uma bomba explode num filme de guerra e fica um zumbido agudo e por um tempo ninguém ouve mais nada? Sabe? Sabe quando tem gente sangrando e suja de barro com arma na mão correndo pra todo lado e fugindo de tiro e fugindo de fogo e de repente boom explode uma bomba e fica um zumbido tão agudo que ninguém ouve nada? Sabe o zumbido? Agudo? Sabe? Depois da bomba? Depois do boom? Sabe não sabe? Gostar de você é tipo isso. Tipo agudo. Tipo zumbido. Você é tipo o zumbido depois que a bomba boom num filme de guerra e não me deixa prestar mais atenção em nada a não ser em você. Você é o que vem depois da explosão da bomba. Aquilo que vem e deixa todo mundo perdido e desnorteado. É aí que eu paro e penso sobre a cena de guerra dentro do filme. A vida é uma cena de batalha com bomba granada e boom. Eu sou o soldado ferido grave com a bomba aguda. Eu não vejo nada do que acontece ao redor dessa nossa zona de conflito. Só vejo seu zumbido em mim depois que o coração boom. Ninguém mais explode aqui ou ali só tem gente correndo perdida pra todo lado e você zuuuuum. Eu nunca tive numa guerra nunca tive num filme de guerra nem sequer vi de perto uma bomba. Mas eu conheci você. E o jeito que você explodiu me deixou surdo de amor.

Rua 24 de Maio esquina com a Avenida Eduardo Ribeiro

- Paulo?
- Hey! Nossa. Que surpresa.
- Como cê tá?
- É... bem. Tô bem. Acho.. Não, acho não. Tô bem. E você?
- Também.
- Meo. Qual a chance da gente se encontrar em Manaus?
- Bom, eu sempre quis conhecer Manaus.
- Que cê tem feito todo esse tempo?
- Estudado. Desde que a gente terminou eu só tenho estudado. E feito umas dietas detox estranhas.
- Wow. Detox? E as pizzas? Os hambúrgueres? Ketchup?
- Tirei tudo da minha vida.
- Sei bem…
- Como tá seu pai?
- Trypanosoma.
- Como assim?
- Não era problema cardíaco. Era doença de Chagas.
- Ah, putz. Quer dizer, que bom né? Pelo menos não é hereditário.
- É, a gente já tem problema demais pro coração.

O zumbido do silêncio é tão forte que Paulo e Elisa se olham sem conseguir falar nada. Olham em volta. Veem o movimento do centro. Um carro, uma moto e duas crianças depois, Elisa coloca barulho de volta ao assunto.

- Cê vai pra onde depois daqui?
- Ainda não pensei nisso. Vai depender de onde você vai.
- Hahaha só você mesmo, Paulo. Não mudou nada. Parece que sua vida ainda depende da minha.

Paulo ri sem graça, tira um caderninho do bolso, cheio de anotações, e risca Manaus de uma lista gigante.

Nossa vida é um pretérito perfeito

A abelha que a gente prendeu na garrafa ontem, morreu.
O sexo que a gente sempre guardou sob o lençol, estragou.
O leite desnatado que cê deixou na minha geladeira, venceu.
O álbum de fotos da nossa primeira viagem, mofou.
O vinil que tocava a música da gente dançar, riscou.
O vinho que seu pai me trouxe do Chile, avinagrou.
A primeira carta de amor que escrevi pra você, amarelou.
O papel que hoje te escrevo estas palavras, molhou.

Nem em sonho paro de sonhar com você

Passei o braço sobre o lençol
como faço todos os dias antes de abrir os olhos.
Gosto de ver você com as mãos
primeiro.
Passar por sua cintura
subir
sentir
o desenho do seu peito
sob o pano
e perder ali
alguns minutos só
então quando sua respiração mudar
levemente
subir pro seu cabelo.
Tirar os fios do seu rosto
colocar atrás da orelha
e liberar espaço pra alcançar sua boca.
Quando enfim
seus olhos abrem
os meus também.
Ver você me olhando
é o melhor jeito de nos ver.
Mas pera
cadê?
Que que esse papel tá fazendo
no seu lugar?
Que carta é essa?
Como assim a gente não vai mais se ver?
Pois saiba
por mais que esse papel embaixo
do travesseiro lembre você
seu cheiro não tá aqui.
Ir embora da minha frente
não te tira de dentro de mim.
É uma pena que sua lembrança seja
a coisa mais palpável
que agora eu vou ter
pra acarinhar.

Um pequeno passo pro homem, um passo gigantesco pra saudade

É tipo uma praia, só que sem água.
Uma praia fria.
Que os grãos de areia caem da mão em câmera lenta.
É vermelho.
Vermelho como a terra no sítio do tio Frank.
Só que não tem o pomar.
Nem a casa.
Nem o tio Frank.
É grande.
Dava pra ter muitos pomares, muitas casas e muitos Franks.
Dava pra colocar uma piscina ali.
Congelada.
Que ninguém ia nadar.
Então colocaria uma churrasqueira lá.
E como não tem oxigênio, a churrasqueira não ia acender.
Ia ficar apagada igual o fogão da vó Ewa quando ela não queria fazer bolo de milho.
Quando foi a última vez que eu entrei numa piscina mesmo?
Nem churrasco eu lembro de ter comido.
Tá tudo meio lento.
A vida podia passar mais devagar também.
Imagina o tio Frank mais devagar.
Imagina a vó andando igual os grãos vermelhos.
Imagina a praia dentro da casa.
Um churrasco inteiro de pomares.
Só que sem bolo de milho porque não tem piscina.
Quanta tecnologia o futuro trouxe pra gente.
E ainda não podemos visitar o passado.
Ficam só lembranças que vão se apagar como essa pegada aqui.
Há quantas pegadas eu tô de casa?
Há quantas pegadas eu tô do sítio?
Há quantas pegadas eu tô do passado?
Vó Ewa ia ficar puta com a casa toda suja de vermelho.
Olha o tamanho desse planeta e não tem nenhum pomar.
Lá fora do capacete a lágrima ia cair em câmera lenta.

A vida é imprevisível até quando é previsível

Eu tava chegando em casa quando vi a movimentação. Ninguém precisa te dizer que tem alguma coisa errada. Coisa errada tem cheiro de coisa errada. A rua alternava entre vermelho e azul. Tinha a mesma quantidade de carros de polícia e carros de bombeiro. Pessoas espalhadas em pequenos grupos conversavam olhando pro alto. O trânsito tinha sido desviado pra rua debaixo. Do resto, parecia que tudo corria bem. Não tinha nenhum som estranho. Não tinha nenhuma ambulância. Pensei, bom, parece que nada de grave aconteceu. Quando eu virei na minha rua, tinha pedaços de vidro por toda calçada. Um bombeiro colocou a mão no peito no momento que eu coloquei a mão na porta. Senhor, teve um incêndio no prédio, o senhor precisa aguardar a vistoria e a liberação pra subir. Em qual apartamento...



Nessa hora um zumbido agudo e baixo não me deixou ouvir o resto. Como eles vão dar a notícia pro morador? Quem será o morador? Será que tá tudo bem? Será que atingiu muitos apartamentos? Será que tinha gente morando onde pegou fogo? Porque pode ser que nem tinha gente morando. Lembrei de como é dolorido perder coisas. Lembrei das coisas que já perdi na vida. Meus pais que foram embora antes dos 19. Meus empregos que ficaram pra trás. Meus brinquedos. Meus dois cachorros. Meus avós. Alguns amigos. A carteira semana passada. A Márcia ano passado. Talvez de todos os meus relacionamentos, a Márcia foi o que mais doeu perder.



... senhor? Qual apartamento o senhor mora? No 72, respondi. O bombeiro colocou a mão no meu ombro e pediu que eu acompanhasse ele até a viatura. Foi só nessa hora que eu percebi que era comigo toda aquela história. Eu era o personagem do incêndio. Por isso todo mundo tava me olhando quando eu passei. Por isso não tinha ambulância. Por que não tem ninguém em casa quando eu não tô em casa. Eu comecei a rir. O bombeiro me abraçou achando que eu chorava. Mais algumas pessoas chegaram pra me consolar. Eu continuei rindo. Não era de nervoso. Era de certeza. Perder tudo seria muito mais dolorido se eu tivesse alguma coisa. Ninguém entendeu nada.

Ainda sei imitar sua letra

Falei durante horas com o objeto no chão que esperou meu monólogo acabar. Olhar praquilo me faz pensar em você toda vez. Não sei se é a cor, o tamanho ou o cheiro de sei lá o que. Mas, ver aquilo só me traz lembranças suas. Lembranças nossas, na verdade. Tem pó pela casa. Tem pó na mesa. Tem pó pelas coisas. Tem pó em mim. Não escrevo nada faz tempo. Perder você me tirou a produção. Queria organizar a casa, seguir em frente e, quem sabe, superar essa ida. Todas as histórias que contei antes da carta tinham vida, todas as histórias que não contei depois da carta têm morte. Sou agora um escritor sem alma. Olhar aquela folha de passado no chão com palavras suas impressas me fez pensar que, de todas as histórias lacrimáveis que eu já escrevi, uma carta de suicídio não se compara a nenhuma delas. Gostar em excesso de você não imaginei que levaria a isso. Te amarrar foi um jeito que achei pra te segurar. Ninguém desconfiou que te matei. Eu amava demais pra duvidarem.

O dia que eu não vi neve pela primeira vez

Foi num café da manhã em Istambul. Eu comia bolo de farinha, homus e pepino. Sei lá, tinha tudo isso na mesa e eu peguei. Na minha frente tinha uma família mexicana. Cada um deles tentando resolver um problema. Um dos problemas era sobre um chip pré-pago. Na mesa do lado tinha uma mulher estranha sentada sozinha. Ela tinha as unhas gigantes. Mal conseguia segurar as coisas que comia. Uma rádio local tava sintonizada na TV. O locutor falava há muito tempo. O resto do salão estava repleto de turcos em silêncio. O garçom limpou todas as mesas. Mas deixou apenas uma suja. Lá fora, um gato desfilava de um lado pro outro em cima da calha que separava o terreno do café, da casa do lado.

De repente, na minha frente, como se eu tivesse esperando, caiu um floco de neve. Não era sujeira, não era cinza, não era folha, não era pena. Eu nunca tinha visto um floco de neve. Mas sabia que era um floco de neve. Eu vi só o começo da cena. O resto ficou embaçado. Depois de um tempo, enxuguei os olhos e continuei olhando. Esperando. Outros flocos caíram de leve. Não era o suficiente pra deixar o chão branco. Não era o suficiente pra deixar nada branco, na verdade. Eram poucos. Solitários. Eu nunca tive o sonho de ver neve. É um espetáculo bonito. Eu sabia que um dia ia ver. Mas nunca foi o sonho. Tanto é que eu não tava preparado. Aquilo foi tão sutil, tão calmo, tão leve e pequeno que me pegou de um jeito muito forte. Fiquei ali sentado quase uma hora. Olhando o que acontecia lá dentro e lá fora.

Só que ninguém mais tinha reparado que nevava. Na verdade, ninguém tinha reparado em nada do que acontecia. Eu vi tudo isso acontecer durante muito tempo. E quer saber, mesmo se eu não tivesse reparado em nada, tudo ia continuar acontecendo. As coisas não precisam ser vistas pra existir. Elas vão existir. Cabe a gente merecer ver. E não é você que escolhe, são as coisas que escolhem você. E assim, de uma hora pra outra, tudo fez sentido. Eu não tava ali pra ver a neve. Eu tava ali pra ouvir os mexicanos e o locutor. Eu tava ali pra ver a mulher estranha de unha grande que ninguém olhava. Eu tava ali pra ver os turcos em silêncio. Eu tava ali pra reparar na mesa suja que ninguém notava. Eu tava ali ver ver o desfile do gato. E foi nesse dia que eu descobri que não nevou pra mim.

MIDAS

Fernanda tapou o grito com o dedo cortado. Uma gota de sangue na pia, perto do queijo e uma gota na camiseta, perto da testa da Twiggy. O silêncio na cozinha foi uma mistura de dó e arrependimento. Não devia ter pedido pra ela cortar mais queijo. Eu devia ter cortado o queijo. Fernanda já tava bêbada. Eu já tava bêbado. A gente nem ia comer mais queijo. Ninguém devia ter cortado queijo. A taça de vinho ficou parada na minha mão alguns instantes e só não ficou mais imóvel porque a taça dela tava em cima da pia, obviamente mais parada. Olhar a Fernanda lavando o dedo e ver a água rosa escorrer pelo ralo me fez pensar no Lucas, que tava de rosa quando passou mal no show de ontem e a gente teve que deixar tudo pra trás e levar ele embora. Foi nessa hora que as coisas começaram a fazer sentido na minha cabeça. Como eu não tinha reparado antes? Todo mundo em volta de mim começou a se machucar. Nessa noite eu não consegui dormir.

No caminho do trabalho, a avenida principal tava bloqueada, um motoqueiro foi atingido por um Toyota que trocou de faixa sem dar sinal, disse o homem que subiu fora do ponto. Quando cheguei no escritório, o elevador tava quebrado. Vânia, da contabilidade, tinha ficado presa quando descia pra fumar. Logo a Vânia que tem claustrofobia. No email, uma nota de falecimento do RH pros funcionários, seu Tino, vô da Clara, a telefonista. O resto do dia não teve mais surpresas. Mas foi só a terça-feira começar que coisas voltaram a acontecer. Uma mulher tropeçou na minha frente quando eu chegava no ponto. Um senhor bateu a testa no ferro dentro do ônibus. No almoço, uma menina se engasgou na mesa do lado. A TV me ajudava a ignorar as desgraças, diluindo as coisas ruins no meio de esportes e bobagens. É mais difícil prestar atenção na dor quando não dói na gente.

Isso já deve tá acontecendo faz um tempo. Tô tentando lembrar quantas vezes nas últimas semanas fui parar num hospital ou numa farmácia com algum amigo. Não consegui. Pior que quanto mais eu reparo, mais eu vejo desgraças e problemas acontecerem. Minha vizinha. Meu porteiro. O cara da banca. A mulher do café na esquina. Meu irmão. A Marina. Puta que pariu. A Marina. “Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” e saiu. Foi essa a última coisa que a Marina me disse antes de sair da livraria no dia que a gente terminou. Sabe aquelas coisas que as pessoas te falam e você não dá importância? A Marina sempre foi uma pessoa especial. Na minha vida e na vida de quem vivia em volta da gente. Todo mundo que queria um conselho, uma ajuda, ou uma opinião, falava com ela. Marina tinha virado uma espécie de trampolim na vida das pessoas. Até a minha vida foi outra no tempo que a gente viveu junto. Na verdade, tudo sempre deu certo pra Marina, mesmo antes da gente se conhecer. Nessa noite eu não consegui dormir, de novo.

“Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” foi a frase que ficou na minha cabeça durante dias. Eu gostava da Marina. Mas a gente foi deixando de se amar com o tempo. E com o tempo, minha vida foi virando uma merda. E a merda foi incomodando. E um belo dia a gente terminou com essa frase de trilha sonora. Bom, de lá pra cá as coisas só pioraram. Hoje, olhando esse monte de gente se machucando em volta de mim, vejo o quanto é difícil viver com essa responsabilidade. Cada dia, cada hora, alguém que eu gosto, conheço, convivo ou, simplesmente me relaciono, se machuca. Ora leve, ora grave. Ninguém sabe que a culpa é minha. Só eu e a Marina. Tem ficado cada dia mais difícil suportar isso. E eu sei que só me restam duas alternativas, suicídio ou voltar com ela. E de ambas as duas vou me arrepender.

O telefone toca pela décima quinta vez até cair na caixa postal. Quantas vezes um telefone toca em média até cair na caixa postal? As pessoas ainda usam caixa postal? Eu odeio quando deixam recado pra mim. "Marina? É o Fran. Será que a gente podia..." foi a única coisa que deu tempo de gravar. Pensei demais antes de falar alguma coisa. Dois dias. Foi o tempo que passou até eu receber uma mensagem. Marcamos um café. Precisava conversar. Marina sabia de tudo que eu tinha pra dizer. De cada problema. De cada detalhe. De cada decisão. Marina não gosta mais de mim também. E mesmo assim, decidimos voltar. Foi uma decisão muito triste e amarga. Mas não era pelo nosso bem. Era pelo bem de todo mundo que cercava nossas vidas. Era pelo bem de amigos, conhecidos e familiares. Nessa noite, ninguém mais se machucou. Além da gente.

Escrevi isso porque mesmo longe fui capaz de encontrar com você

Por algum tempo 
tentei te entender
Tentei me entender
Tentei entender a gente
Tentei
Mas cê sabe que essas coisas de dentro
são consequências né?
Por mais que eu arrume explicação
a gente vai continuar acontecendo
Sem programação
Sem dia
nem hora certa
Sem data
nem coisa certa
Sem cobrança
sem medida
sem exagero
Tava pensando aqui
(veja bem
até mesmo sem querer pensar
que coisa doida é gostar)
Você é tipo um mosaico pra mim
Quanto mais eu gosto de você
mais eu te espedaço
E cada pedaço seu
fica jogado por aí
cruzando comigo
di
a
ri
a
men
te
É difícil te achar
sem nem te procurar
Mas é isso
vivo achando partes suas
nos cantos
da saudade
É um eterno te montar
Amores cíclicos 
são como flechas que a gente dispara
e no fim do caminho
vão acertar nosso coração
também
Amém.

A fila anda

- Não. Não adianta. A gente já tentou de tudo, Fê. O casamento não tem mais solução. Óbvio que não. Quem faz terapia de casal, Fernanda? Terapia de casal é o jeito que os terapeutas encontram pra enganar mais de uma pessoa ao mesmo tempo - Gláucia pede desculpa com a mão e tira o carrinho que atrapalhava a passagem da velha.

- Cê já foi casada três vezes, Fernanda. Cê sabe muito bem quando um casamento tá no fim. Não me importa o que minha família vai achar. Vai achar que não deu certo. É isso que eles têm que achar. Ãn... Outra? Pode ser. Pode ser que ele já tenha outra faz tempo. Já pensei nisso também. Não. Jamais. Ele nunca soube. Vai morrer sem saber que isso aconteceu - Gláucia apalpa o mamão maduro e decide levar dois.

- Cê é a única pessoa que sabe disso. Não falei pra mais ninguém e não pretendo falar. Até porque isso é assunto encerrado e não vai mudar em nada minha vida. Tá, foda-se, idaí que eu ainda falo com ela? A gente não pode ser amiga? Sim. A gente sai de vez em quando não é isso que amigas fazem? Não né Fernanda. Nunca mais rolou nada. Que que cê tá insinuando? - Gláucia chega no caixa e começa a tirar as coisas do carrinho.

- Bom, depois cê reclama que eu não te conto nada, que eu não abro minha vida, que eu não sou sua amiga. Quando eu digo as coisas não é pra você falar a verdade, é pra você mentir, é pra você ficar do meu lado, não me acusar, se você acha que o casamento tá acabando por minha culpa, se você acha que me apaixonei pela Cristina, que não dou mais atenção pro Rogério, melhor a gente conversar outra hora. Beijo, Fernanda - Gláucia desliga o telefone e percebe que esqueceu, de novo, a banana.

Quantas vezes você já perdeu seu cheiro em alguém?

A primeira vez que passei por ele foi na esquina da Ipiranga com a São João e eu odeio contar essa história porque a esquina é muito clichê e todo mundo acha que romantizo demais minha vida. Ele passou com fones no ouvido, uma mochila nas costas e duas baquetas invisíveis nas mãos. O que ele tava ouvindo eu não faço ideia mas, minha vida teve uma música incrível depois daquele dia. A gente passou a se cruzar várias vezes por mês apesar dele nunca reparar em mim.

No começo eu perdi apenas o foco, foi uma questão muito simples e sutil pra perceber qualquer mudança, só que não demorou muito até começar a perder outras coisas. Quando a alma se perde pela rua, o corpo vai ficando pra trás pedacinho por pedacinho também.

Hoje, já não sinto mais cheiro de nada, já não tenho mais perfume nenhum, já não tenho tato pras coisas. Ando pelas ruas com uma bengala de cego nas mãos. E apesar de não ser mais o que era no começo, toda vez que cruzo com ele eu sei que a gente tá perto. Ainda toca no meu peito a música daquele dia. Engraçado como a gente não precisa de muita coisa pra amar.

Microconto #665

O homem de um metro e meio senta meio triste a mesa. Meia hora depois sua garrafa de vinho está pela metade. Seu jantar está pela metade. Seu trabalho está meio feito. Sua noite está meio fria. Ele olha o celular com bateria em cinquenta por cento e meio que espera alguém mandar mensagem. Já está sozinho há meio século. Mas ele ainda tem pela frente uma vida inteira pela metade.

Microconto #664

Toda manhã preparo uma dose de dívidas. O café desvalorizado é tudo que o dinheiro ralo pode comprar. Saio de casa com o bolso vazio e o estômago pobre.

Amores não são feitos de amor

Ontem foi meu aniversário, e pela primeira vez, eu ganhei um presente um tanto quanto novo. É um presente simples, mas que demora muito tempo pra ficar pronto.

Eu te amo.

Ah, e não foi só um. Foram vários. Acho que essa é a primeira vez que eu ganho tantos eu te amo’s assim. E eu não tô falando de relacionamentos, tô falando de família e amigos.

O amor é uma coisa maior do que a gente consegue medir. É por isso que o amor cabe muito mais dentro das amizades do que dentro dos amores. Amigos são coisas grandes demais.

Um relacionamento, no fundo, não é feito de amor. Um relacionamento é feito de muitas coisas pra dizer que só o amor pode unir duas pessoas. Um relacionamento é feito de confiança, transparência, honestidade, vontades, tesão, carinho, objetivos e respeito.

Quando duas pessoas que não tão mais juntas, conseguem manter uma amizade de verdade, isso é amor. Quando duas pessoas se gostam tanto, se conhecem tanto que, passaram do ponto de namorar, isso é amor. Muitos relacionamentos ainda estão de pé não por amor, mas por companheirismo e por admiração.

Agora. Amizades não. Amizades pra ficarem de pé, precisam de amor. Você já parou pra pensar quantos amigos de verdade te cercam? E pra quantos deles você realmente pode dizer te amo?
Querida poesia,

Espero te tratar bem.
Espero te dar um pouco de cor.

Não.
Minto.
Espero te dar muita cor e muitos detalhes.
Espero que você possa sentir os cheiros
que não senti
e saiba escrever isso
de um jeito que ninguém jamais viu.
Espero que aprenda novos nomes
pras velhas coisas.
Porque o de sempre
vai continuar o de sempre
pra sempre
se você não arriscar.
Espero que você nasça
cada vez mais
de amor
e cada vez menos
de dor.
Que você saia do peito
mas
que seja ansiosa no voltar.
Espero ainda
que o mundo não te entenda.
Já me explico.
Entender é pra duvidosos.
Quem ama tem certeza.
Por isso repito,
o mundo não precisa te entender
o mundo precisa te sentir.
No que depender de mim
vou fazer de tudo
e isso inclui não fazer nada
até porque
o silêncio
é também uma forma poderosa de falar.
Ainda é cedo pra dizer
eu sei
mas você não tá sendo feita pra mim.
Tá sendo feita pra alguém.
E só espero que
quando chegar o dia
você cuide dela
tão bem
quanto cuidei de você.

Com carinho,
Tiago.

Alguém anotou a placa daquela menina?

O amor é uma rua
sem faixa, farol
e sinalização,
onde cada um
anda prum lado
atropelando
corações distraídos.
o abraço
é laço
que o braço
faz em volta
do amor
que nunca
nem por um momento
pensou em fugir

Microconto #663

E no fim, a princesa descobriu que o príncipe nunca deixou de ser sapo.