Microconto #425

Já era tarde e eles ainda dormiam, aproveitando o início de calor da manhã, sob o cobertor roxo, característico dos mendigos.

Microconto #424

No ar, um cheiro de despedida,
nos abraços, o calor da saudade
e nos olhos, a umidade relativa da solidão.

Microconto #423

No reflexo dos teus olhos vejo alguém que sofre por ti.
Ele chora, suplica e mente como nenhum outro.

Microconto #422

Pela janela da casa velha,
mamãe vê distante
a chuva e os sonhos.

Microconto #421

Choveu 132 dias.
O sol que nasce hoje só vê o seu reflexo.

Microconto #420

No acidente da BR 115, a Esperança, foi a primeira que morreu.

Microconto #419

Passaram a tesoura no cabeleireiro.

Bonecos

A mulher, brigando com o marido no celular, pega o pequeno no colo e vai embora.
O parque se afasta, as crianças se afastam e o velho com balões coloridos também se afasta.
Tudo fica pequeno quando tá longe.
Nove minutos. Esse foi o tempo que ele teve pra sentir que a areia do parque é mais fria, mais grossa e menos legal que a da praia.
Nos braços da mãe ouve as reclamações do jantar.
A porta de trás do carro abre e o corpo encaixa na cadeirinha.
O cinto aperta.
A mãe entra na frente ainda reclamando ao telefone. Só que agora ele já não repara. A fachada vermelha e amarela do McDonalds chama mais atenção.
O carro anda.
O McDonalds se afasta e o Shrek colado na porta também se afasta.
Tudo fica pequeno quando tá longe.
Dorme antes de acostumar com a vista da janela.
Quando acorda, parece que o tempo não passou.
A mãe desliga o carro, pega ele no banco de trás e entra no cabeleireiro.
Por toda parte há mulheres e homens que parecem mulheres.
O cheiro de banho tomado ganha o ar.
O pequeno espera numa nova cadeira enquanto alguém faz as unhas dela.
O salão começa a ficar engraçado. Com pessoas engraçadas. Cheiros engraçados. E cabelos sem graça.
Ela acaba a unha, pega o filho no colo e vai embora.
Os homens que parecem mulheres se afastam.
Tudo fica pequeno quando tá longe.
Ela volta pro carro e ele pro cinto apertado.
Ganha um boneco do Dragon Ball pra fazer companhia.
Se ela soubesse que o desenho não tá mais na moda, não dava.
Fresca, metida e mal acostumada. É assim que o marido fala.
O carro anda movido a palavrões e buzinas.
O sono volta, mas a fome do almoço é maior.
O celular toca. Ela bufa. Olha o visor, mas não atende. É mais uma ligação escrita.
A cara muda e um sorriso aparece.
O carro anda mais alguns minutos até parar.
Pega a criança e o brinquedo e caminha animada até o encontro.
Beija, agradece a mensagem e sai sorridente.
Ela não percebe, mas o filho ainda não acostumou com esse cara.
O pai geralmente dá mais atenção.
O sono vence,
a mão afrouxa,
e na calçada,
o boneco do Dragon Ball fica pequeno.