Microconto #70

A tremedeira que se agravou nas mãos fez com que sua biografia não precisasse de muitas páginas.

Microconto #69

Conseguiu.
8 segundos.
Mas a bufada do touro traduzia que em outra oportunidade não sairia tão barato.

O dom da oratória

E todos riram gostosa e carinhosamente. Federico era um rapaz divertidíssimo. As reuniões de família nunca mais foram iguais e os encontros com os amigos sempre traziam situações e histórias diferentes.

Até Carla, a mais séria da turma, não resistiu aos encantos e trejeitos do rapaz cem por cento sociável. Ela, que fora uma moça com infância castigada, fora ainda usada, abusada e abandonada pelo pai, o único responsável por ela na época das bonecas.

Por ter esse lado..., não queria dizer carente, mas vou acabar assim definindo. Só que não uma carência amorosa ou romântica como as outras moças de sua idade, mas algum outro tipo de envolvimento. Uma carência de vida eu acho.

Essa “carência”, fazia de Carla alguém muito mais atenta a pequenos detalhes. Principalmente naquela sala onde Federico falava livremente. Carla não era da família, fazia-se convidada naquela noite, diferente da grande maioria. Amigos e parentes já conheciam a fama do galego.

A noite passava suavemente pelo relógio que mostrava as horas, porque os minutos quase nem eram mais vistos. As risadas tornavam-se cada vez mais companheiras das palavras que saiam da boca do rapaz. Os ouvidos de todos se deliciavam, mas com Carla o detalhe era outro.

A pobre menina, necessitada de atenção, não só ouvia, como olhava, sentia e até respirava o que Federico soltava. A voz dele despertava em Carla, sentidos nunca antes descobertos. Despertava em Carla, ações e reações nunca antes provadas e um sentimento nunca antes percebido, mas que o brilho nas duas janelas redondas da vida, entregaram com toda a pompa.

Nem preciso falar que a bela moça descobrira o amor, ali sentada à mesa. Acho que além de não precisar falar, bem provavelmente não conseguiria achar palavras que descrevessem com tanta exatidão e certeza a sensação que brotou dentro de Carla.

Uma menina que nunca foi acariciada, nunca foi amada de nenhuma forma e nunca foi apaixonada, descobre de uma só vez, todo o poder do amor. Federico continua a conversa, quando uma bela moça adentra a sala e ganha como recompensa, os olhares e o silêncio de todos.

As reações foram todas idênticas, inclusive Carla, que já estava boquiaberta, assim continuou. A nova personagem da história, arrancou um boa noite de todos, desculpou-se pelo atraso e indo diretamente a Federico, selou a fonte de suas histórias com um lento e saboroso beijo.

Carla não entendeu mais nada. Seu coração, ainda aberto, recebeu em cheio uma punhalada do destino frio e cruel. Devido a rapidez da troca de sentimentos e a mesma rapidez da cicatrização, passaria o resto de sua vida, sem nunca mais entender o significado desse desejo, desse que a gente ousou em chamar de amor. Ao término do beijo, para Carla ainda paralisada, só restou ouvir todos rirem gostosa e carinhosamente.

Microconto #68

- O Carlos me comeu e foi embora. Acredita?
- E o que você queria Tânia?
- Que ele pagasse, era o mínimo.

Microconto #67

- Você aceita Sandra como sua legítima e única esposa?
Respondeu sim pela legítima, porque pela única seria um pouco mais difícil.

Microconto #66

Construiu sua história nos bailes escutando belas canções. Hoje, com idade já avançada, tudo o que queria era só poder ouvir.

Insanidade social

- Do céu virão as piores coisas. Do céu cairá tudo o que vocês jamais imaginaram. Tudo o que todas as guerras, todas as doenças, os conflitos e as mais cruéis diarréias levaram. Do céu todos os mortos voltarão. - Afrânio, considerado o louco, pregava sua religião diária e solitariamente.

Há anos todos conheciam Afrânio e sua tese sobre como seria o fim do mundo. Figura conhecida já faz quase três gerações. A sociedade não se importava com a demência, segundo eles mesmos, de Afrânio. O incômodo de suas profecias proclamadas em alto e nem tão bom som, já se fazia cotidiano. No início, queriam sim, pôr fim ao louco que perambulava pela cidade, suas gritarias de avisos futurescos e grotescos, irritaram os moradores durante anos. A sociedade perdeu, porque o comércio perdeu, porque o turismo perdeu.

Mas o que no começo era problema, depois virou solução. Os moradores de Fenjó, souberam aproveitar a popularidade que aquele pobre louco conquistou, para recuperar os turistas que ele mesmo dispensou.

- Do céu virão as piores coisas. Do céu cairá tudo o que vocês jamais imaginaram. Tudo o que todas as guerras, todas as doenças, os conflitos e as mais cruéis diarréias levaram. Do céu todos os mortos voltarão. - Quanto mais Afrânio falava, mais engraçada se tornava a sua ridícula encenação.

Conhecido como Nostradamus de Fenjó, ele não se importava com os comentários que o julgaram há anos. Tinha uma certeza, a sociedade ia pagar por tantas mortes que causara em todos esses anos. Mas de nada adiantava, quanto mais falava mais louco parecia. Ninguém se importava com as “profecias” do Nostradamus de Fenjó. Só ele, que apesar de “louco”, continuava preocupado com o que ele mesmo falava.

Um dia, não se sabe quando. Uma certa hora, não se sabe qual. Um certo alguém, não se sabe quem. Avistou algo muito estranho apontando no céu. Um pequeno ponto que de perto se revelou bem diferente disso. Numa velocidade incomparável, um corpo caiu do céu. – Meu Deus! – Exclamou Dona Jorja – É meu pai!

Mais e mais corpos vinham do céu em direção a terra como mísseis numa guerra. Os corpos não paravam de cair. Os corpos caiam, destruíam carros, casas, lojas e matavam mais pessoas. As pessoas começaram a morrer, bombardeadas por outras pessoas. Os que ainda sobravam, tinham a cara coberta de sangue e a mente coberta de desespero.

Ninguém entendia o que estava acontecendo, mas Afrânio, ainda conseguiu explicar antes que um braço atingisse sua cabeça e expusesse seus miolos – Eu sempre avisei. Um dia o céu não aguentaria mais tantos corpos que vocês mesmos colocaram lá.

Microconto #65

E a ventania foi tão forte que todos os animais tiveram que aprender a voar.

Microconto #64

Vivia num mundo fantasioso, de realidades fictícias e realizações utópicas. Só caiu na real depois do primeiro tombo de bicicleta.

Microconto #63

Recebeu um vírus letal por e-mail. Foi a última vez que abriu sua caixa de entrada. Agora é um ex-usuário viciado de PC.

Só entenda

Quantas vezes não me pego em uma atmosfera da qual não pertenço em vida. Pego-me vagando por uma existência surreal, com possibilidades infinitas e razões ilimitadas; para quando retorno a atenção, estou perdido em algumas linhas de uma leitura responsável por minha breve viagem.

Complicações como essa, são corriqueiras a um portador de concentração dispersiva. Ao deleitar-me com poucas linhas de uma leitura, nem sempre profunda, perco-me nos intervalos dedicados ao respiro do leitor, aquela pouca distância que há entre aqui e aqui, por exemplo.

Não obstante disso, você está, neste momento, perdendo também sua concentração, e o pouco texto que leu, já não se faz tão presente em sua memória como acha que deveria, sendo quem sabe, até capaz de reler o breve trecho já passado para ver se compreende o que digo. Tudo bem se isso ocorreu, o que nada mais seria do que uma metalinguagem interativa entre o meu antigo problema e a sua recente percepção.

Não vim aqui dizer se há ou não, solução para isso; só quero dividir contigo, o conhecimento desse meu pequeno deslize literário, que vez por outra, apanho-me perdido entre caracteres.

Não gostaria que compartilhasse comigo esse inoportuno problema. Mas pelo visto, parece que já se faz um tanto quanto tarde, acho que sua atenção quase não tenho mais. Desculpe caro observador, se assim posso chamá-lo, desculpe se o fiz chegar até aqui e não entender quase nada do que relatei, só que é mais ou menos assim que fico quando estou a saborear alguma página e sinto-me perdido em minha própria i-ma-gi-na-ção.

Microconto #62

Estava no 9º casamento. Ainda não descobrira o real amor, mas em compensação, o sexo o motivava cada vez mais a trocar de esposa.

Microconto #61

Sempre tomava uma dose para desinibir antes de cada reunião do A.A.

Microconto #60

Subiu espiritualmente na vida depois de cair fisicamente da escada.

Segmentação de personalidade

A segmentação nos torna cada vez mais, pessoas diferentes de nós mesmos e iguais aos outros.

Microconto #59

Família humilde. A única vez na vida que viram tanta carne fresca foi no reconhecimento do corpo do filho no IML.

Microconto #58

Cada novo amor era visto por ele como a forma de esquecer alguém que não valia mais ser lembrado. Levou a vida de um eterno amante.

Propaganda inspirando propaganda #8

Não é sempre que por aqui passam vídeos de inspirações, mas esse caso precisava postar. Como quase sempre de costume, os produtos não são os mesmos, mas a ideia é bem (leiam bem mesmo) parecida.

O primeiro e mais antigo foi feito pela Y&R aqui no Brasil para a mortadela da Perdigão. O segundo para a Bud American, não tenho a informação de quem fez (fica a oportunidade para os comentários), circulou no intervalo da última, cara, badalada e cultuada edição do Super Bowl.
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Não é um raciocínio muito complicado, por isso acho que a referência acabou acontecendo. O que acham?

Aproveitando o momento, gostaria de falar uma coisa aos que acompanham essa válvula de escape literário do meu cotidiano. Os principais objetivos de um Blog são: gerar, comentar e repassar conteúdo, e, depois de um bom tempo na blogosfera, percebi que o PENATES está alcançando um estilo muito particular, ou seja, de conteúdos próprios e basicamente literários.

Aqui, vocês encontrarão textos pessoais, contos, crônicas, microcontos em sua maioria, e quando possível e pertinente, reflexões sobre livros, filmes e cotidiano. Como um dos objetivos de um Blog é repassar conteúdo, para quem gosta da sessão “Propaganda inspirando propaganda”, aqui vai uma dica,
Joe Lapompe é um site que faz esses mesmos tipos de comparações, só que com um volume bem maior. Então é isso, quem gosta pode dar uma passada por lá que tem bastante coisa, e por aqui, vamos ficando com outras loucuras.