O dom da oratória

E todos riram gostosa e carinhosamente. Federico era um rapaz divertidíssimo. As reuniões de família nunca mais foram iguais e os encontros com os amigos sempre traziam situações e histórias diferentes.

Até Carla, a mais séria da turma, não resistiu aos encantos e trejeitos do rapaz cem por cento sociável. Ela, que fora uma moça com infância castigada, fora ainda usada, abusada e abandonada pelo pai, o único responsável por ela na época das bonecas.

Por ter esse lado..., não queria dizer carente, mas vou acabar assim definindo. Só que não uma carência amorosa ou romântica como as outras moças de sua idade, mas algum outro tipo de envolvimento. Uma carência de vida eu acho.

Essa “carência”, fazia de Carla alguém muito mais atenta a pequenos detalhes. Principalmente naquela sala onde Federico falava livremente. Carla não era da família, fazia-se convidada naquela noite, diferente da grande maioria. Amigos e parentes já conheciam a fama do galego.

A noite passava suavemente pelo relógio que mostrava as horas, porque os minutos quase nem eram mais vistos. As risadas tornavam-se cada vez mais companheiras das palavras que saiam da boca do rapaz. Os ouvidos de todos se deliciavam, mas com Carla o detalhe era outro.

A pobre menina, necessitada de atenção, não só ouvia, como olhava, sentia e até respirava o que Federico soltava. A voz dele despertava em Carla, sentidos nunca antes descobertos. Despertava em Carla, ações e reações nunca antes provadas e um sentimento nunca antes percebido, mas que o brilho nas duas janelas redondas da vida, entregaram com toda a pompa.

Nem preciso falar que a bela moça descobrira o amor, ali sentada à mesa. Acho que além de não precisar falar, bem provavelmente não conseguiria achar palavras que descrevessem com tanta exatidão e certeza a sensação que brotou dentro de Carla.

Uma menina que nunca foi acariciada, nunca foi amada de nenhuma forma e nunca foi apaixonada, descobre de uma só vez, todo o poder do amor. Federico continua a conversa, quando uma bela moça adentra a sala e ganha como recompensa, os olhares e o silêncio de todos.

As reações foram todas idênticas, inclusive Carla, que já estava boquiaberta, assim continuou. A nova personagem da história, arrancou um boa noite de todos, desculpou-se pelo atraso e indo diretamente a Federico, selou a fonte de suas histórias com um lento e saboroso beijo.

Carla não entendeu mais nada. Seu coração, ainda aberto, recebeu em cheio uma punhalada do destino frio e cruel. Devido a rapidez da troca de sentimentos e a mesma rapidez da cicatrização, passaria o resto de sua vida, sem nunca mais entender o significado desse desejo, desse que a gente ousou em chamar de amor. Ao término do beijo, para Carla ainda paralisada, só restou ouvir todos rirem gostosa e carinhosamente.

11 comentários:

Felipe A. Carriço disse...

Gostei disso aí... muito bom.

Tiago Moralles disse...

Gostou do conto ou do papo do Federico hehe.

Valeu Lineu.

Nayara Diniz disse...

"Passaria o resto de sua vida, sem nunca mais entender o significado desse desejo"

Essa frase mecheu comigo, e como fã de seus contos, parabéns.

Beijo

Tiago Moralles disse...

Gostei de ter mexido com você hehe.

Nayara Diniz disse...

Espero que isso não tenha duplo sentido, haha.

Beijo querido

Tiago Moralles disse...

Droga, era pra ter ;)

Nayara Diniz disse...

Tá bom vai, eu deixo ter, shaushaushuash

Gordinha disse...

Rasgação da porra! Não acredito em amor à primeira vista! Mas gostei do seu conto!

Tiago Moralles disse...

Amor a primeira vista só existiu para os novos cegos.

Flávio disse...

Ele: - Acredita em amor a primeira vista?
Ela: - Não!
Ele: Então espera aí que vou passar na sua frente denovo!
Rsrs.

Tiago Moralles disse...

Fala a verdade, você já usou essa cantada por aí né hehe.