Degradação

Acendeu outro cigarro, jogou a cerveja no rio e observou a velocidade da lata na correnteza. Reparou também como não dava pra perceber aquele movimento com uma simples olhada. A água parecia um tapete, denso e escuro.

Muitas coisas percorreram sua cabeça enquanto esteve ali parado. Uma delas, é como aqueles caras do jornal sabiam quantos litros de água passavam por segundo num rio. Nunca na vida viu alguém parado na beira d’água contando ou medindo.

Outra coisa que o deixava muito curioso era a questão da poluição. Já tinha visto alguns ecochatos na TV falando sobre o assunto, mas era a primeira vez que conferia de perto. Um cheiro horrível tomava conta da beirada do rio, uma névoa de cor indefinida se confundia com a cerração matinal, e a água, só de olhar dava pra entender o que eles queriam dizer com, diferença de densidade.

Acendeu mais um cigarro e jogou a bituca do antigo também no rio. Só que dessa vez a cabeça não estava lá. Pensava no trabalho. No esforço pra encher as panelas e pra não deixar as contas enfeitarem a porta da geladeira. Pensava nos filhos que queria ter, nas melhores profissões que estavam por vir, na realização dos sonhos de consumo, na reforma, no carro, nas viagens, nas chances e nas terças-feiras chuvosas que preferiu não sair de casa; pensava no cachorro, nos bolinhos de carne, pensava também se aquela era a hora que ele começava a chorar.

Não chorou.

Mas continuou pensando; no amor, no sexo, na família, no vizinho inocente de quem nunca suspeitara, e na mulher, aquela vagabunda sustentada agora pelas pedras no fundo do rio.

Terminou mais um cigarro, virou as costas e torceu pra ser verdade o que falavam todos os ambientalistas, e que, aquele papo de lixo tóxico e água com altos índices de acidez, resolvessem rápido o problema da decomposição.