Microconto #653

A menina da mesa 37 tinha o coração bagunçado.
Por mais que o garçom sorrisse, por mais que a cidade ajudasse, por mais que o sol saísse, a menina da mesa 37 continuava com o coração bagunçado.
Ter o coração bagunçado, é como ter dentro da gente, uma casa fora do lugar. E por isso, ter vergonha de chamar visita. É como não achar as soluções, porque tem pessoas, problemas e expectativas pra todo lado.
A menina sentou na mesa 37, pediu uma cerveja e deixou a vida acontecer ali na calçada. Às vezes, a gente espera as coisas acontecerem. E às vezes, essa é a melhor forma de desbagunçar o coração.
Entre um gole e outro ela pensava na vida. O vidro de casa tava tão sujo que ela não reparava que tava sendo reparada.
O começo da noite, o último gole e uma solução, chegaram quase juntos naquele bar.
A menina da mesa 37 levantou decidida e foi embora com o coração quase arrumado, mas não percebeu que deixou o garçom bagunçado.

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