Você tem o som de um pudim

Se eu ligar o rádio agora, não vai tocar nada que me lembre você. E isso não tem nada a ver com amor, nada a ver com ódio e muito menos a ver com saudade. É pura e simplesmente uma constatação.

Já reparou que a gente nunca teve uma música? Aquela música que quando toca você lembra da pessoa. A gente nunca escreveu uma música também. A gente nunca cantou nada junto, nem cozinhando, nem tomando banho e nem no karaokê. Meu deus, a gente nem sabe tocar um instrumento.

Acho engraçado como a maioria das coisas têm um gosto e um cheiro mas não têm um som. Você é tipo um pudim. Um pudim de leite. Que é gostoso, cheiroso, mas ninguém sabe que tem pudim de sobremesa só pelo som. Por mais que eu goste de pudim, não consigo dizer qual é o som do pudim.

Mas tem som que engana a gente também. Por exemplo, quantas vezes você não ouviu o som da geladeira abrindo e no fim era só gelatina? Se tem um gosto e um cheiro que o amor não tem, é de gelatina. Quando eu era pequeno eu chacoalhava a gelatina perto do ouvido pra ouvir aquele barulhinho molenga. Até som gelatina tem. Até ela tem som. E a gente não tem.

Já coloquei o ouvido na porta pra tentar te ouvir. Já me tranquei dentro do guarda-roupa. Já assisti filme mudo. Já batuquei na caixa de sapato que você deixou. Mas nada. Nenhum som me faz lembrar você.

Update: Dia desses eu tava ouvindo jazz. Nunca fui muito de jazz. Mas dia desses eu tava ouvindo jazz. Achei que talvez tivesse encontrado seu som. Mas descobri que jazz não tem gosto e nem cheiro. Talvez jazz não seja seu som também. Talvez jazz seja o som de alguém que eu ainda não cheirei, sei lá. Dou notícias.

2 comentários:

Julia Nogueira disse...

Olha que leio todos, que eu pensei, li alguns novamente... Esse é o meu favorito.

Tiago Moralles disse...

Ahhhh que demais. Sério?