minha barriga não enche na mesma velocidade do meu coração

aprendi com meu pai que os farelos
de pão do café da manhã
não podem ficar na mesa até a hora do almoço.
toda refeição tem sua própria história.
já ouvi minha mãe falar de religião
política e novela enquanto lava a louça.
eu sentado ali na mesa
engolindo café
e juntando os farelos com a ponta do dedo
e secando o coração na ponta do nariz
com a palma da mão.
uma bolinha amassada de miolo de pão
vira um disco gordinho
com sua digital impressa ao contrário.
quantos contrários a gente já não deixou por aí?
lembra quando te mostrei a estátua do lasar segall
que tem no parque perto de casa
e você apertou minha mão
sorriu
arrumou o cabelo
e eu achei que era amor?
então
contrário.
devia ter ouvido mais o meu pai.
cada refeição tem sua própria história
ninguém é mais o mesmo
nem depois de um pique nique.
a mesa tá pronta mais uma vez
o cheiro de comida no ar.
estamos eu
mamãe e meu pai.
o silêncio frio na mesa
amores líquidos continuam escorrendo pelo rosto
pelas panelas
pá.
de novo
ela.
choro.
os velhos falam de política pra disfarçar.
comemos
esperando que depois do jantar
tudo possa mudar.

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