Microconto #182

Eram namorados virtuais.
No primeiro encontro, ela foi de verde e ele de azul.
Trocaram as cores de propósito.

Microconto #181

Os pedidos sussurrados fizeram a mão entrar por baixo da saia, levando junto, tudo mais que era necessário pra entrar no jogo da sedução.

Microconto #180

As primeiras gotas vermelhas caíram, desmonocromatizando a calma cidadezinha cinza.

Ana

Fora o telefonema (que convenhamos, não conta) o primeiro contato foi o dos olhos. Depois vieram outros dois: a fala e a audição; acho que não necessariamente nessa ordem. Foi uma troca de experiências; nada profundo, mas trocaram.

Os sons em volta pareciam não incomodar, as pessoas em volta pareciam não falar e o passado deles parecia não existir. Era uma vida nova, na verdade, duas vidas novas, e só uma residência desconhecida.

A cama dele não esperava alguém tão cedo. O contato de agora era por conta das bocas. Uma secreção minava dos corpos, era salgada apesar de ser resultado de um momento doce. As roupas não impediam mais os olhos de imaginar.

As mãos trêmulas deixavam os corpos em êxtase. Os corpos em êxtase deixavam as mentes tensas. As mentes tensas deixavam as mãos trêmulas. Era um ciclo que fechava, e fechava muito bem.

A situação aumentava o prazer, os corpos suados, nus e impacientes pela troca de fluidos, não resistiram à espera dita romântica, logo se atacaram. Foi sublime.

Ele demonstrou ter sido normal, mas era a melhor transa com uma desconhecida; ela demonstrou ser incrível, mas na verdade houve outras bem melhores; só que não confessaram, preferiram manter as aparências.

Quando a noite deixou de ser escura, despediram-se normalmente. Ela já estava acostumada com isso, pegou seu pagamento pelo prazer reciprocamente proporcionado, e mesmo ambos sofrendo com a saudade, nunca mais voltaram a se ver.

A única coisa que sabia dela, era um papel escrito “Ana Fogosa XXXX-XXXX”, mas preferia não reencontra-la. Pelo menos, não por esse nome.

A Revolta - Capítulo 5/5

O colapso geral foi iminente. Enquanto a lei buscava vivos, a revolta veio dos mortos indigentes.

A Revolta - Capítulo 4/5

Os primeiros indícios vieram à tona quando furtos e assassinatos não identificavam mais culpados.

A Revolta - Capítulo 3/5

O número de corpos anônimos e partes iguais, deixou a população com medo de se perder mesmo sendo achada.

A Revolta - Capítulo 2/5

Ainda não se criavam suspeitos. Até que mais pedaços fizeram um inteiro desconhecido.

A Revolta - Capítulo 1/5

O pedaço que a polícia achou não foi suficiente pra reconhecer quem perdeu.

Microconto #179

- Como é difícil falar da gente mesmo. Suspirou agonizante o escritor de obituários.

Microconto #178

Ele só queria resgatar a origem primitiva do amor, mas, depois de uns puxões de cabelo, viu o sol nascer sob outra forma geométrica.

Microconto #177

Conheceu da janela o lindo mundo que existia fora da paralisia.

Microconto #176

Depois de anos, o corpo dela sobre a cama pedia o desligamento dos aparelhos, mesmo os olhos dizendo que ainda existia vida.

Microconto #175

- Senhoras e Senhores! Pelo amor de Deus, acalmem-se. Isso tudo faz parte do espetáculo.

Microconto #174

Saiu pra comprar um GPS e se perdeu.

Microconto #173

O dente no chão,
a boca sangrada
e o choro inocente,
deixavam clara a troca do leite para o permanente.