O dia que comecei a fumar

Chove.
Clara ainda não acordou. Deve ter demorado pra pegar no sono.

A gente tava atrasado. O bom é que da cama pro carro foi rápido.

Eu suava e tremia. Parecia até que era comigo.

Ela não abriu a boca durante o caminho. Também não falei nada. Achei que ia deixá-la mais nervosa.

Era a primeira gravidez.

Demoramos pra chegar. Se soubesse que a porra da mulher do tempo era incompetente, saia mais cedo.

Entramos.

Com hora marcada, não demoraram pra chamar a Clara.

Perdi a noção de quanto tempo durou a cirurgia.

Tô esperando a Clara sair daquela sala até hoje.

Não é justo. No aborto a gente costuma tirar só uma vida.

4 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Passa esse cigarro que a noite é forte.

simplesacaso disse...

Belo texto, parabéns!

Tiago Moralles disse...

Valeu amigos.

Unknown disse...

Triste...

Engano... cegueira...

Ele não perdeu ninguém, Clara saiu, melhor do que entrou. Só ele não viu.
No aborto morrem 3 pessoas e não uma.
Com o nascimento de uma criança, nascem também uma mãe e um pai (bons ou maus, mas nascem).