Lembranças e outras coisas para esquecer

Se tinha uma coisa que incomodava Larissa, eram as frustrações do passado. Romances, amizades, família e agora o ex-emprego. Bastaram quatro dias no Laboratório Guadalupe e um exame positivo passar em suas mãos pra decidir: isso não é pra mim. Foi assim que há algumas semanas Larissa deixou o jaleco em cima da recepção. Poderia dizer que foi uma experiência passageira, não fosse aquele resultado de HIV que voltava sempre a cabeça. Não sabia ao certo por que aquilo ainda a incomodava. Talvez a coisa de imaginar a tal Cecília recebendo a notícia do exame, quem sabe.

Levanta da cadeira, chacoalha os farelos do bolo de laranja, pega a bolsa sobre a mesa da cozinha e decide parar de pensar nisso a caminho do mercado.

Entre uma e outra prateleira, a mente vaga e Larissa pensa em Diego. Outro problema mal resolvido. Conheceu Diego num bar perto do mercado, em uma das poucas vezes que saiu à noite. Ela, Carmen e Mira, sentadas a procura de nada. Acabaram se encontrando no dia seguinte, no mesmo lugar, no mesmo horário, mas sem as mesmas companhias. A relação ia bem. Saídas periódicas, sexo passional, cinema comercial e presentes aleatórios. Uma rotina nova depois de tantas repetições. O romance evoluiu e Larissa achava que não estavam se vendo como deveriam. Cobrou presença. A frequência dos encontros aumentou, mas durou o suficiente pra não incomodar Célia.

Diego era casado.

No caminho pra casa, Larissa repara nas roupas das pessoas pela rua, especialmente nos cortes e estilos antigos, acha reconfortante ver como os outros também se apegam ao velho.

Resultado: Amostra POSITIVA.

Abre a porta de casa. Coloca as sacolas sobre a mesa. Vê que ninguém ligou. Senta na cama, olha pela janela e lembra do apartamento que a Carmen mora, onde a paisagem recortada de Montevidéu é bem mais bonita. Adormece pensando nesse cenário do horizonte, onde a vista acaba em água e verde.

Diego.

Acorda incomodada, mas levanta animada por não lembrar do sonho. Liga o computador. Sete novas mensagens na caixa de entrada. Duas delas, respostas de emprego. Se realmente estava interessada em mudar de vida, um novo emprego seria uma das melhores ajudas. Descarta a primeira proposta pela distância, a segunda, apesar do salário baixo, é a mais certa. Dá pra enganar as contas mais uns meses como auxiliar administrativa. Responde, levanta e vai preparar alguma coisa para comer.

Na cozinha, mexendo nas compras, vê que esqueceu de colocar a carne na geladeira. O bife não estava nos planos, mas já descongelou. Prepara o jantar pensando em muitas coisas que poderia fazer pra ajudar no seu recomeço. Esquecer do passado não é tão fácil. Um dos caminhos seria encher a casa de novidades. Pra começar, poderia muito bem levantar um dinheiro vendendo as coisas antigas. Resolveria dois problemas de uma vez só.

Revira fotos, objetos e recordações. As músicas, os almoços em família e as trocas de presentes natalinas inundam os olhos. O coração acelera quando pega a vitrola da mãe falecida e lembra do pai, percebe que as memórias, na verdade, são frutos de associação. Decide então que se realmente quer botar um fim no passado ruim, deve começar por ali. Afinal, de todas as lembranças precoces e doloridas da infância, as do pai, são justamente as que ela menos quer guardar.

Mil e oitocentos pesos. É assim que anuncia, no dia seguinte, a vitrola no Mercado Livre.

9 comentários:

Angela disse...

Gostei muito do diálogo interno, intimista, do texto solto, sem compromisso. Foi bom ler.

Marcelo R. Rezende disse...

Gosto dessa tristeza, sempre faz a gente perceber as nossas próprias.

Tiago Moralles disse...

Ei amigos, brigado pelos comentários e por lerem. Sei que quebrei um pouco o ritmo com um texto mais longo, mas é necessário.

naomefazpensar disse...

Gostei. Quase me senti lendo um conto do Machado. Principalmente com o desfecho que você deu para a história.

Seria Cecília mulher de Diego?

Abraço!

Aline Valek disse...

Excelente. Você podia "quebrar o ritmo" mais vezes. Seus textos longos são tão bons quanto os curtos.

Marcela disse...

Tiago,

ás vezes não conseguimos botar um preço nas frustrações do passado e passar pra frente. Mas conseguimos abrir a sacola, o coração, para o que é novo e importante entrar e tocar pra fora tudo que precisa ir.
Minha sacola anda cheia de coisas boas e de novidades.. e logo menos tudo que é passado não vai mais caber nela.
Beijos
Adorei esse texto mais "compridinho'! rs
Marcela

Tiago Moralles disse...

Má, precisamos aumentar a sacola. Mas só pra caberem mais novidades.
_

Aline, brigado por passar e comentar. Ando me cobrando mais disso. Inclusive estou trabalhando num projeto assim, mas ainda é segredo hehehe ; ).
_

Felipe meu amigo, interessante ponto de vista. Abraços.

Ingrid S. disse...

Há tempos não passo por aqui para comentar de fato, e calhei de parar num texto mais "comprido". Gostei muito, tão leve e pensativo quanto os microcontos.
Apóio as investidas um pouco maiores.

Abraço

Tiago Moralles disse...

Ah, Ingrid, agradecido. Que bom que voltou. E que bom que gostou do que encontrou por aqui.