E assim, sem mais nem menos, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam

Era tudo tão novo e estranho e bom e estranho de novo que demorou pra eu perceber a relação. Depois de mais de 30 anos tentando escrever alguma coisa útil, depois de mais de 30 anos recebendo não de editora, editor, jornal, revista e periódico, depois de mais de 30 anos, encontrar a história certa, é um estado de transe, uma anestesia emocional. 30 anos depois e eu me pego com a história afiada no dedo. Eu sentei, bebi, fumei, escrevi e repeti tudo isso incansavelmente. Foi quando tudo começou. A caneca de café sumiu da minha mesa pela segunda vez. Pensei que era sono e que na verdade eu não tinha colocado a caneca lá nenhuma das vezes. Eu tenho duas canecas iguais, então fui na cozinha e percebi que não tinham mais canecas. No caminho de volta pra máquina de escrever, a cômoda que eu sempre esbarro não estava lá também. Eu olhei em volta meio assustado, olhei o copo de uísque vazio e botei a culpa na bebida e um pouco mais de líquido no copo. Eu ainda não tinha feito a associação de que o desaparecimento das coisas tinha a ver com o livro que surgia. Mas quando eu sentei na cadeira e terminei mais uma página, meu sapato sumiu. Eu praticamente senti acontecer. Depois disso ficou mais fácil entender. Eu comecei a escrever pra ver as coisas sumirem. E assim, reparei que quanto mais eu escrevia, mais as coisas sumiam da minha vida. Foram móveis, roupas, quadros, discos, livros, filmes, sapatos, cama, mesa, relógio. Eu não sabia mais a hora, não sabia mais o dia, esqueci de dormir e comer. Já não tinha mais chuveiro quando lembrei do banho. Mas a sensação de ter uma história, era a coisa mais inebriante que já me aconteceu em toda vida. Eu tive certeza que era pra isso que eu vivi todos esses anos, e certeza de que foi por isso que eu esperei todo esse tempo. Pela casa faltavam coisas e sobravam páginas. Era assustadoramente gratificante. Sumiram gravatas, lâmpadas, copos, talheres, panelas, espelhos e barbeadores. Meu corpo era pêlo, pele, história e osso. O problema é que eu não conseguia parar. Nunca tinha achado a história certa e dessa vez a história certa apareceu. O livro estava ficando lindo. E lindo foi até perto do fim. Eu sabia que estava perto porque olhei em volta e percebi que restava apenas eu, a mesa, a máquina e os papéis. Faltavam poucas linhas pra história acabar. E com as últimas palavras foi embora a mesa. Restava apenas eu, a máquina e as folhas. Faltava apenas o final. E quando a história acabou, a história sumiu. Ficamos eu e máquina, nos olhando, sem nada mais pra falar.

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