Um pequeno passo pro homem, um passo gigantesco pra saudade

É tipo uma praia, só que sem água.
Uma praia fria.
Que os grãos de areia caem da mão em câmera lenta.
É vermelho.
Vermelho como a terra no sítio do tio Frank.
Só que não tem o pomar.
Nem a casa.
Nem o tio Frank.
É grande.
Dava pra ter muitos pomares, muitas casas e muitos Franks.
Dava pra colocar uma piscina ali.
Congelada.
Que ninguém ia nadar.
Então colocaria uma churrasqueira lá.
E como não tem oxigênio, a churrasqueira não ia acender.
Ia ficar apagada igual o fogão da vó Ewa quando ela não queria fazer bolo de milho.
Quando foi a última vez que eu entrei numa piscina mesmo?
Nem churrasco eu lembro de ter comido.
Tá tudo meio lento.
A vida podia passar mais devagar também.
Imagina o tio Frank mais devagar.
Imagina a vó andando igual os grãos vermelhos.
Imagina a praia dentro da casa.
Um churrasco inteiro de pomares.
Só que sem bolo de milho porque não tem piscina.
Quanta tecnologia o futuro trouxe pra gente.
E ainda não podemos visitar o passado.
Ficam só lembranças que vão se apagar como essa pegada aqui.
Há quantas pegadas eu tô de casa?
Há quantas pegadas eu tô do sítio?
Há quantas pegadas eu tô do passado?
Vó Ewa ia ficar puta com a casa toda suja de vermelho.
Olha o tamanho desse planeta e não tem nenhum pomar.
Lá fora do capacete a lágrima ia cair em câmera lenta.

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