Como é alto o silêncio que a gente grita pra dentro

Depois daquele silêncio constrangedor que incomoda a garganta. Aquele silêncio que um olha pro outro e quer falar e tem o que falar, na verdade tem muito o que falar. Aquele silêncio de um olhando pro outro querendo confessar, querendo dizer, querendo ser honesto. Depois daquele silêncio que vem depois de uma briga, de verdades cuspidas, de coisas que antes ninguém tinha coragem de dizer. Depois daquele silêncio que ouve só o barulho da faca raspar no prato do jantar que sobrou todo na panela. Aquele silêncio que vê o vinho balançar na taça, o fogo balançar na vela, o relacionamento balançar na mesa. Depois daquele silêncio ensurdecedor que acorda o coração. Depois daquele silêncio, ela fala, ela enfim, fala, depois de ficar calada por muito tempo, depois de ficar calada por toda uma relação, de ficar quieta por uma eternidade, ela abre a boca, ela põe pra fora, insatisfeita com tantos problemas, ela abre a boca, quebra o silêncio e diz, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. Mesmo tudo muito ruim, tudo muito complicado, ela falou, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. Agora ela já tem um novo amor, ela já achou um novo coração pra morar, ela por fim abre a boca e fala, quebra o silêncio. Aquele silêncio que vem antes dela confessar com tanto pudor, nem só de tristeza vive o caos, meu amor. A confissão se mistura com poesia, e ela quebra o silêncio pra quebrar a relação, mas quebra a cara porque o que ela diz é mal interpretado, mal entendido, é cabeça demais, é profundo demais, e ele entende de menos, acha que é mais bonito que triste e que tem aí, um recomeço. Uma chance. Que ela disse isso depois do silêncio pra dizer que mesmo com tanto problema, tá tudo bem. Mas não foi isso. Depois dizer tudo o que ela queria de um jeito que não necessariamente ela queria, ela prefere ficar em silêncio.

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