O sabor da novidade

Olho no relógio e sei que tô atrasado. O pé balança. A perna balança. Olho pra mesa. Um pote de biscoitos. Quem deixa isso sem identificação na porta de um vizinho? Faço uma retrospectiva e algumas pessoas me parecem prováveis. Cruzo o olhar com a vizinha do 63 quase todo dia de manhã. Mas alguns bom dias não sei se são suficientes pra isso. Lembro também do vizinho do 62. Um cara que mora sozinho, mas tá sempre com outros caras, deve achar que também sou gay. Pessoas simpáticas têm mais chance de ser homossexuais? Que mundo doido esse. Pego um biscoito e saio.

Olho o relógio e sei que tô atrasado. Já é o terceiro dia seguido. Foi difícil dormir noite passada. Ontem, voltando pra casa, cruzei no elevador com a vizinha do 63. Nenhum olhar ou comentário suspeito. Certeza que não foi ela. Tomara que não seja o vizinho do 62. Tô com medo? Tô. Nessa altura do campeonato podia ser até a viúva do 67. Paro de balançar a perna, pego outro biscoito e saio pra trabalhar. Puta biscoito bom.

No quinto dia seguido de atraso já não sei mais qual desculpa dar no trabalho. Os biscoitos tão acabando e eu não sei lidar muito bem com essa ausência iminente. Ninguém fala nada. Ninguém deixou bilhete. Ninguém deixou mais nada. Já cruzei com todo mundo nos corredores. Ninguém se manifesta. Só não vi ainda o vizinho do 62. Que nessa altura do campeonato já nem me parece mais tão estranho.

Dia 6. Olho pro pote sobre a mesa com o último biscoito dentro. O relógio marca a mesma hora do atraso de todos os dias. Minha perna já treme mais do que no primeiro dia. Pego o biscoito, a mala e saio desesperado. A porta do elevador fecha, desço nervoso. Se tudo der certo ganho mais dessas coisas gostosas. O bilhete na porta do 62 ficou romântico na medida certa. Resta aguardar.

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