Microconto #202

Pr'uma muda conversa de bocas, até que os corpos se entenderam muito bem.

Do lado de cá do telefone

Deixa eu ler você?
A gente tá longe, por isso que eu queria ler.
Não. As palavras não resolvem eu sei, mas ajudam com a saudade.
Bobeira?
Bobeira só se for pra você, pra mim é bom. As letras te revelam, consigo te ver nos textos. Isso é bom.
É sério, não tô brincando. É uma coisa forte.
Para de falar e escreve vai. Você fica mais romântica nos textos. Entre uma frase e outra eu respiro. Paro. Espero. Continuo depois se eu quiser. Ah, e você nem fica sabendo viu?
Falando não, se eu quero calar, você enerva, bufa, fica puta, fala que não dou atenção, que tô seco, grosso e todos os outros clichês de relacionamento.
Tá vendo? Ficou nervosa já.
Deixa eu ler você, deixa vai?
Pelo menos no texto você não grita.

Microconto #201

Sinto que tenho companhia toda vez que vou pra casa de campo sozinho.

Microconto #200

É a primeira vez que vê o mar depois do acidente.

Só não dá pra pisar na água ainda porque as próteses não são impermeáveis.

Microconto #199

Entre você e eu só existe a minha mulher.

Saudade

Sonhei com você essa noite. Só não lembro de tudo. Sei que foi um sonho bacana, alguma coisa agradável, nada de pervertido dessa vez. Deve ter sido reflexo dos momentos antes de dormir.

Quando deitei ontem, na cama fria, com travesseiro e cobertor solitário, lembrei de quando ficávamos lá, assistindo, matando o tempo, curtindo e aquecendo um ao outro, não necessariamente em noites frias, mas em tardes, manhãs, às vezes nem frio tava, mas tudo bem, não foi sobre isso que eu sonhei. O sonho era de algo que poucas vezes fizemos.

Dormir.

Por que não deitamos mais?

Por que não dormimos mais?


Acho que nos aproveitamos pouco nesse sentido. Tipo, preferíamos fazer outras coisas, como se a excitação e o prazer fosse inédito. Como se o tesão nunca mais fosse voltar, e, se perdêssemos um segundo em papos, beijos, mãos e o que mais trocávamos naqueles momentos, a vida deixaria de fazer sentido.

Ontem a noite eu percebi,

na cama fria,

que a gente poderia ter dormido mais.

Microcontos Molestos - Cirrose

Bebia pra esquecer da doença.

Microcontos Molestos - Parkinson

Vovó, apesar da idade, levava uma vida agitada.

Microcontos Molestos - DST

- Mas já?
- Não, não, isso é pus.

Microcontos Molestos - Lepra

Pediu a mão dela em casamento.
E o pai deu.

Microconto #198

Quando ele prometeu que o casamento seria um amálgama perfeito, ela, ingenuamente, pensou ser mais pela liga do que pela frieza.

Microconto #197

Encontraram-se por acaso e tiveram um breve caso, mas com intensidade suficiente pra decidir.

- Casa comigo?

- Caso.

Despertar

Quando Harry abre os olhos em um súbito despertar, reconhece a casa de campo da família, mas não vê no primeiro momento a carnificina que compartilha o final de semana. Ouve um gemido ao fundo e rapidamente se coloca de pé a correr em busca do reconhecimento. Cruza o grande espelho do corredor, só que a velocidade e o desespero o cegam a ponto de não perceber como o sangue pinta de vermelho grande parte de sua roupa.


A visão que tem quando chega ao quarto é de uma imensa crueldade. A mulher, semi nua e praticamente inconsciente, geme e se confunde com o vermelho que ensopa a cama. Os membros amarrados nas quatro pontas do leito, fizeram com que permanecessem ali próximo ao corpo, mesmo depois da mutilação.


O desespero tomou conta de seu interior com tanta força que não sabia o que fazer primeiro, se acudia a situação, pedia socorro ou entregava-se ao pranto de agonia. Ainda sem definir qual seria sua decisão, correu aos outros quartos e a barbárie parecia se repetir.


Não conseguia discernir a avalanche de monstruosidade que invadira sua vida de uma hora pra outra. Encontrou os dois filhos em quatro partes da casa. Parecia que aquela altura somente a mulher ainda sobrevivera, e mesmo assim, por pouco tempo se nada fosse feito. A respiração funda, que até então era o único som que conseguia emitir, deu lugar ao choro preso no peito a ao grito preso na garganta.


A primeira atitude tomada, depois de recuperar brevemente a percepção do real, foi ligar e pedir ajuda a quem pudesse atender. Voltando para o quarto onde a mulher estava, passou pela sala e pode ver o cachorro aberto, que parecia ter sido usado como cinzeiro. O sangue era visto por várias partes, inclusive, essa foi a primeira vez que percebeu sua roupa avermelhada, e mesmo assim, com o pensamento na esposa, esqueceu de conferir se ainda havia alguma parte do seu corpo de onde o sangue saia.


Chegando ao quarto, e agora um pouco mais ciente da situação, pode ver a deformação nas partes do corpo que não estavam cobertas pelo grude coagulado. Ajoelhou ao lado da cama, e em prantos segurou a mão da esposa, que mesmo se estivesse viva não sentiria. Esquecera brevemente que o braço não estava mais ligado.


Encostou a cabeça no colchão e chorando, começou a pensar em quem poderia ter feito aquilo com sua família. Por que não gravou o nascimento dos filhos. Se ainda estava na casa. Por que o deixou vivo. Por que torturou o animal. Como foi lindo o casamento. Se os para-médicos conseguirão salvar a esposa. Por que faltou na apresentação de dança da Aninha...


Em meio ao desespero e aos pensamentos vagos de sua vida, adormeceu anestesiado pela dor.


Sem saber ao certo quanto tempo ficou naquela posição, foi acordado pelo socorro e pelos policiais que já ocupavam toda a casa. O processo de reconhecimento e identificação dos corpos só não foi mais complicado, porque sempre depois do sono, Harry despertava possuído de sua segunda personalidade, e que nesse caso, foi a responsável pela festa banhada de hemoglobina.

Microconto #196

No isolamento, buscou inspiração para o romance.

Acabou escrevendo cartas de saudade.

Microconto #195

- Fale a uma altura que meus ouvidos possam ouvir e meu coração possa sentir. Pediu ele, friamente, à namorada apaixonada.

Microconto #194

- Você é a razão da minha vida. Declarou o ambientalista apaixonado.

Como resposta ao carinho, o ar dava-lhe sempre novo fôlego.

Você e a sua mania de me deixar saudade

Sinto falta da tua boca. Aquela que cala depois da transa e deixa a gente ouvindo o coração.

Sinto falta da tua respiração dizendo que me ama e dos teus olhos piscando devagar.

Da tua mão que me procura na madrugada, só pra ter certeza que não passei de um sonho.

Dos teus fetiches, manias, desejos e fantasias.

Ah..., sinto falta também da tua testa suada, com cabelos grudados.

De como fecha os olhos e de como morde os lábios.

Sinto falta de quando não corta a unha só pra marcar de propósito.

De quando faz cara de safada e pergunta se me depilei.

Nossa...,

sinto falta de tanta coisa.

Desculpa, mas tá foda.

Não foi por mal.

Juro que pensei que a Flávia fosse melhor.