Microconto #202

Pr'uma muda conversa de bocas, até que os corpos se entenderam muito bem.

Do lado de cá do telefone

Deixa eu ler você?
A gente tá longe, por isso que eu queria ler.
Não. As palavras não resolvem eu sei, mas ajudam com a saudade.
Bobeira?
Bobeira só se for pra você, pra mim é bom. As letras te revelam, consigo te ver nos textos. Isso é bom.
É sério, não tô brincando. É uma coisa forte.
Para de falar e escreve vai. Você fica mais romântica nos textos. Entre uma frase e outra eu respiro. Paro. Espero. Continuo depois se eu quiser. Ah, e você nem fica sabendo viu?
Falando não, se eu quero calar, você enerva, bufa, fica puta, fala que não dou atenção, que tô seco, grosso e todos os outros clichês de relacionamento.
Tá vendo? Ficou nervosa já.
Deixa eu ler você, deixa vai?
Pelo menos no texto você não grita.

Microconto #201

Sinto que tenho companhia toda vez que vou pra casa de campo sozinho.

Microconto #200

É a primeira vez que vê o mar depois do acidente.

Só não dá pra pisar na água ainda porque as próteses não são impermeáveis.

Microconto #199

Entre você e eu só existe a minha mulher.

Microcontos Molestos - Cirrose

Bebia pra esquecer da doença.

Microcontos Molestos - Parkinson

Vovó, apesar da idade, levava uma vida agitada.

Microcontos Molestos - DST

- Mas já?
- Não, não, isso é pus.

Microcontos Molestos - Lepra

Pediu a mão dela em casamento.
E o pai deu.

Microconto #198

Quando ele prometeu que o casamento seria um amálgama perfeito, ela, ingenuamente, pensou ser mais pela liga do que pela frieza.

Microconto #197

Encontraram-se por acaso e tiveram um breve caso, mas com intensidade suficiente pra decidir.

- Casa comigo?

- Caso.

Despertar

Quando Harry abre os olhos em um súbito despertar, reconhece a casa de campo da família, mas não vê no primeiro momento a carnificina que compartilha o final de semana. Ouve um gemido ao fundo e rapidamente se coloca de pé a correr em busca do reconhecimento. Cruza o grande espelho do corredor, só que a velocidade e o desespero o cegam a ponto de não perceber como o sangue pinta de vermelho grande parte de sua roupa.


A visão que tem quando chega ao quarto é de uma imensa crueldade. A mulher, semi nua e praticamente inconsciente, geme e se confunde com o vermelho que ensopa a cama. Os membros amarrados nas quatro pontas do leito, fizeram com que permanecessem ali próximo ao corpo, mesmo depois da mutilação.


O desespero tomou conta de seu interior com tanta força que não sabia o que fazer primeiro, se acudia a situação, pedia socorro ou entregava-se ao pranto de agonia. Ainda sem definir qual seria sua decisão, correu aos outros quartos e a barbárie parecia se repetir.


Não conseguia discernir a avalanche de monstruosidade que invadira sua vida de uma hora pra outra. Encontrou os dois filhos em quatro partes da casa. Parecia que aquela altura somente a mulher ainda sobrevivera, e mesmo assim, por pouco tempo se nada fosse feito. A respiração funda, que até então era o único som que conseguia emitir, deu lugar ao choro preso no peito a ao grito preso na garganta.


A primeira atitude tomada, depois de recuperar brevemente a percepção do real, foi ligar e pedir ajuda a quem pudesse atender. Voltando para o quarto onde a mulher estava, passou pela sala e pode ver o cachorro aberto, que parecia ter sido usado como cinzeiro. O sangue era visto por várias partes, inclusive, essa foi a primeira vez que percebeu sua roupa avermelhada, e mesmo assim, com o pensamento na esposa, esqueceu de conferir se ainda havia alguma parte do seu corpo de onde o sangue saia.


Chegando ao quarto, e agora um pouco mais ciente da situação, pode ver a deformação nas partes do corpo que não estavam cobertas pelo grude coagulado. Ajoelhou ao lado da cama, e em prantos segurou a mão da esposa, que mesmo se estivesse viva não sentiria. Esquecera brevemente que o braço não estava mais ligado.


Encostou a cabeça no colchão e chorando, começou a pensar em quem poderia ter feito aquilo com sua família. Por que não gravou o nascimento dos filhos. Se ainda estava na casa. Por que o deixou vivo. Por que torturou o animal. Como foi lindo o casamento. Se os para-médicos conseguirão salvar a esposa. Por que faltou na apresentação de dança da Aninha...


Em meio ao desespero e aos pensamentos vagos de sua vida, adormeceu anestesiado pela dor.


Sem saber ao certo quanto tempo ficou naquela posição, foi acordado pelo socorro e pelos policiais que já ocupavam toda a casa. O processo de reconhecimento e identificação dos corpos só não foi mais complicado, porque sempre depois do sono, Harry despertava possuído de sua segunda personalidade, e que nesse caso, foi a responsável pela festa banhada de hemoglobina.

Microconto #196

No isolamento, buscou inspiração para o romance.

Acabou escrevendo cartas de saudade.

Microconto #195

- Fale a uma altura que meus ouvidos possam ouvir e meu coração possa sentir. Pediu ele, friamente, à namorada apaixonada.

Microconto #194

- Você é a razão da minha vida. Declarou o ambientalista apaixonado.

Como resposta ao carinho, o ar dava-lhe sempre novo fôlego.

Você e a sua mania de me deixar saudade

Sinto falta da tua boca. Aquela que cala depois da transa e deixa a gente ouvindo o coração.

Sinto falta da tua respiração dizendo que me ama e dos teus olhos piscando devagar.

Da tua mão que me procura na madrugada, só pra ter certeza que não passei de um sonho.

Dos teus fetiches, manias, desejos e fantasias.

Ah..., sinto falta também da tua testa suada, com cabelos grudados.

De como fecha os olhos e de como morde os lábios.

Sinto falta de quando não corta a unha só pra marcar de propósito.

De quando faz cara de safada e pergunta se me depilei.

Nossa...,

sinto falta de tanta coisa.

Desculpa, mas tá foda.

Não foi por mal.

Juro que pensei que a Flávia fosse melhor.