Sangue novo

Álvares entra na sala e algo pinga no sapato. As gotas caem do ventilador de teto. Há respingos pela parede. Sinal de que ainda tinha energia na casa quando a família foi morta. É a primeira vez que isso acontece nessa cidade. E até onde Álvares sabe, é a primeira vez que isso acontece no país. Notícias assim já teriam corrido os jornais.

Não há rastros. Não existem armas. Não é  possível ver arrombamento. Nada parece que foi roubado. Cinco corpos espalhados pela casa. Aos pedaços. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista.

Álvares aguarda a chegada do xerife. Mexe nas coisas. Tapa o nariz e a boca. O cheiro já não é dos melhores. Um dos corpos não é da família. Isso deixa o caso ainda mais intrigante. Álvares se aproxima. A mulher nem parece familiar. Nunca a viu pela cidade. Os cabelos escondem metade do rosto. O policial desliza levemente uma mecha e pra seu espanto, os olhos da vítima abrem repentinamente. Uma boca solta um grito. Álvares vira assustado pra ver do que se trata. Depois disso silêncio. A cabeça de Álvares caiu no chão. O pescoço espirra sangue no ventilador que volta a girar. O ventilador volta a espirrar sangue nas paredes. O corpo cai. 

É a primeira vez que isso acontece nessa cidade, pensa o xerife quando entra na sala.

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