Não, não e não


Carlinhos era do contra, dizia “não” pra tudo, não fazia nada do que era pedido, não fazia nada em casa nem na rua, na escola também não era diferente nem lição fazia, era um festival de “nãos”. Só que ao mesmo tempo, não demorou muito para as pessoas descobrirem que aquilo tinha uma solução, Psicologia Reversa, era isso, tudo o que precisavam fazer era na verdade, não fazer o que queriam fazer. Então com Carlinhos passou a ser assim.

Foi fácil para os que já o conhecia, o problema só era para os novos contatos ou para as pessoas que cruzava pela vida. - Moço! O próximo é o senhor. - dizia uma cidadã na fila do banco. Quem disse que Carlinhos se moveu, todos passavam na sua frente e ele com muita firmeza nem se mexia, isso até o banco fechar. Voltou para casa sem pagar as contas, mas muito orgulhoso de não ter sido mandado por ninguém.

Cresceu, perdeu alguns empregos, algumas oportunidades, muito dinheiro e o pior, muitas mulheres. Carlinhos agora homem formado, passou a ser Carlos, mas não abandonou a casa dos pais, tirando a necessidade de sobrevivência porque daquele jeito não conseguia nada, não saia de lá porque era muito amado, pelo menos essa era a desculpa que tranqüilizava sua consciência.

Um dia como sempre fazia, acompanhava sua mãe até o mercado, voltando pra casa e a pedido dela – “não” era para trazer as compras -, claro, para despertar efeito contrário. Quando perceberam, já haviam sido abordados por um assaltante que gritava - Passa a bolsa moleque! Passa logo vai! - coitado, mesmo aterrorizado com a situação, mal sabia o assaltante que Carlos jamais o faria, ele a puxou mais pra junto de si e não parou de caminhar, obrigando o assaltante a continuar gritando - Fica parado e me dá logo essa bolsa! - pronto, agora foi a gota d’água, Carlos começou a correr desesperadamente até ser parado por três tiros secos de um assaltante que logo desapareceu.

Pouco tempo passou até a chegada dos curiosos, e Dona Carmen, mãe de Carlos, jogada no chão ao lado do corpo do filho que respirava com muita dificuldade. Ela chorava e pedia a todos ali de plantão, que chamassem socorro, pois seu filho estava mal. Num dado momento, Carlos começou a soltar uns ruídos estranhos que se confundiam entre a dificuldade de respirar e os gemidos de dor, Dona Carmen não se agüentou, começou suas orações e em prantos disse ao seu amado filho - Carlos, pelo amor de Deus, não morre. - mal lembrava Dona Carmen que logicamente, essas seriam as últimas palavras que ele ouviria.

6 comentários:

Felipe A. Carriço disse...

Putz...

Que bizarro!

Ótima crônica brother, parabéns!

Tiago Moralles disse...

Você com toda sua siceridade, isso é mais que um elogio.
Abraço meu querido.

Rodrigo Alexandre Coelho disse...

Para ser simples e direto: excelente!
Sem mais comentários.

Tiago Moralles disse...

Bom saber que não sou o único louco hehe.
Valeu Rodrigão.

Kenzo Kimura disse...

"Não" gostei.

Tiago Moralles disse...

Isso foi metalinguístico? Hehe.