Microconto #384

Não se importava de tomar a mesma sopa e nem de dormir sozinho toda noite. A única coisa que odiava era morar na rua.

Microconto #383

Depois daquela noite ninguém mais ouviu o bebê chorar.

O carona

É noite.
A cada 200 metros um ponto fraco de luz pública ilumina a estrada. Estou andando já faz uns 40 minutos.
Minha sombra surge no asfalto embaixo dos pés e estica violentamente pra frente até se deformar. Mais um carro passou por mim.
Não sei se peço carona. Da última vez as coisas quase não terminaram bem.
Era um Ford branco. Uma picape velha. Acharam no desvio do quilômetro 107 duas semanas depois.
O motorista era grande e demorou pra acreditar quando viu a faca.
Minha sombra agora estica devagar. Um caminhão para. Aceito a carona. Sento no banco do passageiro e conto as mentiras de sempre.
Mal sabia eu que as intenções do outro lado do banco, dessa vez, eram as mesmas que as minhas.

Depois que o sino bate doze vezes em Paris descobrimos um Woody Allen romântico

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Ao invés de ruim, eu prefiro dizer que Woody Allen às vezes é abaixo de sua própria média. Gosto muito do trabalho dele pra desgostar de algumas coisas. Por isso sempre levo em consideração duas variáveis antes de questionar algum novo filme. A primeira é, que na minha opinião, Allen peca pelo excesso, enfim, quanto mais coisas você faz, maiores as chances de ter produções mais fracas, e a segunda é que, muitos dos projetos recentes que ele vem colocando na rua, foram projetos engavetados nas décadas de 70 e 80, ou seja, ele mesmo não considerava tão bom.

Comparo Woody Allen dentro de sua própria carreira porque, inegavelmente, 70 e 80 tiveram suas melhores produções, coloco Hannah e Suas Irmãs como um dos meus filmes preferidos na história do cinema. Porém, é inegável também, que Allen, de 90 pra cá vem buscando um novo rumo para seus filmes e que, acaba de ficar claro com Meia Noite em Paris, que o romantismo chegou pra sobrepor o drama. Isso fica ainda mais claro analisando os últimos trabalhos: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de 2010, meio blasé, Tudo Pode Dar Certo, de 2009, meio auto-ajuda, Vicky Cristina Barcelona, de 2008, moderninho, e Igual a Tudo na Vida, de 2003, meio melado.

Comparado a esses outros, com exceção de Vicky Cristina que eu gosto, Meia Noite em Paris é um trabalho acima dessa média recente. Tirando a mesma reinvenção de protagonista, que sempre é um alter ego de Allen, o resto do filme é um delicioso estudo de personagens. O diretor traz em cena artistas e escritores do começo do século, numa viagem descompromissada ao passado. Ao mesmo tempo faz uma crítica sobre o presente e suas dificuldades, seja esse presente em qual época for. O filme dá ainda uma aula de fotografia e direção clichê, com lindos e novos enquadramentos de um cenário já velho aos amantes da sétima arte.

O uso da cidade não é novidade na carreira dele, que por mais Novaiorquino que seja, nunca escondeu seu amor por Paris. Sou suspeito pra dizer que ficou bonito, já que gosto tanto da cidade quanto do diretor. E Carla Bruni, apesar de linda, desnecessária. Mas é claro, estava lá mais por política do que por opção. Bem, Meia Noite em Paris pra mim não está entre os melhores filmes de Woody Allen, mas certamente está no topo da lista romântica. E tenho certeza que quando for a Paris, vai me dar um frio na barriga depois que a décima segunda badalada tocar.

Microconto #382

E nesse momento os “porquês” rebatem na minha cabeça junto com o eco do disparo.

Microconto #381

A menina cresceu tanto que couberam mais sonhos dentro dela.

Microconto #380

As pernas abriram com a mesma velocidade que os olhos fecharam.
Preferiu não reagir e ficar sem marcas daquele momento de violação.

Microconto #379

Cruzei com uma menina na rua, durante duas semanas, no mesmo lugar.
Preferi sonhar que o destino é insistente, a acreditar que somos pontuais.

Microconto #378

No ar um cheiro de oportunidade.
A porta abre rangendo o medo e um grito assusta o silêncio.
O coração não aguentou a surpresa do aniversário.

Microconto #377

As palavras escaparam pelos dedos, as verdades encheram a folha e a carta viajou na esperança de um dia voltar.

O Homem ao Lado incomoda os vizinhos.

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O cinema argentino, assim como boa parte do que está sendo produzido pela América Latina nos últimos anos, vem numa ascensão agradável. O Segredo de seus Olhos foi um pedaço desse iceberg que o mundo conseguiu ver ultimamente. Não diferente seria com O Banheiro do Papa em parceria franco-uruguaia, A Teta Assustada, um filme peruano ou mesmo o também argentino XXY de 2007, todos com menos visibilidade, mas de igual qualidade.

Um dos mais recentes trabalhos dos hermanos, já premiados em alguns festivais, é O Homem ao Lado. O filme conta a história de Leonardo, sistemático, pseudo-intelectual, renomado designer/decorador e fracassado como ser humano, que mora em La Plata, com mulher e filha, na única residência que o arquiteto/urbanista francês, Le Corbusier, construiu na América Latina. Até que Víctor, o mais novo vizinho, resolve tirar a paz da família, ao fazer uma janela de frente pra casa de Leonardo. De longe ainda consegui ver uma sutil referência trazida de A Mulher do Lado, de Truffaut.

Bem, o filme é isso. Conflitos internos, conivência e metáforas. E só isso. E aqui está toda a capacidade e sensibilidade em contar histórias. Fotografia, direção, tomadas, recursos de enquadramento que mostram o protagonista sempre se escondendo da vida, o humor feito no silêncio, o drama, a interpretação, a acidez, o sarcasmo, enfim. O Homem ao Lado não é o melhor trabalho de todos os tempos, mas é a prova de que cada vez mais, o cinema argentino se aproxima do europeu, e com certeza incomoda também o vizinhos americanos.

Microconto #376

Por mais que tentasse viajar no mundo imaginário, a dor sempre o jogava de volta àquela realidade vegetativa da cama.

Microconto #375

Se me desse uma chance,
te beijaria a mão,
te contaria histórias e
te falaria do meu amor sem nem abrir a boca.