Desequilíbrios

Tômas deixou um bilhete em cima da mesa antes de ir embora.
Quando peguei o bilhete na mão o mundo começou a inclinar. O mundo foi inclinando, inclinando, inclinando até minha cabeça encostar no chão.
Eu era vertical antes do seu bilhete, Tômas.
Acho que todo mundo uma vez na vida já teve vontade de deixar um bilhete em cima da mesa e ir embora. A diferença é o tempo que você fica com essa vontade. Às vezes, ela dura alguns segundos, às vezes, ela dura pra sempre.
O amor não é o tanto que você gosta de uma pessoa, mas o tanto que consegue conviver com as coisas que odeia nela. Uma vez, li em algum lugar, que o amor é o ódio na medida certa. Vai ver é isso Tômas, nossa balança quebrou. Nosso amor era uma linha reta, como as linhas da folha do bilhete que você deixou. Vai ver é isso Tômas, a gente desorizontalizou.

Tinha pelo menos uma hora que eu tava no chão quando a porta abriu.
Tômas entrou segurando uma sacola de mercado em cada mão e ficou parado me olhando sem entender o que tava acontecendo. Eu fiquei olhando pro Tômas durante alguns segundos. Então levantei a mão, olhei o bilhete e descobri que “fui no mercado, volto logo”.
Enquanto Tômas guardava as compras, reclamava das minhas loucuras, dizia que não aguentava mais essas crises, não aguentava mais meus desequilíbrios, que um dia ele ia jogar tudo pro alto, ia me largar e fugir.
Foi então que eu comecei a chorar. Tômas parou tudo, me esticou a mão e verticalizou meu mundo. Eu não sei quantos bilhetes de mercado Tômas ainda vai deixar.

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