O passado é um presente que muita gente não quer ganhar

Não me importam mais as coisas que deixei com você.
Não me devolva nada.
Cada pedaço meu que eu trouxer de volta traz junto um pedaço de passado.
Cada pedaço de passado que voltar vai ser um presente ruim de abrir.
E sabe o que é mais engraçado?
Mesmo não trazendo nada daí,
o passado entrou aqui.
Talvez enquanto eu esfregava os olhos pra enxugar as lágrimas
eu tenha descuidado e deixado ele entrar.
Entrou e se espalhou como mofo pela casa.
O passado tem um incrível poder lacrimejante.
Acho que é o jeito do meu corpo dizer que eu tenho alergia das nossas lembranças.
Hoje, aqui em casa, tudo parece uma caixinha de música que toca o som da saudade.
Eu abro uma mala e ouço nossa última viagem.
Eu abro uma panela e ouço um jantar regado a tinto risoto e risada.
Eu abro a porta do quarto vazio e ouço vontades gemidos e sussurros.
Eu abro um livro e ouço você dizendo,
fecha isso, senta aqui, vem ficar comigo até eu pegar no sono.
Eu ouço gavetas
ouço tampas de canetas.
Nada mais tem o som que merece.
Tudo tem apenas o som que não precisa.
Você é a bailarina que roda no quadrado pequeno com imã no pé,
eu sou o garoto que o espelho reflete com olhar brilhante,
a tampa
da caixa
da vida
não fecha.
A música da solidão
toca implacável
por toda casa
e eu sou
o meu próprio par.

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