Eu sou brigadeiro. Você é uma festa lotada de crianças.

Tudo o que sobrou da minha vida é o que não foi embora dentro da sua mala dobrado com as roupas, as cartas e as lembranças. Tudo o que sobrou de mim é o que você não levou. E olha, você levou quase tudo.

Eu me sinto como aquele restinho do vinho que a gente toma sozinho no domingo a noite, aquele restinho que fica no fundo da taça e que, por mais que a gente vire na boca, não consegue beber. Tudo o que sobrou de mim é o que fica grudado na tampa da pizza quando a gente pede menos pizza do que devia e os amigos tavam com mais fome do que parecia. O que sobrou de mim é o pouquinho do iogurte que a gente toma no almoço de sábado porque não sabe cozinhar, aquele pouquinho que sobra no pote onde a língua não alcança e por mais que a gente raspe com a colher, não sai. Tudo o que sobrou de mim é o que sobra de sol num dia de eclipse total. É aquele pedacinho de pele que fica no cantinho do dedo depois que a gente rói a unha de nervoso esperando alguém ligar, aquele pedacinho que a gente não consegue tirar nem com o alicatinho mais afiado da mãe.

Eu sou agora aquele restinho de chocolate que fica grudado no papel depois que a molecada acaba com os doces no aniversário. Aquele papel que fica jogado em cima da mesa, amassado, largado, esperando a faxina começar. Aquele que vai pro lixo e se der muita sorte, mas muita sorte mesmo, vai ser reciclado, virar outro papelzinho, chegar em outra festa infantil, guardar outro brigadeiro e esperar você comer, só pra ter a chance de ficar mais um pouquinho contigo antes de você acabar comigo. De novo.

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