1980

Já vi muitos roteiros virarem comerciais efetivamente e até comerciais voltarem a ser roteiros, mas um comercial virar crônica, nunca tinha visto. Daí, com essa idéia retardada na cabeça e impulsionado por um trabalho da faculdade, resolvi arriscar pra ver no que dava.

Segue abaixo, filme clássico da DPZ, criado para a extinta Telesp em 1980. “A morte do orelhão” retrata um momento de vandalismo vivido na época e a solução criativa para representar esse problema. Na seqüência o resultado da crônica, que buscou abordar temas relacionados fortemente com ano de exibição. O que acham da idéia? Seria um novo hobbie?

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1980

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. O tropicalismo que há alguns anos agradava tanto os casais apaixonados e empolgavam noites de curtição, mal tocava nas rádios, e muito menos nos toca-fitas dos Fiat 147 e dos Fuscas que rodavam a cidade.

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. A ditadura se instalava no país há alguns anos. À noite nos bailes já não eram plenamente aproveitadas. Os brotos não saiam de casa. As calças boca larga permaneciam empoeiradas nos guarda-roupas e as camisas floridas já murcharam.

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. Os cabelões não impunham mais virilidade. Roberto, Caetano, Chico, Gil e Erasmo, disputavam lugar nas discotecas com o Rock. Bee Gees e Grease faziam a cabeça de todos, John Travolta enlouquecia as garotas com seu estilo. Mas.

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. Ninguém mais ia às ruas. A violência começava a tomar conta de cada estrada, de cada avenida e de cada esquina. As mortes passaram a ser cada vez mais presentes na convivência da população. Nenhum sábado gerava mais embalos.

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. Assassinatos, assaltos e vandalismos, tudo muito freqüente. Nas madrugadas não se via mais ninguém nas ruas, eram frias, insólitas e castigadas. Nada mais resistia a agressão de grupos desprovidos de qualquer qualidade intelectual.

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. Nem os postes, pontos de ônibus e caixas de correios escapavam da destruição eminente. Nem os pobres orelhões. Ah orelhões, nem vocês escaparam das agressões, nem vocês escaparam de um triste fim.

As noites infelizmente já não eram mais as mesmas. Morriam orelhões.

3 comentários:

Sentir disse...

Interessante o exercício de desconstrução e reconstrução da idéia. Gostei especialmente dos detalhes ilustrados, realmente um desafio reescrever um bom roteiro.

lobby pelo hobbie. ;)

Kenzo Kimura disse...

Muito bom.

"e as camisas floridas já murcharam."

Parabéns.

Tiago Moralles disse...

Obrigado aos dois pelos comentários.

Kenzo pelo detalhe e ISA pela pontuação, já arrumada.