Plataforma

Olhava pela janela as árvores passarem cada vez mais velozes. Já havia esquecido há quanto tempo estava naquela rota constante, ficara hipnotizado pela repetição de uma natureza linear. A mente e o corpo estavam no mesmo lugar, ali, juntos e consolados. O corpo sustentava a mente e a mente sustentava o corpo com um fio de esperança. O coração não. O coração era diferente. Não estava lá. Enquanto o trem se movia a uma velocidade gradativamente torturante, o coração ficava para trás a uma distância gradativamente lamentável.

A respiração funda, ofuscava o vidro que sustentava seu rosto. Mas não o suficiente para impedir sua visão do mundo lá fora. Que apesar de cinzento como sempre, estava diferente como nunca. Gotas começaram a bater nessa moldura da realidade. A primeira delas, para qualquer um que observasse a situação, poderia ser confundida com uma lágrima que escorria sozinha e triste. O que também não deixou de acontecer. Uma lágrima caiu. E outra. E outras.

Na plataforma que ficava óbvia e tristemente mais longe, as coisas não eram nada diferentes. Lágrimas caiam de outro rosto e confundiam-se com a chuva. Um outro coração também não ficava junto de seu corpo como deveria, buscava alcançar os vagões que sumiam dos olhos daquela mulher que agora tinha os cabelos molhados pela chuva, e não mais pelo banho de despedida. Uma mulher que sabia, mesmo que não querendo saber, que a guerra é cruel. E aquele, eu te amo, dito há instantes, poderiam não mais chegar aos mesmos ouvidos.

Quanto mais rápido o trem ia, mais rápido esse futuro soldado sentia falta daquela plataforma. Havia deixado para trás muito mais do que angústia, força e saudade. Ele, só pensava em voltar, constituir uma linda família, ter filhos e viver um dia, glórias de pai. Ela, também esperava a volta dele, mas para contar um segredo ainda confidencial: naquela plataforma, ele podia não ter percebido, mas, já havia um terceiro coração na despedida.

23 comentários:

Felipe A. Carriço disse...

Show de Ball!

Tiago Moralles disse...

Valeu Lineu.

Patrícia Boccuzzi Ponchio disse...

Aiii q bunituuu!!!

Brian Fidelis Moralles disse...

Muito bom!!!
Detalhista, faz você se imaginnar na pele do soldado.
Congratulations.

Kenzo Kimura disse...

Não queria dizer nada. Mas o terceiro coração era meu.

Perdeu, preiboi. hehe

Tiago Moralles disse...

Ah Paty, assim eu não sei de quem você está falando hehe.

Olha só, o maninho puxando o saco hehe. Valeu Brian.

Tiago Moralles disse...

Que isso Kenzo, quanta maldade, o 3º coração era do filho dele que ela estava esperando.

Kenzo Kimura disse...

Isso que dá ler um conto fazendo um job.

Não recomendo.

Perdão pela gafe. hehe.

Mas bem que poderia haver um quarto coração. hehe

Iasnara disse...

"Gotas começaram a bater nessa moldura da realidade"

bonito isso.

Tiago Moralles disse...

Bonita é você.

Isso só são palavras melancólicas.

Ah, mandei bem hehe, falaí?

Iasnara disse...

falo, há tempos sei que vc manda muito.
;)

Silvia® disse...

Mas geralmente palavras melancólicas são as mais bonitas,poesias estão aí pra comprovarem,e não há como em algum paragrafo que seja não se identificar de alguma forma com elas!
É engraçado como cada um enxerga de uma maneira diferente,eu nunca imaginaria que o 3°coração fosse de um filho,o que me veio em mente,é que ele tivesse conhecido uma outra mulher,sem saber que dali em diante ela faria parte de sua vida.
Seria legal se tivesse continuação.

Tiago Moralles disse...

Não pode continuar, essa é a magia. É como os microcontos, dão margem para cada um imaginar sua melhor história.
Isso é o grande barato. Você quis achar que era um cara, e o Kenzo também.
Eu pensei em um filho, que também não sei se ele vai ver um dia.
E viva a imaginação.

MSL disse...

É o primeiro conto que leio seu, excelente aliás. Talento é talento... Ah, já te elogiei demais... Bom fds.

Tiago Moralles disse...

É o primeiro? Sério?
Entra na Categoria "Crônicas e Contos" alí na coluna da direita e dá uma lido nos outros quando tiver um tempo.
Vai que você muda de opinião hehe.

DAN disse...

Fala Tiago, beleza?
Valeu pelo comentário. Eu escrevo também no blog: www.pontod.org
e decidi publicar meus microcontos também. Já coloquei seu link lá no continho.wordpress.com !
abraço!

Tiago Moralles disse...

Obrigado você pelo link.
Vou conferir o endereço que você me passou.
Abraços.

Fezinha disse...

quase chorei com essa parte do terceiro coração!

posso fazer uma pergunta?estas assistindo filmes, lendo livros ou outras coisas sobre guerra? Tem um microconto seu que também fala sobre isso.
muito bonito!
adorei

beijos Ti

TDDTV disse...

Oie Tiago!
Adorei o conto.
Como já li todos os comentários, vou visitar a categoria "Crônicas e Contos", mas já foi possível imagina-lo em audio-vídeo.
Vou mandar uma solicitação de direitos autorais.
Beijo
Sandra
(sua prima)

Tiago Moralles disse...

Muito feliz por sua visita.
Mais contente ainda que tenha gostado.
Lê os outros sim, se tiver algum que interessar conversamos sobre direitos autorais.
Beijos.
(seu primo hehe)

ideiasexplosivas disse...

cara, muito bom! vc é fóda!

abraços

Laurinha Morena!!! disse...

impressionante!
inumeras historias de vida e familia começam ou terminam em momentos assim!
como os retratados no texto!
um terceiro coração com futuro incerto!
e um segundo com a mente mais incerta ainda!
adorei o conto!
muito lindo!

Tiago Moralles disse...

Obrigado pela visita e pelo comentário.
Fico contente que tenha gostado do conto, espero te ver mais vezes por aqui, tem coisa boa para sair do forno logo em breve.