Depois do fim

Só me deixa aqui, agora, com um suco na mão. Assistindo televisão, antes de ver você partir.
Fecha a porta, sem bater.
Acho que meu o coração não aguenta o ruído na solidão.
- Vai lá. Seja feliz, eu disse baixinho, mas a porta já estava fechada e a solidão também emudeceu qualquer tentativa de grito.

Microconto #94

Só não era onisciente porque faltava saber disso.

Microconto #93

Conheceram-se numa cama quente, de um dia quente, de um verão quente e para equilibrar a relação, os sentimentos eram frios.

Microconto #92

Ficou refém até não poder mais ver o fim do sequestro.

Duas ruas de um beco

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Um projeto literário e diferenciado que merece os créditos pelo alinhamento. Duas ruas de um beco é o mais novo trabalho do amigo Mauro Paz.

O projeto é simples: são 16 contos por caminhos paralelos. Oito deles serão postados periodicamente no site, e os outros oito, complementares aos primeiros, serão espalhados pelas ruas de diversas cidades do Brasil, respectivamente com a publicação on-line.

O projeto rompe com o mercado editorial e alia internet e livro impresso de forma independente. Para quem quiser os 16 contos (já que será bem difícil localizar todos por aí), um livro também será vendido no site.

Os dois primeiros contos serão publicados a partir de hoje (25/05).

Boa leitura.

Microconto #91

Não precisa falar nada, seus olhos dizem tudo. Só pelas lágrimas já dá pra ter ideia como é a dor da mutilação.

Microconto #90

Entrou suavemente, pé a pé. Ninguém na casa podia saber que estava ali. Assaltar não era legal, principalmente a geladeira do vizinho.

Microconto #89

O trabalho dele se tornava cada vez mais pesado, menos rentável, e dessa forma, igual a todos os outros.

Revista Versailles

A convite do amigo Patrício Jr., escritor, jornalista, autor do PLOG e ainda com tempo para ser publicitário, criei uma seleção de Microcontos para a edição de maio da Revista Versailles.

A edição especial traz o tema “Mães” e conta com um bonito trabalho editorial. Segue abaixo as duas páginas das quais pude ser caracteristicamente impresso.

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Sem título

De um lado da agência de publicidade, um grupo discute como será o final de semana no Chile, o ponto mais relevante da conversa deve passar por Santiago, no mínimo. Frio, neve e aluguel de carros são outras coisas que fazem o assunto se afastar do contexto. Mais ao lado, um novo grupo discute onde será a balada de quinta-feira, quem vai com quem, no carro de quem e daqui, a mais ou menos quatro metros, dá pra perceber que sozinho não vai ninguém. Logo a frente, com menos intensidade, mas não com menos importância, é possível visualizar sobre uma caixa cinza, onde um logo em formato de maçã mordida se destaca, um assistente de arte cantando em parceria com a banda do fone, ao mesmo tempo em que fuzila um layout qualquer. No planejamento, ao fundo, é possível ver brainstorms e brainstorms transfigurados em flip charts, ao passo que a impressora não para de cuspir artes cada vez mais finais, prontas para irem às ruas. E eu aqui, em uma busca constante e frenética, por uma simples, inteligente, vendedora, aprovável e não desgastada, ideia para um título.

Microconto #88

67 anos e nunca tirou férias. A primeira durou 10 dias. Pouco para descansar, mas suficiente para refletir: "Agora é tarde demais".

Microconto #87

Cuidava da casa, dos filhos, do carro e das compras como se tudo fosse dela. Tinha certeza, um dia não seria mais empregada doméstica.

Sem pressa

Pipipipi.
Pipipipi.
Pipipipi.
Pipipipi.
Pipi.

Foi isso a primeira coisa que ele ouviu naquela nova, porém igual, manhã. O inconfundível e inigualável, som do despertador comprado no camelô. Mais ou menos 16 ou 20 pi`s. Não vai lembrar ao certo pois o sono era gigante.

Mexeu os olhos para todos os lados do quarto tentando enganar o sono, mas sem tirar a cabeça do lugar. Decidiu enfim, iniciar uma reação. Começou seus movimentos pelos pés, que estavam gelados. Estranho, a noite não foi fria, mas tudo bem.

Os movimentos seguintes foram cada vez mais lentos, mas nem por isso ele se preocupou. Não tinha mesmo nenhuma pressa.

Pressa? Pra quê?
Pelo menos foi o que ele pensou, não queria que ninguém ouvisse. Se bem que se ao invés de pensar ele tivesse falado; falado não, poderia até ter gritado, ninguém daria a menor atenção. Morava sozinho desde que decidiu tocar um “foda-se na vida”.

Demorou, mas finalmente estava de pé. Foi direto, mesmo que vagarosamente, para a cozinha. Não sabia o que comer e também não estava preocupado, ia fazer qualquer coisa que demorasse. Demorasse muito.

Pensou em tomar banho para enrolar mais um pouco o tempo, só que nesse caso, a possibilidade da água quente exterminar seu sono o deixou mais preocupado, por isso não passou nem perto do banheiro. Pra se ter uma idéia, escovou os dentes na pia da cozinha mesmo.

Minutos depois, que poderiam muito bem ser horas, ele já estava de barriga cheia e dentes limpos. Só que antes de trocar de roupa, tinha que ligar a TV, sentar um pouco no sofá e por que não, tirar um cochilo? Batata. Foi exatamente o que aconteceu. Até o volume da manchete sobre o trânsito caótico na cidade o acordar de sobressalto.

Trânsito? Maravilha.

Dessa vez ele não pensou, falou mesmo. E nem olhou em volta para saber se alguém ouviu, não por que ele sabia que morava sozinho, mas porque nem percebeu que tinha falado.

Foi se trocar, ainda sem pressa. Colocou a cabeça na janela e deduziu que seu ônibus estava passando lá em baixo, também sem pressa. Nesse caso, culpa do trânsito, acreditou.

Abriu a porta, parou por um instante para ter certeza que não esquecera nada. Tudo bem que preferiria esquecer e ter que voltar. Infelizmente não foi o caso.

Trancou a porta, desceu de escada ignorando o elevador. Levou uma vida, mas desceu. Chegou à porta do prédio, disse bom dia, mas não havia ninguém para responder. Saiu.

Pôde sentir aquele ar quente da cidade na sua cara, o som dos carros que davam veracidade à notícia ouvida há pouco na TV, e, pessoas apressadas que passavam e esbarravam em seu ombro.

Todo dia era uma repetição do dia anterior. Odiava sair de casa. Por isso, nada de pressa. Devagar era seu segundo nome. Correr pra quê? Ainda mais numa cidade como essa. Individualista.

Procurou seus óculos escuros e se deu conta de que havia esquecido; o que já tinha certeza disso desde que fechou a porta de casa. Deixe estar. Colocou para fora de seu bolso a vara que é uma extensão de seu braço. Tocando o chão aos poucos, foi sentindo onde será o lugar para o seu próximo passo. Não espera que ninguém o guie. Mesmo cego de nascença, conhece aquela cidade como a palma de sua mão.

Microconto #86

Saiu da Inglaterra e para lá voltou em pouco tempo. Mal percebeu, mas deu a volta ao mundo com 80 letras.

Revista Veredas

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A Revista Veredas é uma publicação digital que ocorre mensalmente, foi criada em agosto de 1998 com o objetivo de incentivar a leitura e a escrita. Integrada desde 2008 à rede de sites do portal Artistas Gaúchos, é dedicada hoje à micronarrativa e discussões acerca deste tema.

A revista faz uma seleção mensal de textos para a publicação, que não devem ultrapassar 300 palavras. E nesse mês de maio, tive a feliz notícia de fazer parte da supra seleção. Estou com quatro microcontos publicados e um deles faz parte da capa.

Para conferir, os microcontos clique
aqui e para a capa, aqui.